Episódio 1 : Amar mais

 

Estava em pé, alinhada em meio aos destroços do acidente. Caminhei para mais perto do que sobrara do ônibus, havia sangue por toda parte, corpos amontoados uns aos outros. Ouvi gemidos e muita agonia, pessoas clamando por ajuda. Admirei-me por estar viva, como era possível? não haviam sequer arranhões em meu “corpo”.

Yuri surgiu em minha frente, assustado e ofegante, lutava para escapar dos escombros. Tentei ajudá-lo, gritei por ele, tentei tocá-lo, mas não consegui. Pasmei quando vi a mim mesma dentro do ônibus. Finalmente percebi que meu espírito vagava enquanto meu corpo sofria as consequências daquele desastre.

– Vem comigo, não se assuste! – Dizia alguém bem atrás de mim.

Aquela era a voz dela, minha mãe. O ar frio que percorria o ambiente desde o início, denunciava meu destino. Virei-me lentamente e pude vê-la, estava sorrindo e trajava um lindo vestido branco. Imediatamente, meus olhos se inundaram de lágrimas.

– Sou eu mesma, filha. Dizia ela com a voz aveludada e carregada de carinho.

Aproximei-me, consegui tocá-la, consegui sentir o cheiro de suas mãos, logo lhe dei um demorado abraço. A emoção foi demais, não me contive e chorei por tudo o que passamos juntas.

– Você precisa voltar, Camille. Avisou.

– Pra onde? Questionei.

– Pra Vida. Sua jornada não termina aqui.

– Não, Eu não quero ficar longe de você, nunca mais…

– Eu sempre vou estar com você, filha. Não se preocupe.

– Quero ir com você. Implorei.

Já desprendido dos escombros, Yuri tentava reanimar meu corpo, suas lágrimas demonstravam seu desespero.

– Não sei se voltar é a melhor opção, mãe, tenho sofrido demais… Não sei se suportaria mais.

– Lá na frente filha, não haverá mais sofrimento. Só momentos felizes esperam por você. Tenha fé no amor, ame! Declarou sorrindo .

A emoção me consumia naquele momento. Aos poucos a imagem da minha mãe se desfazia e comecei sentir as fortes dores no corpo, enquanto recobrava a consciência a imagem do rosto desesperado do Yuri ficava cada vez mais nítida.

– Camille! Camille! Graças a Deus, como você está? Vai ficar tudo bem. Não se preocupe.

Eu estava sonolenta e o gemido de dor era o único som que saía de mim. Não conseguia me mexer.

Logo escutei o som da sirene de ambulância bem distante, mas isso já me dava esperança naquele momento.

Mesmo com os puxões de Yuri para permanecer acordada, adormeci. Tudo escureceu e nada mais escutei, a sensação era de dormir muito cansada.

Ao abrir os olhos me deparei com uma equipe médica me encarando, eram pessoas sérias e eles não paravam de me encarar , fiquei um pouco assustada, olhei em volta e não encontrei ninguém conhecido, tentei abrir a boca para falar algo mais meu maxilar doía muito. Chorei de medo e dor e pensava: seria aquele meu destino? Que situação horrível me encontrava.

Um médico se aproximou e tentou se comunicar comigo, mas eu simplesmente não conseguia entender o que ele dizia, não conseguia ouvir nada. Fiquei mais apavorada, fechei os olhos e pedi a Deus que aquilo fosse apenas um pesadelo. Após muito lamento, a enfermeira aproximou-se e aplicou algo que rapidamente me fez adormecer.

Senti como se estivesse sonhando, mas os sonhos eram na verdade lembranças de tudo que ocorrera até ali. As imagens se alternavam em minha mente: carregando as malas pelas ruas de Itaguaçu-ES, o choro de decepção da minha mãe, o meu choro com a morte dela, o abraço acolhedor da dona Neusa, o charme e a canalhice de Ricardo, A amizade desfeita com Viviane, a despedida injusta. Era uma sucessão de acontecimentos e eles reprisavam-se em meu subconsciente até tudo escurecer novamente.

Acordei e lá estava eu, certamente em outro lugar, era um quarto mais iluminado e aconchegante, o sol invadia as brechas da janela, olhei em volta e me deparei Yuri sentado na poltrona ao lado da cama, ele dormia. Meu maxilar não doía mais, consegui chamá-lo, minha voz saía baixinho.

-Yuri! Yuri!

Ao abrir os olhos, Yuri saltou da poltrona e logo se aproximou de mim.

Yuri – Camille , você está bem? Está me ouvindo? Está bem?

Escutei a voz dele bem distante, mas consegui entender bem. Um poco de zumbido me incomodava, mas fiquei aliviada.

– Estou te ouvindo! Respondi imensamente feliz.

– Que bom! Que bom, Camille!

– E Você? Está bem? Perguntei enquanto reparava o braço dele imobilizado.

– Com a pancada eu fraturei o ombro esquerdo, eles colocaram pinos no meu braço, mas estou me recuperando.

– Foi um milagre. Declarei.

– Sim, mas com você o milagre foi ainda mais surpreendente, já tem quase dois meses que o acidente aconteceu Camille, você ficou vários dias em coma induzido, sentia muita dor e precisou fazer várias cirurgias, achamos que você não resistiria.

– Sim, foi um milagre, e eu resisti a tudo isso… você não me deixou, obrigado! Você nem me conhecia direito… Falei aos prantos.

– Não fica assim, Eu senti seu coração enorme desde o primeiro instante, quando entrei naquele ônibus. Algo tão especial vinha de você, eu precisava me aproximar de você e tenho certeza que isso nos unirá muito mais.

– Eu não tenho mais ninguém, estou sozinha o mundo, estou avulsa, estou com medo… sabe, Durante a viajem eu fiz uma promessa maldita, acho que o destino quis me mostrar que eu estava errada.

– Que promessa?
– Não mais amar, eu jurei que não amaria mais ninguém. Achava que parte do meu sofrimento se deu por amar alguém, eu amei e me decepcionei.

– Agora você sabe que estava errada e já pode quebrar essa promessa aí… Agora é seu momento de amar, Camille! E você não está só coisa nenhuma!

Yuri se afastou sorrindo e me pediu para esperar, e em seguida saiu do quarto. Fiquei sem entender nada, onde ele foi? Quanto mais tempo demorava, mais ficava aflita. De repente a porta abriu-se novamente e sorrindo Yuri entrou no quarto novamente.

– Existem pessoas que te amam muito e que se preocupam com você. Ele abriu mais um pouco a porta e logo consegui ver um homem e uma mulher, eles estavam radiantes e felizes ao me encontrar.

Meu coração explodiu de emoção quando constatei quem eram eles: Meu pai e Dona Neusa. Não consegui falar nada, apenas sorria e chorava com muita alegria.

Próximo episódio: Mil e uma razões – 02/11/2023

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