Episódio 12

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Episódio 12
Web Séries | O Dia da Faxina

Episódio 12

Escrito por: Geraldo Medeiros Jr.19/03/2026 - 21:00

Domingo, nove horas da manhã. Apesar do sol, estava frio, cerca de dez graus. Atílio tomou a iniciativa de ligar para Gisel. Ela não atendeu. Insistiu e nada. Não havia outra forma de entender o que estava acontecendo senão ligar para Vinícius.

 -Alô, Vinícius?

 -Sim. Quem é?

 -Atílio.

 -E aí, você me ligando! Que milagre é esse?

 -Você tem um tempinho?

 -Claro. Venha almoçar aqui em casa. Minha esposa está preparando algo especial. Virão alguns amigos nossos… Da nossa época inclusive. Você se lembra do Nilton…

 -Tudo bem. Que horas?

 -Às treze. É, acho que dá tempo pra gente conversar antes que todo mundo chegue.

 -Estarei aí. Um abraço.

Atílio era do tipo conservador, tinha uma excelente carreira, ótima educação e acima de tudo fora um ótimo marido. Mas de uma coisa era desprovido: paciência. Sua cabeça fervilhava de dúvidas e, além disso, sentia-se rejeitado. Tentou mais uma vez ligar para Gisel, mas ela não atendia.

Treze horas em ponto, Atílio chegou à casa de Vinícius. Tocou a campainha e foi recebido pelo próprio e por seu estimado pitbull.

 -Bem-vindo, amigão.

 -Morde?

 -Quem? Eu ou o Titã? Brincadeirinha. Titã é uma mocinha com os meus amigos. Mas de quem eu não gosto… Entre.

 -Obrigado por me receber.

 -Entra, entra. Vou te apresentar à minha esposa. Linda, venha ver quem chegou. Linda, onde você está? Deve estar ocupada. Bem, sinta-se à vontade.

 -Bonita casa. Parabéns. Desculpe chegar assim, mas preciso perguntar uma coisa. Estive pensando… Lembra-se da última vez que nos encontramos?

 -Claro que sim. Aliás, fiquei surpreso com a notícia.

 -Pois é. Eu queria que você falasse um pouquinho mais sobre Gisel.

 -Ué! Você é que tem que me dizer.

 -Eu e ela tivemos uma conversa ontem e acabamos brigando.

 -Coisa de namorados. Por que brigaram?

 -Para mim não foi nada demais. O fato é que tive a impressão de que você sabe mais sobre ela do que eu.

 -Atílio, veja, sobre ela, sei muito pouco. O que sei é que ela foi noiva. Estava prestes a se casar quando o rapaz morreu.

 -Não me diga que foi assassinado.

 -Não exatamente. Foi quando implodiram o Carandiru.

 -Um acidente?

 -Presumo que sim.

 -Mas ele fazia o que naquele lugar?

 -Lugar errado, momento errado. Fatalidade, Atílio.

 -Bem, nem sei o que dizer…

 -Tudo bem. Vamos mudar de assunto.

 -Preciso ir. Desculpe.

 -De jeito nenhum. O pessoal já está chegando. Quero que você encontre o Nilton. Lembra-se dele? Da nossa classe…

 -É que…

 -Por favor, Atílio. Será bom pra você.

Atílio cedeu, e cerca de meia hora depois, a sala de estar estava repleta de gente. Todos se cumprimentavam com sorrisos e gentilezas. Atílio acabou reencontrando o antigo amigo. Nilton ficou surpreso ao vê-lo:

 -Você? Quanto tempo!

 -Não mudou nada. A mesma cara de filho da mãe.

 -E você então; come quieto. Falando nisso, cá entre nós, nem sei porque eu vim. Olha, eu nunca confiei no Vinícius. Ele é um cara perigoso.

 -Perigoso? Em que sentido?

 -Depois que virou coronel, ele mudou. Não é mais o cara legal da nossa turma. É só casca.

 

De repente, Vinícius e a esposa chamam a atenção de todos:

 -Pessoal, é muito bom tê-los em nossa casa. Somos uma família, e em breve teremos este jovem aqui – e apontou para Atílio – como mais um integrante.

Nilton e Atílio estranharam. Integrante da família?! Não eram parentes nem nada! Todos bateram palmas e Atílio continuou sem entender o que estava acontecendo. Duas horas depois, resolveu se despedir.

 -Nilton, foi bom te ver, cara.

 -Fique esperto. Esse não dá ponto sem nó. Vai com Deus.

Atílio procurou Vinícius e interrompeu a conversa entre amigos para agradecer:

 -Muito obrigado pela recepção e por me ouvir.

 -De nada. Você já é da família. Pena que não fique mais tempo. Vá com calma. Quando estiver melhor conversaremos.

Mas o final da tarde estava pesado. Atílio aguardava o telefonema de Gisel. Pelo jeito, devia estar muito magoada para ligar. “Não tive culpa da morte do seu noivo, poxa vida.” – Pensou. Toda vez que checava o celular, sentia o coração bater mais forte. Pensou em ir ao apartamento dela, mas não saberia como reagir, especialmente agora que conhecia o motivo. Ou pelo menos achava que sim. Enfim, desistiu.

A noite foi chegando. A escuridão fria foi resfriando o coração de Atílio que não via mais esperança em tê-la de volta. O único jeito seria deixar o tempo curar mais essa ferida. Enfim, decidiu espantar os demônios da mente. Abriu uma garrafa de vodca e tomou até a última gota. Depois, largou-se na cama para acordar somente no dia seguinte.

Em um esforço enorme para se levantar e cabeça dolorida, arrumou-se e foi para ao trabalho. Partiu para mais um dia “normal” em sua vida. Ao longo do caminho, pensava sobre como seria perfeito se não tivesse aberto a boca. E como foi violenta a reação de rechaço de Gisel.

Apesar de tudo, Atílio queria mesmo é tê-la de volta. Definitivamente estava convencido de que poderia reverter a situação. Precisava falar com ela. Então, ao invés de ir para o escritório, desviou o caminho em direção à Prefeitura. Assim que chegou, na recepção, pediu para chamá-la. Mas o segurança antecipou que Gisel não havia comparecido ao trabalho naquela manhã. Atílio estranhou. Ela não era de faltar no serviço.

Mais uma vez tentou contatá-la pelo celular, mas as ligações sempre caíam na caixa postal. Tomou a decisão de ir ao apartamento dela. Ao chegar, pediu para o porteiro para que interfonasse.  Ele mesmo – o porteiro – disse que estava muito preocupado, pois, de manhã cedo, subira ao apartamento de Gisel para entregar as cartas. Tocou várias vezes a campainha e ninguém atendeu. Ele não a viu sair. Sabia que estava lá. Se ela não esteve no trabalho e não saíra do apartamento, alguma coisa de errado podia ter acontecido.

 -É melhor chamar a polícia. – Alertou Atílio. – Vou subir. – O porteiro tentou impedi-lo, mas Atílio insistiu.

Oitavo andar. Assim que o elevador abriu a porta, Atílio sentiu uma espécie de angústia, um sentimento incompreensível, quase premonitório. Tocou a campainha. Nenhuma resposta. Novamente. Sem sinal. Ouviu alguém se movimentar por lá. Não poderia ser engano, nem uma alucinação auditiva. Definitivamente havia alguém no apartamento.

Num dado instante, um gemido. Sim, só podia ser ela. E devia precisar de ajuda. Arrombou a porta. Entrou. Ninguém na sala, nem no quarto. Subitamente, deparou-se com ela no banheiro, de pé sobre o vaso sanitário, com uma corda enrolada no pescoço. Estava a um passo de se enforcar. Assim que o viu, tentou lançar-se, mas Atílio precipitou-se e conseguiu segurá-la.

Depois de liberá-la da corda, Atílio carregou-a até a sala. Mas Gisel procurava soltar-se de seus braços. Apressou-se, pois, sentia que seu corpo lhe escorregava das mãos. Precisava colocá-la no sofá o quanto antes.

Com muita dificuldade, e com os braços adormecidos devido ao tremendo esforço, Atílio caminhou até a sala. A muito custo, passou através do espaço entre a poltrona e a mesa de centro a qual era de vidro. Faltava cerca de um metro para chegar ao sofá, quando Gisel fugiu-lhe das mãos. A cabeça chocou-se violentamente contra a mesa. Por ser quadrada, um dos cantos pontiagudo penetrou-lhe no pescoço. O sangue vivo jorrou. Desesperado, Atílio tentou estancá-lo aproveitando a corda como torniquete.

Não houve tempo. A moça esvaiu-se rapidamente em sangue. Em segundos já estava morta. Neste exato momento, enquanto Atílio segurava a corda com força, o porteiro deparou-se com a cena. Em seguida chegou a polícia. Deram voz de flagrante e os policiais o prenderam. O porteiro prontificou-se a testemunhar quanto ao que sabia.

Os vizinhos acotovelavam-se na porta para ver a cena. Queriam linchá-lo. A polícia deteve:

 -Por favor, chame o coronel Alencar, Vinícius Alencar. – Suplicou Atílio.

E assim, sob xingamentos e gritos hostis, Atílio, para sua sorte e proteção, foi conduzido à delegacia. Passou a noite toda a contar sua versão da estória. Já o porteiro disse que o rapaz tinha chegado alterado, perguntando pela moça e, mesmo tendo sido proibido de subir ao apartamento, correu para o elevador. Infelizmente foi tarde demais. Ao chegar, viu Atílio com a corda que “matou” Gisel.

Atílio foi removido temporariamente para a cela onde deveria aguardar o julgamento. Esperar para ser julgado, era interpretado pela população como um privilégio, pois, a sentença deveria ser a morte imediata. O carcereiro, depois de jogá-lo na cela, trancou-a e ironizou:

 – Faz tempo que não vejo um prisioneiro aqui. Velhos tempos…

O lugar era mal iluminado, úmido e com cheiro horrível. Estava mais para uma jaula do que para um depósito de gente. Começara a escurecer, e a preocupação aumentou. Pela primeira vez Atílio chorou. Mesmo quando soube da morte de Míriam, soube se controlar, mas não dessa vez. O carcereiro, até comentou:

 -Chora, bebezão. Pensasse antes de fazer besteira. Aliás, achei que nunca mais iria ver alguém assim. O último foi no ano passado. O maluco estrangulou um adolescente. E se considerava vítima do sistema. Você também deve pensar o mesmo. Criminosos são todos iguais.

Atílio calou-se em meio aos soluços. Vozes vindas da aglomeração de pessoas lá de fora da delegacia podiam ser ouvidas. Não dava para entender o que diziam, mas parecia haver um número grande de revoltosos. A impotência é a pior sensação quando se está em tais condições. Não há como se virar contra isso. Aliás, a pressão moral, especialmente para quem nunca transgrediu as leis, fazia Atílio sentir-se pior consigo mesmo.

“Mas eu havia transgredido as leis. Matei o cara que assassinou minha mulher. E de certa forma, também fui o causador de centenas de mortes. Mas não matei Gisel. Nem fui eu quem matou Míriam. Mereço ou não estar aqui? Olho por olho. Estamos empatados. Sou um homem bom…”

Passado algum tempo, o delegado chegou. Era durão com quem transgredia as leis. Rígido, inclusive com os próprios colegas abaixo dele. Olhar duro, quase espelhando a loucura, penetrante e cáustico. Quando chegou foi logo cuspindo fogo:

 -Ô, inocente, você causa um problemão. O povo lá fora quer te matar. Só está aqui porque o coronel pediu. Fique sabendo que, hoje em dia, ficar preso não é castigo. É o mesmo que ser protegido. Por mim, te jogava na mão do povão. Assim eu não teria tanto trabalho.

 -Preciso falar com o coronel. – Disse Atílio.

 -Cala a boca. Aqui você não quer nada. Fica quieto ou te jogo lá fora. – E deu as costas deixando o local.

Era difícil para qualquer um ficar naquelas condições. Não se sabia o que iria acontecer a seguir. E as vozes aumentavam à medida que o tempo passava. Era possível ouvir clamarem por justiça.

A justiça pelas próprias mãos havia se tornado lei. Ninguém, nem mesmo o mais influente político, teria coragem de contrariar a decisão do povo. Os resultados nas urnas mostrariam quem efetivamente manda. A democracia levada a extremos. E a polícia era comandada por políticos. Portanto, uma instituição engessada por interesses espúrios.

Mas no caso de Atílio, um engano fatal. Os policiais, com brutal insensibilidade e má interpretação dos fatos, condenariam um inocente à morte. Atílio pensou em dar cabo da própria vida. Imaginou diferentes formas. Contudo, jamais teria coragem de fazê-lo. Tudo agora dependeria da conversa com o coronel, seu amigo de adolescência, amigos de longos anos.

Horas se passaram. A solidão e o medo começavam a criar espectros alucinatórios. As vozes não cessavam. O povo lá fora ladrava como cães famintos. Atílio já se via em pedaços, destroçado pelo povão enfurecido. As frases gritadas chegavam-lhe aos ouvidos:

“Justiça, a justiça é nossa. Chega de violência.”

Frases repetidas e repetidas sem trégua.

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