O Diário de Lucca: Capítulo 9 – O Ensino Médio não é o Mútipla Escolha

Como você imaginava ser o ensino médio quando estava perto de entrar nele? Que seria como nos filmes que assistia na sessão da tarde ou num domingo à tarde? Como em sua série de televisão favorita, ou, então, como as temporadas da Malhação que se passavam no Colégio Múltipla Escolha? Bem, Lucca tinha um pensamento muito romantizado sobre como seria sua vida social quando entrasse no ensino médio, por mais que ele não gostasse de admitir isso, mas lá no fundo todos os adolescentes pensam a mesma coisa só que alguns conseguem não se decepcionar. Quando Lucca pensava em seu ensino médio tinha uma pequena esperança de que iria encontrar pessoas novas, fazer novos amigos e esquecer todas as merdas que aconteceram no fundamental dois, mas não foi bem assim…

Como a escola em que ele iria estudar ficava alguns metros longe daquela em que cursou o fundamental completo quase os mesmos alunos seguiram o mesmo caminho e quando o adolescente entrou no prédio pela a primeira vez conheceu uma escola pequena, diga-se de passagem, reconheceu vários rostinhos. Mesmo com uma negativa logo de cara o nosso protagonista continuou com a sua esperança de ter um ensino médio completamente diferente do que fora os seus anos anteriores estudando, na verdade iria ser diferente, mas por outros motivos.

A fila de alunos, ou o aglomerado, para ver a lista com os nomes por sala de aula estava imensa e Lucca não queria ter que encarar aquilo para saber em qual sala ficou. Aos poucos os adolescentes do amontoado foram conseguindo ler seus nomes imprimidos na folha de papel grudada no quadro de avisos e indo para suas respectivas salas de aula, assim, Lucca se aproximou aos poucos do quadro já conseguindo ler. Seus olhos rapidamente procuraram pelo seu nome e o encontraram na lista de chamada da sala 102.

Muito dos lugares já estavam ocupados e só os mais da frente se encontravam vagos. Lucca não gostava de se sentar na frente mesmo que precisasse por causa da sua visão, sentia-se o centro das atenções e não curtia muito isso, entretanto não havia escolha naquele momento. Quem sabe no meio do ano.

Sentou na primeira classe da fileira do meio, colocou sua mochila dependurada nas costas da sua cadeira e ficou observando os seus colegas presentes. Uma turma muito diversificada e que também demonstrava as panelinhas já formadas, isso lhe deu um medo porque os que deveriam ser sua panelinha eram aqueles que foram seus colegas durante todo o fundamental, na verdade não eram seus amigos e ainda faziam parte das suas péssimas lembranças sobre a escola anterior.

Por fim, Lucca suspirou e virou para frente esperando que a professora ou professor chegasse.

Ouviu uma garota na última classe da sua fileira reclamar de algo, mas não entendeu muito bem do que se tratava e deixou quieto. Continuou em silêncio no seu lugar, esperando e esperando. Até que de repente a garota do fundo apareceu em sua frente, ela tinha estatura baixa, pele negra e usava seu cabelo amarrado em um coque, segurou a mesa e empurrou com agressividade para frente e depois voltou para o seu lugar. Lucca ficou desconsertado, não sabia como reagir enquanto todos os outros o observavam esperando por alguma reação. Engoliu a seco e levou sua cadeira para frente, ficou em silêncio como toda a sala depois do acontecido. Aos poucos os assuntos paralelos voltaram e o rapaz suspirou, aquela manhã seria muito longa.

Depois das duas primeiras aulas e chegou um momento ainda mais difícil para Lucca, ainda mais que as apresentações que as duas primeiras professoras pediram… A hora do intervalo ou recreio se você preferir. Como não tinha cultivado amizades ainda com quem ele se sentaria para conversar, passar o tempo e tudo mais? Bem, ninguém. Arthur não estava ali, quer dizer, estava, mas estava com seus colegas de classe e Lucca não ousaria entrar naquela bolha porque simplesmente não se encaixaria. Sentou em dos bancos de madeira que foram colocados na sombra e pegou seu celular, abriu um aplicativo de fanfics e ficou lendo até a hora de voltar para a sala de aula.

A sua tarde foi mais tranquila, recebeu uma mensagem de Dario enquanto assistia uma telenovela mexicana na sala de estar de sua casa, o seu novo amigo havia acabado de sair do campus e estava indo para o centro da cidade para almoçar e passar um tempo. Convidou Lucca para encontrá-lo, mas antes de responder a mensagem o adolescente contou quantos trocos ainda tinha para a passagem do ônibus. O pouco dinheiro que tinha a sua disposição dava para ir e voltar. Lucca respondeu que iria trocar de roupa e pegar o ônibus, prometeu que não demoraria mais do que meia hora (na verdade iria sim por causa da condução lenta naquela região da cidade). Dario respondeu que o esperaria em frente ao shopping do calçadão.

Não queria repetir as roupas que usou quando se encontrou com o novo amigo das duas vezes, esse problema era um dos que se repetiam na vida de Lucca em seus momentos de white girl. O clima estava quente, então não precisava usar calça jeans e assim optou por uma bermuda jeans e um sapato preto, uma camisa vermelha com uma camisa xadrez amarrada em sua cintura. Tirou o celular da tomada e guardou no bolso, pegou sua carteira com o dinheiro e a sua identidade.

O ônibus demorou mais ou menos quinze minutos para passar na parada, sendo assim, Lucca chegou ao ponto marcado com seu novo amigo uns quarenta e cinco minutos depois de terem combinado.

— Demorei? — perguntou Lucca quando parou ao lado de Dario. — O ônibus demorou um pouco para passar, então, me desculpa se te fiz esperar muito.

— Não, tudo bem. — respondeu Dario sorrindo. — Eu também acabei de chegar, quando te mandei a mensagem estava na parada do campus.

Os dois ficaram em silêncio, isso durou exatamente um minuto.

— Vamos entrar então. — disse Dario rindo e em seguida Lucca o acompanhou, os dois entraram no prédio e quando estavam na escada rolante, o universitário perguntou: — Já almoçou?

— Sim, já sim.

— Ah, poxa, Lucca… Se eu soubesse não teria te convidado para me ver comer.

— Ah, não, não… Tudo bem, não tem problema nenhum. É melhor te ver comer do que ficar em casa mofando, fazendo vários nadas ou então assistindo a trigésima reprise de Maria do Bairro.

Dario rio e em seguida disse em um tom brincalhão misturado com um pouco de seriedade:

— Certo, mas eu vou dividir a batata frita contigo.

— Se você insiste. — sorriu Lucca.

Depois que Dario fez seu pedido em um dos quiosques da praça de alimentação, os dois sentaram a uma mesa que a sua localização dizia que ali seria um bom lugar para conversarem sem que nenhum curioso ficasse de ouvido antenado neles.

— Hoje foi seu primeiro dia de aula, né? — perguntou Dario para Lucca assim que os dois se ajeitaram em suas cadeiras.

— Sim, sim. Meu primeiro dia no ensino médio.

— E como foi?

— Eu tenho tantos adjetivos negativos para usar nessa resposta.

— Como assim? — perguntou Dario rindo.

— Não foi exatamente o que eu esperava, na verdade, não foi nada do que eu esperava, mas também em uma escola pequena como a minha eu esperei e idealizei demais sobre como seria meu ensino médio. — respondeu Lucca.

— Ah, mas todo mundo fantasia essas coisas. Ninguém está livre.

— Você também?

— Eu o quê?

— Fantasiou como seria entrar para a universidade ainda com dezessete anos? — perguntou Lucca a Dario.

— Sim, claro. Como eu disse todo mundo faz isso, ninguém está livre de querer sonhar um pouco e nem que seja com coisas como ensino médio, universidade… Ou uma amizade nova. — sorriu Dario ao terminar de falar.

O nosso protagonista retribuiu o sorriso.

Em seguida o pedido chegou e assim que o garçom se afastou a conversa continuou enquanto os dois comiam. Lucca comia as batatas fritas aos poucos, não queria demonstrar gula naquele encontro que parecia ser o primeiro oficial. Continuaram conversando sobre mais coisas que tinham em comum, como serem fã de Super Sentai, aquele gênero de série japonesa pai do ocidental Power-Rangers.

— Você tá assistindo a atual? — perguntou Dario.

— A dos dinossauros que sambam? Sim, eu estou. Eu tô adorando, mas a anterior ainda acho melhor, tinha um conceito original né e reinventou os uniformes de batalha, infelizmente voltaram com a lycra.

— Eu gosto da lycra. — respondeu Dario rindo.

Lucca também riu e em seguida disse:

— Mas não eram só os uniformes que faziam com que Go-Busters fosse uma temporada boa, a história, apesar de ter vários episódios também era bem construída e os personagens não eram tão enjoativos como costuma ser com esse tipo de série, vamos combinar.

— Você tem um ponto.

— Obrigado. — sorriu Lucca. — O que vai fazer depois daqui?

— Ir para o meu quarto na casa do estudante, eu te convidaria, mas eu tenho que adiantar uns trabalhos do curso. — Dario fez silêncio, estava pensando. — A gente pode combinar de se ver novamente no final de semana. Tudo bem para você?

— Claro. — sorriu Lucca.

O universitário também sorriu.

O segundo dia de Lucca na escola já começou um pouco fora do que ele costumava chamar de realidade. Sentou no seu mesmo lugar do dia anterior e em poucos segundos após o sinal tocar o professor de química entrou, um homem por volta dos cinquenta anos de idade, por volta dos 1,80 de altura, expressão dura no rosto e um bigode para completar.

Deixou sua pasta de couro sobre a mesa e em seguida ficou de frente para a turma. Se apresentou com seu nome completo para todos e em seguida começou a discursar sobre a química em nossas vidas, o início comum de um primeiro dia de aula para o primeiro ano do ensino médio até que ele pegou um giz branco e mostrou para os seus educandos.

— Como eu posso diferenciar um ser vivo de um ser não vivo? — o professor perguntou, mas ninguém da turma respondeu e em seguida ele jogou o giz contra a parede. — Eu sei que aquele giz é um objeto inanimado, ou seja, uma criatura sem vida porque ele não tem alma, ele não levantou e reagiu a minha agressão. Mas se eu jogasse o… — apontou par um dos garotos que estava sentado em uma das classes da frente.

— Matheus. — respondeu o adolescente.

— O Matheus contra a parede, ele teria levantado e reagido, sabem por quê? Porque ele tem uma alma e isso faz dele um ser vivo.

Lucca ficou sem entender nada do que aconteceu naquela primeira aula de química e de alguma forma soube que futuramente teria problemas com aquele educador.

O resto do segundo dia de aula foi como o primeiro, Lucca tinha problemas para interagir com outras pessoas e não escondia isso de ninguém, poderia entrar como penetra na bolha de amigos da escola de Arthur, mas como já foi dito antes, não sentia-se a vontade com aqueles garotos e assim passava a manhã nas dependências da escola.

Naquela tarde resolveu ir até a casa do seu primeiro melhor amigo, não tinha nada para fazer em sua casa e pelo menos no quarto de Arthur poderia jogar em seu videogame enquanto o outro assistia vídeos no YouTube. — Bateu na porta e depois de uns dois minutos Arthur abriu e disse:

— Ah Lucca, entra vem.

Lucca entrou e em seguida fechou a porta, seguiu o amigo até o quarto dele onde estava jogando uma partida de algum game de RPG, do qual o nosso protagonista não tinha conhecimento. Lucca sentou na cama do amigo e ficou o observando jogar.

— Como você tá? — perguntou Arthur olhando para a televisão, com toda sua atenção na partida.

— Bem, estou bem. — respondeu Lucca em um tom fraco, então lembrou do que aconteceu no dia anterior. — Ontem eu me encontrei com o Dario no shopping.

— Ele me disse.

— Legal. — Lucca sorriu amarelo. — A gente vai se ver novamente no final de semana.

— Estão se dando bem. — disse o melhor amigo.

— Sim, quer dizer, você nos apresentou por isso. Né?

— Claro, claro. — Arthur ficou em silêncio por alguns segundos finalizando um oponente. — Vai no quarto dele na casa do estudante?

— Sim. Na verdade eu não sei, mas acho que sim.

— Leve proteção.

— Proteção? — Lucca perguntou confuso, mas então sua ficha caiu e soltou uma gargalhada. — A gente não vai transar, quer dizer, nem nos conhecemos direito ainda. Temos uma afinidade, mas sei lá. Eu sou virgem ainda.

Arthur salvou o seu progresso no game e em seguida girou a cadeira para ficar de frente com seu amigo. Disse:

— Eu estou namorando.

— Ah… — Lucca foi pego de surpresa, sentiu um coisa diferente, nunca havia sentido, mas sabia que precisava disfarçar aquele sentimento em especifico. Talvez fosse ciúme. — Que legal e quem é ela?

— Letícia, conheci ela por meio de alguns amigos em comuns.

— Quanto tempo?

— O quê?

— Quanto tempo faz que começaram a se falar?

— Sei lá, um mês talvez. — respondeu Arthur dando de ombros.

— Nossa, um mês? Eu te conto que sou gay e você não me conta que está quase namorando. — disse Lucca sentindo o estranho e novo sentimento ficar forte e queimando seu peito como uma fogueira de São João.

— É uma situação diferente. — respondeu Arthur girando sua cadeira de volta para de frente à televisão.

Em seu quarto, Lucca ficou andando de um lado para o outro pensando e repensando, conversando consigo mesmo quase em uma discussão dramática de telenovela mexicana sobre Arthur ter escondido uma informação que melhores amigos compartilhariam um com o outro.

“Mas se a minha amizade valesse alguma coisa para ele, com certeza ele teria me contado, eu contei para ele que sou gay, saí do armário para ele e isso é uma coisa importante entre amigos. Eu só sairia do armário para o meu melhor amigo!” Esses eram um dos pensamentos de Lucca que também vinham acompanhados de outros que denunciavam ciúmes na sua forma mais pura, mas ele ainda não reconhecia essa informação.

— Se ele me considerasse o melhor amigo dele de verdade teria me contado uma coisa dessas, poxa. — sussurrou enquanto jogava Pokémon por um emulador de Game Boy Advance. — Se eu estivesse conversando com um futuro namorado eu contaria para ele, quer dizer, eu estou e ele sabe disso! Eu sei que vou fazer, eu vou dar um gelo nele até me acalmar ou até ele entender o que fez e me pedir desculpas, tá certo… É isso mesmo que eu vou fazer.

Chegou uma mensagem no WhatsApp do celular de Lucca, pausou o jogo e pegou o aparelho para visualizar a mensagem, era de Arthur e invés de fazer o que disse que faria alguns segundos atrás o rapaz abriu rapidamente o chat.

Na mensagem Arthur dizia que contou para a namorada que Lucca gostava de animes yaoi e como ela também tinha essa predileção queria conhece-lo. Com um sorriso forçado, mesmo que o outro não pudesse ver, Lucca respondeu que também adoraria conhece-la. Marcaram um dia para os três se reunirem na casa de Arthur.

Lucca se jogou em sua cama, olhando para o teto seus pensamentos se realinharam como as órbitas dos planetas e como se o segundo sol tivesse chegado finalmente as suas ideias ficaram mais claras em relação ao seu novo sentimento desconhecido.

— Caralho… Eu estou com ciúmes do Arthur? — sussurrou em um tom dramático. — Eu sou um completo merda!

A Widcyber está devidamente autorizada pelo autor(a) para publicar este conteúdo. Não copie ou distribua conteúdos originais sem obter os direitos, plágio é crime.

Pesquisa de satisfação: Nos ajude a entender como estamos nos saindo por aqui.

Publicidade

Inscreva-se no WIDCYBER+

O novo canal da Widcyber no Youtube traz conteúdos exclusivos da plataforma em vídeo!

Inscreva-se já, e garanta acesso a nossas promocionais, trailers, aberturas e contos narrados.

Leia mais Histórias

>
Rolar para o topo