“PAPAI”

CENA 01. CAFETERIA. INT. DIA.

Continuação imediata da cena final do episódio anterior. CLOSE em Júlio, com os olhos brilhando admirando Leila a sua frente.


JÚLIO 
(narrando, v.o.)

E o que eu mais desejei estava se realizando naquele momento. Minha anja está aqui na minha frente! Vocês não têm noção da vontade que eu tenho de tirá-la desse lugar e levá-la para o meu apartamento. Mas talvez as dúvidas em minha cabeça não me deixariam em paz. Onde ela estava esses anos todo? Porque ela nunca me procurou? Será que ela esqueceu o endereço onde eu moro? Infelizmente essa e outras dúvidas só poderiam ser tiradas em um outro momento. Pela cara dela, algo sério está acontecendo.


LEILA

Eu deveria ter sido sincera o tempo todo.


JÚLIO

Bem, ainda dá tempo para dizer a verdade.


LEILA

Você está certo. 


JÚLIO

O Gabriel realmente é meu filho, não é isso?!


LEILA

Não. Claro que não. (ri brevemente) Quem dera ele realmente fosse seu filho. 


JÚLIO

Então é outra coisa?!


LEILA

O Célio é um bom pai. Nunca deixou faltar nada em casa. Sempre conseguiu manter tudo o que precisávamos. Só que, às vezes…/


JÚLIO

Ele perde a cabeça e bate em vocês.


LEILA

Você falando assim até parece que ele é um monstro.


JÚLIO

Quem está dentro de um relacionamento abusivo, não percebe o monstro com quem convive todos os dias.


LEILA

Nem sempre ele age dessa maneira. Apenas quando as coisas não são feitas como ele quer.


JÚLIO

Como ele dita, isso sim. Você é uma mulher linda, não merece nenhum tipo de agressão, independente da qual seja. O Gabriel é um garoto incrível, um aluno dedicado e vejo ele sendo explorado trabalhando sozinho naquela lanchonete.


LEILA

O Célio precisa de alguém para ajudá-lo.


JÚLIO

Que ele contrate alguém para trabalhar lá. Que não deixe tudo para o coitado do garoto.


LEILA

Você não entende. Apesar desse jeito, o Célio quer o melhor pra gente.


JÚLIO

Você quer acreditar nisso para se confortar e aceitar conviver numa relação assim. Seja sincera comigo. (segura a mão dela) Ele chegou a bater em vocês quantas vezes?


Leila não responde. Desvia sua atenção para o lado.


JÚLIO

Não acredito que você passou os últimos anos ao lado de um cara desse.


LEILA

Eu quero colocar um ponto final nisso.


JÚLIO

Saiba que pode contar comigo. (acaricia a mão dela) Agora que nos reencontramos, eu não vou deixar você sumir novamente.


Leila fica envergonhada. Os dois trocam olhares, sorriem.


CORTA PARA


CENA 02. PRAÇA. DIA. EXT.


Gabriel e Lívia andando de mãos dadas.


GABRIEL

Eu não tenho certeza se minha mãe realmente ainda ama meu pai. Eu acho mais que ela aprendeu a conviver com ele.


LÍVIA

Seu pai é tão babaca assim?


GABRIEL

Às vezes ele é babaca. Em alguns momentos, ele até que é legal com a gente.


LÍVIA

E em outros, ele joga óleo fervente em suas mãos.


GABRIEL

Eu já te contei o que aconteceu.


LÍVIA

E você sabe muito bem o que eu penso sobre tudo isso.


GABRIEL

As coisas não são tão fáceis assim. Se fosse só por mim, eu já teria saído daquela casa, mas…/


LÍVIA 

Tem a sua mãe, eu sei. Mesmo assim, ela tem que acordar. Tem que perceber que continuar vivendo ao lado dessa cara é um cumulo.


GABRIEL

Até lá vou ter melhorado de vida, vou ter assinado um contrato com algum time profissional e ganhado bastante dinheiro para cuidar dela e de você.


Coloca seu braço ao redor do pescoço de Lívia, aproximando-a para perto do seu corpo.


LÍVIA

Quem mais torce por isso, sou eu. (sorri)


Os dois continuam caminhando, abraçado um ao outro.


CORTA PARA


CENA 03. APARTAMENTO DE JÚLIO. SALA. NOITE. INT.


Júlio e Roberto no sofá, vendo TV. 


ROBERTO

É, irmão… então nossas suspeitas estavam certas.


JÚLIO

Sim, mas a Leila não quer deixar o pai do garoto com medo da reação dele.


ROBERTO

Isso não seria problema, podemos ir até a polícia e…/


JÚLIO

Só que não depende só de nós. A Leila tem que concordar com tudo isso.


ROBERTO

Podemos conversar com o garoto. Ele pode nos ajudar.


JÚLIO

É justamente o que irei fazer amanhã. 


CORTA PARA


CENA 04. LANCHONETE. INT. NOITE.


Célio abre o caixa e retira todas as notas de dinheiro dele. O guarda em seus bolsos da calça, dá a volta do balcão e caminha em direção a Gabriel que está limpando uma mesa.


CÉLIO

Ei garoto, vem cá.


Gabriel deixa a bandeja de pratos sujos sobre a mesa, vai em direção ao pai que caminhou até a saída.


CÉLIO

Vou ter que sair e quero que você fique tomando conta da lanchonete. 


GABRIEL

Pai, a lanchonete está movimentada, como vou conseguir olhar o caixa, pegar os pedidos, arrumar as mesas?


CÉLIO

Não sei garoto, se virá. E aí de você se algum cliente sair sem pagar. 


Saí da lanchonete, Gabriel apenas o observa, inconformado.


GABRIEL 
(chateado)

Mas essa agora! 


Retorna para mesa que estava limpando, pega a bandeja e se apressa em direção a cozinha.


CORTA PARA


CENA 05. COLÉGIO SÃO RAFAEL. SALA DE AULA. INT. DIA.


Júlio explicando um conteúdo em aula. CAM destaca Gabriel de cabeça baixa, cochilando sobre a mesa. Júlio o percebe dormindo, joga um papel amassado nele, mesmo assim isso não o desperta.


JÚLIO

Gabriel? 


Joga outro pedaço de papel amassado. O rapaz não acorda. Júlio vai até a mesa dele, o cutuca no ombro.


JÚLIO

Gabriel?!


GABRIEL 
(sonolento)

O que perdi?!


JÚLIO

Pelo visto a noite foi puxada ontem?


GABRIEL

Desculpa, professor. Fiquei até tarde ontem no trabalho. Foi mal.


JÚLIO

Precisamos conversar depois do final da aula, está bem.


GABRIEL

Beleza.


Júlio retorna para frente da turma. Gabriel se encosta em sua cadeira, cruza os braços e lentamente volta a dormir de novo. 


CORTA PARA


CENA 06. COLÉGIO SÃO RAFAEL. SALA DE AULA. INT. DIA.


Gabriel está sozinho no fundo da sala, dormindo na cadeira. Júlio entra e o observa. Minutos depois, Roberto entra na sala, encontrando o amigo na entrada.


ROBERTO

O que você acha que aconteceu?


JÚLIO

Possivelmente ficou até tarde arrumando a lanchonete. Ele nem prestou atenção na minha aula hoje.


ROBERTO

Daqui a pouco tem educação física, vou ficar de olho nele.


JÚLIO

Eu iria conversar com ele, mas estou percebendo tão cansado, é melhor deixá-lo dormir um pouco.


Os dois observam o garoto dormindo por alguns segundos, trocam olhares breve e saem da sala em seguida. CAM destaca Gabriel dormindo no fundo da sala.


CORTA PARA


CENA 07. CASA DE GABRIEL. COZINHA. INT. NOITE.


Gabriel e Leila juntos a mesa. Ela está o ajudando com algumas atividades da escola.


GABRIEL

Só esse e terminamos. (bochecha)


LEILA

Acho que vou conversar com seu pai. Deixar você até tarde na lanchonete, não está fazendo bem para você.


GABRIEL

Eu dou conta, mãe. Não precisa se preocupar comigo.


LEILA

Suas notas não estão tão boas quanto antes. Ele vai me ouvir.


GABRIEL

E se não ouvir? Melhor não criar confusão com ele. E mesmo assim, ele deve estar em alguma banca de jogo novamente. Igual ontem.


LEILA

Ele fica reclamando que o dinheiro não está entrando na lanchonete, mas não enxerga o quanto ele perde nessas mesas.


GABRIEL

O vicio deixa qualquer um cego. 


Os dois ficam por um momento em silêncio. Leila observa o filho respondendo as atividades, com um semblante apreensivo no rosto.


LEILA

Se encontrássemos um outro lugar para morarmos…/


Imediatamente Gabriel para de escrever e presta atenção em sua mãe.


GABRIEL

A senhora finalmente está pensando em deixar essa casa?!


LEILA

Sabe que as coisas não funcionam assim, querido. Mas… se por acaso encontrássemos um lugar para morar longe daqui, em outra cidade por exemplo, você viria comigo?


GABRIEL

Claro que sim. Sem pensar duas vezes.


Leila solta um breve sorriso. 


GABRIEL

Eu vou estar sempre do seu lado, não importa a decisão que tome. 


Leila faz carinho na cabeça de Gabriel, se aproxima dele e o beija na testa. Gabriel sorri e volta a responder sua atividade.


CORTA PARA


CENA 08. APARTAMENTO DE JÚLIO. QUARTO. NOITE. INT.


Lívia deitada em sua cama, trocando mensagens em seu celular. 


LÍVIA 
(gravando áudio)

Finalmente a sensatez está batendo na porta de sua mãe. Saibam que tem o meu apoio para saírem daí. Só não quero que vocês se mudem para longe. Daí já não vou admitir. (ri)


Envia o áudio, fica aguardando a resposta. 


GABRIEL 
(por áudio, v.o.)

Também não ia gostar de ficar longe de você. Vou começar a procurar alguns anúncios de aluguel próximo ao seu apartamento, tudo bem pra você?


Lívia fica alegre, responde imediatamente.


LÍVIA
 (gravando áudio)

Mas é claro que…/ (fica enjoada)


Lívia deleta a gravação do áudio, joga o celular na cama e corre para o banheiro. CAM destaca o celular dela na conversa com Gabriel.


CORTA PARA


CENA 09. COLÉGIO SÃO RAFAEL. SALA DE AULA. INT. DIA.


Júlio está em sala de aula, mexendo em seu notebook. Seu celular vibra sobre alguns papeis ao lado. Ele imediatamente atende ao ver quem está ligando.


JÚLIO 
(feliz)

Oi! Estou na escola, mas eu posso falar sim. Hoje à tarde? Claro, podemos sim. Tenho aula em apenas uma turma, tenho tempo de sobra. Tudo bem, marcado então. Te encontro lá. 


Encerra a ligação, observa o celular com um sorriso bobo no rosto. Coloca o celular ao lado e volta a focar em seu notebook.


CENA 10. COLÉGIO SÃO RAFAEL. CORREDORES. INT. DIA.


Lívia encostada na parede ao lado de um bebedouro. Gabriel vem em sua direção, aparentemente empolgado.


GABRIEL 
(feliz)

Oi! (beija a bochecha dela) Você parou de mandar mensagem ontem. O que houve? Acabou pegando no sono, foi?


Lívia não responde de imediato. Gabriel a percebe apreensiva. 


GABRIEL 
(preocupado)

Tudo bem? 


LÍVIA 
(séria)

Preciso contar algo a você.


GABRIEL

Aconteceu alguma coisa?


Lívia olha bem no fundo dos olhos dele, isso o deixa tenso.


LÍVIA

Eu acho que estou grávida, Gabriel.


CLOSE no rosto de Gabriel. Seu corpo fica imóvel, seus olhos se arregalam. Lívia abre sua mochila e retira de dentro dela um teste de farmácia. 


LÍVIA 
(séria)

Pelo menos, é o que está dizendo aqui. 


Gabriel observa o teste nas mãos dela, fica tenso e a expressão em seu rosto logo se fecha. 

FIM DO EPISÓDIO.

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