Nota: Para melhor experiência, coloque fones de ouvido.


 

Outubro de 2022

Em um salão de festas, uma celebração matrimonial está acontecendo. Muitos convidados ali emocionados vendo o casal já diante do altar declarando os seus votos.

A noiva se chama Isabella (27 anos, loira, 1,68, pele clara) e o noivo se chama Matheus (28 anos, cabelo preto, barba, 1,80). Ambos se conheceram em uma viagem em Cancun no México quando Matheus tirava umas férias após conseguir sua promoção. Agora ele terá um escritório de advocacia na Grande São Paulo. Isabella era uma designer de moda que estava morando no México e acabou ficando sozinha após a morte de seus pais. Ao conhecer Matheus, ela percebeu que a felicidade estava voltando a bater à sua porta.

Durante a cerimônia, o padre recita:

— Matheus Ferreira Cavalcante, aceita a senhorita Isabella Reis como sua legítima esposa?

Ele olha pra Isabella, sorri e diz:

— Sim, padre. Aceito!

— Senhorita Isabella Reis, aceita o senhor Matheus Ferreira Cavalcante como seu legítimo esposo?

Igualmente fazendo o que seu futuro marido fez, ela diz:

— Sim, padre. Aceito!

— Com o poder investido a mim, eu vos declaro marido e mulher!

Ambos se beijam e todos começam a aplaudir eufóricos, uma nova aliança de matrimonio estava se formando naquele momento. Entretanto…

= FLASHFORWARD= FEVEREIRO DE 2023.

 

 Vemos alguém sentado no chão encostado na parede com as roupas sujas e um pouco úmidas. Percebemos que a pessoa em questão é Matheus. Ele está com um olhar fundo, cabelo desgrenhado, tem manchas de sangue no seu rosto, alguma coisa grave aconteceu para ele ter ficado naquela situação.

Ele fica por alguns segundos estático e com a respiração acelerada, até que ele tira o seu celular do bolso, disca um número e aguarda chamar. Alguém do outro lado da linha atende, seus olhos começam a lacrimejar e ele diz:

— Daniel? Preciso da tua ajuda… Eu… Eu fiz uma coisa horrível.

Nem tudo o que aparenta ser belo, é o que realmente é. O ser humano sempre será uma caixa de surpresas.

OPENING:

 

                       


EPISÓDIO 1:

        “UM ASSASSINO EM MINHA VIDA”


                                                 

30 de Outubro de 2022.

 

Isabella e Matheus estão voltando de sua viagem de lua de mel e enfim chegam à nova casa que Matheus conseguiu comprar na capital de São Paulo com muito esforço. O casal desce do carro enquanto o caminhão da mudança já está ali pra descarregar os móveis para a casa.

Matheus vai dando as coordenadas para os funcionários enquanto Isabella vai pegando as suas malas. Obviamente a chegada do casal já está chamando a atenção dos curiosos da vizinhança e muitos deles estão em suas calçadas observando.

A casa é enorme, tem dois andares, o hall de entrada é digna de mansão dos filmes de ficção. Os pais de Matheus sempre tiveram boas condições e ajudaram a juntar o dinheiro pra comprar a casa. Isabella entra e fica encantada com o lugar.

— Ah meu Deus! Eu não sabia que a casa era tão gigantesca assim. Por que não me falou, amor?

— Se eu te dissesse, nunca iria querer morar aqui.

— Ué e por que não?

— Você é a rainha da falsa modéstia, Isabella. Vai vim com papo de “Ain, eu não mereço nada disso desde que saí do México”.

— Mas olha só e ainda me afronta desse jeito?

— Claro, eu adoro te ver com as bochechas rosadas.

Isabella sorri e diz:

— Eu lembro até do dia que nos conhecemos lá naquele resort em Cancum. Eu lá de boa tomando a minha água de coco e eis que você chega pra mim e diz:

Os dois pronunciam a frase em uníssono:

Qué se te ofrece, Señorita?

Os dois começam a rir.

— Olha, foi a cantada mais péssima que eu poderia receber naquele resort, amor.

— Imagine o alívio que eu tive ao descobrir que você não era gringa. Ufa!

— Bobo! Mas eu serei sempre a tua “Señorita” como você preferir falar.

— Mas é claro! Minha e de mais ninguém.

— Uii! Que possessivo! Agora mudando de assunto, tem certeza que essa casa não foi tirada daqueles filmes de terror?

— Claro que não, amor!

— Tem certeza? Geralmente essas casas enormes têm alguma coisa. Alguém se matou, tem espíritos ferozes e famintos e por aí vai.

Eles vão subindo as escadas enquanto conversam.

— Você anda com uma imaginação muito fértil.

— Nossa, quantos quartos tem essa casa?

— Hum… Acho que 8.

— Quê? Oito? Amor, você vai querer abrigar toda a grande São Paulo aqui.

— Olha, coloque a culpa no meu pai e na minha mãe, eles que insistiram em escolher essa casa.

— Só vou perdoar dessa vez porque se trata de seus pais e não quero decepcionar os sogrinhos. Me mostre os quartos!

Matheus vai mostrando os quartos pra Isabella, ele mostra o quarto onde ambos vão dormir juntos e depois um quarto especial onde já tem algumas coisas infantis ali dentro.

Isabella ao entrar, fica um tempo estática e observando cada detalhe daquele quarto.

— Amor, você tá bem?

— Não, é que… Esse quarto… Ele… Por que tem brinquedos?

— Bom… Para o dia em que finalmente nos tornarmos pais. Como eu não sei se teremos primeiro menino ou menina, deixei tudo bem unissex pra…

Matheus percebe que Isabella está com os olhos lacrimejando.

— Amor, tá tudo bem?

— É que… Vendo tudo isso, eu… Lembro de algo que minha mãe sempre falava. Tanto ela quanto o meu pai… Sonhava em ver a filha se casando com vestido de noiva, meu pai queria tanto me levar no altar… E claro… Os netos! Ah os netos! Quando eu fiz 21 anos, eles sempre diziam em tom de brincadeira: “Filhota, você precisa se casar logo, queremos ver nossos netos crescerem”. O destino é tão… Tão irônico, não é? Estava morando no México justamente pra me formar na universidade que eu queria, era final do último semestre, eu estava na sala de aula quando recebi a notícia… O veículo que meu pai estava dirigindo juntamente com a minha mãe bateu com outro carro na avenida e… Eles não sobreviveram. Eu fiquei durante esse tempo todo pensando: E se tivesse sido diferente? E se nunca tivéssemos nos mudado para o México? Será que meus pais ainda estariam vivos? Hoje eu sei que… Eu sei que eu não posso mudar mais o meu destino, se tinha que ser assim, foi porque Deus permitiu, então…

— … Isabella, eu sei que nossas vidas não se cruzaram por acaso, tá? Eu queria muito, mas muito poder dizer aos teus pais… A filha maravilhosa que eles tiveram. E eu prometo que serei o melhor marido que você pode ter, em breve seremos os melhores pais do mundo e vamos viver nossas vidas um dia de cada vez, sem pressa, sem pensar muito no amanhã, mas viver o hoje… Juntos!

— Sim… Juntos!

— Agora trate de enxugar essas lágrimas, porque você fica muito mais linda quando tá sorrindo!

— Ha! Tá bom, desculpa, é que… Eu fico emotiva quando lembro dessas coisas.

— Tá tudo bem, vamos ver se os carregadores estão precisando de ajuda pra colocar as coisas.

Horas se passaram e eles já conseguiram colocar todas as coisas pra dentro de casa, eles vão tirando algumas roupas e acessórios dos caixotes e colocando todos em seu devido lugar. Após o custoso trabalho, eles estão no sofá com o notebook fazendo uma vídeo-chamada para os pais de Matheus.

— … E a senhora acredita, sogra, que o Matheus não deixou nem eu pegar a minha caixa de sapatos, porque ele achava que eu era muito frágil, pode isso?

— Filho, como você é exagerado!

— Ah mãe, é porque a senhora não viu a caixa de sapatos dela, dá impressão que ela assaltou toda a coleção de Melissas do mundo.

— Que horror! Deixa de ser mentiroso!

O pai de Matheus fala:

— Então está tudo certo, porque a tua mãe era do mesmo jeitinho quando tinha a idade de vocês.

— Otávio? Isso é coisa que se fala na frente da minha nora?

— Minha querida Esther, eu te amo muito, mas não dá pra defender você nesse ponto.

— Mãe, o pai tem razão, a senhora era a rainha do escarpam.

— Mas nem meu próprio filho tá me respeitando, meu Deus!

— Não se preocupe, dona Esther. Eu vou puxar a orelha do teu filho aqui.

— E falando nisso, como vocês estão na casa nova?

— Ah, mãe. Tirando a parte que a Isabella acha que ocorreu múltiplos assassinatos dentro dessa casa, estamos bem…

— Amor?? Meu Deus, para com isso. Mentira dele, dona Esther!

— Isabella, querida. É bom que seja uma cozinheira de mão cheia, porque esse garoto tem 28 anos, mas ainda come que nem moleque depois do Biotônico Fontoura.

— Mãe?

— Socorro! Eu já percebi que o Matheus era comilão, ele disfarçava quando a gente namorava pra bancar o certinho.

— Você também é a louca dos doces que eu sei, dona Isabella, sai fora!

— “Senhorita” Isabella, tá?

— Ahh, vocês são uns fofos! Lembram muito eu e o Otávio quando jovens.

— Modéstia parte nós éramos o casal 20 de Osasco.

— Pai, e a tua coluna? Melhorou?

— Tá melhor, filhão. Teu pai “véi” já não é mais o mesmo, mas vamos seguindo.

— Ele continua cabeça dura, mas eu tomo conta dele, filho… Bom, agora vamos desligar que vocês precisam aproveitar a casa nova e nós também vamos fazer algumas coisas aqui em casa antes de dormir. Se cuidem, meninos!

— Beijo mãe, beijo pai!

— Tchau sogrinhos!

— Tchau! Tchau!

Eles desligam a chamada, Matheus fecha o notebook, Isabella suspira e diz:

— Eles como sempre tão simpáticos! Mas e aí, o que vamos fazer agora?

— Bem, eu estava pensando se… A gente já poderia “batizar” a casa, o que acha?

— Olha, seu safado e pervertido!

— Eu, safado? Vou te mostrar quem é safado.

Matheus pega Isabella no colo, levanta do sofá e vai em direção às escadas, enquanto ambos gargalham sem parar.

Na casa dos pais de Matheus em Osasco-SP, eles estão conversando sobre os dois.

— Pelo visto essa moça vai fazer bem pro nosso filho, não é meu bem?

— Sim, mas sabe o que me preocupa, Otávio? É sobre acontecer aquilo de novo.

— Querida, isso já ficou no passado, nosso filho hoje já está bem maduro.

— Eu sei, mas… Tenho medo dele ter uma recaída e… Você sabe… Aquela pobre moça não vai saber o que fazer.

— Acha então que ele pode voltar a ter aquelas crises de novo e… Bom… Você sabe.

— Não, precisamos dar um voto de confiança no nosso filho, hoje ele é um bom advogado, estudou, superou o que passou, ele tá até mais calmo hoje em dia.

— Bom, fiquei sabendo que o Daniel vai se mudar pra Paulista, já vai ser um rosto conhecido nosso pra ficar de olho no Matheus.

— É, tendo o Daniel por lá eu vou ficar mais tranquila. Morro de medo, Otávio. Morro de medo de acontecer alguma coisa com essa moça por… Por conta de uma das crises do nosso filho.

Que crises seriam essas? Até onde vimos, Matheus parece ser um rapaz comum e não apresenta sinais de que sofre de alguma “crise”, ou será que é uma coisa passageira?

No dia seguinte, Matheus chega ao seu novo escritório de advocacia, ele está feliz por conseguir mais uma conquista na sua vida. A secretária bate na porta, ele dá permissão pra entrar e ela dá as boas vindas.

— Muito prazer, Dr. Cavalcante! Eu sou a Helena, serei sua secretária e o que precisar de mim, é só me procurar.

— Muito obrigado, Helena!

— Eu já deixei alguns dos processos que o jurídico emitiu durante a semana na tua mesa, quando tiver um tempinho pra avaliar…

— Pode deixar, olharei sim.

— Com licença, doutor!

Helena se retira, Matheus vai pro outro lado da sua mesa, coloca a sua pasta em cima dela, afasta a poltrona pra trás e depois se senta. Ele abre a sua pasta, pega o seu notebook, o abre, aguarda por alguns minutos e depois faz uma chamada de vídeo.

Do outro lado está Daniel (27 anos, pele clara, cabelo castanho encaracolado), melhor amigo de Matheus desde os 10 anos de idade. Ele está em casa no sofá e vê a chamada do amigo pelo notebook.

— Olha, quem é vivo sempre aparece!

— E aí, mano! Desculpa por demorar de te ligar.

— Tá sossegado, mano.

— E você tá todo “patrão” hoje, não tá trabalhando?

— Hoje eu estou de folga, e preparando algumas coisas aqui porque em breve você terá um possível novo vizinho.

— Pera, sério?

— Sim, vou trabalhar e morar num apê que eu consegui na paulista, e eu já tô ligado que tua nova casa é aí perto.

— Poxa, que bom! Que bom mesmo, irmão! Vai ser ótimo ter alguém conhecido por aqui.

— Mas e a Isabella? Tá tudo bem com ela? Curtiram a casa nova?

— Sim, sim, ela amou! Ficou até emocionada quando viu o quarto que eu separei para o nosso futuro filho.

— Sério? Que legal! Você merece, mano. Ela é uma garota legal.

Matheus se cala por alguns segundos e depois continua.

— Daniel, eu… Eu espero que… Bom, que você não…

— … Mano, tá tudo bem! Entendeu? Não tem motivos pra querer se explicar pra mim, você tá feliz com esse casamento, não tá? Então, se você está feliz, eu estou feliz.

— É que foi tudo tão rápido, que eu nem tive tempo direito de falar com…

— … Não tem que dizer nada, somos amigos, esqueceu? Eu estou feliz por você, por saber que… Você encontrou alguém que vai te fazer feliz do jeito que você merece. Nunca se esqueça disso, irmão.

— Valeu, Dan, você… Você é muito especial pra minha vida, sabe disso.

— Você também é especial pra mim.

— E quando vier pra cá, me avisa pra você vir tomar um café com a gente.

— Claro, será um prazer!

— Eu vou indo, irmão… Preciso trabalhar agora.

— Bom trabalho, Matheus… Qualquer coisa me liga.

— Pode deixar. Abraço!

Matheus desliga a vídeo-chamada e fecha o notebook.

Na casa de Daniel, ele vai até a rede social de Matheus e vasculha algumas fotos e vê a foto deles dois no dia do casamento. Daniel sorri e em seguida vai em outro álbum de fotos e vê algumas imagens de quando eles faziam trilhas juntos, passeios de barco, ele vê um vídeo de poucos segundos deles na praia e Matheus gritando pra câmera: “Esse aqui é o meu melhor amigo pra vida inteira”.

Daniel sorri com nostalgia, em seguida ele sai do álbum de fotos, fecha a rede social e suspira fundo como se tudo aquilo realmente mexesse muito com o emocional dele.

Daniel se levanta e começa a arrumar algumas coisas na sua casa, ele vai tirando alguns objetos e colocando em umas caixas aos poucos.

Horas depois, no escritório, Matheus recebe uma visita.

— Com licença, doutor Matheus. O promotor Afonso Padilha veio conversar contigo.

— Afonso Padilha? Por favor, peça que entre.

— Sim, senhor.

Matheus se levanta da poltrona, arruma os botões do paletó e o promotor Afonso entra em sua sala, ele tem 45 anos, careca, 1,65 e físico robusto.

— Boa tarde!

— Promotor Afonso, quanta honra recebê-lo aqui! Não nos vemos desde aquele último caso no STJ.

— Sim, doutor Cavalcante, queria vir aqui presencialmente para parabeniza-lo pelo excelente trabalho e agora fazendo parte desse escritório.

— Por favor, me chame apenas de Matheus, não me sinto a vontade quando me chamam pelo sobrenome, não que eu tenha algo contra, mas…

— Como queira.

— Tem um tempinho? Gostaria de alinhar algumas coisas contigo sobre os últimos processos de 2022 e nos prepararmos pro início do ano.

— Claro, claro, sente-se, por favor!

Enquanto isso, Isabella está no jardim de sua casa do lado de fora molhando as plantas, ali perto está passando uma mulher com a sua filha, a garota olha para Isabella molhando as plantas da frente e diz:

— Nossa, mãe, que moça bonita!

— Filha, fale baixo!

Isabella não pode deixar de ouvir o que aquela garota disse e decide puxar assunto.

— Eu bonita? Acredito que não tanto quanto você, minha linda.

— Eu?

Ela deixa a mangueira no chão e vai até o cercado.

— Claro que sim.

— Me desculpe pelo incômodo, moça! É que minha filha é assim mesmo, muito curiosa.

— Não se preocupe, eu não me importo.

— Você é a nova moradora?

— Sim, sim, eu me chamo Isabella, acabei de me mudar pra cá.

— Muito prazer, meu nome é Lúcia e essa é minha filha Ângela.

Lúcia tem 32 anos, pele negra, cabelo cacheado um pouco crespo. Sua filha Ângela tem 10 anos, pele negra, cabelo crespo de trança.

— Estou encantada em conhecer vocês.

— Pelo visto seremos vizinhas, eu moro na casa ali da frente.

— Olha! É muito bom fazer novos amigos, não conheço ninguém aqui em São Paulo, bom, nesse bairro pra ser sincera.

— Esse bairro é tranquilo, você vai gostar daqui.

— Bom, já estou amando a experiência.

— E a senhora veio com quem? Com sua família?

— Na verdade somente eu e meu marido, nos casamos recentemente e ele comprou essa casa, ele é advogado e agora tem um escritório de advocacia na Avenida Paulista.

— Sério? Meu ex-marido é arquiteto.

— Ex… Marido?

— Sim, é uma longa história!

— Me desculpa, eu não quis me intrometer.

— Tá tudo bem, tá tudo bem. Tem filhos?

— Não, bom, não ainda, mas pretendemos ter. Meu marido inclusive reservou um quarto pro nosso futuro bebê.

— Isso é muito bom. Escuta, venham até a minha casa o fim de semana você e seu marido pra tomarmos um café e nos conhecermos melhor.

— Nossa, eu adoraria!

— Você pode me passar teu whatsapp? Assim a gente combina.

— Claro, passo sim.

Horas se passam, Matheus chega do trabalho, Isabella está no sofá lendo uma revista e tomando uma xícara de chá.

— Cheguei, minha “senhorita”!

— Oi, amor! Como foi teu dia?

— Muito bom (vai tirando o terno enquanto fala), recebi a visita do promotor que estava cuidando do caso no STJ em que eu participei no início do ano.

— Sério? Que bom!

— Sim e eu chamei ele pra jantar com a gente qualquer dia desses, você se importa?

— Claro que não, amor. Eu ficaria muito feliz!

— Bom, mas e você? Como foi teu primeiro dia nessa casa imensa?

— No começo devo admitir que foi um tédio, mas acabei fazendo novas amizades também.

— Não diga, sério?

— Sim, com a vizinha da frente, ela se chama Lúcia e tem uma filha linda, amor, precisa ver. Ah! E ela também queria que nós fôssemos à casa dela qualquer dia pra tomarmos um café.

— Demorou! Mas tem que ser num fim de semana.

— Sim, eu peguei o contato dela pra a gente combinar tudo.

— Ah e por falar nisso, adivinha só? O Daniel vai se mudar pra cá, pra Paulista, semana que vem.

— O teu amigo? Que tudo!

— Sim, liguei pra ele hoje e ele disse que conseguiu um apê por aqui perto e tá se mudando semana que vem.

— Ai, amor! Que bom! Não tive tempo de conhecer o Daniel direito, mas ele me parece um cara tão legal!

— E ele é, amor, você vai poder conhecer ele melhor. Agora eu vou tomar um banho e descansar porque amanhã começa tudo de novo.

— Tá bom, amor, descansa.

Dias depois…

 

Está tudo pronto para a mudança de Daniel, suas coisas já estão todas encaixotadas. Ele está falando com sua mãe ao telefone.

— Mãe, relaxa! Eu tenho 27 anos, pelo amor de Deus! Tá bom, tá bom, eu te ligo quando chegar lá, o caminhão da mudança deve chegar em 15 minutos. Beijos!

Quando desliga o telefone, seu pai aparece no quarto e o deixa surpreendido.

— Pai?

— Dan… A gente pode conversar?

Alguns minutos depois, Daniel e seu pai estão sentados na ponta da cama conversando.

— Eu sei que… Eu sou a última pessoa que você esperava ver hoje, mas… Eu precisava vir aqui pra… Me desculpar. Acho que… Acho que não fui um pai de verdade pra você, acho que eu fiquei tão cego e tão paranoico com tudo o que aconteceu que… Eu deixei de enxergar em você as qualidades que você tem, eu só quis enxergar aquilo que eu queria.

— Pai?

— Tua mãe e eu tivemos muitas divergências e não foi por sua causa, você queria seguir o teu caminho e… Eu sempre fui aquele peão roceiro que queria que meu filho seguisse os meus passos, mas eu percebi que as coisas não eram assim, que você não era assim. E ao invés de eu te aceitar, te apoiar… Eu te dei as costas, e veja onde chegou! Um homem adulto tomando suas próprias decisões, eu me sinto culpado por… Por não ter dado o apoio que meu único filho merecia.

— Pai, eu… Eu sei que no fundo… O senhor sabia que algo assim iria acontecer, mas… Não quero que se sinta culpado de nada, eu entendo que foi um baque para o senhor. Minha mãe aceitou mais de boa, mas para o senhor, foi… Eu imagino se fosse eu no teu lugar, se fosse um filho meu… Mas não quero que se culpe pelas minhas escolhas, pelas minhas decisões. Eu vou continuar amando você e a mamãe da mesma forma.

— Obrigado, meu filho… Eu tenho muito orgulho de ser teu pai!

Daniel abraça o seu pai, eles tiveram um relacionamento bastante conturbado no passado, isso acabou provocando até mesmo o divórcio entre ele e a mãe de Daniel, e consequentemente, muita dor na família. Mas pelo visto, as coisas ainda têm chances de voltarem ao normal.

Escritório de advocacia, 18h.

Matheus está conversando com seus pais por vídeo-chamada no notebook.

— Sim, mãe, pode-se dizer que sobrevivemos à primeira semana. A Isabella até fez uma nova amiga na vizinhança esses dias.

— Sério, filho? Ai que bom! Eu estava orando por vocês pra que tudo desse certo. Mas e o bairro, filho? Não é perigoso? Como é a segurança aí?

— Ai, mãe, não começa.

— Tua mãe tem razão, um casarão daqueles, trate de instalar um alarme naquela casa.

— Tá bom, pai. Eu vou instalar um alarme, fica sossegado.

— Estou velho, mas segurança em primeiro lugar.

— Tá bom, tá bom, super protetores.

Algum tempo depois, na casa de Matheus, Isabella está na cozinha em frente ao fogão terminando de fazer um chá, ela tira o bule do fogão, leva-o na mesa e coloca um pouco na caneca. Ela se senta à mesa e pega uma revista de receitas enquanto toma seu chá e ouve um ruído vindo da porta.

Ela fica em silêncio por alguns instantes pra ver se ouve mais alguma coisa, ela ignora e volta a tomar o seu chá. Quando dá mais um gole, ouve outro barulho ainda mais forte.

— Matheus? Matheus, é você?

Isabella deixa a caneca na mesa e vai até o hall de entrada da casa, ela vê que a porta tá semiaberta e está ventando lá fora.

— Que estranho!

Ela vai até a porta, a fecha e ouve um barulho vindo de lá de cima.

— Ma… Matheus? Quem tá aí?

Ela vai até a cozinha imediatamente e pega uma faca, ela volta para o hall de entrada e vai para as escadas.

— Matheus? Olha, essa brincadeira não tem graça!

Ela vê que seu marido não está respondendo, então ela começa a subir as escadas lentamente.

Isabella chega até o corredor do andar de cima, dá passos lentos, ouve um barulho vindo de dentro do quarto. Ela entra, podemos ver suas mãos trêmulas enquanto segura aquela faca.

— Matheus? Por favor, me diz que é você.

Ninguém responde, o que poderia ser isso que está intrigando Isabella dessa forma?

Ela continua a vasculhar pelo quarto e ouve um barulho vindo do guarda-roupa. Ela fica ainda mais temerosa, sabe que há algo ali dentro e não quer acreditar, ela quer acreditar que é o seu marido que está ali lhe pregando uma peça.

— Ma… Matheus… Me diz que é você, por favor!

O barulho naquele guarda-roupa fica ainda mais intenso, Isabella se aproxima dele e está pronta (ou não) para o que pode estar se escondendo ali dentro.

Ela respira fundo, conta até três no pensamento… Então ela abre o guarda-roupa de uma vez e um gato enorme e peludo sai dali de dentro e avança no rosto de Isabella.

— Ahhh! Sai daqui! Socorro! Socorro!

Neste exato momento, Matheus está chegando em casa e ouve os gritos de Isabella lá de cima.

— Isabella! Isabella!

Matheus corre até lá em cima e quando entra no quarto, vê Isabella se esquivando daquele gato.

— Puta merda, o que tá acontecendo aqui?

— Esse gato miserável estava dentro do nosso guarda-roupa. SAI! SAI!

O gato sai correndo pela porta do quarto, Matheus fica um tanto aliviado por aquele ser o motivo pelo qual sua esposa está gritando, mas percebe que ela realmente ficou nervosa e assustada.

— Amor, calma, calma. Era só um gato, não precisa ficar assustada.

— Eu, eu não sei, amor… Ficar nessa casa tanto tempo sozinha tá fazendo eu começar a imaginar coisas, eu jurava que tinha ouvido passos de gente aqui dentro de casa.

— Foi apenas impressão sua, amor. Calma, fica tranquila, me dá um abraço… Pronto, passou! Passou!

— Isso não é justo, não é justo.

O susto de Isabella passou, mas ainda há lacunas nessa história, um gato não iria conseguir abrir a porta da frente e ele não teria a “habilidade” de pisar no chão igual um humano comum. Ou será que realmente essa casa esconde espíritos malignos como a própria Isabella disse?

Quarto de Isabella e Matheus, 00h25.

Isabella está adormecida e ouve de longe algumas conversas de fundo ressoando como gargalhadas, ela começa a despertar pouco a pouco.

— Amor, eu…

Quando vira de lado, percebe que seu marido não se encontra ali na cama. Ela fica parada, intrigada e depois ouve umas risadas de Matheus vindo do banheiro. Isabella fica com o coração acelerado e desce da cama imediatamente. Ela vai se aproximando da porta, percebe que Matheus não parava de gargalhar ainda que tentasse diminuir o tom de voz. Ela fica preocupada, poderia estar alguém ali naquele banheiro com ele?

Ela abre a porta do banheiro, Matheus está de pé na pia conversando ao telefone e se assusta quando Isabella entra no banheiro.

— Com quem você está conversando?

— Amor, eu…

— Me responde, Matheus! Com quem você está conversando?

Poderia Matheus já está tendo uma “aventura” fora do casamento?

=FLASHFORWARD= NOVEMBRO DE 2022, 20H06.

Isabella está tocando a campainha da casa de Lúcia incansavelmente. Quem atende é a sua filhinha.

— Olá!

— Oi… Tua mãe está?

Lúcia aparece na porta.

— Isabella. Algum problema?

— Lúcia, me desculpa vim aqui assim dessa forma. Mas não tenho a quem recorrer.

— Mas o que tá acontecendo? Por que você tá tão nervosa?

— É que… É que…

— Fala, Isabella! O que aconteceu?

— Uma coisa horrível!

Isabella pronuncia algumas palavras para Lúcia sem que possamos escutá-las. Ela coloca as mãos na boca, impactada e diz:

— Ai, meu Deus!

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  • Melqui Rodrigues é, verdadeiramente, impressionante. O cara sai de um terrorzão psicológico/profano cheio de momentos tensos, intensos e pesados e já nos brinda com uma outra obra (aparentemente) sensacional também, mas em outra vibe. Esse primeiro episódio de Senhorita foi muito bom. Boa apresentação de personagens, insinuações de mistérios, já nos joga uma revelação bombástica logo de cara e a narrativa voa, você devora e já clama por mais. Fico agora no aguarde dos próximos capítulos.

    • Hahaha, muito feliz pelo teu feedback, amigo. Esse episódio foi mais pra deixar vocês a vontade sem quebrar muito a cabeça, mas os próximos não vos darei sossego kkkkkk.

  • Melqui Rodrigues é, verdadeiramente, impressionante. O cara sai de um terrorzão psicológico/profano cheio de momentos tensos, intensos e pesados e já nos brinda com uma outra obra (aparentemente) sensacional também, mas em outra vibe. Esse primeiro episódio de Senhorita foi muito bom. Boa apresentação de personagens, insinuações de mistérios, já nos joga uma revelação bombástica logo de cara e a narrativa voa, você devora e já clama por mais. Fico agora no aguarde dos próximos capítulos.

  • A cada nova leitura o Melqui me impressiona cada vez mais, depois de rest Home eu não achava possível ficar vidrado na tela do celular de novo, e isso acontece aqui, sem acontecer “nada” de grande choque, apresentando os personagens eu já fiquei com várias dúvidas, e já criei teorias. Melqui é um baita escritor.

    • Hahaha, obrigado, mano! Esse primeiro episódio não acontece muita coisa mesmo não, só vai deixando algumas pistas no ar. Já estou ansioso pra saber de suas teorias. Abração!

  • A cada nova leitura o Melqui me impressiona cada vez mais, depois de rest Home eu não achava possível ficar vidrado na tela do celular de novo, e isso acontece aqui, sem acontecer “nada” de grande choque, apresentando os personagens eu já fiquei com várias dúvidas, e já criei teorias. Melqui é um baita escritor.

  • Melqui, você já teve o comeback com tudo né amigo?! Amei es3se primeiro episódio, uma pegada didática apresentando devagar cada personagem, mas sem deixar de ir deixando pistas como , por exemplo, a respeito do que o Matheus fez no passado e essa sua crise, o que o Daniel sente pelo Matheus, como aquele gato entrou ali, com quem Matheus estava conversando durante a madrugada….Ja estou amando!!!

    • Amigaa, que felicidade ter você aqui e ouvir seu feedback. Sim, esse primeiro episódio apresenta as coisas devagar, mas vai deixando pistas ao decorrer dos episódios. E sim, essas pistas são muito importantes e vão fazer muita diferença lá na frente, então fique de olho kkkk. Obrigadoo!!

  • Melqui, você já teve o comeback com tudo né amigo?! Amei es3se primeiro episódio, uma pegada didática apresentando devagar cada personagem, mas sem deixar de ir deixando pistas como , por exemplo, a respeito do que o Matheus fez no passado e essa sua crise, o que o Daniel sente pelo Matheus, como aquele gato entrou ali, com quem Matheus estava conversando durante a madrugada….Ja estou amando!!!

    • Amigaa, que felicidade ter você aqui e ouvir seu feedback. Sim, esse primeiro episódio apresenta as coisas devagar, mas vai deixando pistas ao decorrer dos episódios. E sim, essas pistas são muito importantes e vão fazer muita diferença lá na frente, então fique de olho kkkk. Obrigadoo!!

  • Curiosidade ativada com sucesso!
    Capítulo de apresentação muito bem desenvolvido. Adorei.
    Estaremos prontos para algo sobrenatural, como Rest Home? Ou será uma pegada mais realista com toques sádicos?
    O que nos aguarda, man?
    Seguindo para o capítulo 2.

    • Hahaha, obrigado, minha amiga. O diálogo da Isabella leva muito a gente acreditar que teremos coisas sobrenaturais nessa casa, mas… A realidade tende a ser ainda pior kkkkkk.

  • Curiosidade ativada com sucesso!
    Capítulo de apresentação muito bem desenvolvido. Adorei.
    Estaremos prontos para algo sobrenatural, como Rest Home? Ou será uma pegada mais realista com toques sádicos?
    O que nos aguarda, man?
    Seguindo para o capítulo 2.

  • Pesquisa de satisfação: Nos ajude a entender como estamos nos saindo por aqui.

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