“A ORIGEM DE TUDO”
CENA 01. RUA. TARDE. EXT.
Legenda: Rio de Janeiro, Brasil. Abril de 1912.
Domênia e Carlos passaram a tarde espionando a movimentação na padaria. O fluxo de clientes diminuiu, encontrando a oportunidade perfeita para matarem sua fome.
DOMÊNIA
Eu vou lá.
CARLOS
Acho melhor você não fazer isso. Se eles pegarem você…/
DOMÊNIA
Seu medroso. (pega o cubo de seu vestido) Como vou precisar correr muito, quero que você cuide disso pra mim.
Carlos recebe o cubo, o observa por alguns segundos.
DOMÊNIA
Nem pense em usá-lo, entendeu? Eu sou a única que pode te ajudar a encontrar sua mãe! E para isso, preciso do cubo.
Carlos protege o cubo em suas mãos. Presta atenção em Domênia.
CARLOS
Acho que você está cometendo um grande erro. Acho que se fossemos lá e pedisse…/
DOMÊNIA
O que te faz acreditar que eles serão bondosos com a gente? Você não viu o jeito que nos colocaram pra correr da frente da padaria?
CARLOS
Eu prefiro acreditar na bondade das pessoas.
DOMÊNIA
Do lugar de onde eu vim, não existe bondade nas pessoas. Elas queimam umas às outras em fogueiras como forma de diversão no centro da cidade. (fixa sua atenção na padaria) Assim que eu sair de lá com nosso lanche, trate de correr na minha direção, entendeu?
CARLOS
Entendi.
Domênia se afasta de Carlos. Ela atravessa a rua, passa algumas vezes em frente a padaria. Observa o interior do edifício e entra sorrateiramente no local.
CORTA PARA
CENA 02. PADARIA. DIA. INT.
Domência está agachada embaixo da mesa, observa a movimentação no local. Repara uma cesta de pães sobre o balcão. Vai de mesa em mesa engatinhando até lá. A padaria se encontra vazia. Ao chegar em seu alvo, Domênia estende suas mãos para pegar a cesta.
Um funcionário vem da cozinha trazendo uma bandeja de salgados. Observa a cesta de pães sendo puxada para baixo. Rapidamente coloca a bandeja de salgados sobre o balcão, corre até o outro lado e vê a cesta nas mãos de Domênia.
FUNCIONÁRIO
Mas o que significa isso? Vem cá sua ladra!
Domênia se levanta, corre em direção a saída. O funcionário é mais rápido que ela e a segura pelo braço.
FUNCIONÁRIO
Ah, mas você não vai fugir mesmo.
Toma a cesta das mãos delas.
DOMÊNIA (grita)
Me larga.
FUNCIONÁRIO
Vou soltar nada. Você vai resolver isso com a polícia agora.
Domênia pisa forte no pé do funcionário, que a solta. Ela aproveita e sai correndo dali.
FUNCIONÁRIO
Vem cá sua ladra. Vou chamar a polícia. Você não vai escapar, ouviu?!
Corre atrás dela.
CORTA PARA
CENA 03. RUA. DIA. EXT.
Do outro lado da rua, Carlos vê Domênia saindo de mãos vazias. O funcionário sai e grita algo em direção a garota.
FUNCIONÁRIO
Se eu ver você de novo nessa área, vou chamar a polícia, entendeu?!
Entra na padaria. Carlos corre na direção de Domênia.
CORTA PARA
CENA 04. CASA DE CARLOS. QUARTO DE HÓSPEDES. TARDE. INT.
Legenda: Maringá, Brasil. Agosto de 2021.
Cardoso está deitado na cama, pensativo. Lisa bate na porta do quarto, entra na sequência.
LISA
Oi, licença.
CARDOSO
Oi.
Senta-se apressado, a observa esperançoso.
CARDOSO
Conversou com o seu professor?
LISA
Bati um papo com ele, mas acho que não foi uma boa ideia. (senta-se na cama)
CARDOSO
Como assim?
LISA
De início ele conversou até que bacana sobre esse assunto de viagens no tempo. Me explicou algumas coisas interessantes, as condições para que isso se torne realidade, entre outras coisas. Só que depois que eu contei a sua história, ele começou a me olhar como se eu estivesse louca, sabe?!
CARDOSO
Não acreditou, é isso?
LISA
Praticamente. Na teoria, a viagem no tempo é algo incrível, mas na prática, é praticamente impossível. Pelo menos na nossa atual geração, e muito menos uma antes da nossa.
CARDOSO
Então como pode ser explicado o que está acontecendo comigo?
LISA
Se ao menos tivéssemos o cubo. Eu poderia mostrar para o professor, talvez com o objeto em mãos ele acredite.
CARDOSO
Esse cubo também sumiu misteriosamente. (se levanta) Estou praticamente preso neste lugar. Longe da minha família, da minha namorada, do meu tempo.
LISA
Eu sei que não está sendo fácil. (se levanta, caminha até ele) Mas você pode contar com a gente, o tempo que precisar. Está bem?
Segura a mão dele. Os dois se entreolham, Lisa o abraça na sequência.
CORTA PARA
CENA 05. CASA DE CARLOS. SALA. TARDE. INT.
Carlos chega em casa, caminha direto ao sofá. Senta-se, coloca sua pasta ao lado, observa a mesinha a sua frente. Lisa entra na sala em seguida.
LISA
O Cardoso tá super arrasado, pai.
CARLOS
Se a história que ele diz realmente for verdade, eu também estaria.
LISA
Nada do cubo? (senta-se)
CARLOS
Temos que perguntar isso à sua mãe. Ela quem disse que passaria o dia procurando.
LISA
Verdade. Por falar nela, onde será que ela está?
Seu pai dá de ombros, volta a focar na mesinha à sua frente.
CORTA PARA
CENA 06. CASA DE AURORA. QUARTO DE CARLOS. TARDE. INT.
Letreiro: São Paulo, Brasil. Abril de 1986.
Carlos está estudando, quando Domênia entra em seu quarto sem bater.
CARLOS
Normalmente as pessoas batem na porta, sabia?!
DOMÊNIA
O que você tá fazendo?
CARLOS
Estudando. Tenho uma prova amanhã. Se não tirar uma nota boa, minha mãe é capaz de tirar a TV de mim.
DOMÊNIA
O que está estudando?
CARLOS
Equações.
DOMÊNIA
Nunca ouvi falar.
CARLOS
De onde você veio, não se estuda isso?
DOMÊMIA
Não mesmo. (deita-se na cama, olha para o teto) De onde eu vim, coisas mais interessantes eram ensinadas.
CARLOS
Tipo?
DOMÊNIA
Não sei se você acreditaria. As pessoas aqui parecem ter um pensamento bem limitado quanto a isso.
CARLOS
Qual, é? Você falando desse jeito, até parece que veio de outro planeta.
DOMÊNIA
Quase isso.
CARLOS
Vai, fala aí. Que tipo de coisas você estudava?
DOMÊNIA
Você realmente quer saber?
CARLOS
Claro que quero. (fecha o caderno)
DOMÊNIA
Ok. (se levanta) Mas não pode ser aqui dentro.
CARLOS
Por que não?
DOMÊNIA
O que eu vou mostrar a você pode ser perigoso. Prefiro que seja em um lugar aberto.
CARLOS
Por acaso você vai me ensinar a criar bombas, é isso? (ri)
DOMÊNIA
Você quer aprender o que me ensinaram ou não?
CARLOS
Quero. (se levanta) Agora fiquei curioso. Tá, conheço um lugar tranquilo.
Domênia solta um sorriso de leve.
ORTA PARA
CENA 07. FERRO VELHO. TARDE. EXT.
Carlos e Domênia estão frente a frente, a poucos metros de distância.
CARLOS
Então… aqui não corremos nenhum risco, certo? (sorri)
DOMÊNIA
Veremos.
Domênia olha atentamente o local. Depois olha para Carlos, que parece ansioso com o que ela tem para mostrar.
CARLOS
Então… vai me mostrar o que ensinavam a você ou não?
Domênia continua observando atentamente o local.
CORTA PARA
CENA 08. PRAÇA. TARDE. EXT.
Legenda: Rio de Janeiro, Brasil. Abril de 1912.
Domênia e Carlos correm em direção a um banco vazio. Sentam-se, ambos cansados.
CARLOS (ofegante)
Quase fomos pegos.
DOMÊNIA
A cesta estava em minhas mãos.
CARLOS
Acho melhor pedirmos ajuda. Somos crianças. Logo vai escurecer. Essa cidade deve ser perigosa a noite.
DOMÊNIA
Tá com medo, bebê chorão?
CARLOS
Tô. Tô, sim. Qual é o problema? Eu quero a minha mãe. Quero a minha casa, meu quarto, minha cama.
DOMÊNIA
Criancinha.
CARLOS
Você também é! Vai me dizer que você não está com saudade da sua família? Que você não quer voltar pra casa?
Domênia fica em silêncio. Baixa a cabeça, fica reflexiva. Carlos a observa, sente que ela ficou triste.
CARLOS
Falei besteira?
Domênia ergue a cabeça, o ignora.
DOMÊNIA
Eu tô morrendo de fome. (se levanta) Se você quiser chamar ajuda vá em frente. Sei me virar muito bem sozinha.
Se afasta do banco. Carlos a observa, fica dividido em segui-la ou não. Ao vê-la que está bem distante, acaba se levantando e correndo atrás dela.
CARLOS (tom alto)
Ei, me espera…
CORTA PARA
CENA 09. RUA. NOITE. EXT.
Carlos e Domênia estão sentados em uma calçada, em frente a um estabelecimento fechado. Domênia treme de frio, Carlos a observa preocupado, tremendo igual ela.
CARLOS
Precisamos encontrar um lugar melhor pra passarmos a noite.
DOMÊNIA (tom baixo)
Eu só queria poder usar magia.
Carlos a percebe tremendo de frio. Se aproxima, coloca seu braço ao redor dela, a aconchegando em seu corpo.
CARLOS
Acho que se ficarmos mais próximos, podemos um esquentar o outro.
Domênia procura uma forma de se aquecer, no corpo franzino de Carlos. Os dois passam a noite inteira abraçados.
CORTA PARA
CENA 10. RUA. DIA. EXT.
Amanheceu. A cidade volta a ficar agitada. Carros e pessoas vão e vêm, passam por Domênia e Carlos e os ignoram dormindo no chão. Ela está deitada sobre ele e é a primeira a despertar. Sonolenta, se levanta sem acordar Carlos. Senta-se ao lado do garoto, o observa.
Um veículo Detroit Electric, na cor vermelha, passa por eles. Dentro, um casal de idosos de aparentemente 60 anos, prestam atenção nas crianças na calçada. A senhora sente pena ao vê-los no chão, vira para o marido ao lado e ambos conversam em off.
O veículo estaciona alguns metros adiante. A senhora, trajando uma roupa bem elegante, caminha apressada até as crianças. Domênia a observa desde o momento que saiu do veículo.
AGATHA (simpática)
Olá.
Carlos desperta ao ouvir a voz da mulher. Senta-se assustado, se acalma ao notar Domênia ao seu lado.
AGATHA
Que sociedade é essa onde vivemos, que crianças pequenas assim como vocês têm que viver nas ruas.
DOMÊNIA
Estamos com fome, senhora.
AGATHA
Imagino. Venham! Venham comigo que vou levá-los para um lugar onde poderão ficar seguros.
CARLOS (receoso)
Que lugar é esse?
AGATHA
É um lugar onde minha irmã trabalha. Ela também cuida de outras crianças de rua. Vocês serão bem cuidados lá.
Carlos se aproxima de Domênia, diz em seu ouvido.
CARLOS
Você acredita nela?
DOMÊNIA
Não. Mas se ela tem um lugar aonde vai nos dar comida, eu vou.
CARLOS
Eu não sei. Minha mãe me ensinou que não devemos aceitar caronas de estranhos.
AGATHA
Eu não vou fazer nenhum mal a vocês, crianças. Realmente, quero só ajudar. Me aperta o peito só de imaginar vocês nessa situação. Venham comigo, por favor.
Carlos e Domênia trocam olhares, se levantam juntos. Agatha sorri e os acompanha até o veículo estacionado logo à frente.
CORTA PARA
CENA 11. ORFANATO GIRASSOL. ÁREA EXTERNA. DIA. INT.
O veículo estaciona em frente a um orfanato. Agatha desce junto com as crianças. Ambos caminham até uma pequena escada em frente ao local.
CARLOS
Sua irmã trabalha aqui?
AGATHA
Ela é a dona desse lugar. Ela pegou a parte da fortuna que nossos pais deixaram pra nós duas e abriu esse orfanato. Ela começou a recolher algumas crianças de rua e as colocou aqui.
CARLOS
Então, vamos ficar aqui pra sempre?
AGATHA
Não pra sempre. Como você disse que tem uma mãe e que quer encontrá-la, talvez minha irmã consiga te ajudar. (a Domênia) Ela pode até conseguir encontrar uma nova família pra você, querida.
Domênia finge que não escutou. Continua observando o amplo prédio de 04 andares, com uma pintura azul claro e uma área externa bem ampla ao seu redor.
AGATHA
Vamos entrar. Que vocês possivelmente devem estar morrendo de fome.
Os três seguem até a entrada do orfanato. Agatha toca a campainha e segundos depois, uma garota (11 anos, parda, cabelos pretos) atende. Ela sorri ao ver Agatha, as duas se abraçam. Todos entram no local, a garotinha fecha a porta.
CORTA PARA
CENA 12. SALA CIRCULAR. INT.
Legenda: Em algum lugar do tempo.
Domênia está de costas para Carlos, observa um retrato com a pintura da área externa do orfanato Girassol.
DOMÊNIA
Lá eu encontrei um lar. Um lar que até então, eu descobri que foi roubado de mim.
CARLOS (confuso)
Eu não estou entendendo nada dessa história. Eu nunca vivi na rua. Nunca morei em orfanato algum. A gente se conheceu na minha casa, quando minha mãe trouxe você naquela tarde.
DOMÊNIA
Isso também aconteceu. (a Carlos) Só que em um outro universo.
CARLOS
Outro universo? Do que você tá falando?
Domênia caminha até uma mesa que está em um altar ao fundo da sala. Carlos vai atrás. No pequeno altar, ela pega o cubo com a esfera branca brilhante. Ergue em direção a Carlos.
DOMÊNIA
Conhece?
CARLOS
Este é o cubo que me trouxe até aqui. Ele não estava com o Cardoso?
DOMÊNIA
Sim. E não. Acredito que eu tenha me precipitado. Acho que antes de ter começado a contar a minha história, eu deveria ter começado pela história do universo.
Desce do altar, caminha até Carlos. Fica a poucos passos à frente dele. O cubo continua brilhando em suas mãos.
DOMÊNIA
No princípio…/
FIM DO EPISÓDIO.





