A Cabana
O carro de Susana vinha com toda velocidade para acertar a árvore que está em sua frente, até que ela solta o cinto de segurança, abre a porta do carro e pula do mesmo rolando pelas folhas e galhos que estão caídos no meio da floresta. O carro bate na árvore amassando toda a parte da frente do veículo resultando em perda total.
Susana se levanta do chão, passa a mão na sua calça tentando se limpar e observa o estrago que ficou o carro, se ela estivesse lá dentro certamente teria morrido. Ela decide voltar pra ver se conseguia chegar novamente à pista para pedir ajuda. Após andar mais um pouco ela se assusta ao se deparar com alguém conhecido.
— Ah! Henrique? O que você tá fazendo aqui?
Henrique está vestindo um casaco amarelo e mochila nas costas, ele hesitando responde à Susana:
— Eu, eu, eu…
— … Sabe que não pode vim a um lugar como esse. Então era você que estava na estrada quando eu desviei o carro?
Assim que termina de pronunciar a frase, Susana estende a mão pra se aproximar de Henrique e o chão onde ambos estão cede e eles caem rolando pela ribanceira até chegar na parte mais profunda da floresta.
— Ah! Henrique? Henrique, você está bem?
— Eu, eu me machuquei.
— Calma, querido. Vai ficar tudo bem.
Susana se levanta pra acudir Henrique, o seu braço está todo ralado da queda.
— Caramba, isso aqui vai arder depois. Mas fica tranquilo, você vai ficar bem.
— Eu vi a senhora pelo vidro do carro, por isso que te segui.
— Mas por que, Henrique? O que você está fazendo sozinho na rua de madrugada? Aliás, na rua não, você está há quilômetros de distância da tua casa. O que aconteceu?
— Eu… Eu fugi de casa, dona Susana.
— O quê?
Casa de Henrique, 1 hora antes…
Tatiana está em seu quarto na cama lendo um livro até que seu esposo Israel entra no local para conversar com ela.
— Precisamos conversar, Tati.
— (Virando de costas) Eu não quero conversar com você. Me deixa em paz!
— É assim que vai agir agora? Acha que desse jeito você vai conseguir agradar nosso filho?
— (Virando-se para Israel novamente) O que pensa que tá dizendo, Israel? Eu faço de tudo para que o Henrique tenha do bom e do melhor, mas você não perde a oportunidade de jogar tudo na minha cara, não é?
— Você tá maluca! Eu nunca joguei nada na tua cara, você tá enlouquecendo com toda essa história porque sabe que o nosso filho já tem 12 anos e há qualquer momento ele pode…
Tatiana lança o livro no rosto de Israel.
—… Cala essa boca seu inútil!
Tatiana se levanta da cama, empurra Israel para o canto e sai do quarto. Ele ainda impactado com a atitude da esposa vai atrás dela no corredor.
Henrique se assusta com os gritos e se levanta de sua cama e vai lentamente até a porta de seu quarto para ouvir a discussão dos pais.
Israel ainda seguindo Tatiana, agarra-a pelo braço puxando-a para sua direção.
— Escuta aqui, Tatiana!
— Me solta, Israel!
— Vou soltar o caramba, agora você vai me escutar!
— Se não me soltar, eu vou chamar a polícia.
— Vai lá, chama! Porque assim eu vou ter que contar pra polícia o que você fez. Aliás, o que nós fizemos. Já se esqueceu, Tati?
— Desgraçado! Você como esposo já era um merda, como pai você consegue ser desprezível.
— E você é a mamãe do ano, né? Vamos nos colocar numa balança, Tatiana. Vamos ver quem o Henrique prefere… Você ou eu!
Henrique fica extremamente chateado com toda a discussão que ouviu e sem fazer barulho, ele troca de roupa e coloca algumas roupas e acessórios dentro de uma mochila.
Cerca de 20 minutos depois, a discussão havia terminado e Henrique percebe que tudo ficou mais calmo e aproveita para sair pela janela do quarto andando pelo telhado até conseguir descer pela parede da varanda.
Ele foi chegando ao portão de sua casa, começa a escalá-lo e pula pelo muro. Ele olha para o interior de sua casa uma última vez e depois decide seguir o caminho.
Após alguns minutos, Henrique está no meio da rua e avista um caminhão no semáforo. Com medo de ser seguido por seus pais, ele sobe na parte traseira do veículo. O sinal abre, o caminhão segue o caminho e Henrique vai na traseira do mesmo sem saber o seu destino.
Agora…
Susana está impactada com o que Henrique acabara de dizer.
— Henrique, como você pôde ter feito isso, filho? E pra onde que você iria? E a essa hora da noite?
— Meus pais são uns chatos! Eu não aguentava mais!
— Não podemos ficar aqui, é perigoso. Espera um pouco!
Susana mexe nos bolsos e retira o seu celular.
— Ah! Ótimo! Droga! Tá com pouca bateria. Mas ainda tem sinal, bem pouco, mas tem.
— Vai ligar pros meus pais?
—Não, querido. (Discando o celular) Vai Alexandra, atende, por favor.
Em uma casa um pouco distante dali, um celular toca em cima de uma mesinha próxima à cama onde está deitada Alexandra, amiga de Susana, tem cabelos loiros e 38 anos de idade. Ao ver a chamada da amiga, ela se assusta, pega o celular, levanta da cama e atende:
— Susana?
— Ai graças a Deus você está acordada, Ale!
— O que houve, Susana? Já é quase 1 hora da manhã. O que tá acontecendo, amiga?
— Olha, amiga. Eu não vou ter tempo de explicar agora, mas eu preciso de ajuda.
— O quê? Ajuda? Eu, eu não estou entendendo.
— Aconteceu uma tragédia, Alexandra! Uma tragédia!
— Quê?
O esposo de Alexandra está na cama e a viu de pé falando ao celular.
— Amor, vem dormir! O que você tá fazendo de pé uma hora dessas?
— Volta a dormir, Pedro!
— Mas…
—… Volta a dormir agora!
Alexandra começa a ficar nervosa, amarra o cinto de sua camisola e sai do quarto.
Enquanto desce as escadas, ela continua a falar com Susana pelo celular.
— Escuta, Susana, eu estou muito, mas muito nervosa aqui. Então vai me explicando o que tá acontecendo agora.
— O Miguel tá preso, Alexandra!
— O quê? Como assim? Ele não pode estar preso!
— Sim, mas foi o que aconteceu. E pra piorar eu fui atrás dele juntamente com o Henrique, aquele garoto que trabalha no circo também. Eu me perdi no caminho e estava nervosa e acabei desviando o carro e caí numa ribanceira em uma floresta escura e horrorosa aqui, o meu carro bateu em uma árvore e ficou completamente destruído. Não tem como voltar, por isso eu preciso muito da tua ajuda.
— Meu Deus, Susana! Você tá bem? Se machucou?
— Por sorte estou bem, mas eu estou assustada, esse lugar é estranho e…
O celular de Susana começa a descarregar.
— Ah, mas que droga!
Do outro lado da linha, Alexandra estranha a ligação ter caído.
— Susana? Susana? Droga! E agora o que eu faço?
Alexandra começa a andar de um lado para o outro e começa a tremer de nervosa.
— Pensa, Alexandra! Pensa! O que eu vou fazer meu Deus?
Na floresta, Susana tenta ligar o celular novamente, mas já é tarde.
— Droga! Já era!
— É verdade, dona Susana? O Miguel tá preso?
— Sim, querido, ele tá preso.
— Mas por que ele tá preso? O Miguel não é mau.
— Eu sei… Mas agora nós precisamos de ajuda.
— Talvez possa pedir ajuda… Ali.
Henrique aponta o dedo para a parte mais profunda da floresta onde há uma cabana. Susana tenta olhar com mais clareza e não podia crer no que acabara de ver.
— Isso não pode ser possível, o que uma cabana faz ali no meio dessa floresta esquisita? E quem moraria num lugar como esses?
Delegacia de Polícia, 00:57.
A confusão havia cessado e o delegado Monteiro conversa com todos.
— Escutem, para o bem de todos vocês, é melhor que vocês vão embora. Vão pra casa e descansem, tivemos um dia muito longo! Já resolvemos o problema, o Miguel já está detido.
André: Mas o Miguel não fez isso, vocês estão acusando a pessoa errada.
Luíza: Claro que não foi ele, isso é um absurdo!
Monteiro: Bom… Saberemos em breve.
Na sala de interrogatório, Miguel está sentado sobre a mesa e suas mãos continuam algemadas, Eduardo e Isabelly estão ali para lhe fazer perguntas. Eduardo inicia o interrogatório.
— Tá Miguel, o que suponha que eu deva fazer?
— Como assim “O que eu deva fazer”? Sabe muito bem que eu seria incapaz de matar a Victoria, ela era a minha futura esposa.
Isabelly conclui:
— Miguel, encontraram as tuas digitais na arma do crime.
— Que arma? Que crime?
Eduardo pega a evidência da faca utilizada no crime que está dentro de um envelope plástico.
— Miguel… Você se lembra dessa faca?
— Bom, eu… Não sei, talvez eu deva ter visto. Por quê?
Isabelly responde:
— Porque foi com essa mesma faca que você cortou a corda do trapézio que a Victoria se apresentou e ainda amarrou um laço rosa pra disfarçar o corte.
Miguel sem saber de nada, questiona:
— Espera aí, laço rosa? Do que vocês estão falando?
Eduardo prossegue:
— Foi deixada uma carta para a Victoria no camarim minutos antes do acidente, na carta estava escrito “Rosa é a tua cor”. E coincidentemente existia um laço rosa amarrado na corda do trapézio, certamente aquela carta seria sugestiva pra que a Victoria a usasse.
Miguel se encontra confuso com tudo o que estão explicando, Isabelly prossegue:
— Foi deixada outra carta na noite anterior da morte dela. Você soube?
— Sim, a Victoria me mostrou essa carta, mas não dei muita importância. Só falei que deve ter sido um fã dela.
— Pois é, senhor Miguel de Paula, foi a partir desta carta que as coisas começaram a acontecer, em algum momento do dia você se infiltrou no circo sem que ninguém o visse, pegou esta faca e subiu no trapézio para cortar uma das cordas e amarrou o laço rosa. Depois você se deu o trabalho de escrever uma carta e deixar pro teu amigo André…
— … Pera aí o que o André tem a ver com isso?
— Ha! Ele disse que alguém que estava na multidão entregou esta carta a ele para que ele entregasse à Victoria antes dela ir ao picadeiro. E “coincidentemente” ela usa a mesma corda no qual estava escrito na carta.
— Olha, já chega! Eu não sei de onde tiraram todas essas coisas, mas é tudo mentira!
Eduardo sereno responde:
— Olha Miguel, a gente quer acreditar no que você diz, mas encontramos tuas digitais na faca, e isso já é prova o suficiente para deixarmos você sobre nossa custódia, sabe lá Deus por quanto tempo.
Miguel começa a pensar:
— Espera um pouco…
=FLASHBACK=
Circo MAXIMUS, 15 minutos antes da morte de Victoria.
Miguel mexe nas coisas de seu armário enquanto conversa.
— Ah cara, faz qualquer coisa aí, eu não vou ficar tomando conta desse coelho o tempo… (Miguel percebe um objeto diferente nas tuas coisas) Mas quem foi que colocou essa faquinha aqui nas minhas coisas?
Miguel segura a faca com cabo preto e mostra para os dois amigos.
Henrique: Nem olhe pra mim, eu não mexo nas tuas coisas.
André: Eu não mexo com facas.
Miguel: Estranho… Bom, depois eu vejo de quem é.
Ele volta a deixar o objeto no mesmo local.
André: Henrique, me passa aqui esse coelho, eu mesmo vou levar ao Edgar.
Henrique: Ótimo!
=FIM DE FLASHBACK=
Miguel chega a uma conclusão:
— Agora eu estou me lembrando. Essa faca estava no meu armário, eu havia perguntado para alguns dos meninos de quem era e ninguém sabia. Mas… Como ela foi parar no meu armário?
Isabelly o responde:
— É isso que queremos saber, Miguel. Muito estranho não acha? Olha Eduardo, eu vou ver se o Delegado está precisando de alguma coisa e depois eu volto.
— Tudo bem, nos vemos depois.
Isabelly se retira da sala e Eduardo continua frente a frente com Miguel.
— Então Miguel, eu quero te ajudar e vou te ajudar no que puder, mas preciso que confie em mim.
— Como quer que eu confie em você se não confia em mim?
— Não se preocupe, vai dar tudo certo. Fique aqui por enquanto, veremos o que vamos fazer.
Eduardo se levanta para sair da sala e Miguel questiona:
— Escuta, detetive. A minha mãe não apareceu por aqui?
— O quê? Tua mãe?
Na calada da madrugada, Susana e Henrique se aproximam da misteriosa cabana na floresta, tudo ali é sombrio e aterrador, ouve-se o som das corujas nas árvores. Susana investiga o local olhando pelo vidro da janela.
Ela tem uma visão bem limitada do que conseguia obter no momento e Henrique questiona:
— Será que devemos chamar?
— Mesmo se tiver alguém aqui, quem iria abrir a porta pra dois estranhos de madrugada?
Henrique mexendo na porta acaba girando o trinco e a abriu sem querer.
— Dona Susana, tá aberta.
— (Cochichando) Henrique? O que você fez? Tá ficando louco? A gente não pode entrar assim na casa dos outros.
— Mas não foi minha culpa, estava aberta.
— Mesmo assim… Ah meu Deus! Não acredito que estou fazendo isso.
Susana vai abrindo a porta junto com Henrique e entra na cabana vagarosamente.
— Olá! Me desculpa o incômodo, precisamos de ajuda!
Ninguém responde, ambos estão sentindo o silêncio gélido e terrível do local.
— Eu acho que não tem ninguém, Dona Susana.
— Não pode ser possível, como alguém deixaria uma cabana nesse estado por tanto tempo?
Henrique vai andando e tropeça nos pés da mesa.
— Ai!
— Henrique? Presta atenção, não faz barulho!
— Me desculpa, foi sem querer.
Susana anda pela cabana… É pequena, feita de madeira, aparenta ter uns 2 ou 3 cômodos, tem muita poeira e sai um odor forte de perto da pia. Susana enojada resmunga:
— Nossa! Como alguém pode deixar uma pia desse jeito?
— Dona Susana, eu achei uma coisa.
— O que foi?
— Olha isso.
Henrique encontra um lampião e entrega à Susana.
— Nossa! Um lampião? Quem usaria lampião em pleno século 21?
— E eu que nunca nem vi isso?
— Deixa eu ver se consigo acender… Droga! Henrique, você tem algum fósforo na tua mochila?
— Eu acho que tenho, na verdade eu tenho um isqueiro.
— Serve, me passa aqui.
Susana consegue acender o lampião.
— É, isso aqui vai nos ajudar a nos manter um pouco aquecidos e sem escuridão.
— Será que não tem ninguém aqui mesmo?
— Bom, a cabana é pequena, se tivesse alguém aqui já teria aparecido. Acho que seria melhor a gente passar a noite aqui, amanhã bem cedo a gente procura a estrada novamente e chegaremos na cidade.
— Tudo bem então.
Enquanto isso na delegacia, Eduardo estranha que Miguel tenha perguntado por sua mãe.
—Miguel, eu não conheço a tua mãe e se ela estava aqui, eu não prestei atenção.
— O nome dela é Susana, quando os policiais foram me prender, eles trataram ela muito mal e ainda a empurraram no chão.
— Que história é essa, Miguel? Eles não podem fazer isso! Empurrar a tua mãe?
— Mas foi o que fizeram, e ela ia vir pra delegacia logo em seguida.
— Bom, ninguém mais chegou depois que você foi trazido pra cá.
— Meus amigos ainda estão aí? Pergunta pra eles. Eles a conhece.
— Miguel, eu…
— … Por favor, detetive, eu não estou pedindo nada de mais, só pergunta para os meus amigos se ela apareceu e eu vou ficar tranquilo.
— Tudo bem, eu vou lá. Fique aqui.
— Como se eu tivesse alternativa de sair daqui.
Eduardo se retira da sala deixando Miguel pensativo.
Casa de Alexandra, 01h22 AM.
Sem que seu esposo visse, Alexandra veste seu casaco, pega as chaves do carro e sai de casa bem devagar para não fazer barulho. Ela abre as trancas do carro, entra no mesmo, coloca o cinto e em seguida segura firme no volante e pensa alto:
— Susana, espero que você tenha falado sério. Estou arriscando minha vida e meu casamento pra poder te ajudar.
Ela sai com o carro de sua casa, porém não tem ideia por onde iria começar a procurar por Susana.
Na cabana, Susana está olhando as coisas que Henrique trouxe na mochila e que poderia ser útil.
— Bom, essas coisas até que dão, é apenas uma noite. Biscoitos, bala de menta… E dinheiro? Você pegou?
— No bolso pequeno.
Susana abre o bolso pequeno e pega uma nota de 2 reais.
— Sério que você estava querendo fugir com apenas dois reais, Henrique?
— Eu precisava tentar né? Não dizem que quem acredita sempre alcança?
— Você é muito jovem pra se lembrar do trecho dessa música.
— Espera aí, isso é uma música?
— Sim, é uma música. Mas deixa pra lá, precisamos dormir e amanhã cedo vamos sair desse lugar. Ainda bem que aqui tem colchão, vou dar uma ajeitada nele pra a gente dormir, tudo bem pra você?
— Por mim tá tudo bem.
Na delegacia, uma boa parte da turma já havia saído, Eduardo consegue alcançar Luíza e André.
— Esperem um pouco, garotos!
Luíza: Detetive?
Eduardo: Preciso fazer uma pergunta a vocês. Por acaso a mãe do Miguel apareceu por aqui?
André: A dona Susana? Não, a gente teria visto ela não é, Luíza?
Luíza: Sim, ela não veio pra cá.
Eduardo: Estranho… O Miguel disse que assim que o abordaram ele em sua casa, ela iria vir pra cá no mesmo instante.
André: Mas já deveria ter dado tempo dela ter chegado aqui.
Eduardo: Escutem! Está tarde e eu vou levar vocês dois pra casa, mas antes quero que me mostrem onde fica a casa do Miguel, eu preciso falar com a mãe dele.
Luíza: Por mim está ótimo.
Eduardo: Vamos então.
Casa de Gardênia, 01:30 AM.
Gardênia não consegue dormir depois de todo o ocorrido e opta por ficar tricotando no sofá da sala. O celular dela toca, ela deixa o seu tricô de lado e atende a ligação.
— Alô? (Seu semblante muda) Eu não acredito que você está me ligando uma hora dessas pra choramingar… Mas é claro que eu sei! Eu estava lá e vi tudo acontecer… O quê? Enlouqueceu? Nem morta eu vou deixar que isso interfira nas minhas decisões.
Gardênia se levanta. Sua discussão por telefone começa a ficar mais intensa.
— Escuta aqui, tomamos uma decisão e agora não dá pra voltar atrás, eu assumi a minha responsabilidade e tá na hora de você assumir a tua. Eu não vou permitir que a morte da Victoria estrague tudo o que eu construí até aqui, não mesmo!
Na estrada, Alexandra está conduzindo o carro e diminui a velocidade quando chega à uma BR com uma floresta enorme pelos lados.
— Será que é aqui que a Susana estava falando? Mas como eu vou encontrar ela? Susana, cadê você?
Na cabana, Susana está terminando de forrar o colchão velho da cama com algumas roupas da mochila de Henrique. Este último se aproxima da janela e mira para o interior da floresta, Susana está de costas para ele ajeitando as coisas e Henrique começa a franzir a testa olhando para o lado de fora.
— Oh! Dona Susana!
— Sim, querido?
— A senhora disse que essa casa estava abandonada, né?
— Sim, é óbvio que está abandonada, querido.
— Bom, então eu acho que o dono acabou de chegar.
Henrique aponta o dedo no vidro da janela, Susana vira de frente e avista alguém vindo com uma tocha na mão no interior da floresta se aproximando da cabana.
— Droga! Abaixa Henrique! Sai da janela!
— O que a gente vai fazer?
Susana desliga o lampião e tenta espiar sem ser vista.
— Eu não sei, talvez ele só esteja de passagem.
A figura que está lá fora se aproxima cada vez mais e Susana percebe que é a cabana o seu destino.
— Droga! Ele tá vindo pra cá! Ele realmente é o dono da cabana.
— A gente pode falar que nos perdemos e encontramos essa casa.
— Não é tão fácil assim, Henrique. Imagina você chegar na tua casa quase 2 horas da manhã e encontrar dois estranhos se acomodando nela? Nunca!
— Ele tá vindo, Dona Susana, o que faremos?
— Precisamos nos esconder.
Muita tensão toma conta deles naquele momento, a figura que está lá fora parece ser um velho com roupas estranhas e tem uma enorme barba grisalha. Ele carrega algo nas mãos além da tocha e faltando poucos minutos pra ele adentrar à cabana, Susana teve uma ideia rápida.
— Rápido! Esconda-se debaixo da cama, pelo menos desse resto de cama.
— Ele vai ver o forro que fizemos no colchão.
— Então tira!
Henrique tira o forro que Susana fez, embola tudo e vai pra debaixo da cama velha de madeira. Susana se esconde debaixo da pia e teve que aguentar o odor horrível que está ali, um pano cobre toda a pia e Susana está bem escondida, da mesma forma que Henrique que também está escondido debaixo daquela cama velha e o colchão ajudou a camuflar ainda mais a sua presença ali.
Por fim, o homem misterioso chega à porta e a primeira coisa que fez foi pegar um pouco de água em uma garrafa e apaga o fogo da tocha, o outro objeto que ele carrega é nada menos que uma espingarda. Ele entra, momento de muita tensão e desespero para Henrique e Susana, eles não podem respirar, não se sabe do que este homem é capaz.
Henrique observa debaixo da cama apenas o calçado velho e sujo do homem que caminha pela casa até chegar próximo à mesa. Susana abre uma brecha do pano que cobre a pia e consegue ver claramente ele colocando a espingarda em cima da mesa.
Ela arregala os olhos e volta a se agachar novamente. O homem pega seu lampião, acende e começa a procurar coisas no armário velho, enquanto isso os dois não podiam mexer nenhum músculo, poderia ser fatal qualquer movimento brusco ali.
O homem sente uma leve pontada na barriga, deixa o lampião aceso ali na mesa e vai até o banheiro. Não tem porta no banheiro, apenas uma cortina… Susana e Henrique estão há um passo da porta principal, seria o momento perfeito para escaparem? Ou uma péssima ideia?
Susana aproveita a oportunidade e levanta o pano da pia e vai indo agachada bem lentamente até chegar próxima à cama onde está Henrique. É praticamente quarto/ sala/cozinha tudo no mesmo cômodo.
Susana olha pra debaixo da cama e sussurra:
— Henrique, ele tá no banheiro. Você quer vir?
— (Sussurrando igualmente) Será que vai dar?
— Precisamos tentar.
Quando Henrique se esforça pra tentar sair debaixo da cama, Susana ouve um barulho vindo do banheiro, ela se assusta e pede pra Henrique voltar.
— (Sussurrando) Droga, volta, volta!
Ela se arrasta até chegar debaixo da pia novamente bem na hora que o homem sai do banheiro. Por sorte ele não viu nada, mas… Poderiam eles se segurar por muito tempo sem ser vistos?
Enquanto isso, pelas ruas frias, Leandro já havia saído da delegacia e continua com o rosto machucado da briga que teve outrora. Ele está agasalhado e chega a um chafariz bem no centro da cidade. Ele olha para o relógio e parecia estar aguardando alguém em plena madrugada.
Uma figura sai de dentro das vielas e vai em direção a Leandro que se encontra de costas aguardando, ele virou-se para frente da figura e assustou-se.
— Nossa! Você quase me mata de susto! Até que fim você chegou! Precisamos ter uma longa conversa, e você sabe muito bem sobre o assunto que quero falar contigo.
Na casa de Susana e Miguel… Eduardo chega juntamente com André e Luíza para averiguar o local.
Luíza: Dona Susana! Dona Susana!
André: Dona Susana! Somos nós!
Eduardo: Como assim? Ela não tá em casa?
Luíza: Olha isso, André, ela deixou a porta da garagem aberta.
André: Mas… Como?
Todos entram pela entrada da garagem.
Luíza: O carro dela não tá aqui.
Eduardo: Então aconteceu alguma coisa, esperem um pouco.
Eduardo tira a arma de sua cintura e começa a vasculhar a casa.
— Senhora Susana! Aqui é o Detetive Eduardo, a senhora está bem?
André: Ela estava aqui há pouco tempo, tenho certeza.
Luíza: Gente, olha isso! Uma bandeja com café espalhada no chão.
Eduardo: Droga!
Enquanto observam a casa, ouve-se os gritos de alguém lá fora chamando por Susana. É Alexandra que chega ali com seu carro bastante nervosa.
— Susana, Susana, você tá aí?
Eduardo abre a porta da casa e intimida Alexandra:
— Parada aí! Mãos para cima!
— Não, espera! Por favor, não atira!
— Quem é você? O que faz na casa de Susana de Paula às 2 da manhã?
Luíza: Calma, detetive! Não precisa disso, creio que ela seja amiga da dona Susana, certo?
Alexandra: Sim, eu estou preocupada com ela.
André: Sabe onde ela está?
Alexandra: Ela me ligou faz quase uma hora dizendo que sofreu um acidente e estava perdida.
Eduardo: Quê? Como assim?
Alexandra: Eu saí na rua parecendo uma louca procurando ela e pensei em voltar aqui pra ver se ela poderia ter aparecido e pelo o que eu vi, ela não voltou.
Eduardo: Droga, se em 24 horas ela não aparecer… Teremos que registrar ocorrência como desaparecida.
Luíza: Meu Deus! O que tá acontecendo? O Miguel preso e a Dona Susana desaparecida! O que pode acontecer de pior?
Pobre Luíza, o pior ainda nem havia acontecido. Na cabana o homem misterioso já havia saído do banheiro e sentou-se sobre a cama, Henrique consegue observar os pés da figura e se esforça o máximo para nem ao menos respirar. O homem tira seu chapéu e o deixa cair no chão.
Henrique consegue ver o objeto caído e fecha seus olhos temendo de que o homem pudesse observar debaixo da cama ao apanhar o chapéu. Segundos de muita tensão, Susana espia pela brecha do pano debaixo da pia.
Por fim o homem apanha o chapéu sem ter notado nada embaixo da cama, na hora que ele se senta novamente seu olhar fita em um único alvo. Ele fica pensativo diante do que está vendo, na verdade é algo que não está em seu habitual, não faz parte de seus itens pessoais… E isto que ele acaba de ver é a mochila de Henrique no canto da janela.
Eles cometeram um grande erro em esquecê-la ali, o homem misterioso se levanta da cama lentamente, pega seu lampião em cima da mesa e se aproxima para verdadeiramente se certificar do objeto que está em sua frente. Susana consegue espiar pela brecha e seus olhos ficam enormes e quase lacrimejam ao ver a cena.
O homem pega a mochila e depois a deixa novamente no chão, ele começa a respirar bem fundo como se estivesse farejando algo. Ele olha para a sua cama e ao fitá-la, se aproxima lentamente da mesma. Henrique permanece imóvel, então o homem vai se aproximando da cama e fica segundos parado em pé na frente dela, Henrique só consegue ver os pés da figura e coloca sua mão na boca para conter sua respiração. Por sorte, o homem desvia o caminho como se tivesse ido ao banheiro, Henrique respira aliviado…
Até que o homem retira o colchão da cama bruscamente e viu Henrique lá em baixo, ele coloca as mãos por debaixo da cama e puxa Henrique pelos braços, o garoto começa a gritar sem parar.
— Ah! Me solta! Socorro! Me solta!
O homem segura Henrique bruscamente, então Susana sai debaixo da pia, pega uma panela que está em cima da mesma e acerta a cabeça do homem misterioso. Ele acaba soltando Henrique com o golpe que recebera. Susana o encara por segundos e fita seu olhar para a espingarda que está em cima da mesa, ele percebe o que ela quer e num impulso Susana corre pra cima da mesa pra tentar apanhar a espingarda.
O homem a puxa pela perna e ela derruba a espingarda no chão ao tentar apanhá-la. Ele a segura com toda força e Henrique fica em pé testemunhando a cena sem conseguir ter uma reação. Susana forcejando com o homem dá a ordem:
— Henrique, fuja! Fuja daqui agora!
— Mas e a senhora?
— Não se preocupa comigo, vai embora e não olhe pra trás. VAI!
Henrique sai correndo para fora da cabana e corre pela floresta sombria, ele entra as cegas em um local onde não tem certeza nenhuma se pode achar saída.
Henrique continua a correr, tropeça nos galhos caídos no chão e depois se levanta novamente para prosseguir o caminho sem olhar pra trás.
Ele chega até um determinado lugar e se detém por instantes, até que ele ouve de longe o tiro da espingarda vindo da cabana. Os pássaros sobrevoam enegrecendo o céu assustados com o estrondo.
Quem teria levado esse tiro?

Próximo Capítulo:
Sexta, 29 de Março.





