Às luzes solares invadiam o quarto de Pedro, quando ele acordou, espreguiçando-se entre os lençóis e cobertores de seda. Seu celular vibra em cima do criado-mudo e ele, com preguiça dosada a mau-humor, fecha sua cara na hora que ouve o toque do telefone, junto de um bico com sua boca.
Pega o aparelho, olha o visor e vê mais de 430 (Quatrocentos e trinta) mensagens de uma pessoa só. E adivinha quem era à pessoa? Danilo.
“Por favor, me responda. Preciso que fique em meu lugar e eu vou para outro. Não vou contar para ninguém. Você que sabe! “
Jogou o celular sobre à cama, se levantou e foi indo em direção ao banheiro, arrastando-se embebedado de sono. Lentamente, chegara ao local, então se viu refletido no enorme espelho que ficara acima da pia, logo abriu à torneira, juntou suas mãos, esperou acumular um pouco de água e jogou-a em seu rosto, já o deixando acordado.
Depois de lavar seu rosto, pegou sua escova e à pasta de dente, passou um pouco de pasta nas cerdas da escova de dentes, molhou-a na água corrente da torneira e a pôs em sua boca, fazendo movimentos circulares nos dentes e nas gengivas, limpando cáries e retirando minúsculos pedaços de comida entre os dentes.
Terminou de fazer aqueles movimentos, logo cuspiu no ralo da pia, ligou novamente à torneira, lavou sua escova, a pôs na caixinha secadora ao lado da pia de escovas e se encarou no espelho.
Viu seu corpo esbelto, pernas grossas e torneadas, cor branca bronzeada ao sol do Rio de Janeiro, na praia de Copacabana, sua barriga definida, distribuídas em oito gominhos volumosos, seu rosto quadrático, seus lábios grossos e rosados, seus olhos castanhos e seus cabelos de mesma cor, seus braços torneados, os músculos eretos e definidos, que exalava um cheiro de testosterona ao suar ou o seu cheiro natural e, por último, sua barba perfeitamente desenhada, combinando com seus olhos penetrantes, incrivelmente sedutores.
Se virou de lado, deixando suas nádegas expostas para o espelho e ele dando uma leve curvatura sobre seu corpo, deixando sua bunda mais empinada e um pouco mais grande do que já era.
Se olhou novamente ao espelho, vendo seu corpo totalmente definido, pronto para mais uma sedução de uma dama da noite para hoje.
Arrancou às peças de roupas que trajava em seu corpo, entrando logo em seguida debaixo do chuveiro elétrico, em que à água quente caía sobre o corpo, esquentando cada centímetro daquela pele, deixando-o mais relaxado.
Depois de lavar-se, refrescar-se e esquentar-se, desligou o aparelho de higiene, pegou sua toalha, enrolou-a sobre sua cintura e saiu do banheiro. Ao sair do local, foi direto ao seu closet, vestiu-se de uma calça jeans preta, uma camisa regata estampada com o rosto da Marilyn Monroe sorrindo, calçou o tênis da All star de cor azul e branca, pôs seu relógio, pegou carteira e celular, saindo em seguida para fora de seu quarto e indo à portaria de sua mansão, entrando em seu veículo, para andar e esfriar sua cabeça.
Tentar esquecer o que seu melhor amigo queria que ele fizesse.
Andou pelas avenidas movimentadas do Rio de Janeiro e nada de encontrar um local para descanso de sua mente.
Foi então que se lembrara daquele garoto e sua mãe, ambos asiáticos, à beira de uma represa calma, coberta pelas flores dos pés de cerejeiras ao redor delas.
― Quem era ele? ― perguntou a si mesmo. No fundo, sabia quem era, porém, mal sabia ele que em breve saberá quem é este garoto dos olhos “puxadinhos”.
Não sabia de onde estava indo, só queria ficar na sua e deixar à cabeça de Danilo esfriar e os dois voltarem a se falar. Deve ser coisa de uma bebida que deve ter mexido com a mente de seu amigo e ele ter falado aquilo.
Quem dera fosse aquilo.
Queria acreditar em todas às desculpas possíveis, contudo, os olhos de Danilo expressavam sua ansiedade de sair da gaiola, ser livre e não precisar ficar à vida toda atrás de uma mesa, administrando empresas e ficar casado, com filhos e mostrando ser um homem de negócios, bem-sucedido, bem casado com uma bela mulher, que não era.
Pedro, começou a pensar no que Danilo lhe propôs. Uma ideia estúpida que ele queria esquecer, acabou dele pensando na possibilidade de encontrar aquele garoto, saber como ele é, onde vive e conhece-lo mais a fundo. Sentia-se conectado com ele, de alguma forma, sabe que algo os ligam profundamente, podendo ser uma ligação de alma.
Depois de quase passar uma hora dirigindo seu veículo pelas às avenidas movimentadas, finalmente ele chega em seu apartamento no Leblon. Estaciona seu carro, pega o elevador de serviços e vai até o seu apartamento na cobertura.
Entra, tranca à porta e se joga ao sofá, colocando seu braço por cima de seus olhos e repousando sua cabeça ao travesseiro.
― Sabia que ia vir aqui. ― Danilo surge da suíte de seu amigo, encosta no batedor da porta, cruzando seus braços, encarando-o seriamente.
― Danilo, o que está fazendo aqui? Me deixa sozinho! ― ralhou, virando-se para o outro lado.
― Como? Você some e me deixa só lá na boate e quer que eu suma?! E você ainda não me respondeu se quer ou não, se passar por mim! Fala, porra! ― berrou, fazendo Pedro voltar-se a ele, se sentar ao sofá e o encará-lo.
― Que ideia de jerico é essa, Dani?! Está louco das ideias, cara?!
― Você não disse que quer aceitar se passar por mim! ― retrucou.
― Eu disse que não! Não! ― respondeu-o, negando mais uma vez aquela proposta.
― Cara, é a sua chance de conhecer o Japão e poder, finalmente, falar japonês e, talvez, até deixar umas japinhas com às xotas ardendo!
― Danilo, eu já disse que não! É crime se passar por outra pessoa!
― Mas, é crime amar alguém e não poder ter sua liberdade para poder amá-la, não poder curtir sua vida com ela, sem essa merda de administração de empresas e jantares de negócios? É crime querer curtir-se, curtir sua juventude, enquanto ela não acaba, vá ao ralo e eu não perceba à merda que eu fiz em minha vida?! É crime querer liberdade de si mesmo, dessa vida que eu vivo de máscaras, destas bostas de empresas que administro e de minha vida que não vale nada para meus pais, nem para meu próprio avô?! ― retrucou-o, quase implorando a Pedro.
Houve um silêncio aterrador sobre à sala.
― Por isso que não quero ir ao Japão, porque não quero participar de desafio nenhum. Quero somente experimentar o gosto de ar fresco, foder, beber e me torna um Danilo diferente. Não quero me torna um homem de negócios estúpido, babaca, cagão e velho tarado, igual ao meu avô. Quero envelhecer rico, com à vida ganha e não precisar de lábia. Pedro, faça isso e você será recompensado com minhas ações-majoritárias e, depois, pode administrar minhas empresas e curtir sua vida atrás de uma mesa. ― Ajoelhou-se, se aproximando dele, encostando suas mãos ao sofá e encarando-o nos olhos.
― Por que eu faria isso, Dani? Não quero estragar minha vida e nem quero estragar a sua, por causa de querer curtir sua vida adoidado. Quero continuar minha vida, do jeito que ela está. Vê se sai daqui e esquece disto. Não vou me arriscar a perder minha liberdade, a ser preso, por causa da sua. Dê seu jeito de ir lá e entregue sua cadeira e suas ações para outra pessoa. ― aconselhou-o, saindo logo em seguida ao seu quarto, batendo com força à porta e trancando-a.
Danilo, sentou-se ao sofá, pôs suas mãos entre os cabelos, esticando seus dedos entre as mechas negras, tentando analisar o que aconteceu e em como convencer seu melhor amigo que estava, praticamente, irreversível, melhor dizendo, empacou e não muda de ideia.
Levantou-se, se dirigiu à porta, a destrancou e foi embora.
Shiro se deitou em seu futon, rolou com dificuldade sobre ele e pôs o cobertor que sua mãe trouxe a pouco tempo, antes de se deitar.
Desligou à luz de seu abajur e, então, adormeceu rapidamente.
Foi então que entrou em seu mundinho de sonhos. Mas, agora estava em um sonho diferente. Nele, estava no mesmo parque que estava há algumas horas atrás, só que estava à beira da represa, sozinho, como se estivesse esperando chegar ou ele estivesse a procurar.
Olhou para à represa, viu que algumas folhas dos pés de cerejeiras caíam, levemente, sobre à água, provocando uma ondulação pequena na mesma.
Então, sentiu uma forte presença se aproximar. Olho para trás, girando sua cabeça e viu um homem somente de bermuda e camisa regata, olhar ao redor, não entendendo o porquê de estar ali e qual seu objetivo de estar mais uma vez naquele local, sem mesmo perceber.
O coração de Shiro acelerou ao encará-lo, olho a olho e sentir como se conhecesse a tempos. Então, numa atitude impensada ou não percebida por ele, sorri para o estranho homem com vestes tão estranhas de se usar num tempo frio e no meio das cerejeiras.
*****
Rio de Janeiro, RJ, BRASIL.
Rômulo havia conseguido o passaporte para viajar institucionalmente ao Japão para conversar com o governador a fim de acabar com a aposta entre Brasil e Japão. E também procurar por Satoshi, o grande amor de sua vida. Só não sabia que ele ERA FILHO DO GOVERNADOR MASUZOE!
Era uma ideia perfeita de encontra-lo na residência oficial e dar um fim na angústia que viva há dias. Ou ele voltava com o seu homem nipônico, ou ele voltava só.
Comprou a passagem e comunicou o governo de Tóquio de sua ida para tratar da aposta e cancelamento da mesma.
Ele era o responsável pela a família de Danilo, seu primo, de ir ao país e cancelar a aposta e resgatá-lo de lá.
Mas, porém, ele não sabia da missa à METADE!
Arrumou suas malas, trancou sua casa, saiu do residencial com uma frota de seguranças fazendo ronda para ele não correr quaisquer riscos de vida, foi até o aeroporto, pegou o avião da família, embarcou e decolou em menos de duas horas que havia saído de sua residência oficial.
Levou consigo, dentro de sua mala, as fotos que tiraram juntos e beijando-se em alguns pontos turísticos do Rio de Janeiro. A Lapa, o Corcovado, o Cristo Redentor, a Marquês de Sapucaí quando foram ver a escola de samba Beija-flor desfilar. Escola de samba de Nilópolis que é a paixão de Rômulo desde antes de nascer. Lembrou do primeiro beijo que deram. Foi uma noite em que foram para o Bar do minhoca, tiveram um encontro divertido e riram juntos nas apresentações de cada humorista no pequeno palco do bar. Depois de saírem do bar, foram num beco escuro onde ninguém os podiam ver e beijaram-se calidamente, sem carícias “mais quentes”.
Dois dias depois, por fim, consumaram aquela paixão ardente que os dois tinham.
E aconteceu tudo aquilo que já sabemos. Só não sabes do que ainda está por vir na vida de Rômulo e das reviravoltas que a história dele e de Satoshi pode dar.
Foram mais de doze horas de viagem, por fim, chegou na terra do sol nascente.
Desceu, foi recebido pelo o motorista particular do governador Masuzoe, acompanhou-o até o carro e foi até o prédio onde o homem que comandava a capital do país estava.
No caminho só pensava nos beijos que dava naquele homem e seu olhar perdia-se entre as paisagens, prédios, pessoas, parques, restaurantes, santuários e, finalmente, o prédio onde ele começar o “desfecho” da história.
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Orfanato de Jinoyama-Aiko
Enfim, Pedro conseguiu cortar o dinheiro que o lugar recebia. Por fim, só esperava os homens chegarem e o levar dali. Ficou o dia todo esperando, o outro dia e outro que se passou. Três dias e nada. Nada deles se comunicarem. Estaria ferrado.
Não tinha nenhum dinheiro. Nada.
Estava f******* da vida.





