Já era noite quando alguém tocou a campainha do apartamento de Yeda. Ela abriu a porta e deu de cara com Babemco. Tomou um susto, claro, mas não pode deixar de perguntar o que o homem fazia ali? 

— Eu vim em paz. Preciso conversar com você — ele declarou. 

Ela abriu a porta sem dizer nada e se afastou indo em direção à janela. O homem ficou em pé, aguardando o convite para sentar. Mas, ela agiu com indiferença como se torcesse para que a visita fosse a mais rápida possível. 

— Então, o que você quer? 

Ele cruza as mãos tentando passar um ar de serenidade. Ela cruza os braços mostrando que não está aberta ao diálogo. 

— Isso não é uma barganha. Não quero o seu favor. Mas, preciso fazer isso…  

— O quê? 

— Eu incluí o seu nome no meu testamento e antes que você fale qualquer coisa, eu vim pedir que aceite, por favor… 

Yeda sorri. 

— Você sabe que não vai dá, né?  

— Eu preciso saber que você vai ficar bem. Eu perdi um filho. Não posso deixar… — 

Yeda interrompe o magnata. — Para! Eu não sou… 

— Eu sou seu pai, Yeda. Quer você queira ou não! 

— Você não é meu pai. Você é meu genitor. Você só me gerou e nada mais! Quer que eu agradeça? Então, obrigada! Mais alguma coisa? — ela é seca. 

Babemco baixa a cabeça e suspira profundamente. Ele sente que esse relacionamento provavelmente nunca será estabelecido. 

— Eu vou morrer em pouco tempo… 

Yeda olha para o homem e um lapso de empatia surge, mas logo desvanece. 

— Esses são os laudos médicos. Eu tô com câncer terminal — ele entrega os exames para ela. 

Yeda pega aquilo e observa com um pouco de desinteresse. 

— Engraçado que eu não imaginei que fosse morrer assim aos poucos. Sempre achei que morreria como o meu pai. Isso é engraçado! Você sabe como o seu avô morreu? — ele questiona levantando a cabeça e encarando-a. 

Yeda dá as costas para Babemco. 

— Meu pai fabricava bombas caseiras. Ele passava horas e horas enfurnado na oficina montando toda aquela engrenagem pra construir um artefato, e o momento do dia que enfim eu podia vê-lo era quando ele saia para testar as bombas. Era um verdadeiro espetáculo. Eu não sei se o que eu mais gostava era de estar na companhia dele, ou de ver as explosões. Era tudo grande naquela época. Eu me sentia tão fraco e pequeno. Mas, eu sabia que meu pai controlava o fogo e isso me acalmava. Até que um dia uma das bombas disparou acidentalmente e arrancou metade da cabeça dele. Foi trágico, entrar na oficina e ver pedaços do cérebro caindo do teto. Foi assim que o seu avô morreu — finalizou com um suspiro. 

Yeda senta no sofá e liga uma luminária de porcelana que fica ao lado em cima de uma cômoda.  

— Não existe possibilidade. O caminho que você tomou nunca vai cruzar com o meu. Somos de mundos diferentes, de galáxias diferentes e a distância entre nós é incalculável. 

— Eu preciso tentar — ele diz, quase implorando. 

— Se vai servir para o pouco de consciência que você pensa ter, então saiba que eu não te culpo por nada, no sentido de ter me abandonado. Você carrega culpas maiores do que essa. 

— Eu vou recuperar a Prime e você pode ter uma parte em tudo isso… 

— Não! Eu já disse que não quero nada seu. Você não me deve nada e eu não estou precisando.  

Babemco observa a filha sendo iluminada pela luminária. Ela parece um anjo carregada de pureza e virtude, enquanto ele está mergulhado em trevas e rancor. 

— No fundo, querida, o que todos nós estamos procurando é preencher um vazio. Jade quer a família e acha que recuperando o filho vai ter isso. A Morgana perdeu o pai e esse buraco existencial está lá, ferido, doendo. Você descobriu que a família que pensava ter não existe e agora está perdida, sem saber que rumo tomar. E, eu. Eu perdi meu filho, minha única esperança, e agora tenho você para continuar minha história. Você não percebe que aquilo que não conseguimos decifrar, aquilo que é incompreensível, aquilo que é incognoscível só pode ser percebido com o coração? — Babemco fala, emotivo.  

— Que grande bosta! 

— Não! Estamos ligados por um desejo! O desejo de nos reconhecer no outro. De encontrar sentido nos nossos. De olhar para o pai, para o filho e reconhecer o reflexo da nossa própria existência. Essa é uma história de busca. A busca de si mesmo. Você não entende? 

— Eu acho que a doença pode ter afetado o seu cérebro. Eu não quero saber das suas teorias. O que eu quero é saber a verdade. 

— Que verdade? — ele pergunta, intrigado. 

— Você nunca pensou sobre a verdade? — ela levanta. 

— Existem muitas verdades, querida. 

— Isso não existe. A verdade é uma só! Não existem verdades. Ela é absoluta, saiba disso. A verdade é uma aqui e em qualquer lugar. Ela recai sobre todas as pessoas, sejam velhas ou novas, ricas ou pobres, boas ou ruins. Ela é luz e sempre aparece — Yeda segura a luminária. Babemco sorri. 

— Você viu o vídeo! — ele conclui. 

— “A verdade é luz, e a luz sempre aparece”, mas que besteira. Que discursinho tolo de se reconhecer no outro. Você não pensou que a verdade iria bater na sua porta quando meteu uma bala na testa da Helena? 

— Filha, eu… 

— Já te disse que não sou sua filha!!!!  

— Nesse momento eu estou como algoz. Eu sou sua carrasca e seu pior pesadelo. Você veio no lugar certo e na hora certa. Uma hora dessas o mundo deve estar iluminado — Yeda declara misteriosa. 

— O que você quer dizer com isso? 

Yeda liga a TV e o noticiário está destrinchando o vídeo de Babemco assassinando Helena. A manchete é a seguinte: Ex-CEO da Prime assassinou Helena Melo com um tiro à queima-roupa. 

Babemco vê aquilo e o pavor fica estampado em seu rosto. Yeda dá a volta e tranca a porta. 

— O que você tá fazendo? Quem publicou o vídeo? — ele pergunta desesperado e pegando o seu celular. 

Ela volta a ficar ao lado da luminária. 

— Quem você acha? 

Babemco cai em si e percebe a armadilha em que caiu. 

— Agora é a sua vez, Babemco… 

Ele tenta abrir a porta e fugir, mas Yeda se aproxima e saca uma algema. 

— Você vai comigo pra delegacia agora mesmo. Eu vou ter o maior prazer de te entregar em frente às câmeras. Eu quero que todos vejam a cara do assassino de Helena Melo! 

— Não faz isso, Yeda. 

— Eu não posso não fazer. Assim como está na sua natureza matar, está na minha fazer a coisa certa. Prender o criminoso. Exterminar o câncer da sociedade. Você de fato é um câncer, Babemco. Uma doença que precisa ser eliminada. 

Ao se aproximar do homem, Yeda é empurrada contra o sofá. A mulher reage pegando a luminária e estourando na cabeça do criminoso. Os dois entram em luta corporal.  

Babemco é grande e tenta imobilizar Yeda. 

— Eu não quero fazer isso! — ele diz, rangendo os dentes. 

Ela empurra o homem com as costas, mas ele dá uma chave de braço, enforcando-a. 

— Me solta seu desgraçado, maldito. 

Os dois caem sobre a mesa de centro quebrando o vidro que se espalha pelo chão. Ao se levantarem a luta continua e os móveis vão sendo atingidos um a um.  

A briga é voraz e intensa. Yeda grita e morde o dedo mindinho do homem, arrancando-o.  

Babemco urra de dor, enquanto esmurra o rosto de Yeda. Ela cospe sangue e sua vista fica embaçada.  

— Você não teve a quantidade de castigo. Eu vou te ensinar um pouco. Aprende com o papai — Babemco fala, enquanto o dedo espirra sangue sobre Yeda e ele tenta enforcá-la. 

A mulher chuta o saco do grandalhão, afastando-o imediatamente. Até que ela consegue pegar uma arma escondida na cômoda e mirar na cabeça dele. 

— Fica parado, ou então eu estouro sua cabeça, seu verme! — ela declara, ofegante. 

Babemco levanta as mãos, rendido. Yeda rapidamente o algema.  

— Tá na hora de pagar pelos crimes — ela abre a porta e sai encostando a arma nas costas do criminoso. — Anda! 

Yeda percorre os corredores do prédio guiando Babemco que está algemado. 

— Você vai se arrepender. Escuta o que eu tô te falando. Você já pensou que eu posso te reintegrar na polícia? Você pode ter muitas vantagens. Afinal de contas seu antigo pai faz tudo o que eu peço, você não percebeu? 

— Cala a merda da boca e continua andando. 

— Sua vida é uma mentira, Yeda. E seu pai sabe disso.  

— Mentira é o que te define. 

— É melhor me soltar agora. Eu vou ganhar mais uma vez, então desiste e me libera antes que as coisas piorem para o seu lado — ele diz ameaçador. 

Os dois saem do prédio e Yeda abre a porta traseira do seu carro. 

— Entra calado! — ela ordena.  

Babemco senta e o sangue em seu dedo continua escorrendo. 

— Você sabe que esse sangue também é seu, não sabe? — ele mostra as gotas que pingam do seu dedo decepado. 

— Isso importa pouco ou nada — ela declara, dando partida. — E só pra constar: eu não vou te entregar pra polícia local. Você vai pra Polícia Federal, seu assassino. 

Quando Yeda avança com o carro, uma pick-up vai em sua direção e colide lateralmente. O carro de Yeda é imprensado contra a parede. Ela fica presa. 

Capeto e Logan saltam da pick-up e correm para libertar Babemco. Yeda saca a arma e faz alguns disparos em direção aos homens, mas logo sua arma fica sem munição.  

Capeto se aproxima, saca sua pistola e mira na cabeça de Yeda. 

— É o fim, querida — ele diz, destravando a arma.  

Babemco grita de onde está e o seu grito ecoa por toda a rua: — NÃO! NÃO FAÇA ISSO! 

Capeto para e olha indignado para o chefe. 

— Para! — Babemco ordena mais uma vez. 

Yeda olha furiosa em direção ao criminoso. Ela está transtornada. 

— Mas, Babemco… — Capeto continua mirando para Yeda. 

— Ela não… 

Capeto guarda a pistola e olha para Yeda com desprezo.  

— Agradeça ao papai — ele diz. 

Ela simplesmente tenta sair do banco do motorista, mas não consegue. A porta amassada está prendendo sua perna. 

— Você não vai muito longe, Babemco. Seu tempo tá acabando. Eu espero que o câncer te consuma por inteiro, seu verme maldito — ela amaldiçoa. 

Os três homens entram na pick-up e Capeto dá partida fugindo com velocidade. Babemco agora é um foragido da polícia. 

** 

Enquanto isso, em seu apartamento, Bruno assiste às últimas notícias sobre o assassinato de Helena e o vídeo do Babemco. O Brasil parou para acompanhar o caso. A sociedade pernambucana está em choque. Ninguém consegue acreditar que Babemco, o grande empresário, filantropo e magnata do ramo da segurança privada possa ter cometido um crime tão hediondo. 

Bruno caminha de um lado para o outro, enquanto Marcelo termina de digitar em seu computador. 

— Você conseguiu rastrear a Morgana? — pergunta o advogado. 

— Ainda não, mas estou quase lá! — responde Marcelo, concentrado. 

— Essa história do vídeo do Babemco me deu uma ideia. Você ainda tem aqueles arquivos do caso. Eu lembro que a Jade estava sendo interrogada pela delegada Yeda. Ela era suspeita e tudo mais. 

Marcelo digita algo e consegue abrir o arquivo. 

— Não foi tão difícil. Você ainda é o advogado da Jade e tem acesso ao caso. 

Bruno se aproxima animado — É verdade! — ele diz, observando as investigações. 

— Quer dizer que a psicóloga conseguiu roubar meu vídeo. Ela só não sabe que eu tenho um arquivo que diz muito mais do que o assassinato da Helena. 

Marcelo toma um susto. Bruno toma o computador e abre alguns arquivos. Ele dá um play em vídeo de uma câmera externa. Nas imagens, é possível identificar Jade chegando na estação de rádio onde Helena foi assassinada. A mulher anda desconfiada e dá a volta no prédio, ficando de tocaia e observando tudo o que acontece no interior do prédio. 

Bruno sorri com o que vê. 

— O que tá acontecendo, Bruno? — Marcelo pergunta, confuso. 

— Eu preciso que você faça um favor — Bruno diz, enigmático. 

** 

No dia seguinte, a confusão continua. Os jornais chegam às bancas quentinhos. Os principais noticiários começam anunciando que existem novas revelações sobre o caso Helena Melo. Algo que vai chocar ainda mais do que o assassinato. 

As manchetes noticiam: JADE SOUZA É ACUSADA DE SER A MANDANTE DO ASSASSINATO DE HELENA. NOVOS VÍDEOS PUBLICADOS MOSTRAM A MULHER CHEGANDO AO LOCAL DO CRIME E TESTEMUNHANDO TUDO! 

É uma verdadeira bomba atômica. Todos ficam em choque. 

Brutus chega à casa de Jade às pressas.  

— Vamos rápido! — grita o hacker. 

Jade estava se arrumando quando o homem invade o seu quarto. 

— A polícia ta vindo! Precisamos fugir! — ele fala com urgência. 

— O que tá acontecendo, Brutus! 

— Você não viu as notícias? Estão te acusando de ser a mandante do assassinato da Helena. Tem um vídeo seu chegando na estação de rádio e assistindo tudo! 

— Isso só pode ser brincadeira! 

Brutus fica sério e diz de forma mais enfática: — Não é brincadeira, Jade! Eles estão falando que você planejou tudo pra ficar no lugar de Helena. Estão dizendo que foi uma disputa por poder! É melhor sairmos agora! 

Jade está chocada com a notícia. Ela mal consegue raciocinar com tudo o que está acontecendo. 

Ao sair na rua, ela dá de cara com Licurgo aguardando na sua caminhonete.  

— O que é isso? — ela pergunta para o fazendeiro. 

— Eu vim te ajudar! — Licurgo diz, encarando a amiga. 

— Eu não quero sua ajuda, seu traidor! — ela rebate. 

— Esse não é o momento, Jade! Vamos, eu preciso que você veja uma pessoa! 

— Eu não vou ver ninguém. 

— Vai sim. É o Lucas, ele voltou e precisa falar com você. É importante! — declara Licurgo. 

Jade tem outro choque. O Lucas?! Como assim ele voltou? 

Licurgo abre a porta do passageiro. — Entra logo. Não temos muito tempo. 

Jade dá a volta no carro e senta no banco do passageiro. Brutus vem logo em seguida. 

E agora, Jade é uma foragida. E o fim se aproxima. 

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