Balada para um Homem sem estrada

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Balada para um Homem sem estrada
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Balada para um Homem sem estrada

Escrito por: Marcos Vinicius "Velaryon"31/05/2026 - 19:00

FADE IN:

EXT. ESTRADA DESERTA – FIM DE TARDE

O céu está incendiado em tons de cobre e ferrugem. A estrada corta o nada como uma cicatriz antiga. O vento sopra lateral, levantando poeira e fazendo os postes vibrarem em um zumbido baixo.

O ronco do motor de uma motocicleta surge ao longe.

Não é apressado.

É constante.

Cansado.

A Harley estilizada e potente aparece na curva. Cromados opacos, farol amarelado, pintura marcada pelo tempo.

O MOTOQUEIRO – PILOTO (47) veste couro gasto, colete com um patch desbotado nas costas,onde se vê  o que parece ser um porco ou um javali. Um nome quase ilegível. Um emblema que já significou poder.

Ele reduz a velocidade.

À sua frente, um bar solitário. Fachada de madeira envelhecida. O letreiro de neon vermelho pisca irregularmente: BAR.

O motor silencia.

Só o vento.

O motoqueiro permanece parado por alguns segundos, ainda montado. Observa o lugar como quem reconhece um velho erro.

Ele desce da moto. As botas esmagam a brita. Passos firmes, mas lentos.

INT. BAR – CONTÍNUO

A porta se abre com um rangido arrastado.

O vento entra primeiro, espalhando um guardanapo pelo chão. Depois, ele, retirando agora o capacete envelhecido.

O bar é estreito. Luz amarelada. Garrafas empoeiradas. Um ventilador que gira preguiçoso no teto. Três mesas ocupadas.

As conversas continuam, mas os olhares mudam.

No balcão, o BARMAN, cinquenta e poucos anos, expressão neutra, limpa um copo com um pano gasto.

O motoqueiro se aproxima. Cabelos um tanto grisalhos e barba por fazer. Olhar duro e cansado.

BARMAN

O que vai beber, amigo?

MOTOQUEIRO

A garrafa.

O barman arqueia a sobrancelha.

BARMAN

Qual delas?

O motoqueiro encara as prateleiras atrás do barman.

MOTOQUEIRO

A que queima mais.

O barman pega uma garrafa de whisky barato. Coloca um copo ao lado.

BARMAN

Não costumo vender a

garrafa inteira assim.

O motoqueiro deposita notas amassadas sobre o balcão.

MOTOQUEIRO

Hoje você vai.

Silêncio. O barman aceita.

O motoqueiro pega a garrafa e o copo e caminha até a mesa do canto.

Larga o capacete no canto da mesa e a garrafa no centro com o copo. Senta.

Abre a tampa. O estalo ecoa seco.

Serve o primeiro copo.

Bebe.

MESA 1 – DOIS HOMENS DE MEIA-IDADE

Um deles, BIGODE, fala alto demais. O outro, MAGRO, apenas escuta.

BIGODE

Eu tô te falando, ela levou tudo. Tudo! Até o cachorro que nem gostava dela.

MAGRO

Tu traiu ela com a prima dela.

BIGODE

Foi um erro estratégico.

MAGRO

Erro estratégico é invadir país. Tu invadiu foi a família inteira.

Eles riem. O motoqueiro permanece imóvel.

MESA 2 – UM HOMEM MAIS VELHO, BONÉ SOVADO

Ele fala para ninguém em específico. Na sua frente dois homens que nem parecem muito interessados no assunto.

HOMEM DO BONÉ Trabalhei trinta anos na mesma oficina. Trinta. Aí o filho do dono assume e diz que quer “modernizar”.

Modernizar…

(risos secos)

Me modernizou foi pra rua.

Ninguém responde. Ele toma um gole de uma cerveja morna.

MESA 3 – UM JOVEM NERVOSO, OLHEIRAS FUNDAS

Ele gesticula com intensidade.

JOVEM

Eu ia embora daqui, cara. Eu ia pra capital. Tinha até passagem comprada. Mas aí minha mãe ficou doente…

(pausa)

A estrada sempre parece mais fácil quando não é você que fica.

O motoqueiro levanta levemente os olhos.

O jovem continua:

JOVEM (CONT’D) Às vezes eu acho que quem vai embora é mais covarde que quem fica.

Silêncio breve.

O ventilador range.

NA MESA DO CANTO, o motoqueiro serve mais whisky. Ele escuta tudo. Seus dedos apertam o copo com força.

O olhar vagueia pelo bar, até pousar em um piano encostado perto da parede, do outro lado.

A madeira está rachada. Há poeira acumulada sobre as teclas.

MESA 1

BIGODE

Sabe qual é o problema? Mulher gosta de promessa.

MAGRO

Não. Mulher gosta de homem que cumpre aquilo que falam.

O motoqueiro desvia o olhar.

MESA 2

HOMEM DO BONÉ No fim das contas, ninguém é insubstituível. (pausa)

Só a dívida.

Risos fracos.

MESA 3

JOVEM

Se eu fosse embora… você acha que alguém sentiria falta?

O silêncio pesa. Ninguém responde de imediato.

CLOSE no rosto do motoqueiro. Um micro movimento em sua mandíbula. Ele serve mais um copo, mas desta vez não bebe de imediato. Olha novamente para o piano.

O som das conversas começa a ficar levemente abafado, como se estivéssemos entrando na percepção dele.

BARMAN (O.S.)

Ele ainda funciona, às vezes.

O motoqueiro ergue os olhos.

MOTOQUEIRO O quê?

BARMAN

O piano. Depende do dia.

O motoqueiro encara o instrumento. Depois encara o copo.

E então, pela primeira vez, vemos algo diferente em seus olhos.

Não é tristeza.

É decisão.

CORTA PARA:

INT. BAR – NOITE

O azul da noite invade o bar pelas frestas da janela. O neon vermelho do lado de fora pisca irregular, tingindo o ambiente com pulsos intermitentes de luz.

O motoqueiro está diante do piano. A garrafa repousa ao lado, metade vazia. Ele se senta em frente ao instrumento.

Os clientes observam.

O barman está encostado no balcão com os braços cruzados.

O motoqueiro passa os dedos pelas teclas. Limpa a poeira com a própria palma. Respira fundo.

A primeira sequência de notas surge. Reconhecível. Lenta. Transformada para piano.

Um arpejo simples.

Ele começa a cantar.

MOTOQUEIRO

(rouco, firme)

“It’s all the same… only the names will change…”

Corte rápido para:

— BIGODE parando de rir;

— O HOMEM DO BONÉ levantando o olhar;

— O JOVEM prendendo a respiração.

De volta ao motoqueiro.

MOTOQUEIRO (CONT’D) “Every day… it seems we’re wasting away…”

CAM circula lentamente. O piano soa mais profundo agora.

O neon pulsa.

Ele fecha os olhos e continua.

MOTOQUEIRO (CONT’D) “I’m a cowboy… on a steel horse I ride…”

FLASH RÁPIDO:

— Estrada noturna;

— Um grupo de motos acelerando lado a lado;

— Os faróis cortando a escuridão.

DE VOLTA AO BAR.

Ele canta com mais intensidade.

MOTOQUEIRO (CONT’D)

“I’m wanted… dead or alive…”

O acorde ecoa.

O barman observa com atenção diferente agora. Não é apenas um cliente qualquer.

BARMAN

(baixo, para si) Então é isso…

MESA DO JOVEM

Os olhos dele brilham, quase marejados.

JOVEM

(sussurrando) Ele viveu isso.

O motoqueiro continua. A música ganha corpo. O ritmo cresce. Ele bate levemente o pé no chão acompanhando o tempo.

MOTOQUEIRO

“Sometimes I sleep… sometimes it’s not for days…”

O HOMEM DO BONÉ aperta a garrafa.

HOMEM DO BONÉ Tem gente que nunca aprende a parar.

CAM alterna entre o rosto do motoqueiro e as reações.

O couro do colete brilha sob a luz intermitente. O patch nas costas parece mais pesado agora. O porco ou javali, parece ganhar vida.

Ele canta o refrão novamente, mais baixo, quase como confissão:

MOTOQUEIRO

(quase falhando)

“I’m a cowboy… on a steel horse I ride…”

A voz arranha.

Ele respira.

Olha rapidamente para o nada, como se enxergasse algo além das paredes. Termina com:

MOTOQUEIRO (CONT’D)

“Wanted… dead or alive…”

O último acorde ressoa.

Silêncio.

O ventilador gira.

Ninguém aplaude.

Mas ninguém desvia o olhar.

O motoqueiro mantém as mãos sobre as teclas por alguns segundos a mais.

Então pega a garrafa.

Bebe.

Sem quebrar o clima, ele começa a tocar outra sequência, mais lenta, mais profunda.

A noite apenas começou. CORTA LENTO PARA PRETO:

INT. BAR – NOITE AVANÇANDO

A garrafa agora está quase na metade.

O motoqueiro permanece ao piano. Ombros um pouco mais soltos. Olhos mais úmidos. Interrompe o que iniciara tocando.

Ele bebe direto do gargalo.

O neon vermelho pulsa pela janela. O bar parece menor. Mais íntimo. Mais pesado.

Ele testa duas notas suaves. Não há força agora. Só delicadeza.

No balcão, Bigode se aproxima do barman.

BIGODE

(baixo)

Você conhece ele?

O barman não tira os olhos do motoqueiro.

BARMAN

Conhecer é uma palavra grande.

BIGODE

Já viu ele antes?

BARMAN

Homens como ele… eu já vi muitos.

BIGODE

Mas ele. Sabe de onde veio?

O barman dá de ombros.

BARMAN Da estrada.

BIGODE

E pra onde será que ele vai?

O barman olha para a garrafa quase vazia.

BARMAN

Depende do quanto restar ali.

CLOSE no motoqueiro.

Ele começa a tocar os primeiros acordes de “Angie”. Mais lentos que o original. Mais espaçados.

O piano ecoa pelo bar como se cada nota tivesse um peso.

Ele fecha os olhos.

MOTOQUEIRO

(baixo, rouco)

“Angie… Angie…”

MONTAGEM:

— O JOVEM abaixando o olhar;

— O HOMEM DO BONÉ prendendo a respiração; — BIGODE silenciando.

MOTOQUEIRO (CONT’D) “When will those clouds all disappear…”

FLASH RÁPIDO:

— Uma mulher sorrindo sob a luz de um pôr do sol;

— Mãos se soltando;

— Uma porta fechando.

DE VOLTA AO BAR.

O barman observa atentamente.

BIGODE

(sussurrando)

Ele perdeu alguém.

BARMAN

Todo mundo que está aqui, perdeu.

O motoqueiro continua.

MOTOQUEIRO

“Angie… where will it lead us from here…”

Sua voz falha levemente no final do verso.

Ele respira fundo. Bebe mais um gole.

Retoma.

MOTOQUEIRO (CONT’D) “With no lovin’ in our souls… and no money in our coats…”

CAM se aproxima das suas mãos, dos dedos pesados, mas precisos.

O neon pisca.

O ventilador range.

BIGODE

Ele é de algum clube?

O barman olha discretamente para o patch nas costas do colete.

BARMAN

Já foi de alguma coisa.

BIGODE É perigoso?

O barman pensa por um segundo.

BARMAN Hoje?

(pausa)

Só parece cansado.

A música cresce levemente.

MOTOQUEIRO

(quase sussurrando) “Angie… don’t you weep…” Um silêncio emocional toma conta do bar.

O JOVEM limpa discretamente os olhos.

O HOMEM DO BONÉ encara a própria cerveja.

O motoqueiro termina o trecho com um acorde longo, sustentado.

A nota vibra, mas ele permanece imóvel por alguns segundos.

Depois encosta a testa nas próprias mãos, ainda sobre as teclas.

Respira.

Não chora. Mas quase.

NO BALCÃO

BIGODE

(baixo)

Talvez ele esteja voltando.

BARMAN

Ou talvez ele esteja se despedindo.

O motoqueiro ergue lentamente a cabeça. Olha para a garrafa. Olha para as teclas.

Então começa um novo acorde em um tom mais grave. Mais sombrio.

A noite aprofunda.

CORTA PARA:

INT. BAR – NOITE PROFUNDA

Silêncio por longos segundos, que parecem intermináveis. Ninguém fala. Ninguém canta. Apenas homens quietos com suas bebidas.

O neon vermelho pulsa pela janela, intermitente, quase respirando junto com o ambiente.

O motoqueiro permanece imóvel diante do piano. A garrafa está ao lado, quase vazia, apenas um resto âmbar no fundo.

Ele encara o vidro por alguns segundos.

Depois pega a garrafa.

Levanta-se.

O banco range alto no silêncio.

Todos acompanham com os olhos.

TRAVELLING LENTO

Ele caminha até o balcão. As botas marcam o assoalho antigo. O som parece mais alto agora.

BIGODE se afasta ligeiramente para dar espaço.

O BARMAN o encara.

O motoqueiro coloca a garrafa vazia sobre o balcão. O vidro faz um som seco ao tocar a madeira. Ele apoia as duas mãos no balcão. Olha ao redor.

Todos estão atentos.

Ele fala firme, mas sem agressividade.

MOTOQUEIRO

Parece que todos estão gostando.

O BARMAN não responde de imediato.

MOTOQUEIRO (CONT’D) Eu continuo… se tu me der mais uma garrafa.

Silêncio.

BIGODE olha para o BARMAN.

O JOVEM prende o ar.

O HOMEM DO BONÉ observa como quem assiste a algo maior que entretenimento.

O BARMAN pega outra garrafa da prateleira. Coloca sobre o balcão. Mas mantém a mão sobre ela.

BARMAN

E se eu disser que não?

O motoqueiro sustenta o olhar. Não há ameaça. Apenas verdade.

MOTOQUEIRO

Então a música acaba agora.

O BARMAN solta a garrafa. Empurra-a na direção dele.

BARMAN

Eu não gosto de música pela metade. Não no meu bar.

O motoqueiro pega a garrafa. Sem sorrir. Sem agradecer.

Mas há algo nos seus olhos. Um respeito difícil de se ver naquelas regiões.

Ele vira-se.

MONTAGEM – CAMINHO DE VOLTA AO PIANO

— O JOVEM acompanhando com admiração;

— BIGODE cruzando os braços, intrigado;

— O HOMEM DO BONÉ ajeitando o boné, pensativo;

— O neon piscando lá fora;

— A sombra do motoqueiro projetada longa na parede.

Ele senta novamente diante do piano. Coloca a nova garrafa ao lado. Abre.

O estalo da tampa ecoa como se fosse um ponto de partida.

Ele bebe direto do gargalo. Respira fundo. Seus dedos repousam sobre as teclas.

As primeiras notas de “Simple Man” surgem lentas, profundas, como se estivessem adaptadas ao piano. Soam mais suaves que a versão original. Mais íntimas.

Ele começa a cantar.

MOTOQUEIRO

(grave, contido)

“Mama told me… when I was young…”

FLASH RÁPIDO:

— Uma cozinha simples;

— Uma mulher mais velha sorrindo;

— Um garoto pequeno segurando um capacete grande demais.

DE VOLTA AO BAR.

MOTOQUEIRO (CONT’D)

“Come sit beside me… my only son…”

A sua voz treme levemente.

O JOVEM fecha os olhos, absorvendo cada palavra cantada.

MOTOQUEIRO (CONT’D)

“Be a simple kind of man…”

O HOMEM DO BONÉ engole em seco.

MOTOQUEIRO (CONT’D) “Be something you love and understand…”

CLOSE nas mãos dele, os dedos firmes, mas marcados por cicatrizes antigas.

O piano agora soa mais quente.

O BARMAN observa com atenção diferente, não como um comerciante, mas como testemunha,como um telespectador.

MOTOQUEIRO  (CONT’D)

(quase um sussurro)

“Forget your lust… for the rich man’s gold…”

Ele abre os olhos. Olha para o próprio reflexo no metal da moto visível pela janela.

MOTOQUEIRO (CONT’D) “All that you need… is in your soul…”

O acorde final do trecho ecoa com uma certa profundidade. Silêncio novamente. Mas não vazio.

O bar inteiro respira junto com ele, enquanto ele leva a garrafa aos lábios novamente.

Bebe.

Sem quebrar o clima, seus dedos descem para notas mais graves, um prenúncio de algo mais sombrio que está por vir.

A noite não terminou. E ainda há música para cantar.

CORTE LENTO PARA PRETO:

INT. BAR – MADRUGADA

O bar permanece em silêncio absoluto. O neon lá fora pulsa mais lento agora, ou talvez seja apenas impressão.

O motoqueiro permanece sentado. Imóvel.

Uma lágrima contida brilha no canto do seu olho. Ele não a enxuga. Ela apenas escorre, discreta, misturando-se à barba grisalha.

Todos percebem.

O JOVEM aperta as próprias mãos.

BIGODE não sustenta o olhar.

O HOMEM DO BONÉ fixa os olhos no chão.

O BARMAN observa como quem sabe que algo está para acontecer.

O motoqueiro pega a garrafa. Bebe. Longo gole desta vez. O líquido desce como se fosse um último combustível. Ele encara as teclas.

Silêncio.

Então, um sorriso quase imperceptível. Pequeno. Íntimo. Mas não é alegria. É aceitação.

Ele posiciona os dedos. Uma primeira nota. Grave. Espaçada.

A introdução de “Hurt” começa lenta, minimalista, com cada tecla ecoando no vazio do bar.

MOTOQUEIRO

(baixo, rouco)

“I hurt myself today…”

CLOSE nos olhos dele.

FLASH:

— Uma briga;

— Punhos ensanguentados;

— Um homem caído no chão.

DE VOLTA AO BAR.

MOTOQUEIRO (CONT’D)

“To see if I still feel…”

O HOMEM DO BONÉ fecha os olhos.

MOTOQUEIRO (CONT’D) “I focus on the pain… the only thing that’s real…”

FLASH:

— Estrada à noite;

— Sirenes distantes;

— Um retrovisor refletindo luz vermelha. O neon do bar pisca forte.

MOTOQUEIRO (CONT’D) “What have I become… my sweetest friend…”

FLASH:

— A mulher de antes, de costas, indo embora; — A porta fechando lentamente.

O JOVEM agora está visivelmente emocionado.

Levemente a música parece crescer.

O piano soa mais pesado.

MOTOQUEIRO (CONT’D) “Everyone I know… goes away in the end…” BIGODE abaixa a cabeça.

O BARMAN engole em seco.

O motoqueiro respira fundo.

A sua voz falha levemente, mas ele continua.

MOTOQUEIRO (CONT’D) “You could have it all… my empire of dirt…”

FLASH:

— Motos enfileiradas;

— Risadas altas;

— Um símbolo de clube em chamas.

DE VOLTA AO BAR.

O bar parece agora um confessionário.

MOTOQUEIRO  (CONT’D)

(mais fraco)

“I will let you down… I will make you hurt…”

Suas lágrimas agora escorrem livres. Ele não para.

CAM se aproxima lentamente, enquanto seus dedos continuam à tocar.

Ele respira com dificuldade, mas segue.

MOTOQUEIRO (CONT’D) “If I could start again… a million miles away…”

A voz quase não sai. Os dedos tremem.

O JOVEM dá um passo à frente, instintivamente.

MOTOQUEIRO  (CONT’D)

(quase sussurrando)

“I would keep myself…”

O acorde seguinte demora a vir. Ele força os dedos.

MOTOQUEIRO (CONT’D)

“I would find a way…”

É a última frase. Ele não consegue mais continuar. A sua voz se quebra. Os seus dedos tentam alcançar o acorde final…

…FALHAM.

Um som distinto e alto ecoa quando sua mão escorrega pelas teclas.

Então este é 0 único SOM que o bar inteiro escuta, até que tudo SILENCIA.

O corpo do motoqueiro inclina-se lentamente para frente.

A sua testa encosta no piano e um  acorde involuntário soa sob o peso.

E então, ele fica imóvel.

CORTES BRUSCOS:

– O neon continua piscando;

– O ventilador girando;

– Uma pedra de gelo em um copo de vidro sobre o balcão.

Ninguém se move por alguns segundos, que parecem novamente, intermináveis.

O BARMAN dá a volta no balcão. Aproxima-se devagar. Toca o ombro do motoqueiro.

Não há reação alguma.

Silêncio absoluto.

JOVEM Ele…?

O BARMAN observa, sério.

BARMAN A estrada acabou.

CÂMERA LENTA afastando-se do bar.

Pela janela, vemos a moto estacionada sob o letreiro vermelho piscando.

O som distante da última nota ainda ecoa pelo ar.

FADE OUT.

TELA PRETA, onde SURGEM OS CARACTERES:

“Quando a estrada termina, só a música permanece.”

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  • ABSOLUTE CINEMA! Só por esse conto eu já senti um gostinho de como será Lobos de Aço. Parabéns, meu amigo! Amei toda a ambientação, a estética, os diálogos, tudo tão orgânico, poético, fiquei vidrado no texto.

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