Curitiba, capital do estado do Paraná. 2010
CENA 01: CLÍNICA DO DR. VITOR SABOIA, INTERIOR, DIA.
Luiza e Miguel estão aguardando na recepção, para saber informações sobre o tratamento de fertilização.
SECRETARIA – Olá, bom dia!
LUIZA – Bom dia! Temos hora marcada com o Dr. Vitor.
SECRETARIA – Ah perfeito. Nome completo de vocês, por gentileza.
LUIZA – Luiza e Miguel do Amaral.
A secretaria pega alguns papéis e coloca na bancada em direção a Luiza e Miguel.
SECRETARIA – Vou pedir para que vocês preencham esse formulário. Assim que finalizar, é só entregar e aguardar serem chamados.
Miguel coloca sua mão sob as mãos de Luiza.
MIGUEL – Está nervosa?
LUIZA – Um pouco. Não sei o que esperar. E se a resposta for negativa?
MIGUEL – Meu amor, fique tranquila. Vai dar tudo certo. Estou aqui com você.
A secretaria chama por Luiza e Miguel, os direcionando para sala do Dr. Vitor.
VITOR – Olá, bom dia! E então, em que posso ajudá-los?
LUIZA – Bom, nós estamos casados há cinco anos e já estamos querendo ter um filho há algum tempo, mas não conseguimos.
MIGUEL – Tentamos de todas as formas, mas não deu certo. Fizemos testes para saber se um de nós era infértil, mas não há problema algum quanto a isso.
VITOR – Há quanto tempo exatamente vocês estão tentando engravidar?
LUIZA – Mais ou menos, 1 ano, Doutor.
VITOR – É um tempo considerável. E quais exames vocês realizaram?
MIGUEL – Ultrassom, avaliação hormonal, espermograma, avaliação das tubas pela histerossalpingografia, HIV, hepatite B e C, HTLV, sífilis e rubéola.
VITOR – Muito bem, todos os exames que eu precisava. Eu vou analisá-los, mas se não houver nenhuma alteração ou nenhum problema com a fertilidade de vocês, nós poderemos sim realizar um tratamento para a fertilização in vitro. Brevemente, esse processo inicia-se com a coleta das células responsáveis pela formação de um embrião, os gametas. Neste caso, o sêmen e o óvulo. Eu irei fecundar o óvulo com o sêmen e será necessário aguardar de três a cinco dias para implantar no útero e esperar que a gestação siga naturalmente.
LUIZA – Nossa, mas é tão rápido assim? Pensei que demorasse mais dias!
MIGUEL – E nós vamos coletar as células hoje, Doutor?
VITOR – Calma meu rapaz, primeiro eu preciso analisar os exames que vocês trouxeram. Vocês marquem com a minha secretária para vir se consultar comigo na próxima semana, eu direi se vocês poderão fazer a fertilização in vitro e aí sim nós coletaremos.
LUIZA – Dr. Vitor, muito obrigado mesmo! O senhor não sabe como me deixa feliz, me abriu uma esperança. Eu sonho no dia em que eu estarei com meu filho crescendo na minha barriga, vai ser o dia mais feliz da minha vida!
Vitor compreende e Miguel sorri, dando um selinho na esposa, pois é seu sonho ser pai também.
CENA 02: MANSÃO DA FAMÍLIA AMORIM, INTERIOR, DIA.
Marina e Ivan estão tomando café da manhã na mansão. Olga, a empregada da família, traz da cozinha mais alimentos para pôr na mesa.
MARINA – Amor, o que você achou da namorada do nosso filho?
IVAN – O João nos apresentou ela ontem, eu não sei muito sobre ela ainda, mas me agradou o pouco que sei. É uma menina simpática e determinada, além de bonita.
MARINA – Tive as mesmas conclusões. A Clara me parece à mulher certa para o João, os dois se dão super bem. Mas é estranho a gente saber que nosso bebê trouxe uma mulher pra dormir com ele em casa…
IVAN – Bebê? Ora, que isso, o João já tem 20 anos, tá na hora mesmo de engrenar num namoro sério. A época da farra já foi e nós sabemos bem que ele aproveitou.
Marina sorri e toma um gole de café. Logo, eles ouvem passos na escadaria da mansão e supõem que sejam João e Clara, dando por encerrado aquele assunto. O casal chega à mesa e sentam-se.
CLARA – Bom dia a todos!
MARINA/IVAN – Bom dia!
JOÃO – Olga, você é um anjo, fez o meu bolo preferido!
OLGA – Que isso, Seu João, eu fiz porque era um dia especial, afinal, iríamos conhecer a moça que encantou seu coração!
João e Clara sorriem e ele corta um pedaço do bolo de cenoura com cobertura de chocolate para ambos.
MARINA – Bom, Clara, eu e o Ivan gostaríamos de dizer que estamos felizes pelo namoro do meu filho contigo. Você nos passou uma ótima impressão, desejamos que sejam felizes!
CLARA – Muito obrigada, Dona Marina. Eu também gostei muito da senhora e do Seu Ivan. Eu e o João já somos muito felizes e, se Deus quiser, seremos mais ainda!
João sorri e dá um selinho em Clara. Todos seguem tomando o café e conversando.
CENA 03: CASA DA FAMÍLIA AMARAL, INTERIOR, DIA.
No subúrbio de Curitiba, mora numa casa muito simples a família AMARAL. Luiza e Miguel explicam a Dona Cecília como foi a consulta com o geneticista.
CECÍLIA – Então o tal médico ficou de dar uma resposta na próxima semana?
LUIZA – Isso mesmo, mãe. A gente marcou a consulta pra segunda-feira. Estou morrendo de ansiedade pra saber se, finalmente, vou conseguir ser mãe!
CECÍLIA – Luiza, você não acha isso esquisito?… Depender de um médico ler uma papelada pra saber se pode ou não fazer um filho. Na minha época não era assim.
MIGUEL – Veja bem dona Cecília, a senhora sabe como eu e a Luiza tentamos por muito tempo engravidar naturalmente e não conseguimos. O jeito foi recorrer à reprodução assistida, muitas pessoas fazem isso no mundo inteiro.
CECÍLIA – Eu sei, mas eu acho esquisito. Na minha época, era pá, pá, pá e pronto, ficava grávida, não tinha essa lenga lenga de hoje. Eu vou pro tanque porque tem uma pilha de roupa pra lavar, dá licença!
Luiza e Miguel riem das palavras de Cecília, que vai pro quintal lavar a roupa no tanque de cimento. Na sala, Luiza pega a mão de Miguel e põem em seu ventre.
LUIZA – Já pensou daqui alguns dias o nosso filho crescendo aqui dentro?
MIGUEL – Vai ser lindo! Mas devemos pôr os pés no chão também, talvez a gente não consiga realizar esse sonho.
LUIZA – Não diga isso! Nós estamos com a saúde boa, vamos conseguir sim ter o nosso tão sonhado filho.
MIGUEL – Deus te ouça, Luiza! Agora, eu quero falar sobre outra coisa com você!
LUIZA – É? Sobre o quê, meu amor?
MIGUEL – Hoje eu quero você lindíssima à noite! Nós vamos comemorar em grande estilo os nossos cinco anos de casamento.
LUIZA – Miguel, eu achei que você tinha se esquecido que hoje era o nosso aniversário de casamento! Todos os anos você lembra quando acorda, mas hoje não.
MIGUEL – Quis te deixar apreensiva, sua boba! Estou preparando uma surpresa ótima pra você, espero que goste!
LUIZA – E o que eu não gosto em você, Miguel?
Ele sorri e Luiza o beija intensamente, felizes com a data especial.
CENA 04: ASSOCIAÇÃO PARANAENSE DE APOIO À CRIANÇA COM NEOPLASIA (APACN), INTERIOR, TARDE.
No quarto, várias crianças de 4 a 8 anos se encontram deitadas em suas macas, com máscaras e ligadas a soro fisiológico. Algumas enfermeiras estão na sala. Logo, a porta se abre e uma turma de palhaços entra. Um dos palhaços é João, que fundou com seus amigos o grupo voluntário Pingo de Afeto. Esse grupo faz ações recreativas dentro de instituições de caridade, hospitais, asilos, creches, escolas e ginásios, tudo sem cobrar nada, apenas pelo prazer de fazer as pessoas mais felizes com um humor simples. João aproxima-se da maca de uma das crianças e faz várias bolhas de sabão sob ela, além de diversas caretas e cócegas. Seus colegas fazem palhaçadas para outras crianças, que tem um momento de felicidade em meio à dura batalha de ter câncer na infância.
CENA 05: MANSÃO DA FAMÍLIA AMORIM, INTERIOR, TARDE.
Olga está varrendo o chão da sala da mansão e se espanta ao ver João entrar vestido de palhaço.
OLGA – Que isso, menino? Vestido assim outra vez?
JOÃO – Eu fui na APACN hoje, fazia tanto tempo que não ia lá! Foi lindo ver aquelas crianças, Olga.
OLGA – É, mas se a tua mãe te vê vestido desse jeito na hora em que você devia estar na faculdade, ela é capaz de ter um treco! Você lembra como foi a última vez que a isso aconteceu?
João ignora e sobe as escandas, indo ao seu quarto. Olga volta a varrer, mas logo para com a entrada de Marina na mansão. Ela tira os óculos escuros e põem a bolsa em cima da mesa.
MARINA – Está um calor hoje em Curitiba! Olga, prepara um suco de laranja e leva ao meu quarto, por favor?
OLGA – Sim, senhora.
Marina sobe as escadas e Olga fica apreensiva.
CENA 06: QUARTO DE JOÃO, INTERIOR, TARDE.
João está em frente ao espelho, tirando a maquiagem de palhaço, mas ainda está vestido com a roupa. Marina caminha pelo corredor e fica intrigada ao ver a porta do quarto do filho aberta e vai fechar, mas se surpreende ao vê-lo no quarto e naqueles trajes. Marina entra e fecha a porta com força, assustando João.
JOÃO – Mãe? Você não ia visitar uma amiga hoje de tarde?
MARINA – Eu fui, mas ela não estava em casa e eu voltei. Mas quem tem que me dar alguma explicação é você. Que trajes são esses, João. Outra vez isso?
JOÃO – A senhora sabe que eu gosto de fazer trabalho voluntário…
MARINA – Eu sei, mas tem que ser na hora da faculdade?
JOÃO – Hoje a aula era uma chatice, mãe…
MARINA – Isso não é justificativa pra você se vestir de palhaço ao invés de estudar pra se formar logo em Engenharia Mecânica!
JOÃO – Tá bom, mãe, desculpa… Mas é que eu não estava com vontade de ir à faculdade hoje, aí o grupo resolveu fazer esse encontro e eu não quis ficar de fora.
MARINA – Tudo bem, filho, não perca mais tempo: tire essa maquiagem e essa roupa, tome um banho, vista-se e vai pra aula, ainda dá tempo.
JOÃO – Ah não, hoje eu não vou mais… Aliás, eu queria falar sobre a faculdade contigo. Eu não estou mais satisfeito com Engenharia Mecânica. Sei lá, eu curtia antes, mas agora não curto mais.
Marina fica surpresa com o que João diz. Ela senta na cama ao lado dele.
MARINA – Como assim, meu filho? Você cursou 2 anos e quer desistir, é isso?
JOÃO – É isso mesmo, mãe. Nesses 2 anos, eu vi que não é o que eu quero pro meu futuro.
MARINA – Mas você tem certeza? Você tá na metade da faculdade, se for desistir tem que ser por um motivo muito forte! Qual é?
JOÃO – Esse grupo de trabalho voluntário me despertou uma alegria e satisfação imensa, estou afim de prestar vestibular para Serviço Social.
MARINA – O quê? Largar Engenharia Mecânica pra fazer Serviço Social? Filho, você só pode estar de brincadeira! Trabalho voluntário não enche barriga! Ele é lindo, eu adoro que você faça isso, mas você precisa de um diploma, precisa de salário, não dá pra viver somente de voluntariado, João!
JOÃO – Mas se eu me formar em Serviço Social, eu poderei trabalhar nas instituições de caridade e vou ter salário para isso, farei as mesmas coisas que eu faço agora no voluntariado, porém com salário. Eu não me vejo sendo um engenheiro mecânico, trabalhando numa fábrica de automóveis, eu não quero isso pra mim.
Marina está pasma e não diz nada. Ela levanta da cama e vai ao seu quarto. João sente-se desconfortável com a situação e volta a tirar sua maquiagem.
CENA 07: RESTAURANTE, INTERIOR, NOITE.
Miguel levou Luiza a um restaurante, numa mesa afastada, para terem um jantar romântico em comemoração ao aniversário de casamento. A mesa, com velas e flores, deixa Luiza emocionada. Ele e o marido sentam e se dão as mãos.
MIGUEL – Eu preparei tudo isso pra você, meu amor. Gostou?
LUIZA – Tá lindo! Mas deve ter custado muito caro, Miguel…
MIGUEL – Não se preocupa, eu conheço o dono desse restaurante, fui peão de obra na construção da casa dele. Ele ainda deu desconto!
LUIZA – Nossa, que sorte! Eu sempre quis vir nesse restaurante, mas sendo faxineira não dá né? O dinheirinho que a gente junta é pra pagar as contas e pôr comida dentro de casa, sem luxos.
MIGUEL – Eu sei, Luiza, meu salário como pedreiro também não é excelente, mas acho que no aniversário do nosso casamento, a gente pode nos dar ao luxo de aproveitar. Bom, agora vamos fazer nosso pedido?
Luiza sorri e beija a mão de Miguel. Logo, eles fazem o pedido e ficam conversando, com carícias e declarações de amor.
CENA 08: CASA DA FAMÍLIA AMARAL, INTERIOR, NOITE.
Luiza e Miguel entram no quarto aos beijos, fechando a porta abraçados e tirando as roupas. Logo, eles deitam na cama de trajes íntimos e se beijam intensamente, muito atraídos um pelo outro.
MIGUEL – Eu te amo! Você é a mulher da minha vida, estar a cinco anos casado contigo é uma grande felicidade!
LUIZA – Como posso dizer que não te amo se, mesmo sem abrir a boca, meu coração fala mais alto?
Miguel sorri e começa a beijar o corpo de Luiza, que entra em êxtase. Pouco depois, o casal tem, finamente, sua noite de amor, com muito sentimento e prazer.
CENA 09: CASA DA FAMÍLIA AMARAL, INTERIOR, MANHÃ.
Luiza, Miguel e Cecília tomam café da manhã.
CECÍLIA – E então, festejaram muito ontem?
LUIZA – Sim, mamãe, foi uma noite maravilhosa. Acordei uma nova mulher!
Miguel dá uma piscadinha para Luiza, que sorri. Cecília levanta da mesa e leva sua xícara para a pia.
CECÍLIA – É, na minha época, eu nunca comemorava aniversário de casamento, nunca sobrava dinheiro pra isso. Depois passam por aperto financeiro e não sabem por quê.
MIGUEL – Eu economizei um dinheirinho no último mês, Dona Cecília, além do mais eu conhecia o dono do restaurante e ele me deu um desconto.
CECÍLIA – Melhor assim, não quero ver aperto financeiro aqui em casa, já basta o dinheirão que vocês vão usar pra mandar aquele médico fazer o filho no laboratório.
LUIZA – Para de críticas, mamãe! Eu e o Miguel passamos um ano juntando dinheiro pra pagar o tratamento de fertilização, é um sonho nosso ter um filho e fomos à busca de ajuda sem prejudicar a senhora em nada financeiramente.
CECÍLIA – Se seu marido fosse homem de verdade, ele fazia o filho em você e não precisava ir atrás de médico nenhum!
Miguel se enfurece, tenta se controlar, mas levanta da mesa e se aproxima da sogra.
MIGUEL – Olha dona Cecília, muitas vezes eu me segurei pelo amor que sinto por sua filha, mas a senhora já foi longe demais! Dificuldade em ter filhos qualquer casal pode ter, isso não significa que o marido seja menos homem. Eu pedi dinheiro pra senhora pra pagar o tratamento? Não, foi fruto do meu suor naquela obra, levantando tijolo por tijolo! Foi fruto do suor da Luiza limpando o chão nas casas, lavando louça, espanando os móveis! Ninguém pediu dinheiro da sua aposentadoria ou das suas costuras, então, não se meta!
Cécilia fica chocada com a agressividade do genro, mas fica calada. Miguel põem seu chapéu, pega sua bicicleta e vai para seu trabalho.
CECÍLIA – Seu marido não precisava ter me tratado assim, Luiza…
LUIZA – A senhora foi longe, mãe. O Miguel é um homem bom, trabalhador, honesto, você nunca implicou com ele, só agora nos últimos meses que tem pegado implicância por causa da fertilização.
CECÍLIA – Eu não posso dar minha opinião agora? É crime?
Luiza fica calada e Cecília vai para se quarto, nervosa.
CENA 10: UMA SEMANA DEPOIS.
Dr. Vitor analisou os exames. O clima entre Cecília e Miguel continua tenso. João ainda não contou a Ivan que quer trocar de curso na faculdade.
CENA 11: CLÍNICA DO DR. VITOR, INTERIOR, MANHÃ.
Luiza e Miguel estão na sala do geneticista para saber o resultado dos exames.
VITOR – Bom, eu analisei todos os exames que vocês me trouxeram e tenho boas notícias. Vocês não possuem problema algum, estão aptos a fazerem a fertilização in vitro.
Luiza e Miguel sorriem e se abraçam, muito emocionados.
LUIZA – Ai doutor, que notícia maravilhosa! Eu estou muito emocionada, finalmente eu vou realizar meu sonho de ser mãe!
MIGUEL – E quando a gente começa o tratamento?
VITOR – Amanhã mesmo, se vocês quiserem. Vocês marquem com a minha secretária a coleta do material genético de ambos. No caso do Miguel, é mais fácil: o espermatozoide é recolhido através da masturbação. Já no caso da Luiza, você deverá tomar citrato de clomifeno para estimular o seu organismo a produzir óvulos para o dia da coleta.
LUIZA – Tá certo, eu vou comprar esse remédio hoje!
MIGUEL – Eu não vejo a hora de ver a barriga da minha esposa crescer… Será o momento mais feliz da minha vida!
Dr. Vitor fica satisfeito ao ver a felicidade do casal, que vibra com a notícia de que poderão fazer a reprodução assistida.






Amei a estreia, descobri hoje,porém quero acompanhar esse novelão
Olá, Márcio.
Fico feliz que esteja gostando da história. É minha primeira vez escrevendo e aqui na Widcyber também.
Aguarde os próximos capítulos que estão imperdíveis.