CENA 01: MANSÃO DA FAMÍLIA AMORIM, INTERIOR, NOITE.
Marina vê João na sala e fica emocionada e confusa.
JOÃO: – Eu estava com saudades, mãe… Vem comigo?
MARINA: – Filho, meu amor. É você?
Marina ergue sua mão e, lentamente, aproxima do rosto de João. Logo, ela consegue tocá-lo e acariciá-lo, despertando uma paz interior muito grande.
CENA 02: MANSÃO DA FAMÍLIA AMORIM, QUARTO DE MARINA E IVAN, INTERIOR, NOITE.
De repente, Marina abre os olhos e está deitada na cama, sozinha e suada. Ela ascende o abajur e bebe um copo de água, com a respiração ofegante. Logo, Ivan entra no quarto e nota o estado da esposa.
IVAN: – O que houve, meu amor?
MARINA: – Ai meu Deus, eu estou confusa! Eu não sei se o que eu vi foi real ou se foi um sonho.
IVAN: – O que você viu, Marina? Tô curioso…
MARINA: – Eu vi o João! Não só vi, como toquei nele.
IVAN: – O João? Mas, meu amor, isso foi um sonho, é claro. O nosso filho já faleceu há cinco anos…
MARINA: – Mas foi tão real, Ivan, ele sorriu pra mim, eu toquei nele, ele disse que estava com saudades!
IVAN: – Você está atormentada pela perca da guarda do Davi, aí acabou sonhando com o João, foi isso. Você já viu o espírito dele há um tempo atrás, lembra?
MARINA: – Eu sei, meu amor… Me abraça? Eu tô tão triste!
Ivan se comove e abraça Marina, que se conforta no aconchego do marido.
CENA 03: MANSÃO DA PAULA, INTERIOR, NOITE.
Paula está fazendo os curativos no rosto de Vanessa após a surra que levou de Heloisa.
VANESSA: – Ai mãe, cuidado que tá doendo muito!
PAULA: – Pensasse nisso antes de não revidar aquela pamonha! Como você foi apanhar desse jeito, Vanessa? Cadê a educação que eu te dei!
VANESSA: – Eu nunca levei desaforo pra casa, nem na escola, mas dessa vez eu fui pega desprevenida. Ai, que ódio!
PAULA: – Ah, mas essa Heloisa que se prepare! Quando eu encontrar com ela, eu vou amassar a cara dela como um rolo compressor!
VANESSA: – Pelo menos hoje eu conheci o Ricardo. Estava na hora né?
PAULA: – E aí, o que achou? Gatão né?
VANESSA: – Muito! Se eu soubesse que era tão lindo, eu nem tinha feito inseminação caseira, tinha logo seduzido ele e levado pra cama!
Paula dá uma gargalhada e aperta o algodão no rosto de Vanessa, machucando-a. Ela segue fazendo os curativos na filha, que sente muitas dores.
CENA 03: DIAS DEPOIS.
Davi se readapta aos poucos a vida simples com Luiza e Miguel. Marina e Ivan seguem inconformados com a perda da guarda pela criança. Dr. Bruno enviou ao Ministério Público a reabertura do caso. Heloisa e Ricardo seguem distantes. Pietra continua internada no hospital. Paula gasta mais dinheiro com roupas e joias. Shirley quebrou o pé e está se tratando na pensão com ajuda de Antonia e Vera.
CENA 04: LABORATÓRIO, INTERIOR, MANHÃ.
Ricardo, Vanessa e o bebê estão no laboratório para fazerem a coleta do material genético para exame de DNA. Na sala de coleta, o enfermeiro coleta a saliva da boca de Ricardo com uma haste, que é semelhante a um cotonete. Após, ele coleta a saliva do bebê. Os materiais são encaminhados para análise.
VANESSA: – Pensei que exame de DNA se realizava com sangue.
ENFERMEIRO: – O exame com sangue é o mais usado, mas é possível obter esse exame pelo cabelo ou por saliva.
RICARDO: – É tão eficaz quando o exame sanguíneo?
ENFERMEIRO: – Sim, é 99,9% de acerto.
Ricardo e Vanessa compreendem e o enfermeiro sai da sala. Ela acaricia o bebê e o petroquímico os observam.
VANESSA: – Não vai segurar o seu filho?
RICARDO: – Não precisa fazer teatro quando estamos só nós dois. Você sabe que eu nunca transei contigo! Confesse pelo menos uma vez na vida.
VANESSA: – O filho é teu, como não transamos?
RICARDO: – Você me irrita, garota! Nunca alguém conseguiu me tirar do sério, a não ser você. Que espécie de golpe você e a destrambelhada da tua mãe estão aplicando em mim hein?
VANESSA: – Eu e minha mãe somos pessoas honestas, que lutamos pelos nossos direitos!
RICARDO: – Honestas? Vocês são duas oportunistas! Garota, tenha um pingo de vergonha na cara e diga, olhando fixamente nos meus olhos, que você transou comigo. ele fica frente a frente a ela, encarando-a. – Vamos lá, diga que nós transamos e que essa criança foi fruto de uma traição minha! Como é meu beijo hein? Como eu sou na cama? Diga lá, já que nós transamos, então diga! Eu tenho uma pinta onde?
Vanessa sente-se encurralada, pois não sabe o que responder, já que nunca transou com Ricardo. Nervosa, ela sai correndo da sala, com o bebê no colo, e deixa Ricardo intrigado.
CENA 05: CASA DA FAMÍLIA AMARAL, EXTERIOR, TARDE.
Luiza está lavando roupa no tanque, quando Davi chega da escola, emburrado, e senta numa cadeira na varanda.
LUIZA: – E então, filho, como foi a aula?
DAVI: – Foi uma chatice!
LUIZA: – Porque, Davi? Você sempre gostou dessa escola…
DAVI: – Não gosto mais como antes, mamãe… A escola particular que eu estudava era muito melhor. Me coloca nela?
Luiza para de lavar a roupa e seca as mãos, se ajoelhando em frente a Davi.
LUIZA: – Filho, nós não somos ricos como a outra família que você morou por uns meses. Eles têm dinheiro pra pagar aquela escola particular, nós não. Essa escola pública que você estuda agora é a mesma que você estudava antes, você sempre gostou, não entendo porque mudou de opinião.
DAVI: – Mas na escola particular, eu já tinha muitos amigos, as professoras eram melhores, tinha sala de informática e aula de teatro. Nessa escola pública não tem nada, é só aula no quadro, eu nem tenho amigos!
LUIZA: – Que isso, Davi? Tá parecendo uma criança mimada!
DAVI: – Não me chama de mimado!
Davi levanta da cadeira e vai pra dentro de casa. Logo, Miguel chega de carro do trabalho e desce, dando um selinho em Luiza.
MIGUEL: – O que foi? Que cara é essa?
LUIZA: – O Davi tá diferente, Miguel… Ele parece mimadinho, sabe?
MIGUEL: – Mimadinho? Porque, Luiza?
LUIZA: – Parece que o Davi se acostumou da vida de rico na Família Amorim e agora não consegue se readaptar a vida de pobre.
MIGUEL: – Será que o Davi não gosta mais de morar com nós?
Luiza fica aflita e abraça Miguel, ambos pensativos sobre o comportamento de Davi.
CENA 06: PENSÃO TITITI, INTERIOR, TARDE.
Antonia, Shirley e Vera estão sentadas na sala, em silêncio, olhando para cara uma da outra. Só o barulho do ponteiro do relógio ecoa na sala.
VERA: – Que tédio…
ANTONIA: – Essa pensão tá tão vazia, só restou nós.
SHIRLEY: – Que tal chamar uns gogoboys pra animar isso aqui?
ANTONIA: – Eu vou chamar um padre pra te exorcizar!
VERA: – Vocês duas são uma peça… Afinal, como vocês descobriram que eram parentes?
SHIRLEY: – Bom, eu fui descoberta pela Antonia. A mãe dela era minha irmã, mas eu nem sabia que tinha irmã!
ANTONIA: – A minha mãe ficou muito doente e morreu no hospital. No leito de morte, ela me entregou uma carta, em que explicava que tinha uma irmã chamada Maria e que morava em Florianópolis. Aí eu fui atrás, pois era a único parente vivo. Foi assim que eu descobri que tinha uma tia do calçadão…
SHIRLEY: – Sou do calçadão e com orgulho! Eu queria ter conhecido a minha irmã, mas infelizmente eu só conheço o túmulo dela. Ela era parecida comigo, Antonia?
ANTONIA: – Não, graças a Deus! Você é a ovelha negra da família.
SHIRLEY: – Adoro!
VERA: – Vocês duas brigam tanto, mas no fundo se amam.
ANTONIA: – Eu não amo essa velha safada! Aliás, quando você volta pra Santa Catarina?
SHIRLEY: – Quando eu quiser e o meu querer não será tão cedo, eu acho. Tô gostando de Curitiba, tem muitos fervos pra mim conhecer ainda. Me recomenda algum, Vera?
VERA: – Eu? Que isso, não frequento fervos, não…
SHIRLEY: – Haja paciência pra vocês duas hein, parecem freiras! E olha que nem freiras são tão santas assim! Eu vou dar um rolê, volto mais tarde.
Shirley levanta do sofá e sai pra rua, com suas roupas excêntricas. Antonia e Vera ficam sozinhas, entediadas.
VERA: – Ouvi boatos na vila que a Vanessa já fez o teste de DNA do bebê com o milionário do petróleo.
ANTONIA: – Tô sabendo… A Paula conseguiu o que queria: transformou a filha numa rameira e deu o golpe do baú. E pensar que essa gentinha morou na minha pensão!
VERA: – Muito santa que você é, tinha um caso com o Gean…
ANTONIA: – Calada ou eu te ponho pra rua!
VERA: – Ponha, quem vai sair perdendo é você! Só tem eu de moradora, é seu único aluguel, sem mim você passa fome. Tá em minhas mãos, queridinha!
Vera atira um beijo no ar pra Antonia, irritando-a. Ela levanta do sofá e vai pra cozinha, deixando a hospede gargalhando na sala.
CENA 07: HOSPITAL, QUARTO DE PIETRA, INTERIOR, TARDE.
Heloisa, Ricardo e Inês estão no quarto, ao lado da maca de Pietra, que está deitada e ligada a aparelhos.
PIETRA: – Vai demorar pra sair daqui?
HELOISA: – Não sei, meu anjo, eu acho que não.
PIETRA: – Poxa, meu aniversário tá pertinho, queria uma festa bem bonita. Não quero comemorar meus 8 anos no hospital.
RICARDO: – Não vai, Pietra, nós vamos fazer uma grande festa lá em casa.
Pietra sorri e a Dra. Clara entra, com uma prancheta nas mãos.
CLARA: – Boa tarde, família! E aí, como essa menina linda está?
PIETRA: – Mais ou menos… Tô enjoada.
CLARA: – Isso vai passar com um remedinho que eu vou pedir pra te darem. Bom, agora eu gostaria de conversar com os teus pais em particular. Posso?
Pietra sinaliza que sim e a médica sai da sala com Heloisa e Ricardo.
PIETRA: – Tia Inês, os meus pais continuam brigados?
INÊS: – Sim, mas vai passar. Todos os pais brigam, é normal, mas eles se amam e vão se reconciliar.
PIETRA: – Será que eles brigaram por minha causa? Eu fiz algo de errado?
INÊS: – Não, imagina, não pense nisso. Você representa a união deles, Pietra.
Pietra sorri e Inês acaricia seu rosto frágil.
CENA 08: HOSPITAL, CORREDOR, TARDE.
Heloisa e Ricardo aguardam as palavras de Dra. Clara.
HELOISA: – E então, doutora, o que houve?
RICARDO: – Como está o estado de saúde da nossa filha?
CLARA: – A Pietra não está nada bem. Nesses dias de internação, o quadro de saúde da convulsão não teve progresso.
HELOISA: – Mas, e agora?
CLARA: –O organismo da Pietra não está conseguindo se regenerar porque as células estão “velhas”. Os tratamentos não estão respondendo.
RICARDO: – E isso significa o que, exatamente?
CLARA: – As chances de a Pietra melhorar são mínimas. O câncer da Pietra está no último grau e a convulsão só agravou. Eu sinto muito.
Heloisa e Ricardo se olham, espantados. Dra. Clara se afasta deles para atender outros pacientes. O casal começa a chorar, com medo de a Pietra morrer. Inesperadamente, eles se abraçam e choram compulsivamente um no ombro do outro.
CENA 09: MANSÃO DA FAMÍLIA AMORIM, INTERIOR, TARDE.
Marina está vestida de preto, mantendo seu luto por Davi. Sentada no sofá, ela olha fixamente para um porta-retrato com a foto de João. Olga entra na sala e estranha o jeito avoado da patroa.
OLGA: – Dona Marina? Tudo bem com a senhora?
MARINA: – O João faz falta né?
OLGA: – Faz sim, Dona Marina, era um ótimo menino. Não tá na hora da senhora tirar esse luto? Parece um eterno funeral.
MARINA: – Eu tô de luto eterno mesmo, Olga. Só o João pode me consolar. Eu vou me encontrar com ele!
OLGA: – Mas… Dona Marina, como assim?
Marina põe o porta-retrato no sofá e levanta, saindo vagarosamente da mansão e deixando Olga confusa com o estado psicológico da patroa.
CENA 10: CASA DA FAMÍLIA AMARAL, INTERIOR, NOITE.
Luiza, Miguel e Davi estão sentados na mesa para jantar. Todos se servem e comem com vontade, mas Davi empurra o prato na metade.
LUIZA: – Que foi, filho? Não gostou?
DAVI: – Gostei, mas não quero mais. Porque você sempre faz arroz e feijão?
LUIZA: – Porque é bom e custa barato. Você sempre gostou de arroz e feijão…
DAVI: – Sim, mas a Tia Olga fazia comidas variadas lá na mansão, era muito gostoso!
Luiza e Miguel se olham, aflitos.
MIGUEL: – Filho, você tá gostando de morar com a gente de novo?
DAVI: – Sim, muito!
MIGUEL: – E porque você tem discutido com a sua mãe?
DAVI: – Eu? Mas eu não discuto com ela…
MIGUEL: – Você não quer continuar na escola e acabou de desdenhar a comida dela. Porque isso?
DAVI: – Mas pai…
MIGUEL: – Parou, Davi! Parou! Você cresceu com a gente vivendo na simplicidade, o que aconteceu agora? Morou alguns meses com a família rica e já mudou? Davi, eu não te eduquei assim!
LUIZA: – Miguel, acalme-se…
MIGUEL: – Ele tem que entender! Filho, se você gosta da gente, se você gosta de morar com a gente, não pode ficar se rebelando assim! Nossa condição é menor, sempre foi assim.
DAVI: – Seu chato, não precisa gritar comigo!
Davi começa a chorar e corre para o quarto, deixando Luiza e Miguel confusos e sem apetite para continuar o jantar.
CENA 11: PARQUE BARIGUI, EXTERIOR, NOITE.
Marina estaciona seu carro no parque e fica observando as pessoas fazendo exercícios físicos no entardecer. Ela desce e caminha em direção ao lago aonde João morreu. A memória de Marina vaga para o dia em que chegou ao necrotério e viu o corpo do filho, já falecido, na maca. Ela lembra-se da repercussão do caso na imprensa e da revolta que teve com Deus. Marina chora olhando para o lago e aproxima-se vagarosamente. Ela joga a bolsa no chão e entra nas águas geladas do lago, só até o joelho.
MARINA: – João… Você pediu pra mim ir com você… Pois então, aqui estou, eu vim te encontrar.
Marina chora e vê o rosto de João refletido no fundo do lago. Vagarosamenre, ela caminha para o interior do lago, afundando pouco a pouco, até que não dá mais pé. Marina, então, larga seu corpo e afunda nas águas, a fim de tirar sua própria vida, tamanho o sofrimento que sente.





