EPISÓDIO XII
A ESCOLHA É SUA
*
– Não vim aqui para discutir esse assunto – prosseguiu. – Tenho uma notícia para te dar.
A prefeita inclinou levemente seu corpo em direção ao homem a sua frente.
– Eu renuncio o meu mandato de vice-prefeito de Timbaúba.
Jurema não conseguiu conter a surpresa. Um misto de ódio, raiva e repulsa lhe tomou o corpo, subiu pela sua garganta e, por muito pouco, ela não o pôs para fora. Apoiou-se na mesa, respirou fundo, sentiu seu corpo esquentar e esfriar, esfriar e esquentar, a terra sob os seus pés girar mais rápido.
– Eu acho que não te ouvi direito – disse Jurema.
– Não falei em línguas estranhas, Jurema.
– Você só pode estar brincando comigo, Silvero – vociferou a prefeita. – E, para o seu próprio bem, é melhor que isso seja uma piadinha infame.
– Antes fosse, Jurema.
– Por quê?
Silvero deu de costas, afastou-se da mulher que estava a sua frente. Não sabia se tinha medo das consequências de seu ato ou da reação de Jurema. Na verdade, não havia pensado muito sobre o que aconteceria após a sua renúncia. Só sentia que era o certo a se fazer. Mais do que certo, era preciso.
– Eu estou ao seu lado há muito tempo, Jurema – disse. – Nesses anos, eu vi e vivi muita coisa estranha, muita coisa que não condiz com quem eu sou.
Jurema riu.
– Tenho certeza de que o dinheiro que você ganha cobre a sua visão para tudo de ruim que acontece nessa cidade.
– Eu não me reconheço mais e, o pior de tudo, não te reconheço mais – Silvero voltou-se para Jurema. – Me pergunto onde ficou aquela mulher forte, resiliente e humana que eu conheci tempos atrás.
Jurema revirou os olhos.
– Me poupe, Silvero – desdenhou. – Não acordei hoje para ouvir abobrinhas sentimentais.
– Tá vendo? – resmungou o vice-prefeito. – É disso que eu estou falando. Você não era assim até a morte do seu avô.
– E que tipo de pessoa confiaria em uma mulher fraca, frágil, incapaz de se defender? – disse Jurema com veemência. – Não sei se você perdeu o senso de localização, mas nós estamos no interior do Brasil.
– Eu entendo… eu entendo, Jurema – disse Silvero. – Você poderia ser forte, imponente, e tudo mais, mas sem perder a sua essência.
A prefeita riu.
– Silvero, seja objetivo – Jurema pôs a sua bolsa de couro original sobre a mesa. – Por que você quer renunciar ao seu mandato?
Silvero apequenou-se.
– Já te disse…
– Não me foi uma justificativa plausível.
– Não dá, Jurema. Eu não consigo mais.
– Conseguiu durante todos esses anos!
– Agora é – Silvero pensou por um instante – diferente.
– Você tem noção da instabilidade que isso causará? Primeiro, a morte daquele garoto, depois a morte do meu avô, aí o filho adotivo de um vereador é preso por assassinato e agora você pulando fora do barco – disse Jurema. – O que as pessoas vão pensar?
– Sendo muito sincero, eu não me preocupo com isso.
– Pois deveria! – gritou Jurema, recuperando o tom de voz normal logo depois. Limpou a garganta. – Deveria se preocupar, Silvero. Nós somos uma chapa, tudo o que um fizer prejudica diretamente o outro.
Silvero se sentiu tonto, procurou a poltrona para desabar de olhos fechados. Queria que uma garrafa de vinho se materializasse em suas mãos. A presença de Jurema o intimidava, fazia sentir-se uma sombra, um fantasma de quem já foi um dia.
– Escute, Silvero: eu te apoiei em todas as coisas que você fez, estive ao seu lado, te construí dos pés a cabeça e, no momento em que eu mais preciso, você me abandona – lamentou Jurema.
– Não! Muito pelo contrário – Silvero tentou, em vão, abrir os olhos. – Eu estou propondo minha renúncia porque não quero te prejudicar ainda mais. Qual serventia eu tenho nesse estado?
Jurema umedeceu os lábios e balançou a cabeça.
– A escolha é sua.
…
– Não sei se é uma decisão muito inteligente da parte dele – Tião ajeitou a gola do paletó. – Particularmente, Cicinho, eu acho a decisão mais burra que alguém poderia tomar.
Cícero conteve-se para não rir.
– É uma possibilidade ainda, seu Tião.
– Ainda assim, é de se esperar que a dona Jurema Pinheiro não deixe isso muito barato para ele – comentou Tião em um tom casual. – Basta ver o que o avô dela fez com as pessoas que cruzaram o caminho dele e, bom, o que ela fez com o pobre do Quim.
Cícero sentiu que a conversa estava entrando em território perigoso. Sabia que Tião Ribeiro era da oposição e, como presidente da Câmara de Vereadores, ele não podia se atrever a manifestar sua opinião.
– É uma faca de dois gumes – disse Tião ao notar o desconforto de Cícero. – Timbaúba parece uma dessas cidades de filme estrangeiro.
– É… desde a morte do Coronel, as coisas têm ficado estranhas – Cícero concordou, dando a volta na mesa para se sentar em sua poltrona. – Parece que alguém arrancou um parafuso das engrenagens que faziam a cidade funcionar.
– Na verdade, um pouco antes… – Tião ajeitou, outra vez, a gola do paletó. – Desde que aquele garoto, o filho do Miguel Sampaio, foi encontrado morto.
Cícero adorava a língua portuguesa e seus eufemismos.
– Você acha que a Jurema vai conseguir se manter no cargo se o Silvero renunciar? – questionou Tião.
– Não estamos em Brasília, seu Tião – respondeu assertivamente o presidente da Câmara de Vereadores. – Jurema não tem oposição e, ainda que tivesse, não haveria apoio popular.
– Timbaúba vive debaixo dos pés dos Pinheiro mesmo.
– Por que tanto interesse nesse boato de renúncia do Silvero, seu Tião? – observou Cícero. – Se me permite saber, é claro.
– Nada além da curiosidade de um vereador suplente em exercício, Cicinho.
Tião sentiu o ar de desconfiança do seu colega de Câmara. Apesar de acreditar que a conversa se manteve no território da normalidade, não queria despertar comentários ou pensamentos sobre o seu real objetivo. Aprumou-se.
– Tenho que ir, Cicinho – sorriu. – Lembrei de que fui convidado pra um almoço na casa de um colega, não posso faltar.
Sem esperar uma resposta, bateu em retirada.
…
Jurema se sentia implacável. Uma sensação de poder que pulsava no seu peito, como se ela fosse capaz de segurar o mundo com a palma das mãos. Era uma energia forte, que eletrizava todo o seu corpo e a deixava com sede de ir além. Timbaúba era só o começo.
– E o otário nem desconfiou? – ela sorriu enquanto olhava compenetrada a parede atrás de Camila.
– Você sabe que eu não me sinto confortável com isso – respondeu a secretária.
– Pudor é uma sentimento totalmente desnecessário em Timbaúba, Camila – alfinetou a prefeita. – O Silvero não pode achar que está acima de mim.
Jurema respirou fundo e permitiu que a energia do poder corresse pelas suas veias. Sentiu-se em êxtase. Por um instante, se questionou porque nunca teve essa sensação antes.
– Posso ir agora? – Camila pegou a sua bolsa sobre a mesa de escritório do gabinete da prefeita.
– Você tem notícias daquele Álvaro Fontes, o rapaz que andava com a Antônia algum tempo atrás? – perguntou, casualmente, Jurema.
Camila congelou. Suas mãos, seus pés, seu cérebro. Esquentou e tornou a gelar novamente. “Jurema não tem como saber”, pensou. “Ou tem?”. O ar escapuliu dos seus pulmões, era como se os ponteiros do relógio tivessem parado de girar e a Terra saísse do seu eixo de rotação.
Talvez cinco segundos houvessem passado, mas Camila sentiu que foi uma eternidade.
– Tem?
– Por que teria? – Camila saiu em defensiva.
Jurema arqueou as sobrancelhas.
– A cidade é pequena e, pelo que me consta, vocês ficaram hospedados na mesma pousada. Na única pousada, aliás – retorquiu a prefeita.
– Não o vi mais do que de relance.
– Ele sumiu de repente, não foi?
Camila balançou a cabeça.
– Sinceramente, eu não notei.
Jurema ajeitou a cadeira de escritório para deixa-la mais alta.
– Tem certeza?
– Qual o motivo da pergunta, Jurema? – Camila se sentiu acuada, como se Jurema estivesse prestes a lhe dar o bote.
– Você é jornalista e, provavelmente, sabe como investigar o paradeiro de alguém – a prefeita se debruçou sobre a mesa. – Achei estranho ele ter desaparecido logo depois da morte do meu avó.
Camila sentiu o coração parar de bater por um segundo. Seria possível que…
– Eu gostaria de encontra-lo – disse Jurema. – E saber o porquê de ele ter tomado um chá de sumiço em um momento, digamos, desfavorável a atitudes suspeitas.
– Ele pode estar em qualquer lugar do mundo agora, Jurema.
Jurema esboçou um sorriso perverso.
– Sua próxima missão é descobrir onde ele está.
…
He left no time to regret
Kept his di** wet with his same old safe bet
Me and my head high
And my tears dry, get on without my guy
You went back to what you knew
So far removed from all that we went through
And I tread a troubled track
My odds are stacked, I’ll go back to black
Antônia aumentou um pouco mais o volume da música no celular. Estava em abstinência de si e nem a música era capaz de silenciar o mundo. Seu coração palpitava em uma espécie de sincronia macabra com o redemoinho de pensamentos que bagunçava a sua cabeça.
We only said goodbye with words
I died a hundred times
You go back to her
And I go back to
I go back to us
Perdera as contas de quantas vezes atualizou a caixa de entrada do e-mail ou ficou minutos olhando esperançosa para a tela do celular esperando que ele tocasse até que uma sensação de inutilidade e autopiedade tomasse conta de si. Era quando a dura realidade caía em seu colo, ácida e feroz, como se gritasse que ela não valia nada. Não, não valia. Ora, se ninguém conseguia ficar com ela, a culpa era de quem? Pergunta retórica, a resposta era óbvia, quase um tiro no lado esquerdo do peito.
O que havia de errado? Antônia não conseguia identificar.
I love you much
It’s not enough, you love blow and I love puff
And life is like a pipe
And I’m a tiny penny rolling up the walls inside
“Custava ao menos enviar uma mísera mensagem?”. Antônia levantou-se da cama para pegar a garrafa quase vazia de uísque. Percebeu que a sua vida era um amontoado de quase. Quase foi amada. Quase foi feliz. Quase teve sorte. Quase.
Virou o resto do líquido em seu copo e bebeu de uma vez. Não sentiu o queimor do uísque em sua garganta ou a leve vertigem quando ele atinge o estômago. Apenas engoliu. Queria pegar outra garrafa, mas não queria sair do quarto para dar de cara com o mundo no qual ela vivia. Estava cansada do mundo. Ele era mais forte, mais inteligente. Ela não poderia vencê-lo.
“Na gaveta…”
O revólver do seu avô. Pegou-o no quarto do finado poucos dias após a morte dele. Não sabia o motivo de querer uma arma, visto que no curso de Direito defendia a tese do desarmamento e do anti-punitivismo. Porém, quando abriu a gaveta da cômoda importada, cor de marfim e detalhes em prata, sentiu que aquela arma era sua. Pertencia-lhe desde sempre e para sempre. Seus olhos brilharam, ela a segurou com as duas mãos e levou para o seu quarto como se fosse um troféu.
Foi até a sua escrivaninha. Respirou fundo. A arma estava envolta em um pano vermelho. Ela não sabia qual era a marca, o calibre. Só sabia para que servia.
Desenrolou o pano vermelho e o atirou no chão. Sentiu o revólver tocar a sua pele e um desejo gritou em sua cabeça.
…
A miudez de Salete fazia falta nos cantos daquela casa.
O café subiu e não sujou o fogão graças a rapidez de Laurinda em desligar o fogo num pulo.
Voltou a sentar-se à mesa. Estava enfastiada. O dia a dia naquela casa lhe era sufocante. Acordava, tomava café, costurava, almoçava, assistia à TV, tomava café, costurava, lia o jornal, assistia à tv, tomava café, limpava a estante de livros, lia um livro, tomava café, depois um chá e ia dormir. Um ciclo que se repetia todos os dias.
O pior de tudo: não tinha com quem conversar. Tudo bem que Salete não abria a boca nem para respirar se estivesse gripada, mas as duas se compreendiam. Eram uma espécie de Yin e Yang às avessas, a dualidade da alma humana encarnada.
Inspirou fundo e expirou o silêncio. O cheiro de café lhe fazia lembrar-se de Salete. Deu um muxoxo. Tinha que excomungar aqueles pensamentos, Salete só voltaria àquela casa dentro de um caixão.
Levantou-se para coar o café diretamente em sua xícara. Bebeu um gole. Forte e amargo, no ponto. Ajeitou o xale nos ombros enquanto pegava um biscoito água e sal em um vasinho de vidro.
Lembrou-se de quando Salete, muitos anos antes, chegou em casa com um conjunto de três vasinhos de vidro comprados na feira livre em Luís Eduardo Magalhães. Sorriu e sentiu lágrimas queimarem os seus olhos.
“Pobre Salete”, pensou.
E foi costurar na sala.
…
PARA: [email protected]
ASSUNTO: (sem assunto)
Há quanto tempo não nos falamos? Tenho a impressão de que se passaram bons anos desde que fui embora daí. De qualquer maneira, tenho novidades. Espero que em sua casa – acredito que você alugou ou até mesmo comprou uma – tenha um quarto de hóspedes para mim. Mandarei novidades em breve!
Att.,
Álvaro Fontes
Jornalista.
Camila engoliu em seco. As palavras de Jurema fizeram eco na sua cabeça.
– Eu gostaria de encontra-lo e saber o porquê de ele ter tomado um chá de sumiço em um momento, digamos, desfavorável a atitudes suspeitas.
Estava planejando fingir que essa conversa nunca havia acontecido, mas o que poderia fazer quando Álvaro pusesse os pés em Timbaúba? Jurema estava obstinada a castigar todos os que ela considerava culpados pela morte do Coronel Juca Pinheiro. Depois de vê-la mandando a própria tia para um hospital psiquiátrico a força, sabia que ela não perdoaria Álvaro. O único remédio para a doença da prefeita era a vingança.
Camila pensou em responder ao e-mail suplicando que Álvaro continuasse seja lá onde ele estivesse, mas sabia que o amigo não lhe daria ouvidos. Seu ego era maior do que seus olhos. Afinal, Álvaro e Jurema tinham mais em comum do que imaginavam e Camila estava presa em entre a cruz e a espada.
“E se Jurema descobrir?”
Estremeceu de medo. Com Álvaro em Timbaúba, ela estaria exposta. Jurema ligaria os pontos, descobriria que Camila foi até a cidade investiga-la em uma missão jornalística.
Um pensamento lhe passou pela cabeça.
E se ela entregasse Álvaro a Jurema e ela ordenasse o fim dele sem procurar nenhum contato, assim como fez com os outros?
Camila se sentiu mal por ter conjecturado isso.
Ela e Álvaro eram amigos. Ele jamais a entregaria a vida dela em sacrifício para salvar a sua própria.
Ou entregaria?
*
Na próxima terça-feira, 18 de maio, às 22h, mais um episódio inédito de
A CANDIDATA





