O celular em seu bolso tremeu um pouco rápido demais, fazendo o garoto voltar sua atenção para os amigos que estavam à espera de uma explicação lógica para o que vinha acontecendo. O som produzido pelo aparelho foi tão alto que todos perto dele foram capazes de ouvir aquele barulho junto com uma risada macabra retirada de um filme TRASH das antigas.
— Atende logo isso cara. — Disse Jimmy já incomodado com os olhares atentos das pessoas a sua volta.
— Aproveita e troca logo o toque dessa coisa. — Completou Drew em um salto tomado pelo súbito medo. — Eu tenho medo disso sabia.
Lucca apenas sorriu um tanto encabulado.
Ele retirou o aparelho do bolso e, com um leve toque de seus dedos ele desbloqueou a tela do celular, para sua surpresa era apenas uma mensagem de texto enviada por um número até então desconhecido.
“A CAIXA FOI ABERTA, O MAL PREVALECERÁ ENFIM. A MENOS QUE VOCÊ SEJA CAPAZ DE ME DERROTAR EM UM JOGO.”
Sem parar para pensar, Lucca digitou rapidamente um OK, iniciando uma conversa. Aquela era claramente uma afronta declarada de Az. Sendo assim tão aclamado ANJO não deixaria barato uma afronta daquelas.
— Esse cara é maluco. — Disse Adam pegando para si um saco de biscoitos em uma mochila aberta.
— E o Lucca da corda pra ele. — Disse Tonny sorrindo. — Eu não sei qual de vocês dois é o mais idiota.
— O que ele quer agora? — Perguntou Jimmy olhando para a as cartas sobre a relva.
— Ele quer apenas jogar comigo. — Respondeu Lucca sem tirar os olhos da tela.
— Não me diz que você vai aceitar isso…!
— Essa cara me diz que ele vai jogar. — Interrompeu Jimmy.
— Eu já fiz. — Lucca respondeu com um sorriso malicioso nos lábios. — Agora é só esperar para ver o que vai acontecer.
Em menos de um segundo, após digitar a resposta o celular voltou a vibrar, dessa vez com uma ligação confidencial, que eles certamente já sabia de quem se tratava. Uma voz mecânica e sem emoção alguma soou de repente:
“— Escute com atenção. Ontem à noite alguém, que está nesta escola espalhou na rede do colégio o protótipo de PANDORA, um vírus de computador diferente de tudo o que você acha que conhece. E você tem até as 19:00 h para descobrir o culpado e desabilitar o vírus, ou todos que você conhece, sofrerão as consequências.”
— O cara tá viajando legal. Hehehe. — Adam brincou.
— Fica quieto, vamos ver no que isso vai dar. — Jimmy o interrompeu.
— Sim mamãe. — Ele respondeu com um sorriso.
— Fica quieto cara! — Tonny berrou já irritado com a brincadeira. — Deixem o Lucca trabalhar.
— Você tá com medo de mim? — Lucca disse em tom provocativo. — O grande Az com medo?
— Apenas ouça… — Continuou ele do outro lado da linha.
Ouviu-se um clique metálico e depois o chiado de um antigo gravador próximo ao fone.
— Você se esconde atrás de uma máquina. — Lucca parecia estar gostando da brincadeira.
“— O que você quer comigo”.
Lucca ouviu uma voz feminina ao fundo, um tanto abafada, que parecia vinda de um gravador.
“— O que é isso?”
Aquela era a voz de Alice, ele não tinha dúvidas, uma voz fraca e debilitada, mas ainda assim era a voz de Alice.
— O que você quer com ela? — Ele perguntou apertando o celular com força.
— Do que ele tá falando? — Adam perguntou confuso.
— Quem é ela? — Jimmy interrompeu.
— FIQUEM QUIETOS! — Ele gritou enfurecido. — O que você planeja fazer?
— Ela ainda está viva… Se, é o que quer saber.
— Se você tocar num fio do cabelo dela…
— Você vai fazer o que? … Me matar? — Disse Az calmamente. — Isso não é digno de você… Não é digno do grande anjo. E além do mais, ele a quer viva…
— Ele quem? Do que você está falando?
— … Já não posso dizer o mesmo dos seus amigos, ou da sua família.
— Isso é uma ameaça?
— Entenda como quiser.
Ele ainda estava lá, sentado na mesma posição de antes falando ao celular, apenas observando de longe as reações de Lucca e dos amigos. — Que diga-se de passagem não estavam entendendo nada do que estava acontecendo.
O garoto apertava com tanta força, o telefone em sua mão que o amassou, deixando a marca dos dedos dele vidro estilhaçado ficou marcado graças ao plástico que encobria a tela do aparelho.
— Não me diga que já esqueceu do que aconteceu na reserva há algumas semanas atrás.
Sua mente foi invadida por vários flashes da estranha batalha onde o mentor dos anjos quase morreu nas mãos de Zaon.
— O que você me diz? — Ele perguntou, já certo da resposta que vinha a seguir. — Aceita ou não o meu jogo?
— Quais são os seus termos? — Disse o garoto por fim agora comprando uma briga.
— Um simples jogo em duas partes. Vença a primeira etapa e seus amigos estão livres. Vença a segunda e eu liberto a garota.
— E o que acontece se eu perder? — Essa era uma pergunta óbvia, mais tinha de ser feita.
— Se você perder. Perde tudo. Todo o prestigio, família, amigos… Simplesmente tudo. Você ficara confinado ao vazio.
Ele começou a vasculhar a rede de computadores do colégio em busca de respostas. Pelo que foi dito, tudo havia começado naquele colégio, as pistas estavam todas ali.
—…?
— Eu sei que você está ai, procurando um jeito de me derrotar. Só que você não pode! — Ele continuou. — Algo também foi tirado de você há algum tempo. Você só não percebeu isso ainda.
— O que você quer?
— Apenas mostrar ao mundo quem você é de verdade.
— E quem sou eu de verdade?
— Você não passa de um verme, um usurpador de vidas.
— Az, você está errado!
— Então prove…, nosso jogo apenas começou.
***
Az ainda estava envolto em seu último projeto, trabalhou nele por horas a fio sem descanso, aquele seria o trabalho de sua vida, um projeto que seria capaz de revolucionar a forma como o mundo via a tecnologia, com ele homem e maquina poderiam ser um só como uma simbiose alternativa capaz de impulsionar a produtividade humana a um, nível extraordinário.
Em uma de suas mesas não abarrotadas de tralhas esquisitas, ele trabalhava em uma espécie de capacete que segundo seus desenhos, projetos e cálculos seria capaz de transportar a mente humana para qualquer lugar na rede mundial de computadores, através de uma simples conexão neural entre o cérebro humano e a internet. Sua ideia era fazer as correntes elétricas cerebrais viajarem através dos cabos de fibra ótica ligadas a uma CPU de alta capacidade conectado a um roteador de rede sem fio, potencialmente protegido e assim mover a mente por toda a rede, de acordo com a sua vontade.
Para que isso funcionasse o garoto criou e enviou para um grupo seleto de pessoas uma mensagem espiã, capaz de decodificar, destravar e manipular as contas de e- mail de seus usuários e assim controlar seus aparelhos a distância, desse modo Az teria energia e velocidade suficiente para recriar um mundo perfeito onde ele seria o senhor de tudo. Esse seria o teste final, para assim iniciar seu plano de combate contra Samuel e seus protegidos.
Mais uma vez ele conectou a ela os eletrodos que captavam seus batimentos e a atividade cerebral, como já era esperado quase não haviam batimento, porem muita atividade cerebral, as faixas luminosas no monitor piscavam frenéticas em um ritmo desordenado.
Por uma fração de segundos ele sentiu sua mão tremer, enquanto apertava a mão dela junto ao peito, apesar de todo ódio que Az guardava em seu coração, ele jamais desejou o mal a Alice, e mesmo sem querer ele estava pondo em risco sua existência.
— Espere por mim, meu amor. — Disse ele colocando em si mesmo o capacitor de fluxo que permitiria uma viagem segura para ele.
Seus batimentos estavam acelerados, de alguma forma Az estava sendo impedido de puxar a alavanca que daria início a um novo modo de navegação na internet.
— Coragem garoto. — Disse ele a si mesmo. — Só você pode trazê-la de volta.
Impulsionado pelo medo Ângelo Azuos puxou a alavanca, e em uma fração de segundos ele sentiu uma intensa corrente elétrica percorrer todo o seu corpo de uma só vez.
O único som audível naquele lugar era o tique taque de um relógio que marcava em contagem regressiva.
71horas e 59 minutos.
***
O sol estava quase se pondo, o céu já mostrava os sinais do adiantado da hora em seus tons de laranja e cinza, as nuvens escondiam o brilho alaranjado vindo do astro rei. O tempo estava se esgotando e até agora nada da tão esperada resposta. Lucca não havia decifrado seu enigma e muito menos lhe confrontado a respeito do vírus. Aquilo só poderia significar duas coisas: uma, o queridinho do colégio estava com medo, e se ele não fizesse alguma coisa logo seus amigos iriam sofrer as consequências de sua covardia.
Edy já estava à espera dos alunos pronto para a excursão que prometia ser um sucesso. Alguns já haviam chegado e estavam fazendo os últimos preparativos para uma festa de arromba regada a marshmallows e refrigerante, visto que os espertinhos que tentaram esconder bebidas alcoólicas em suas mochilas foram pegos e mandados para passar a noite na direção da escola na companhia do diretor.
Apesar da reserva ser relativamente próxima à escola, — sendo assim dava para os alunos irem direto para o local do acampamento, — ele achou melhor reunir todo mundo antes da saída oficial para que pudessem fazer uma caminhada de cerca de 15 min.
O homem estava a caráter, dando o exemplo aos campistas que ainda teimavam em aparecer com roupas esquisitas e nada apropriadas. Uma das alunas tinha vindo com um vestido justo demais no corpo e um salto com quase 20 centímetros, além de estar toda maquiada e uma bolsa mínima a tira colo parecendo que ia para uma festa em um clube noturno.
Ed se perguntava como ela conseguiria andar em um chão de terra batido coberto de folhas secas no meio da floresta com aquele salto, aquela imagem fez o professor quase cair na risada quando a viu daquela maneira. Ele por outro lado era um típico campista trajava uma camiseta amarela folgada e por cima um colete xadrez e botas de cano curto próprias para uma caminhada na trilha. Apesar de estar escuro usava também um chapéu de pescador velho e amarrado ao pescoço um lenço vermelho que o fazia parecer o chefe dos escoteiros.
Em suas costas uma mochila de camping estava preparada com o essencial para qualquer eventualidade que pudesse acontecer: uma barraca, água e um kit completo de primeiros socorros que era de dar inveja em qualquer um.
Como prometido lá estava Lucca, colocando num canto próximo a escadaria da entrada toda a sua parafernália que garantiria um show excepcional mesmo em condições arbitrarias a sua vontade. O equipamento era o mínimo necessário para uma apresentação dos Anjos de Metal em grande estilo. Dois violões, um pandeiro e um chocalho havaiano e um tambor de percussão, além do notebook e duas pequenas caixas de som que serviriam como amplificadores sonoros para os violões ligados as entradas adaptadas do computador.
Alheio a todo esse movimento, ele procurava o melhor lugar para que pudesse ficar longe dos olhares curiosos e assim evitar ser descoberto, pois o que ele estava prestes a fazer poria em risco seu futuro acadêmico.
Com a ajuda de seu celular Lucca invadiu com sucesso a rede principal do laboratório de informática, que para a sua sorte ainda estava ligada, e, usando um descompactador criptográfico, o garoto hackeou todas as senhas de acesso contidas naquela rede, visitando um por um os computadores logados a rede recentemente.
Para sua surpresa Lucca não era o único navegando clandestinamente na rede do colégio, graças ao seu firewall modificado ele conseguiu distinguir um segundo IP fantasma, o que indicava que o garoto não era o único espião naquele momento.
— Ora… ora, o que nós temos aqui? Um espião. — As palavras apareceram repentinamente na tela do computador, dando a Lucca a certeza de que ele não era o único invasor a usar uma criptografia fantasma. — Você prometeu não usar esse tipo de tecnologia nesse passeio Anjo, e agora está quebrando uma regra? … Não tem medo de ser descoberto?
— Se eu não me estou enganado, você também prometeu o mesmo, não é Az? — Ele digitou num segundo, mostrando não ter medo de ameaças.
— Eu não me prendo a regras meu caro Lucca. Você mais do que ninguém deveria saber disso.
— Eu imaginei isso. — Disse o garoto procurando no de longe a multidão que se formava. — Eu também não tenho medo.
— Entendo… Isso não é nenhuma surpresa para mim, e então, conseguiu decifrar meu desafio?
— Chama aquilo de desafio? Você me subestima Az. — Afirmou Lucca com um sorriso malicioso nos lábios. — Preciso de algo que mexa com a minha mente.
— Interessante… Eu nunca esperei menos de você Anjo. E então qual a resposta?
— Essa foi fácil. — Disse ele sorrindo. — Você usou o computador do professor Edy para enviar uma mensagem espiã e espalhar pandora na rede do colégio. Estou certo?
— BINGO. — Balões de festa subiam na tela do celular para festejar a resposta correta dada por ele. — E por acaso você já descobriu qual a finalidade de tudo isso?
— Essa também foi fácil. Você usou a rede do colégio para te fornecer energia para alguma coisa. Eu só não sei exatamente o que.
— Congratulations Lucca. Você provou ser um hacker digno de Pandora. Isso se você quiser um desafio à altura.
— Estou preparado para tudo o que você possa me mandar Az. — Ele digitou eufórico. — Qual seu novo desafio para mim.
— Um jogo online onde decidiremos quem tem a mente mais poderosa. — As palavras apareciam com uma rapidez absurda.
— Pois eu aceito! Quais são seus termos?
— Há alguns dias, uma pessoa foi tirada de você. E o único modo de revela é usando um protótipo de aceleração cerebral e me vencendo num jogo.
Aquelas palavras invadiram a mente de Lucca como ácido, corroendo qualquer tipo de resposta lógica que ele pudesse ter ao ler aquilo apenas uma pessoa vinha em sua mente.
— O QUE VOCE FEZ COM MEU PAI? — Ele digitou com as mãos tremulas.
— Isso é algo que você vai ter que descobrir sozinho. — Az digitou em resposta. — Me derrote e você terá a chance de salvar quem quer que seja. Perca e tudo o que você ama será destruído. A ESCOLHA É SUA!
De repente a tela do bate papo escureceu e apenas um time luminoso apareceu em contagem regressiva:
71 h: 55 min.: 40 s
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