O lugar escolhido era perfeito para um acampamento de verão, uma enorme clareira do meio de algum lugar na floresta, e o friozinho gostoso da noite seria a desculpa perfeita para uma fogueira. O professor Edy havia escolhido uma parte inabitada da reserva onde poucas pessoas haviam visitado até então e o verde estava mais presente e propositalmente a extensa copa das arvores dificultaria a conexão com o mundo exterior.
O caminho usado por ele estava cheio de plantas nativas da região, além de alguns animais noturnos se preparando para começar a noite. Durante o trajeto foi possível observar o comportamento de morcegos e corujas em plena caça.
— Vocês não precisam ter medo deles. — Disse o professor ao ouvirem um pio de coruja ao fundo. — Lembrem-se que nós estamos no habitat deles, e aqui nós somos os intrusos.
— Quanto tempo isso vai durar
— Muito bem pessoal, nós chegamos! — Anunciou ele verificando o próprio celular, que não dava sinal algum, apenas a mensagem de e emergência.
— Droga! Quebrei o salto do meu sapato novo. — Reclamou Janine aos berros.
— Quem mandou vir pronta para um baile de carnaval. — Retrucou Adam que vinha logo atrás dela.
— Ecaaa! Esse chão tá todo molhado. Acho que eu pisei em alguma coisa.
— Provavelmente são dejetos de algum animal. — Disse uma voz na multidão.
— Isso é verdade professor? — Ela perguntou enojada, olhando para os sapatos em uma das mãos.
Todos começaram a rir quando a menina tirou os sapatos e continuou a caminhada descalça. Edy deixou escapar um leve sorriso, aproveitando o momento para brincar um pouco.
— Provavelmente. — Ele respondeu olhando para ela. — Coloquem suas coisas em lugares altos e comessem a armar as barracas.
— Que lugar é esse professor? — Perguntou a garota vestida para a balada com os sapatos quebrados em uma das mãos.
— Bem vinda a vida selvagem Janine. — Edy respondeu colocando a mochila no chão.
Eram quase 19:00 horas quando eles chegaram ao local escolhido, houve um tempo para que as tendas fossem armadas e a distribuição de tarefas fosse feita. As equipes foram divididas em grupos de cinco alunos que após armarem suas barracas deveriam ajudar em duas tarefas principais, achar lenha para a fogueira e preparar um jantar digno de um selvagem: frango assado com arroz e batatas assadas.
— Todos já sabem o que fazer? — Perguntou ele ao grupo.
— Sim! — Responderam todos de uma só vez.
O barulho da resposta fez seus tímpanos gritarem por silencio.
— Nos vemos em 10 minutos. — Ele ordenou as equipes.
Uma divisão meio obvia foi feita inconscientemente pelo grande grupo, os grupinhos de amigos mais próximos acabaram prevalecendo, os meninos foram à caça de lenha para a fogueira e as meninas ficaram responsáveis de preparar a comida. Tio Edy como bom adulto que era se encarregou logo de acender uma fogueira.
Lucca tratou de armar a barraca para os cinco, que obviamente dividiram tudo igualmente, o garoto ficou com a barraca e os sacos de dormir, Drew seria responsável em trazer água potável, Jimmy ajudaria com os instrumentos Tonny e Adam seriam os responsáveis pela comida e a iluminação da barraca.
— Você tem um ótimo grupo. — Disse Edy tentando puxar assunto.
— Humhum. Eles são ótimos. — Lucca se limitou a responder prendendo os cabos da barraca junto as varas de sustentação.
— Acho que teremos um ótimo show esta noite.
— Nós faremos o melhor professor. — Ele disse sorrindo.
Em pouquíssimo tempo tudo já estava pronto e os amigos puderam se reunir para enfim começar a diversão. A fogueira já estava acesa, com todos ao redor dela segurando um espeto com um marshmallow assando na ponta, e assim esperando timidamente que alguém desse início a uma história de terror assustadora.
— Vamos lá pessoal! — Edy tentou animar o grupo. — Alguma ideia?
— Pode deixar com a gente tio. — Adam se adiantou em dizer.
— Vamos nessa pessoal. É hora do som dos anjos botar pra quebrar.
Assim, Jimmy pegou o violão e vagarosamente começou a dedilhar uma melodia suave que logo foi acompanhada por Drew que batucava o tambor segundo o ritmo imposto pelo amigo, Tonny e Adam acompanhavam estalando os dedos e sussurrando a mesma melodia em tons nasais e assim Lucca iniciou a canção um pouco desconfiado, parecia segurar um choro eminente.
— Enquanto a chuva,
Molha meu rosto
Ela esconde, a minha lagrima,
Que insiste em encontrar o chão…
Todos ali presentes iniciaram o coro tomados pela emoção vinda da entonação calma da voz do garoto que soou da forma mais harmônica possível reverberando por toda a floresta a canção entoada por eles. A cena lembrou ao professor o festival de Woodstock de agosto de 69 nos Estados Unidos onde vários jovens se reuniram apenas para ouvir música, assim como eles estavam fazendo nesse momento. A única diferença era que aquela turma não tinha interesse nenhum em mudar o rumo das coisas, ou pelo menos não estavam tentando mudar nada.
A noite passou devagar e com ela todos os risos e a cantoria se foram, e assim o grupo foi forçado a retornar a uma vida normal se enchendo de boas lembranças de uma noite perfeita. Risos, música, histórias de terror à beira da fogueira e alguns casais assanhados, tentando namorar em uma noite de lua.
Como já era esperado pelo mentor daquele acampamento, alguns daqueles jovens ignoraram o toque de recolher para se aventurar pela floresta em busca de uma aventura. Tio Edy foi forçado pelas circunstâncias a passar a noite em claro vigiando seus pestinhas favoritos.
***
Mesmo tentando não demonstrar fraqueza, Lucca não conseguiu esconder dos amigos que estava realmente preocupado com a ameaça de Az, seu pai estava em perigo e ele tinha de fazer alguma coisa a respeito. Orfeu não aparecia em casa há dias e muito menos dava sinal de estar vivo e bem.
— Não tem mais volta pessoal. — Ele disse quando todos estavam na barraca. — O tempo está se esgotando.
Lucca estendeu o celular e mostrou a todos o cronometro em contagem regressiva.
— O que você pretende fazer? — Perguntou Drew coçando a cabeça sem entender.
— Ao que tudo indica Az se apoderou de uma de minhas invenções e está mantendo meu pai preso em algum lugar do cyber espaço. Eu só preciso descobrir onde. — Respondeu Lucca ajeitando-se no saco de dormir.
— O que você quer dizer com “algum lugar do cyber espaço” cara? — Questionou Jimmy incrédulo.
— É simples. Eu criei uma maneira de usar os batimentos cardíacos para acelerar as ondas cerebrais em até 80%, assim o cérebro humano seria capaz de viajar através da web encurtando os passos fundamentais do aprendizado, o ver, ouvir e fazer, com o qual estamos acostumados na escola. — Lucca respondeu mostrando a eles os desenhos feitos na máquina.
— Caraca. Isso é simplesmente genial. Já imaginaram quanto tempo seria a gente ganharia com isso. — Surpreendeu-se Adam.
— Realmente. — Concordou Drew.
— Seria, se não fossem as falhas no projeto. — O garoto respondeu sem entusiasmo.
— O que você quer dizer com falhas? — Indagou Tonny que permanecera calado todo o tempo.
— O capacitor de aceleração superaquece e simplesmente frita o cérebro de quem o usa em uma descarga de energia superior a 200 joules por segundo. Mas, de algum modo o Az conseguiu fazer com que funcionasse.
— Existe um modo de mais de uma pessoa usar esse negócio ao mesmo tempo? — Perguntou Jimmy.
— Teoricamente sim, por quê?
— Nós vamos com você. — Disse Jimmy de repente. — Acha que você vai ficar com toda diversão só pra você? … Eu também quero chutar o traseiro daquele sem noção.
Os quatro garotos sorriram para Lucca deixando claro que qualquer que fosse a ideia que ele tivesse para vencer o jogo doentio de Az e libertar Orfeu de sua prisão digital, eles estariam juntos.
Mas essa não seria uma vitória fácil, pois o tempo estava contra eles. 60 horas e contando…
***
O projeto que estava engavetado há séculos na garagem agora teria um propósito real, salvar Orfeu de algo doentio que Lucca jamais imaginaria que pudesse acontecer com ele.
O androide Rob agora teria uma missão, usado como uma cobaia espiã dentro do jogo proposto por Az, mas antes disso ele teria de ser terminado.
Desde a pequena brincadeira de cabo de guerra na escola algumas horas antes Lucca foi capaz de coletar as informações cruciais para a criação de um possível antivírus que derrotaria os planos de Az de uma vez por todas e libertaria Orfeu e Alice de sua prisão. A chave para tal proeza estava no protocolo WALKING desenvolvido por ele para poder invadir a área 51, e roubar projetos legais do governo. O programa de interface simples serviria como base para rastrear a origem, encurralar e deter o vírus Pandora antes que o mesmo tome proporções inimagináveis na rede mundial.
Esboços do maquinário, programas binários e de complexidade invejável a um cientista de guerra estavam dispostos em uma mesa e eram estudados constantemente, procurando possíveis brechas ou falhas na programação. As peças escolhidas a dedo e moldadas durante horas a fio estavam colocadas em sua mesa de trabalho formando um corpo de metal quase perfeito, pernas, braços tórax e cabeça estavam interligados por fios de fibra ótica e conectados a uma base de dados organizados para dar vida ao pequeno brinquedo. Por brincadeira Lucca decidiu dar vida a um dos maiores ícones NERD do mundo, a partir daquele dia ele seria o único garoto no mundo a ter um androide automatizado feito em casa, com as características clássicas do R2D2 da sua série de ficção cientifica favorita “Star Wars”, e a agilidade do sistema mais vendido em todo o mundo O sistema ANDROID, que permitia ao garoto usá-lo para rastreamento.
— Os braços e pernas devem expandir e contrair dando maior mobilidade ao androide além de inúmeras possibilidades de batalha. — Disse o garoto apertando o ultimo parafuso. — Agora só falta a interface cerebral.
Lucca ficou alguns minutos diante da tela imaginando se o programa WALKING funcionaria novamente contra Az, o garoto passara as últimas horas no acampamento configurando o programa para reagir à nova assinatura virtual que estava sendo usada.
O CD com o aplicativo enviado por Az 12 horas antes tinha um nome bem sugestivo, The Ézius Concilies num formato beta que tinha como base a interface de aceleração cerebral criada por ele, e junto a um mapa de toda a área, com uma charada profética.
Tudo estava pronto, e aquele seria um teste de vida ou morte para ele e seus quatro melhores amigos, que estavam apostando demais em suas habilidades. Ele deu uma última olhada para o boneco inanimado na mesa na esperança de que ele fosse capaz de conseguir as respostas que o garoto tanto ansiava ter, respostas que estavam guardadas na mente diabólica de Az e de Zaon seu simbionte igualmente maligno.
— Eu queria que você estivesse aqui. — Disse ele esfregando os olhos para aliviar o cansaço aparente. — Quando eu mais preciso de você, você desaparece.
Apertando um botão ele depositou todas as suas esperanças num simples robô sucateado e num programa que talvez pusesse surtir efeito. Essas seriam suas únicas armas contra a pior coisa que ele teria de enfrentar. Tudo já estava preparado quando os quatro garotos chegaram à casa de Lucca. Na sala o console do Xbox estava ligado a uma rede de internet caseira e nele cinco capacetes de metal feitos a mão estavam ligados ao laptop de Lucca.
Ele tinha o rosto abatido, olheiras ao redor dos olhos, e estava com a mesma roupa do dia anterior, o que mostrava que certamente havia trabalhado sem descanso para que tudo aquilo desse certo.
— Oi pessoal, vocês chegaram numa boa hora. Eu estou quase terminando aqui. — Disse ele conectando os últimos fios ao aparelho.
— Cara, você tá bem? — Perguntou Adam ao ver as feições do amigo.
— Não se preocupe. — Ele respondeu num sorriso sereno. — Eu ficarei bem. Vocês estão prontos?
Aquele era um cenário típico de ficção cientifica dos filmes que eles assistiam fios amontoados por todos os lugares da sala, o computador de mesa que antes estava no quarto agora servia como suporte mostrando umas letras esquisitas aleatórias e códigos binários que lembravam muito o conceito da Matrix vista por eles no cinema, a única diferença era: “tudo ali era real” e as pílulas azul e vermelha não eram uma opção para nenhum deles.
— Que louco! — Exclamou Drew com um brilho de deslumbre em seus olhos. — Cê fez tudo isso em menos de 24 horas…
— Não sei por que você ainda se surpreende com as coisas que o Lucca é capaz de fazer. — Jimmy se adiantou em dizer.
— O que é aquilo? — Perguntou Adam apontando para alguma coisa que levantava a perna da mesa para esconder alguns fios que estavam expostos.
— Esse é o Rob galera. — Disse Lucca olhando para onde o garoto estava apontando. — Venha aqui Rob e dê um oi para o pessoal.
Ouviu-se um rangido metálico vindo debaixo da mesa onde o computador ficava surgindo a passos de tartaruga um pequeno robô com cerca de 45 centímetros de altura num formato cilíndrico.
— Olá… — Disse o robozinho pausadamente. — Meu nome é ROB 01-14-10-15.
— Olá Rob. — Responderam todos de uma só vez.
— Que maneiro cara! — Indagou Drew admirando o robozinho. — Ele parece com o R2D2 em miniatura.
— Ele é o R2D2 em miniatura! — Corrigiu Adam.
— O que você vai fazer com ele? — Perguntou Jimmy sentando-se no sofá abarrotado de papeis e esquemas.
— Rob vai servir de guia entre as maquinas e a terra de Ézius. — Respondeu o robozinho prontamente.
— Isso mesmo. — Afirmou Lucca checando os aparelhos. — Ele vai ser o nosso contato com o mundo exterior e responsável por nos trazer de volta se algo der errado lá dentro.
— Errado… Como assim errado. — Disse Adam pegando o robozinho com as duas mãos em forma de concha.
— Mas… Isso não vai acontecer não é? — Perguntou Tonny receoso.
— É uma possibilidade. — Disse Lucca entregando a cada um deles um capacete. — E eu não posso abandonar nenhuma delas. Vocês não são obrigados a vir se não quiserem. Essa luta é minha.
— Nós estamos juntos nessa Lucca. — Disse Jimmy pegando o capacete em suas mãos. — Vamos pessoal o Lucca precisa da gente.
— O que a gente tem que fazer. — Disse Adam brincando com Rob no sofá.
— É só colocarem o capacete sentem ai e deixem o resto por minha conta.
— Vê se essa coisa não vai fritar o meu cérebro, beleza. — Disse Tonny dando um tapinha no ombro do amigo.
— Isso não pode acontecer duas vezes Tonny. — Disse Adam segurando uma gargalhada. — A matemática já fez isso com você há muito tempo, hahaha.
— Isso eu vou ter de concordar. — Ele disse sorrindo. — Essa porcaria é de outro mundo.
— Cuide de tudo por Aqui Rob. — Disse Lucca terminando de abotoar o capacete.
— Pode deixar ANJO. — Ele respondeu se colocando junto ao monitor principal.
— Espero que todos estejam prontos. — Ele disse ligando as maquinas. — Neuro-link. É hora da aceleração da matriz.
Puxando uma alavanca metálica próxima a ele, o que antes era silencio deu lugar a um zumbido fino e constante. Todas as luzes do lugar se apagaram, deixando apenas os olhos luminosos do pequeno robô em alerta.
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