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O Mundo que habito: Capítulo 3

“No 2º interlúdio, Maya aceita a proposta feita pelo poderoso feudo de produção. No capítulo de hoje, nossa heroína parte sozinha na busca pela encomenda que mudará o futuro de sua gente. Ela enfrentará seus medos nos escombros de um velho hotel desativado.”

 

III

Interlúdio

A busca

 

Fui sozinha. Nossas caçadas são solitárias. Só caçamos juntos quando a coisa é grande, difícil de carregar. Minha encomenda exigia apenas o uso de uma mochila (que a danada fosse reforçada, que não me cortasse as juntas dos ombros).

Pela manhã subi a encosta do Colorado. Trouxe pouca comida e água; o suficiente para alguns dias. Tinha uma pista boa, algo grande. Diziam se tratar de uma construção antiga, feita nos anos de 1930 (uma eternidade para esse novo mundo). Os antigos contavam histórias de assombração sobre esse velho hotel. Eu nunca prestei muita atenção nas conversas fiadas dos velhos, não sou dada a nostalgias. Durante três dias me enfiei no mato, me escondendo dos Mutantes. Eles não subiam em árvores (não que eu tenha visto). Arrastavam pelos troncos, farejando, buscando carne. Com o tempo nos acostumamos com eles. Como um doente de câncer que se acostuma com seu infortúnio. Ele sabe que aquilo vai matá-lo, mas mesmo assim continua lutando pela vida com sofridas sessões de quimioterapia.

No mundo antigo, as montanhas ficavam cobertas por neve no inverno. Hoje apenas o cascalho árido do Inferno. Pouca coisa cai do céu molhando a terra. E quando acontece, são como tempestades, devastando os feudos. A água que bebemos é suja, vinda de poços artesianos nos confins do mundo. Precisamos negociar por ela. Caso contrário, somos obrigados a beber a mesma dos Mutantes (sabendo que podemos ser contaminados por eles). Não é fácil viver no meu mundo. Vivemos porque somos teimosos como uma mula.

Assim que o segundo dia nasceu peguei o rumo da montanha das assombrações (Boo!). Não havia nada de diferente naquelas glebas, apenas um silêncio constrangedor. O sol castigava a pele, o ar rarefeito. Não demorou para que avistasse os escombros de uma construção que um dia fora poderosa. As vigas de sustentação continuavam de pé, assim como sua roliça estrutura. Grande parte do teto havia cedido, graças as chamas de um fogo bravo. Seu interior parecia calmo. Escultura que um dia foram cuidadas por jardineiros talentosos ornavam um jardim destruído pelo tempo. Apenas as estruturas de arame revelavam as orelhas de um coelho e a juba de um leão. As instalações enferrujadas gritavam tétano em alto e bom tom. Pulei uma das janelas da recepção com cuidado redobrado.

 

-Olá!

Apenas o eco da minha voz nos corredores sombrios.

Caminhei me esquivando dos cacos de vidro. O sol entrava pelas fissuras no teto, pelas janelas e portas arrebentadas pelo vento. Caminhei pela recepção, de olho nas estantes, em busca da encomenda. Apenas um amontoado de garrafas pelos canto, copos empoeirados e sofás retorcidos pelo fogo. Nada que pudesse trocar. Nada de valioso. Um antigo elevador subia e descia devagar, rasgando a estrutura, fazendo barulho. Não havia ninguém lá dentro (eu não fiquei para conferir que tipo de assombração pularia no meu pescoço). Continuei caminhando com um medinho besta nas pernas.

Havia um porão em baixo da escada. A porta parecia nova, com cheiro de pinho (conheço o cheiro porque já bebi alguns). Levantei a estrutura de mogno maciço. Ela rangeu um som estridente, fino como um barítono em fim de carreira. Fechei os olhos (Boo!). Ninguém agarrou meu pescoço. Suspirei aliviada. Não havia luz. Estava abafado, bem úmido. Busquei na mochila fogo e tocha. Ascendi para iluminar o caminho. Tinha tantas coisas nas prateleiras, mas nada que prestasse. Apenas documentos velhos com cheiro de rato. Segui em frente. O lugar era imenso; podre.

Fui para o fundo da coisa, tropeçando nos trapos, na sujeira acumulada pelo tempo. O cheiro do mofo me fez tossir e lacrimejar. Tampei o nariz com a blusa, para abafar um pouco do odor de mijo. Senti que algo arranhava a madeira perto de mim. Iluminei-o com a tocha. Um rato me enfrentou com seus dentes poderosos. Afrontei-o com o fogo, chutando-o para longe. Havia outros. Eu podia ouvir seus rasgos no solo, suas lamúrias. Me aprofundei mais e mais nas entranhas daquele hotel, procurando pela encomenda.

Senti o chão se movendo. Havia ratos em todos os lugares; enormes como um gato, feios como morcegos. Eles desciam das vigas, rosnando, se esgueirando da luz. Percebi que não tinham olhos, que se guiavam pelo movimento. Fiquei quieta. Alguns subiram em mim. Chacoalhei-os de encontro a parede (já vi muita coisa nesse mundo e não seriam ratos que me fariam voltar). Continuei avançando, mais e mais nas entranhas do porão. Algo sobrevoou minha cabeça. Era um morcego. Tenho certeza do que era. Enorme! Do tamanho de um filhote de São Bernardo. Mirei a tocha no seu rumo. Ele grunhiu um som estridente, farfalhando as asas.

-Meu Deus! O que mais vou ver por essas terras?

Algo se arrastou perto de mim (um arrasto diferente). Iluminei o caminho. O que acredito ser uma ratazana branca com patas traseiras retorcidas (sem olho e do tamanho de uma capivara) avançou sobre mim. Seu golpe me fez cair de encontro à parede. Os ratos vieram depois, sorrateiros, deslizando pelas velhas prateleiras, me maculando com suas patinhas sujas. Tentei alcançar a tocha. Um vento vindo das entranhas mais profundas soprou sobre ela, apagando-a. Fiquei no escuro, tateando pela saída. Os ratos mordiam minha armadura de pneus, tentando arrancar pedaço do meu tórax. Eram muitos, desciam de todos dos lugares, de dentro dos buracos da parede, das pilastras de sustentação. Fui me arrastando pelo chão, procurando a saída. Estava escuro. Meu queixo tremia.  De repente uma luz desceu até o porão. Fui até ela, lutando contra os ratos, me esquivando dos morcegos e de seus rasantes.

-Venha, moça, eu tenho o que procura.

A voz vinha do lado de fora. A assombração me beirava (Boo!).

 

Uma mão me puxou sem esforço. Os ratos grunhiam sobre os olhares da ratazana parideira que esguichava seus dentes de capivara. Empurrei a porta de mogno para que não tentassem fugir. Um homem alto sorria ao meu lado (as assombrações são feitas de carne e osso?) cuidando para que a porão continuasse fechado.

-Eu esqueci de trancá-lo – disse esfregando os dedos na boca – me desculpe.

Ele usava roupas de frio surradas, desgastadas pelo tempo. Seu cabelo arrepiado berrava insanidades. Havia manchas escuras nas suas calças e um cheiro forte de álcool.

-Como se chama? – Me perguntou.

-Maya.

Ele franziu a testa.

-Um nome bonito.

-E como posso chama-lo?

-Senhor T – ele sorriu – Preciso limpar o porão. Um bom zelador cuida de todo o patrimônio.

-Nem pense nisso. Deixe-os lá. Não vale à pena. Não me arriscaria comendo-os. Pode crê no que tô falando.

Finalmente processei o nome zelador (zelador do que exatamente?).

Ele foi até o corredor e pegou uma mangueira de incêndio (irônico ter sobrevivido ao fogo bravo que destruiu o lugar). Depois abriu a portinhola e entrou. Fiquei observando, com medo que as criaturas escapassem pele escada do porão. Minutos depois voltou, trazendo uma mangueira pingando água.

-Vamos cuidar desses arranhões – ele apontou para o meu braço – se isso infeccionar vai virar comida de mutantes.

-O que o Senhor fez lá dentro? Essa mangueira ainda funciona?

-Claro que sim. Sou um bom zelador. Tudo aqui funciona.

Conversa fiada. Esse homem era maluco, isso sim.

-E os ratos?

-Dei um jeito neles por um tempo. – Ele acionou o jato da mangueira, me mostrando como fez. – Não consigo me livrar deles. Eles sempre voltam como uma assombração.

O Senhor T recolocou a mangueira no lugar, beijando-a com um sorriso torto. Eu o acompanhei pelos corredores daquilo que um dia fora um hotel. O homem esfregava um lenço sujo na boca. Tinha uma aura torturada. Convivo com coisas bem estranhas, mas aquilo me gelava a espinhela.

-O senhor come esses ratos?

-Claro que não. Isso é nojento.

-Não no nosso mundo. Por que nunca tentou comê-los?

-Porque não tenho fome. – Ele sorriu esfregando a manga da blusa na boca – Não falo sério, menina. Prefiro as rações para cachorro.

Eu tenho fome. Mas dispenso tão apetitosa iguaria.

-Se meu irmão souber sobre esse porão, com certeza teremos ratos para o jantar.

-Então não vamos contar para ele, certo? – O Senhor T piscou para mim. -. Esse é o nosso segredinho.

Ele enfiou a mão no bolso, alisou a testa e colocou algo dentro da boca.

-O senhor mora aqui sozinho?

O zelador aprumou o corpo puxando ar para os pulmões.

-Minha mulher e meu filho se foram há muito tempo, bem antes da praga.

-Entendo.

-Não entende não, moça. Não entende mesmo.

Ele esfregou novamente o lenço nos lábios, tomando velhas aspirinas de um frasco encardido.

Caminhamos até um grande salão de festas. Escancarei os olhos quando percebi que estava intacto. Nenhuma chama lambeu suas paredes. Não havia nada estragado. Sentia-se o cheiro do magno das cadeiras, da seda das cortinas e das bebidas no balcão.

-Como é possível? – Perguntei num sussurro.

Ele cheirou meu medo e disse:

-Sou um bom zelador, Maya. Um dos melhores.

Senhor T me entregou uma garrafa de Whisky.

            -Esfregue no ferimento. É melhor que nada.

            O homem tinha razão. Era melhor que nada.

            Doeu quando o líquido tocou o machucado. Senti calafrios quando esfreguei minhas mãos sobre ele. O cheiro da bebida se esparramou pelo salão tornando mais forte o barulho do elevador.

            -Não se assuste. Não tem concerto. É um mecanismo velho e desgastado.

            -Isso assustaria até o Diabo.

            O Senhor T gargalhou tomando a garrafa de Whisky das minhas mãos. Ele se serviu de uma generosa dose me oferecendo um trago.

            -Não, obrigada. – Disse para ele.

            -Não gosta de se divertir, moça? – Perguntou zombeteiro.

            -Nesse mundo não há tempo para diversão.

            -Besteira. – Ele bebeu outra dose. – Eu sei o que procura. Assim que entrou o gerente me contou.

            -Gerente? Que Gerente? Tem outra pessoa aqui com o senhor?

            Me aprumei assustada. Com medo de ser surpreendida pelas costas.

            -Relaxa, Maya. É uma boa menina. Vou dar o que veio buscar.

            -Duvido que tenha o que procuro. Tudo isso aqui é cinzas – olhei para o restante do hotel – E não vou encontrar o que quero num salão de festas.

            -Tem certeza?

            Ele soltou um risinho de hiena. Ainda esfregava o lenço na boca, alisando seu cabelo de louco. Do bolso tirava seu frasco de aspirina, enfiando meia porção na boca. O Zelador me pescou com aquele olhar macabro.

            -Vem comigo que te mostro.

            Fui até o elevador. A coisa parou quando chegamos, escancarando a porta para o Senhor. T. Senti aquele frio na espinhela.

O elevador nos deixou no terceiro andar. Os escombros ameaçavam ruir sobre nossas cabeças e o chão desabar sob os nossos pés. O homem que se denominava zelador caminhava assoviando uma canção de festa. Ele puxou um molho de chaves do bolso, abrindo o quarto duzentos e alguma coisa.

            -O que procura tá lá dentro.

            Parei desconfiada. Não nasci ontem.

            -Não tenha medo, caçadora. Vá buscar o que procura.

            O zelador suspirava atrás de mim. Pensei que fosse me empurrar para dentro. Meu peito batendo acelerado. Um medo bruto que nunca senti. Mesmo sabendo do perigo, entrei. Assim que coloquei os pés no assoalho limpo senti o cheiro de sabonete do velho mundo (ainda encontramos deles nos escombros das farmácias). Fui mais devagar, renegando aquela dor de veado na ponta da barriga. O quarto estava intacto, com todo seu mobiliário em perfeito estado. Minha loucura também era grande ou estava vendo coisas?

            De uma banheira transbordava água quente. Uma música de Glenn Muller veio do salão. O movimento do elevador acelerado como outrora. Me aproximei com o coração em suspensão, a boca seca. Não carregava nada nas mãos. Minha mochila ficou esquecida no porão (não voltaria para buscá-la nem sob decreto). Havia algo naquela banheira? Sim, sim, uma senhora de cabelos compridos e pele flácida. Ela sorriu para mim, eu sei que sorriu (não sou de ver coisas).

            -A senhora precisa de ajuda? – Perguntei com ingenuidade.

            Seus olhos nublados me fizeram gelar (um sorriso com dentes podres me convidou para dançar). Seus braços vieram para meu pescoço. A pele flácida, quase translúcida, tocando na minha, me marcando nos braços. Senti náuseas, uma palpitação no peito. Tente afastá-la, devolvê-la para o Inferno.

            -Eu sou um bom zelador, Maya. Um dos melhores.

            O Senhor T. batia algo nas paredes do lado de fora. A velha continuou se esgueirando pelo quarto, esparramando seu odor podre, sua pele em putrefação (Boo! Boo! Boo!). Assombração ou não ela era velha, muito velha. Empurrei-a com os braços para correr pela porta. Ele me agarrou pela calça, me derrubando no chão. Bati a boca no assoalho velho do corredor, sangrando por um corte na língua. O Demônio do quarto me deixou sair. A porta fechou num solavanco de quase arrancou meus pés. As paredes do corredor fecharam sobre mim. Senti uma dor lacerante na cabeça. Alguém me acertara nos cornos.

            O Senhor T me arrastava pelo salão. A música de Glenn Miller na vitrola (o som de festa). Não havia ninguém com a gente, mas eu ouvia o barulho dos convidados; os borbulhos do liquido nos copos, as risadas exageradas. Para piorar as coisas, o zelador mantinha um taco de hóquei na mão esquerda, pronto para me acertar novamente (a loucura estampada na cara, o lenço dentro do bolso). O homem vivia numa outra dimensão. Tão sinistra quanto a minha.

            -Eu sou um bom zelador, Maya – disse num sussurro – você não foi uma boa menina.

            Ele me jogou na parede, esfregando o lenço na boca (o eterno cheiro de álcool). Tentei ficar de pé, mas o taco de hóquei veio nas minhas pernas. Caí de costas, sentindo a fisgada na canela. Minha armadura mantinha a dignidade dos meus ossos, só não sabia por quanto tempo.

            -Deseja conhecer o gerente, Maya, deseja? – Perguntou perto de mim. Senti o odor podre do porão.

            -Não, obrigada.

            Me joguei debaixo de uma das mesas. Seus passos me lembravam patas de elefante (batendo, batendo, batendo, ouvindo as estocadas do taco na parede).

            -Vamos, Maya, não tenha medo. Quero que aprenda uma lição. Você não foi convidada para a festa.

            O som ficou alto, os burburinhos excitados. Tampei os ouvidos. Estava na beirada do precipício, louca para pular. A assombração ensandecida (Boo!) atirou seu bastão de hóquei no meu rumo. Desviei para que não acertasse minhas costas. Essa foi minha deixa. Corri para fora da mesa, o hotel desmoronando na minha cabeça como um vulcão em erupção. Fui correndo pela recepção desviando dos paus que eram lançados.

            -Não vá embora, Maya. Fique. O gerente quer você.

            Uma luz mortiça desceu com os escombros. Minha visão ficou turva pela poeira, o peito rangendo como uma porta velha. Eu tinha a opção do porão, mas recusei. Só de pensar naqueles ratos me gelava a espinhela. Me arrastei pelo instinto, seguindo pelo pouco que me lembrava do espaço. O taco de hóquei veio nas minhas pernas novamente. Ele conseguiu me acertar perto do joelho esquerdo. O Senhor T. estava em cima de mim, com seus lábios secos e cabelos arrepiados.

            -Não vai se despedir, Maya?

            Ele tentou me acertar novamente. Só que dessa vez fui mais rápida do que ele, empurrando-o de encontro a uma mesinha de centro. Isso o desequilibrou o suficiente para deixar o taco cair. Peguei-o trêmula, louca para acertá-lo nos cornos. Quando aprumada para o golpe, o chão cedeu aos meus pés. Vazei para o fundo do Hotel me estatelando numa garagem cheia de automóveis do antigo mundo. Estavam empoeirados, sujos de fuligem, apodrecidos pelo tempo.

            -Estou chegando, Maya. Preciso me despedir. O gerente diz que sou um bom zelador.

             Ouvi os seus passos e o ranger das tábuas do assoalho.

            Num mundo louco, tudo é louco. Não me assustou ver um Plymouth Fury 1958 estacionado na porta da garagem (meu pai colecionava miniaturas dos Plymouth’s, então sei do que estou falando). Vermelho e de capota branca, me chamava para dançar com as chaves na ignição.  Me desfiz dos pedaços de madeira que me mantinham no chão e corri para o carro com cheiro de cera limpa. Seus bancos eram de couro, lustrosos e limpos. Não perdi meu tempo perguntando coisas para Deus. Entrei no Plymouth e dei partida. Acelerei para a estrada sentindo novamente aquela dor de veado no pé da barriga. O zelador veio até a garagem, rindo com seu taco de hóquei. As estruturas de arame em formato de bichos me fecharam. Avancei sobre eles sem sequer olhar para trás. Acelerei o máximo que pude. Meu coração saltava pela boca, minhas mãos tremiam ao volante. De repente o rádio tocou uma música das antigas:  um roquinho safado dos anos 1950.

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