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NOTA DO AUTOR: O EPISÓDIO CONTÉM TRECHOS QUE PODEM CAUSAR DESCONFORTO. 

 

25 de Julho, 2017, terça-feira

A naturalidade quase informal que Lucas vinha mantendo enquanto entregava o seu relato, desaparece por completo, dando lugar a um silêncio lúgubre que toma conta não só de si, mas também do quarto individual em que está alojado no Hospital das Clínicas Juliano Pereira de Aguiar. Sentado sobre um pequeno sofá, não muito distante da cama de solteiro e do criado mudo, únicos móveis permitidos em seu aposento, além de uma cadeira, ocupada, agora, pela psiquiatra que acompanha o seu tratamento já há quatro meses, Lucas segue absorto e em seu semblante uma impassibilidade sólida se faz cada vez mais presente, incondicional, até que sem qualquer resistência, mergulha, por fim, num profundo estado de apatia.

— Então, Lucas… — a psiquiatra se inclina um pouco para frente, tentando encontrar o olhar de seu paciente, porém, não obtendo sucesso, retorna, a contra gosto, ao encosto da cadeira — Aqui estamos, mais uma vez, e você sempre que termina de relatar essa sequência de acontecimentos que ocorreram na chácara, naquela tarde de carnaval, acaba estacionando no mesmo ponto…

Gabriela, por mais que tente manter a distância emocional necessária, não consegue deixar de sentir certa compaixão diante do torpor que envolve o ser humano parado a poucos centímetros à sua frente, cheio de emoções reprimidas, marcado por uma tristeza sem fim e que aparentemente desistiu da vida, pois, decerto, encarar a realidade seria mais do que insuportável. Assim como também não consegue deixar de experimentar sentimentos contraditórios por este mesmo ser humano, afinal, se for realmente provado que ele, de forma consciente, fez o que fez contra os próprios familiares…

Gabriela engole em seco. Meneia a cabeça. Gestos quase imperceptíveis. Não tem o direito de julgar seu paciente. Insegurança e prepotência, sem sombra de dúvida, prejudicarão o seu exercício, e ela sabe disso muito bem.

— Preciso de mais informações, Lucas. Eu quero te ajudar e para que isso aconteça você precisa me ajudar — Gabriela volta a se inclinar — Há quatro meses permanecemos estagnados em um pedaço de caminho sem antes e nem depois. O que aconteceu naquela noite da segunda-feira de carnaval? O que seus pais fizeram? Necessito de relatos consistentes e não de meias-palavras, sugestões… Eu não posso e nem devo trabalhar com conjecturas. Por que Márcio Antônio, o professor de filosofia, não é isso? Por que ele tinha o número do seu celular? Como era a sua vida com os seus pais adotivos? Como era o seu pai, o desembargador? A sua mãe? Tem certeza de que não havia uma quarta pessoa com vocês naquela chácara?

Dando de ombros, Lucas deixa escapar um suspiro profundo, que lhe faz doer os pulmões conforme Gabriela retorna ao encosto da cadeira, juntando os dedos sob o queixo. Ela tem plena consciência de que está atravessando a fronteira profissional e sem tato. Todavia, está febril de impaciência e tudo que deseja é não alimentar ainda mais suas expectativas fracassadas por não estar conseguindo identificar os diagnósticos diferenciais da saúde mental do seu paciente, que, no frigir dos ovos, poderá pagar por um crime supostamente não cometido por ele.

Um silêncio, novamente, enche o quarto à medida que Gabriela prossegue estudando Lucas, esquadrinhando atentamente sua expressão e ele, que a observa de soslaio vez em quando, constatando a cortesia lutando com a ansiedade, sente-se, pela primeira vez, um pouco desconfortável até que decide, por fim, se manifestar. Seu tom de voz, uma variação extrema entre grave e agudo, como um instrumento musical desafinado, ressurge um tanto claudicante, parecendo arranhar a garganta à medida que as palavras se formam.

— Acredite em mim, doutora… Não gostaria de lhe dar esta resposta outra vez, porém, não tenho outra… Não consigo lembrar mais nada… Eu… Eu sinto muito — seus olhos, agora, seguem voltados para o chão, como se estivessem buscando algo inalcançável, abstrato, trancafiado nos confins de sua mente — Minha cabeça dói quando me esforço. A senhora já sabe disso… E, sim. Tenho conhecimento de que preciso montar esse quebra cabeça, ir adiante, mas por mais que eu acredite que irei suportar essa dor, algo me impede, me sufoca e me deixa apavorado e nada acontece e eu me sinto frustrado, impotente…

— O que te impede? — Gabriela interpela, mantendo a determinação tão logo recolhe os dedos de sob o queixo — Me fale. Descreva. Ou ao menos tente. Quero e preciso te ajudar a neutralizar a situação ou as situações estressantes que te trouxe até aqui e não temos mais o tempo ao nosso favor… Essa lembrança da tarde de carnaval, Lucas… — ela cita o nome do paciente de maneira incisiva ao mesmo tempo que se contém para não forçá-lo a levantar o rosto e encará-la — São realmente suas?

Lucas deixa os ombros caírem, denotando uma exaustão não apenas física, não apenas sentimental; na verdade, parece estar tomado por um esgotamento da alma. Sua essência suplica por um socorro sem saber exatamente como rogar por esse auxílio.

— Doutora, acredito que as recordações só chegam até nós quando nossas memórias envelhecem… — ele inicia, se agitando sutilmente; a voz, rouca, tímida, assustada e o olhar ainda absorto, amargurado, fixando um ponto qualquer do chão — Sinto-me como um retrato pendurado numa sala vazia, doutora. Sinto-me quebrado, esmagado, desmoronando, rastejando em minha pele… Sinto garras de gelo comprimindo meus músculos e chegando ao meu peito, sufocando-me… — Lucas solta um suspiro, longo, antes de finalizar o que acredita que precisa ser dito, enquanto ainda tem forças para isso — Tenho medo de nunca mais voltar a ser quem fui um dia.

— Não precisa se sentir assim — Gabriela acaba se permitindo pousar uma das mãos sobre o braço esquerdo de seu paciente — Já conversamos sobre isso. Não quero que se sinta coagido. Esqueça tudo que acabei despejando sobre você nestes últimos minutos. Vamos respeitar o seu tempo, ok? Contudo, devemos…

Lucas ergue o olhar e encara a psiquiatra, inicialmente firme, decidido, à medida que empreende um esforço hercúleo para lhe transmitir um sorriso, por mais retraído que seja, porém, não demora muito para se deixar envolver novamente num total estado de prostração. Diante de si, Gabriela vê um rosto grave, com olheiras: um ser humano totalmente esgotado e com os olhos prontos para chorar.

— E as dores de cabeça? — ela pergunta — A nova medicação tem ajudado?

Lucas segue mergulhado em sua mudez. A fisionomia, o retrato de uma piedade ardorosa. A respiração, ritmada. Decide e vai permanecer assim, numa quietude atroz; é a única maneira de lidar com a desorganização de seus pensamentos.

Após inserir algumas anotações no bloco que traz preso a uma prancheta, Gabriela decide dar por encerrada a sessão, ainda que contra a vontade. Tem plena ciência do patamar em que se encontra, mas o que há de se fazer? Não conseguirá, ao menos por agora, qualquer avanço, por mais que tente. Entretanto, precisa evoluir. E pra ontem. O julgamento do seu paciente, mesmo que por ora não tenha uma data definida, já é um monstro sentado sobre sua cabeça.

Empurrando a cadeira para trás, Gabriela se levanta e se despede, não recebendo nenhuma resposta. Ela engole saliva uma, duas, três vezes enquanto balança a cabeça, como se lamentando sobre a verdade à sua frente ao tempo que permite ser consumida ainda mais pela sensação de impotência e cansaço que a permeiam. Depois de inalar com força todo o ar para dentro dos pulmões, se dirige para a saída, onde pressiona um interruptor fixado à parede e daí, sem demora, vê a porta do quarto sendo aberta e do lado de fora, lhe aguardando, como sempre, um homem alto, um tanto truculento dentro do seu uniforme branco, parecendo fazer questão de sustentar um semblante de poucos amigos.

Médica e enfermeiro trocam olhares dentro de uma mudez absoluta, e antes que Gabriela faça menção em sair do quarto, se volta na direção de Lucas, encontrando-o inerte, quase uma estátua humana; nenhuma vida aparente transita em seus olhos. Pesarosa, ela se dirige ao corredor, e logo depois que a porta do quarto é fechada atrás de si, ajeita os ombros, assume uma postura altiva, segurando firme a prancheta e o bloco em sua mão direita, para, daí, começar a percorrer, extremamente concentrada, e a passos largos, o pavilhão da ala vermelha do hospital, passando em seguida por um espaço multifuncional reservado às refeições, aos atendimentos individualizados e também às atividades de terapia ocupacional, assim como também atravessa o ambiente destinado à interação, com sofás, mesas e aparelhos de som e televisão, sem deixar de refletir um instante sequer sobre o tempo em que já está ali, no Hospital das Clínicas Juliano Pereira de Aguiar, onde, há exatos quatro meses havia chegado após ter sido convidada a assumir o caso envolvendo o nome de Arnoldo Justus de Aguiar — um influente desembargador —, logo depois da desistência, sem maiores explicações, de Júlia Mathias, uma profissional renomada, um pilar mais do que referencial dentro da comunidade psiquiátrica.

Óbvio que ao receber aquele convite, Gabriela não pôde deixar de questionar os motivos da escolha de seu nome. Havia terminado a Residência Médica em Psiquiatria tão somente há dois anos e ainda nem sequer tinha — não que isto tenha mudado — o seu próprio consultório. Com certeza outros colegas poderiam estar ali, em seu lugar, colocando em prática toda a bagagem que ela ainda não possuía, mas era a sua chance, a sua grande chance, não é mesmo? Não poderia ter recusado. Ninguém o faria.

Gabriela busca em sua mente, como sempre faz quando se defronta com o fantasma da insegurança em relação a este caso, a polida explicação dada por doutor Orlando, diretor daquele hospital-clínica psiquiátrico, quando ela assumiu a pasta denominada com a alcunha de “Paciente Eve”.

“Doutora, como já é de seu conhecimento, o nome de um desembargador, renomado e mais do que influente nos altos escalões da nossa política, está envolvido neste caso… Praticamente nada foi divulgado, exceto pela mídia sensacionalista, essa maldita imprensa marrom, que inclusive tentou manchar a hombridade, a virilidade deste desembargador. Mas as pessoas certas tomaram as providências devidas para que sossegassem o facho e mordessem a própria língua… Então, diante de tudo isso, e pelos motivos óbvios, este caso deverá ser tratado com total discrição possível, e foi decidido, por fim, que este tratamento seja realizado, a partir de agora, sem vícios, sem presunção ou prepotência. Compreenda que não foi por acaso que a senhorita foi escolhida a dedo para assumir este caso após a desistência sem qualquer precedente da doutora Júlia. Aliás, com todo respeito à nossa nobre colega e todos os seus anos de profissão, acredito que faltou sintonia emocional entre ela e o entrevistado, algo imprescindível para interpretar de maneira mais efetiva os elementos ligados a afeto, humor e pensamento do paciente… Enfim, conto, de verdade, com sua total contribuição, doutora Gabriela. As informações que tenho sobre a senhorita foram mais que suficientes para abalizá-la a este posto. Seja lá o que tenha incentivado nossa nobre colega Júlia a pular fora deste barco, espero, realmente, doutora, que não seja um influenciador positivo ou negativo sobre o seu trabalho”.

 

12 de fevereiro, 2017, domingo

Lucas segue em direção ao viaduto sem olhar para trás, enquanto carros ziguezagueiam pelo asfalto, indo e vindo, onde motoristas, detrás de seus volantes deduzem, ao avistar o solitário jovem de ombros caídos, passos claudicantes e roupas aparentemente um pouco grandes para o seu tamanho, que não passa de mais um adolescente caminhando a esmo, mergulhado em sensações extremas, algumas descabidamente infantis, experimentando e pensando um milhão de coisas ao mesmo tempo, insistindo em uma melancolia sem sentido e dramas sem pé nem cabeça…

Parado sobre o meio fio, aguardando o semáforo liberar a passagem dos pedestres, Lucas meneia a cabeça sem pressa, inspirando e expirando à medida que um sem número de vozes passeia pela sua mente; algumas gritando, outras mantendo um tom moderado, pacífico, entretanto, todas argumentando sobre a real necessidade de ele estar ali, questionando se o que pretende fazer é, de fato, a solução para os problemas de seus pais. ou, se na verdade, irá criar uma agrura ainda maior, promovendo um rompimento definitivo entre aquelas duas pessoas a quem ele deveria ser eternamente grato…

Lucas atravessa a rua, também no mesmo vagar, desviando de algumas pessoas, sem protesto, até alcançar a calçada e seguir para a amurada do viaduto, onde deposita sua mão direita, indo em frente, conforme olha para baixo, para os veículos passando, desfilando como flechas, velozes…

Pressa, pressa. Todos com pressa.

Subitamente, Lucas volta a sentir as mãos dele… Aquelas mãos rendendo-se diante de sua beleza, a beleza de um efebo proibido, com sua pele sem as marcas do tempo, acariciando seus cabelos, seus ombros, seu peito; caminhando, moroso, com aquelas mesmas mãos firmes sobre suas pernas durante o tempo que o encarava com um sorriso sarcástico e constrangedor, balançando a cabeça…

— Eu o procurei — Lucas balbucia envergonhado, arrependido — Eu o procurei. Eu o provoquei… — sente a cabeça girar. Precisa se agarrar à realidade, é o que lhe resta — E ele sabia… Ele sabia o tempo todo…

Nãããããoooooo, Lucas tem vontade de berrar, alto, extremamente alto, uma, duas, três, cem vezes até ficar sem voz, mas não consegue… ele precisa, mas não consegue… ele deve, mas não consegue… Seus olhos estão prontos para chorar, mas ele respira fundo, inspira, expira conforme segura ainda mais forte a amurada sob seus dedos até estacionar, os dois pés fincados no chão, sem desviar um instante sequer a atenção dos carros, dos caminhões e das motos seguindo velozes a alguns metros de distância sob seus pés.

— Por que não contei pra ele? Por quê? — Lucas volta a balbuciar ao mesmo tempo que sente uma fisgada na altura do umbigo — Ele me deu todas as chances. O cretino sabia que eu queria falar… Na verdade, ele sabia O QUE EU QUERIA FALAR. Mas eu me perdi. E se uma coisa não for dita no momento certo, ela desaparece, irreversivelmente. A verdade se afasta, escapa…

Lucas balança a cabeça, forte. Precisa romper com o círculo sombrio dos pensamentos irracionais que estão tomando conta de si novamente… Os carros, caminhões, motos seguindo velozes a alguns metros sob seus pés… lágrimas no canto dos olhos insistem em se formar… garganta ficando seca… a dor… a dor… o desespero beirando o insuportável… Como contar para a sua mãe? Como? É claro que vai precisar contar para a mãe, pois, quem sabe assim, talvez acabe de vez com o inferno que eles estão vivendo, com o inferno que ela está vivendo…

— Estou fazendo a coisa certa, sei que estou… E não é por mágoa… Ou talvez seja, mas com certeza não é por vingança. Não é.

Lucas semicerra os olhos, tenso, sem se mexer, enquanto fala baixinho, murmurando, repetindo para si que não irá, não irá, não irá de jeito nenhum à chácara alugada por seus pais para passarem o carnaval. Não irá. Não irá. Até porque vai ser impossível essa viagem acontecer.

Mas por que razão está sussurrando? Quem vai escutá-lo, ali, onde ele está?

Os dedos de Lucas se crispam na amurada ao tempo que sente uma vertigem, forte, ao tempo que sente o ar lhe faltar… Neste instante o celular começa a vibrar no bolso da bermuda vermelha que está usando.

 

04 de fevereiro, 1977, sexta-feira

Ronaldo estava sobrevivendo pelas ruas, becos e calçadas das cidades vizinhas, pernoitando em portas de igrejas, banco de praças e embaixo de marquises já havia três semanas desde que deixara Manhuaçu, interior de Minas Gerais, para trás. Andava sem destino, ora a passos largos, ora sem qualquer pressa. Fato: estava alheio ao mundo à sua volta. Possivelmente resultado de um reflexo involuntário de seu cérebro que ia deixando de se concatenar com a realidade na medida em que lembranças perturbadoras invadiam cada vez mais e mais sua mente ao lado das malditas dores de cabeças seguidas de perdas de memórias.

Um verdadeiro campo de batalha havia se formado dentro de si.

Por um lado Ronaldo precisava delas, das amargas recordações, cada vez mais distantes, para alimentar sua determinação, fazê-lo reunir forças de modo a enfrentar seus pais e resgatar sua irmã Bruna de dentro daquela casa, mesmo sabendo que tal empreitada não seria nem um pouco fácil. Por outro, o preço a pagar pela presença daquelas lembranças, cada punição sofrida, cada humilhação a que fora submetido, tudo, tudo o que havia passado, dilacerava a sua alma, sufocando-o e quase lhe convencendo de que extinguir a própria existência seria a única maneira de livrar-se de todas elas.

Será que algum dia ele iria conseguir extirpar as imagens de seu pai lhe surrando com o cinto, repetidas vezes, para em seguida começar a usá-lo como um mero objeto sexual? Desfrutando de cada parte do seu corpo, dolorida ou não, no intuito de satisfazer seus instintos, seu apetite voraz, embriagado pelos mais sórdidos desejos que a luxúria poderia incitar enquanto sua mãe os observava?

Ronaldo havia perdido as contas das vezes a que fora submetido a todo esse constrangimento… Talvez os “apagões” que o estava acometendo seria um sinal de que começara o estágio para esquecer tudo aquilo…

Bruna! Bruna! Eu preciso tirá-la de lá, Ronaldo repetia, quase sempre delirando em febre, afirmando que não seria covarde como sua irmã mais velha. Como Laura fora capaz de deixá-lo para trás, e a Bruna também, mesmo sabendo o que os aguardava?

Definitivamente era preciso voltar para casa antes que fosse tarde demais.

 

25 de Julho, 2017, terça-feira

Gabriela finalmente chega à sala que lhe foi designada para ocupar enquanto estiver à frente do “caso Eve”. Ao fechar a porta atrás de si, busca de imediato divisar a mesa que fica em um canto próximo à janela que dá para um dos pátios do hospital e em seguida as duas cadeiras estacionadas respectivamente atrás e defronte a ela, e por fim o armário baixo, de duas portas, no extremo oposto à entrada. Somente isso. Exceto esses poucos móveis, a sala, a “sua sala”, é extremamente vazia. Nada que a surpreenda.

Depois de caminhar a passos largos até a escrivaninha, como gosta de chamar “sua mesa”, Gabriela deposita em uma bandeja de madeira a prancheta e a caneta que carregava e tão logo se acomoda, lança um olhar de esguelha para uma pasta envelope, com fechamento horizontal, que está ali, a poucos centímetros, disposta à sua esquerda. Deseja puxá-la para si e abri-la e chega a alimentar esta convicção por alguns segundos, porém, muda de ideia, passando instantaneamente a tamborilar com os dedos sobre a superfície da escrivaninha, ao mesmo tempo que mantém as sobrancelhas arqueadas, as narinas palpitando e o olhar, claro, fuzilando a pasta envelope, até finalmente trazê-la para perto e abri-la cautelosamente como se estivesse a poucos segundos de descobrir um segredo inimaginável.

É claro que toda a documentação que está ali dentro, e que diz respeito ao “paciente Eve”, ela já conhece de cor, inclusive o laudo pericial inicial que o encaminhou para o tratamento psiquiátrico, mas, ainda assim, retira o documento de entre a papelada e o arrasta para fora.

 

Rio de Janeiro, 03 de março de 2017

O paciente Eve é acusado de duplo homicídio, apesar de as circunstâncias de ter sido encontrado, pela polícia, superficialmente ferido e desacordado no local do crime. O paciente afirmou veemente, ao ser despertado, que não possuía nenhuma lembrança do que lhe podia ter acontecido antes da tarde daquela terça-feira de carnaval e tampouco saberia dizer quem o teria atacado, sinalizando, logo em seguida, um tanto confuso, o horror que o acometera depois de ter achado os corpos dos seus familiares estrangulados, atados a uma cama, no segundo andar da casa. Infelizmente, por descuido, talvez, lhe permitiram que se deparasse, de novo, com a cena, o que o lançou de imediato a um estado de torpor, condicionando-o a um quadro semivegetativo violento e logo depois a um quadro emocionalmente instável, oscilando entre o pior e o melhor do mundo, sendo trazido para esta clínica de modo a ser submetido a uma intervenção psiquiátrica emergencial.

Sinceramente,

Dr. Marcelo, médico parecerista

 

Gabriela, por um instante, por um longo instante, observa o documento à sua frente tomada pela inesperada impressão de que algo está diferente, de que alguma coisa no laudo pericial foi modificada, inserida ou extirpada; um absurdo, decerto. A cópia que está em seu poder, sempre guardada na sua pasta envelope, não permanece na clínica. Vai com ela para casa, óbvio. E no frigir dos ovos, se for considerar esta ridícula teoria da conspiração que acabou de atravessar os seus pensamentos, se lembraria de ter recepcionado uma xerox atualizada do documento.

Gabriela respira fundo, meneando a cabeça enquanto acha graça desse desvario e ato contínuo faz menção em devolver o laudo para a pasta, mas titubeia ante o ponto de interrogação que se desenha novamente em seu rosto e então, sem hesitar, volta a examinar o documento, sem saber o que de fato deve encontrar — isso se realmente algo precisa ser encontrado —, reconhecendo que está se deixando impulsionar não mais que por uma intuição sem precedentes à medida que o eco dos seus próprios pensamentos a enfurecem, fazendo seus dedos estremecerem até largar o laudo pericial bruscamente sobre a mesa.

Ela fecha os olhos.

As ideias deslizam na superfície de sua consciência sem se ajustarem.

Abre os olhos.

É isso. Busca relativizar de imediato: está esgotada, estressada; não dorme há séculos; está se sentindo num corpo de uma centenária e há tempos não transa. E não consegue nenhuma evolução clínica do seu principal paciente. E sem falar na sua “fiel companheira”, a síndrome do impostor.

Às vezes tenho a impressão de que eu e meu corpo formamos uma conspiração pelas costas de minha própria mente, Gabriela discorre enquanto devolve, por fim, o laudo pericial para a pasta envelope, contudo, antes mesmo de fechá-la, é tomada de súbito pela lembrança do conselho e da orientação que recebeu de Júlia Mathias quando, por cordialidade, lhe telefonou no dia seguinte ao comunicado de que a estaria “substituindo” no caso do desembargador.

Se atenha aos fatos existentes. Apenas isso. Não se dê ao luxo de dispersões que não agregarão em nada. Sua função é tão somente provar a incapacidade mental do paciente, prescrever um tratamento e acompanhá-lo. Nada mais. O resto é com o advogado dele e com a Justiça. Tudo o que precisa fazer é o seu trabalho e se possível com base no que está na pasta desse processo. Qualquer outra informação que não esteja aí, é porque, de fato, não é para estar, entendeu?”.

Gabriela respira fundo, sente-se atordoada, acreditando ainda mais na hipótese de que realmente foi superestimada ao ser convidada para este caso, conforme termina de recordar as últimas palavras de Júlia, na verdade, um ultimato.

“E a propósito, não me ligue mais sobre este assunto. Na verdade, se puder esquecer o meu número, será a melhor coisa a fazer”.

Gabriela busca no meio do dossiê o relatório deixado pela sua antecessora. Lê e relê a única página, como já havia feito antes e diversas vezes, e, de novo, não consegue encontrar uma explicação plausível para a superficialidade das palavras ali registradas, para as lacunas que deveriam ter sido preenchidas…

 

Rio de Janeiro, 22 de março de 2017

O paciente não dorme à noite e está sempre perdido em seus pensamentos, afirmando ouvir vozes e ter alucinações visuais, táteis e olfativas. Diz ter sempre as mãos suadas e transpirar muito. Ministrar-lhe uma medicação é uma ação sempre exaustiva. Reconhece que não está em harmonia com a sociedade. O contato com ele, a priori, não é tão fácil. Quase sempre se mostra irritado e é suscetível a desabar de modo heteroagressivo, principalmente quando reassume sua identidade padrão. É um diagnóstico inicial, mas não há dúvidas de que o paciente é acometido pelo TDI, transtorno dissociativo de identidade. Concluo que o seu sofrimento é autêntico e com alto risco de descompensação. O problema é geral e muito preocupante.

Cordialmente,

Dra. Júlia Mathias

Hospital das Clínicas Juliano Pereira de Aguiar

 

Por que uma profissional como Júlia Mathias, depois de apenas três sessões, elaboraria um diagnóstico agudamente evasivo, que mais parece ter sido redigido por um estagiário ou ter sido feito às pressas? Não há citação alguma de qualquer exame criteriosamente clínico que a tenha feito identificar o TDI… Por exemplo, o teste de Rorschach foi feito? A hipnose foi utilizada, tentando manter contato direto com “a outra, ou as outras identidades” do paciente? Eve afirma escutar vozes e ter alucinações visuais, táteis e olfativas, e se ele for portador de esquizofrenia com característica paranoide ao invés do Transtorno Dissociativo de Identidade?

Gabriela inspira profundamente, arrematando, em contrapartida, que nem mesmo ela teria sido tão precipitada ou relapsa conforme crava os olhos uma, duas, três vezes sobre a frase “é suscetível a desabar de modo heteroagressivo, principalmente quando reassume sua identidade padrãoe daí ergue a cabeça, num segundo, passando a focar a janela que dá para um dos pátios do hospital ao mesmo tempo que se questiona sobre as razões que supostamente estejam impedindo “o desembargador de se fazer presente”, induzindo-o a pensar e sentir e perceber nesses últimos quatro meses o mundo como um pseudoadolescente.

Gabriela desiste de caminhar em círculos, devolvendo o relatório de sua antecessora para dentro da pasta envelope e de reflexiva e ligeiramente irritada a categoricamente obstinada, retorna à pasta, só que desta vez buscando pelo laudo médico que ela mesma terminou — enfim — de redigir depois da última sessão com o Eve, na semana anterior:

 

Rio de Janeiro, 21 de julho de 2017

O estado do paciente não apresentou nenhum progresso desde a primeira sessão — há quatro meses —, mesmo que passageiro. O estado clínico observado nas últimas sessões, e hoje, principalmente, não está consolidado de forma alguma. É indiscutível que o paciente sofre de um sentimento permanente de medo e insegurança, e com isso acaba por expressar reações excessivamente passivas. A esses sintomas se acrescentam vertigens, algumas, raras alucinações auditivas, delírios, fortes dores de cabeça, que não cedem, quase nunca, à força de nenhuma droga e também perda de interesse e motivação e déficits neurocognitivos, além de não conseguir acessar qualquer tipo de memória do antes e do depois da tarde de 28 de fevereiro deste ano de 2017.

Cabe ressaltar a inexistência de antecedentes médicos e psiquiátricos.

Filho único, o paciente, aos quinze anos, perdeu os pais abruptamente, em 1977, numa noite de carnaval, mortos na casa em que residiam, vítimas de um incêndio acidental, segundo laudo pericial da época. O paciente só escapou da tragédia porque estava na casa de um colega, na vizinhança. Como não havia parentes próximos ou disponíveis para acolhê-lo, permaneceu em uma instituição pública até completar a maior idade civil. Há registros de passagem, no início de sua vida adulta, em alguns albergues para pessoas carentes. Teve empregos diversos até conseguir se estabelecer como funcionário público e cursar a faculdade de Psicologia, que abandonou no terceiro ano para ingressar na faculdade de Filosofia, que logo abandonou também para então ingressar, enfim, na faculdade de Direito, e depois, formado, conseguiu assumir um cargo no Ministério Público até se tornar desembargador.

A única companheira, com que viveu cinco anos, por volta de 1994 a 1999, antes de ele se casar com a Sra. Abigail, em 2000, se recusa a conversar sobre este período de vida em comum que tiveram.

Por fim, a mínima sugestão relativa ao paciente sobre seu histórico provoca uma reação ansiosa e de completa estagnação/negação silenciosa. No estado atual há necessidade do seguimento das consultas psicoterapêuticas semanais, além de tratamento médico. 

Cordialmente,

Dra. Gabriela Coutinho

Hospital das Clínicas Juliano Pereira de Aguiar

 

Gabriela lê o documento mais uma vez antes de guardá-lo. É possível que faça algumas correções, como substituições de alguns termos técnicos e acertos gramaticais, antes de apresentá-lo ao doutor Orlando. Entretanto, faça o que fizer neste laudo, sabe que receberá um sem fim de questionamentos insatisfeitos por parte do diretor do hospital, afinal de contas, este relatório é o que será entregue ao advogado de defesa do desembargador e com certeza, e possivelmente não está enganada, não é o que nenhum dos doutores — diretor e advogado — está esperando.

Gabriela cobre os olhos com as mãos enquanto uma vontade feroz de gritar a arrebata, porém, sabe perfeitamente que não pode desabar. A impotência ante toda esta situação não vai deixar de incomodá-la até que Eve reaja ou até que ela desista…

É possível que se Júlia Mathias aceitasse retomar ao caso…

Não, não, não. É ela, Gabriela, a responsável aqui e agora. Talvez precise rever suas técnicas? Ok. Talvez precise rever sua abordagem? Ok. E espera não ser tarde demais para isso. Mas sem sombra de dúvidas nada vai mudar se Eve não se deixar ajudar. A Sra. Abigail foi morta naquela chácara e com ela o filho adotivo, Lucas, não o marido, o desembargador. O paciente precisa compreender essa realidade por mais dolorosa que ela possa ser. E é melhor que faça isso diante dela e não sendo pressionado pelo Promotor de Justiça.

Fato: O destino realmente mistura as cartas e nós jogamos.

 

9 de março, 2017, quinta-feira: 17h55

Em um quarto, completamente isolado, no Hospital das Clínicas Juliano Pereira de Aguiar, Eve permanece deitado, os olhos, no vazio. O enfermeiro chefe — responsável pelo plantão —, de pé, à beira da cama, está terminando de supervisionar o prontuário do paciente que chegara ali há apenas seis dias. Parado sob o batente da porta, outro enfermeiro, um homem alto, um tanto truculento dentro do seu uniforme branco, os observa.

⇒ Sedação e indução ao sono

⇒ Redução de ansiedade e agressividade

⇒ Redução do tônus muscular e da coordenação

⇒ Efeito anticonvulsivante.

Com gestos lentos e ponderados, o enfermeiro chefe acomoda sobre o criado mudo, no lado direito da cabeceira da cama, a prancheta onde o prontuário está fixado e em seguida passa a observar o paciente, examinando suas pupilas até constatar que de fato ele se encontra numa profunda apatia. Logo, recolhe a prancheta e dá um tapinha no braço de Eve.

— Tudo certo, desembargador. É mais que na hora de deixar que essas drogas o conduzam para o sono. Aproveite o descanso.

O enfermeiro chefe sai andando, mas daí, súbito, se vira e depois de se aproximar mais uma vez do paciente, se inclina para baixo, sussurra algo no ouvido dele e então se vira novamente…

Eve escuta passos e logo depois a batida de uma porta.

 

9 de março, 2017, quinta-feira: 18h30

Júlia Mathias termina algumas anotações em sua agenda de mesa e logo em seguida começa a se preparar para ir embora. O último paciente deixou o consultório há uma hora e decididamente ela não pretende chegar à casa muito tarde. Prometera ao marido que ambos jantariam juntos, algo que já não fazem há umas três semanas por causa dela própria, precisava reconhecer.

Após conferir todos os objetos que estão sobre a mesa espelhada, sorri um sorriso leve, sem forçar as linhas de seu semblante e então faz menção em se levantar, mas acaba desistindo, retardando um pouco sua partida enquanto deixa os ombros caírem para então fechar os olhos e daí começar a massagear as têmporas com a ponta dos dedos de ambas as mãos, em um movimento circular contínuo, sem pressa, acabando por se concentrar de tal maneira em seu autorrecolhimento, que demora a identificar o som do telefone que está tocando na recepção; um som que lhe parece, de pronto, um tanto distante, quase imperceptível, mas que vai se tornando maior, incômodo, na medida em que a pessoa do outro lado insiste em ser atendida.

Não lhe resta opção.

Júlia abre os olhos e mira o relógio em seu pulso: 18h30min. Àquela hora já não há mais nenhum funcionário na recepção do consultório para atender quem quer que esteja tentando entrar em contato. É óbvio que alguém está querendo marcar uma consulta. Não seria a primeira vez que isso acontecia.

Respirando fundo, ela conclui que no dia seguinte irá cobrar de sua secretária a solução para a gravação de espera/ausência para as três linhas telefônicas do consultório. Já havia sinalizado essa questão há pelo menos três dias desde que o problema com a gravação eletrônica anterior se instalara.

O telefone na recepção segue tocando, ininterrupto. Após um longo suspiro, Júlia se levanta e avança em direção à porta aberta de sua sala, atravessando-a com passos firmes, e logo depois o curto corredor à sua frente, virando à esquerda, passando por mais outro breve corredor até alcançar o balcão de atendimento, se dirigindo de pronto para sua parte interna, retirando, enfim, o telefone do gancho para atendê-lo.

— Boa noite. Poderia falar com a doutora Júlia Mathias? — uma voz masculina, grave, transbordando ansiedade, dispara a pergunta em questão de segundos.

— Boa noite — Júlia trata logo de responder — Acredito que o senhor esteja ligando para agendar uma consulta, mas, infelizmente, não tenho como lhe atender, ao menos por agora. Peço, por gentileza, ligar novamente amanhã, e com certeza minha secretária irá verificar um horário…

— Eu não quero agendar nenhuma consulta — a voz interrompe Júlia sem pestanejar, mas com educação — Gostaria de falar com a doutora Júlia Mathias. É a senhora?

Júlia fecha e abre os olhos sem pressa à medida que tenta identificar, reconhecer aquela voz, afinal, quem estaria ligando para a clínica, no número da recepção e querendo ter com ela diretamente e àquela hora?

A pergunta do outro lado da linha se repete e por incrível que pareça Júlia Mathias chega a pensar que é seu marido tentando lhe pregar uma peça, a fim de lembrá-la, no final da piada, que a está aguardando em casa, com o jantar preparado, como havia sido combinado. Quando, por fim, decide responder, ainda que não tenha reconhecido a voz do esposo, é detida pelo homem do outro lado, que repete sua indagação, novamente, contudo, dessa vez, carregada de impaciência.

— O que o senhor deseja? — Júlia devolve, num tom severo, descartando de imediato a possibilidade de que esteja falando com seu marido.

— Ainda não me respondeu se a senhora é a doutora Júlia Mathias, mas acredito que seja…

— Sim. Está falando com ela.

Um instante de silêncio, longo, é o que Júlia recebe como resposta até a voz masculina voltar a se pronunciar, como um sinal sonoro, irritante, rasgando a quietude imposta.

— Há quanto tempo…

O homem se manifesta entre eufórico e parcimonioso, deixando Júlia ainda mais contrariada e, claro, intrigada.

— Já faz o quê mesmo, Júlia? Trinta e sete? Trinta e oito anos?

Júlia Mathias inspira profundamente, erguendo as sobrancelhas em descrédito, atônita, buscando afastar a hipótese que lhe atravessa o cérebro como uma flecha desgovernada ao mesmo tempo que tenta se convencer de que está sendo precipitada, mas a voz do outro lado não lhe deixa tempo para refletir o que seja.

— Realmente, Bruna, você pensou que ia conseguir sumir do mapa ao mudar de nome? Ao mudar de cidade?

Júlia estremece e nada responde enquanto é invadida por uma sensação de desespero e angústia que percorrem sua espinha dorsal até causar espasmos por todo o corpo. Uma pressão absurda também toma conta de sua cabeça e suas articulações começam a doer, latejar…

— Também mudei de nome, Bruna. Também mudei de cidade… — o homem prossegue calmo, cauteloso, e, por que não, um tanto seco — Mas eu não estou ligando para matar saudades, minha irmã. Poderia ter feito isso quando localizei seu paradeiro, já há alguns anos, mas ainda bem que não fiz, não é mesmo? Bem, não quer dizer que eu não esteja com saudades de você. Iremos nos encontrar, sim, e tomar um café, óbvio. Precisamos nos rever. Mas de antemão confesso que o que motivou minha ligação não foi um rompante de nostalgia. Resolvi te contatar porque preciso de um favor de sua parte… Um grande favor.

— Eu… Eu… — Júlia não consegue juntar sequer duas palavras ao passo que se vê incapaz de impedir a sucessão de imagens que se apossam de vez de sua mente. Arquivos escancarados, cujos lacres de segurança caem por terra sem qualquer resistência.

“Por que parece que estamos fugindo? O pai e a mãe vão ficar loucos atrás da gente assim que derem pela nossa falta”.

Um nó se forma no estômago de Júlia enquanto ela enxerga fragmentos de sombras do passado alcançando a luz de sua consciência, enquanto enxerga os lábios do pai alcançarem o pescoço de Ronaldo, depois subindo pelas orelhas, descendo para o rosto até invadir os lábios do irmão…

“Nós, eu e sua mãe, lhes demos tudo. Então, nada mais justo que nos retribua”…

Júlia se vê novamente menina, com sua pequena estatura para uma garota de onze anos, sendo puxada pelo braço por Ronaldo à medida que se afastavam a passos largos do bairro em que moravam…

— Bruna?

“Eles estão mortos, Bruna. Nunca mais irão nos perturbar, perseguir. Nunca mais irão nos surrar ou qualquer outra coisa, entendeu?”.

— Bruna?

A voz grave e insistente do outro lado da linha finalmente resgata Júlia.

— Você me deve um grande favor, afinal, eu a salvei das mãos daqueles verdugos, daqueles algozes que o destino nos presenteou como pais. Você se lembra, não é mesmo?

— Vá para o inferno!

Júlia Mathias reage rapidamente, fervendo de raiva, uma raiva impotente, para logo depois bater o telefone no gancho com toda a força de seu punho enquanto permanece parada, inerte, na parte interna do balcão de atendimento, sentindo-se sufocada pelo medo, pela mágoa, pela dor… O nó em seu estômago transforma-se em uma forte queimação e vai ficando insuportável em questão de segundos, acompanhada da crescente sensação de enjoo, dando a Júlia apenas o tempo de apanhar a lixeira mais próxima, se colocar de joelhos e vomitar.

 

25 de Julho, 2017, terça-feira

Os pensamentos de Gabriela flutuam, flutuam durante longos minutos enquanto pensa em tudo e todas as coisas que vem acontecendo em sua vida nesses últimos quatro meses, desde que assumiu o caso do paciente Eve, mas se recusa a enumerar esses problemas, pois, se fizer isso, ao menos por agora, acabará lhes dando um vulto que realmente não possuem, não merecem. E pior. Vai se deixar cair na velha armadilha de tentar descobrir se esses conflitos foram gerados por ela mesma ou por terceiros, terminando por correr atrás do próprio rabo no final das contas.

Quando finalmente consegue emergir do estado de morbidez emocional, convencida de que a vida não é para os fracos e que não há outra maneira de chegar ao seu apartamento senão encarando o trânsito que a aguarda nessa hora do rush, uma batida na porta da sala chama sua atenção, chegando mesmo a deixá-la um pouco sobressaltada, todavia, sem tempo de respirar ou o que seja, visto que o diretor do hospital surge em meio à porta já entreaberta.

— Olá, doutora — ele a cumprimenta ainda estacionado sob o batente — Atrapalho?

 

 

Artes: Cristina Ravela

 

Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real, terá sido mera coincidência. 

Atenção: A Widcyber tem a autorização do autor para publicar este conteúdo.

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NAVEGAR

  • Mais um episódio intrigante e profundo! Chocado que a Dra. Júlia na verdade era a pequena Bruna que mudou de nome depois de todo o ocorrido. Tenho minhas suspeitas de quem possa ser o paciente Eve, mas vou aguardar cenas dos próximos capítulos kkkkk.

    Ah, e avisando que estou sem celular, por isso não tô podendo interagir lá no grupo, meu amigo.

    • “Tudo está conectado. Não se esqueça” rsrsrsrr

      Obrigado por mais esta leitura e, por favor, providencie o retorno do celular. kkkkk

      • Se tudo der certo, na Terça ou na Quarta estarei comprando outro, porque tá difícil kkkk.

  • De cara, fica claro que o paciente Eve é o desembargador, que assume a identidade do Lucas. Depois vem o relato da Gabriela dizendo que em 1977 o paciente perdeu os pais num incêndio, indicando que o desembargador é o Ronaldo.

    Só que aí o Ronaldo liga para Bruna / Julia, quase caindo por terra minha teoria. É q Ronaldo pode ter ligado do hospital, com ajuda do enfermeiro chefe. Notei ali uma cumplicidade, ainda mais que o horário bateu.

    Enfim, indo pro próximo e para mais teorias kkkkkkk

    • Jesus, muito DARK esse seu comentário. E, como sempre, sua leitura sendo detalhista. Perfeito. Até porque já tem pistas soltas no texto que podem (ou não, né) passarem despercebidas rsrsrsrrsr.

      Obrigado pela leitura… :):)

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