PEC
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NOTA DO AUTOR: O EPISÓDIO CONTÉM TRECHOS QUE PODEM CAUSAR DESCONFORTO. 

 

25 de Julho, 2017, terça-feira

Doutor Orlando fecha a porta atrás de si tão logo recebe o sinal verde, um aceno de cabeça como saudação de Gabriela, para que ele adentre à sala enquanto a jovem psiquiatra muda de tensa aspereza para um meio sorriso ao mesmo tempo que numa sequência de gestos ininterruptos se permite lançar um apressado e hesitante olhar para a pasta envelope descansando à sua esquerda, sobre a escrivaninha, assim como, também — apenas com um nanossegundo de diferença —, se colocar de pé, alinhada, para receber o seu “inesperado” visitante.

Após um ameno aperto de mãos, após a troca de algumas palavras sem qualquer cunho profissional e mais alguns outros tantos minutos de banalidades, Gabriela retoma o seu lugar enquanto o diretor do hospital se acomoda na cadeira à sua frente. Durante esta sequência de movimentos, ela não pôde deixar de notar certa apreensão, um brilho nos olhos de Orlando que jamais vira antes.

— Bem, doutora, mesmo com a senhorita vindo a este hospital duas vezes na semana, peço desculpas por não ter conseguido um espaço em minha agenda para recebê-la neste último mês — Orlando inicia já com as costas totalmente apoiadas no encosto da cadeira ao passo que termina de cruzar as pernas, colocando uma das mãos sobre o joelho e deixando que a outra, simplesmente, caia ao lado do corpo; um gesto quase displicente — Releve o desabafo que farei agora, por favor, mas sou obrigado a confessar que a cada dia que passa a saudade de clinicar, a saudade dos pacientes, lá, sentados à minha frente, eu buscando entender seus comportamentos, suas funções mentais, só faz aumentar…

Ótimo. Um rodeio como ponto de partida para uma possível conversa delicada — porque é assim que as conversas que envolvem questões delicadas sempre começam — e justo na hora em que as pessoas, ao menos a maioria delas, deveriam estar se dirigindo para suas casas. Isso só pode significar uma coisa, óbvio: uma boa tempestade está por vir; tudo que ela, Gabriela, não precisava por ora.

— Bem… — Gabriela pigarreia. As costas, retas, as mãos, cruzadas graciosamente diante de si — Desculpas por desculpas, doutor, eu acredito que também deva pedir as minhas — ela esboça um sorriso forçado no canto dos lábios — Estou devendo ao senhor o laudo do paciente Eve… O laudo que deverá ser juntado ao processo… Enfim, lhe garanto que até a próxima semana, na minha próxima consulta…

Doutor Orlando não responde, não balança a cabeça. Fica em silêncio, olhando fixamente para o espaço, o que deixa Gabriela sem saber o que fazer e puta, conforme os segundos se eternizam. Ela também vai ficar em silêncio. Pronto. Em solidariedade. Talvez. É possível que Orlando esteja tão sobrecarregado como ela, ou até mais, vai saber, entretanto, não justifica atravancar sua saída para casa só para tê-la como mera espectadora neste momento descabido de meditação, de desestresse ou o que seja… Em suma: que esta cortina de fumaça se dissipe logo! Seja qual for o tema do assunto que está por vir, que não demore muito tempo.

Incomodada e apreensiva, Gabriela meneia a cabeça discretamente, à medida que continua a perscrutar Orlando, que permanece imperturbável.

Ok. Controle. Empatia. Ele realmente deve estar no limite das suas forças, Gabriela deduz conforme vai deixando o ar escapar dos pulmões. O diretor deste Hospital das Clínicas até que merece um desconto; é um homem reservado, que transborda afinidade tanto para com os funcionários quanto para com os pacientes — até mesmo os mais arredios. Nunca levantou a voz a ninguém e está sempre sorrindo e prestativo. O curioso é — Gabriela não se contém em meio à sua divagação: como um homem com todas essas qualidades cavalheirescas nunca se casou? Um cinquentão bonito, de ombros largos, nariz reto, sempre alinhado, mesmo teimando em combinar a gravata com a camisa social… Uns dizem que é um solteirão convicto, afinal, nunca se teve notícias de alguma namorada ou algum caso, outros, claro, jogam sua masculinidade na roda, mesmo nunca o tendo visto com outro homem…

Ótimo. Aqui estou eu, concordando, compactuando com a ideia de que tenho alguma autoridade para julgar o modo como o diretor leva a sua vida, me dando ao luxo de especular suas escolhas, parametrizando-as como inferiores e significantemente pequenas à minha percepção de realidade, ela segue se autocriticando dentro de seu silêncio observador. Agindo como os fracassados, que precisam desesperadamente acreditar que possuem o cetro da soberania ética em suas mãos, que lhes dá o poder instantâneo de desvalorizar com críticas aquilo que não são capazes de entender, arremata, por fim, excessiva e duplamente irritada.

— Doutor Orlando… — Gabriela descruza as mãos e se inclina um pouco para frente, apoiando os cotovelos sobre a mesa — Não está ficando um pouco tarde? Se preferir, acredito que eu consiga um horário para vir aqui, amanhã…

— Por que eles não conseguem nos ouvir? Talvez não saibam como… — Orlando dispara de repente; a cabeça, meio de lado, sem deixar de fixar o espaço, como se tivesse esquecido de que Gabriela está sentada ali — Mas nós os amamos… Ao menos por um tempo, nós os amamos…

— Doutor Orlando?

Gabriela, sem entender patavina, arqueia uma das sobrancelhas ao passo que observa o diretor com um pouco mais de afinco, ignorando que medida tomar, ao menos de pronto, conforme segue olhando para ele até desviar o foco para a prancheta, depois para a caneta, em seguida de novo para Orlando, daí saltando sem demora na direção da pasta envelope disposta à sua esquerda, até, finalmente, depositar seus olhos sobre o diretor mais uma vez.

— Doutor Orlando? Está tudo bem?

— D… Desculpe — Orlando gagueja ao mesmo tempo que gesticula no ar com uma das mãos, como se afastasse algo do seu campo de visão. Uma luz de alguma maneira encontra o caminho até seus olhos enquanto ele ajusta a cabeça para ficar novamente de frente para a mesa, para Gabriela — Com certeza, doutora, aguardo o seu relatório, e o mais rápido possível. Porém, o que me trouxe até aqui, e a esta hora… — ele busca o relógio de pulso e em seguida retorna a atenção para Gabriela — Sei que a senhorita estava de saída e agradeço por me conceder alguns minutos. Mas, bem, vim até aqui para informar sobre a reunião que terei com o advogado do desembargador, depois de amanhã, e seria oportuno tê-la presente, ainda que não seja o seu dia de atendimento aqui no hospital…

Gabriela concorda sem qualquer objeção.

— Que ótimo… Bem, não temos como fugir do assunto, e nem é este o propósito, e uma coisa leva a outra… Enfim, da última vez que conversamos por telefone… — Orlando prossegue — A senhorita informou que o paciente não estava alcançando qualquer tipo de progresso…

— E permanece da mesma forma.

Orlando se agita sem grandes alardes sobre a cadeira, trocando a posição das pernas e das mãos num átimo e meneando a cabeça logo em seguida, sem deixar de fitar Gabriela.

— Da mesma forma? Doutora, simplesmente nós não podemos entregar ao advogado este tipo de parecer. Pelo que ele me resumiu e eu presumo ter entendido, está com grandes dificuldades para conseguir um segundo adiamento da audiência inicial do processo…

— E o que o senhor sugere que façamos? — Gabriela indaga sem qualquer hesitação.

— Perdoe-me se vou parecer um tanto rude — o diretor retira a mão de cima do joelho suspenso e em seguida descruza as pernas ao tempo que tenta colocar a maior dureza possível no olhar — Mas a senhorita deveria ter me procurado para me deixar a par, em detalhes, dessa permanente estagnação. Eu teria lhe atendido sem titubear e a qualquer hora do dia… Não sou um profissional que fica atrás dos funcionários, como uma sombra, sem deixar que façam o seu trabalho em paz. E estou tranquilo, e espero continuar assim, no que diz respeito a este paciente, o desembargador, Eve, pois sei que ele está em boas mãos, em suas boas mãos, doutora.

Gabriela sente os músculos retesarem, como se todo o seu sistema nervoso estivesse sendo coberto por uma extensa e pesada camada de gelo. Ela abre a boca para dizer algo, mas Orlando levanta a mão para que o deixe continuar o seu raciocínio.

— O Hospital das Clínicas Juliano Pereira de Aguiar é uma referência na prevenção das doenças psiquiátricas, e, não à toa, conquistou esta relevância e reconhecimento que precisamos e devemos manter, afinal de contas, e a senhorita há de concordar, quanto antes se processa uma avaliação diagnóstica, mais precisa e eficiente será a recuperação de um paciente evitando que um nível crítico de gravidade possa ser atingido em sua patologia. Então, doutora, considerando todos os parâmetros deste hospital, em definitivo não podemos chegar à frente do juiz com um argumento médico tão frágil como este, de que estamos há quatro meses com o paciente internado nesta clínica, e apesar de todo esse tempo decorrido, não temos ainda sequer um parecer técnico razoável sobre o seu estado de saúde mental… — o diretor conclui sua advertência sustentando uma expressão inescrutável — Por gentileza, doutora, me corrija se eu estiver equivocado.

Orlando cruza os braços, deixando o ar retesado dos pulmões escapar de uma só vez enquanto Gabriela decide, por ora, seguir emudecida, pensando, refletindo conforme olha para a pasta envelope, divisando a ponta do laudo médico emitido por ela, custodiado em meio ao dossiê de Eve…

— A audiência inicial vai acontecer daqui a duas semanas caso a nova solicitação para adiá-la não venha a ser considerada — Orlando volta a se manifestar — A linha de defesa do advogado, e ele se recusa a alterá-la e nem podemos lhe pedir isso a essa altura do campeonato, doutora Gabriela, será em cima do transtorno dissociativo de identidade do paciente, como preconizou a doutora Júlia Mathias…

— Doutor Orlando, o meu trabalho é ordenar montes de detalhes, formatá-los e elaborar o que for preciso para a compreensão de uma história que nem sempre as pessoas estão dispostas a ouvir e entender. E necessito ser a mais criteriosa possível. Não posso ser leviana e criar um laudo médico por conveniência…

— Ninguém aqui está lhe pedindo isso…

— Não diretamente.

Orlando desvia o olhar, incapaz de continuar a enfrentar Gabriela.

— Admito que meus resultados para com este paciente, não estão sendo satisfatórios, ao menos até aqui… — Gabriela endireita as costas, inspirando e expirando, carregada de orgulho e dignidade — Contudo, o desembargador precisa se deixar ajudar. Ele precisa deixar de lado a sua vitimização, seus esquemas emocionais, seus esquemas de dependência e desconfiança para comigo. A não ser quando está narrando o mesmo trecho do que aconteceu naquela tarde de carnaval, na chácara, ele passa o resto do tempo quieto, passivo e ocasionalmente estoico. As dores de cabeça, cuja causa nenhum exame laboratorial conseguiu identificar, persistem, como o senhor bem sabe, mesmo com a troca de medicação. E Eve, algumas raras vezes, reclama de vozes invadindo sua mente, alucinações auditivas e excepcionalmente delírios, rápidos, onde nada do que diz, até hoje, fez sentido e logo em seguida trata de desmentir tudo o que falou — ela volta a cruzar as mãos graciosamente diante de si — Eve recusa a vincular-se, independente do que eu faça para que se sinta útil. Não restam dúvidas, doutor Orlando, a respeito da hipótese de desintegração da mente do desembargador, mas…

— Hipótese?

Orlando descruza os braços e passa a encarar Gabriela como se estivesse preparado para declamar um discurso exaustivamente ensaiado. Como se estivesse avaliando os prós e os contras do que pretende dizer, porém, a jovem psiquiatra não cede. Ela não será a vilã dessa história.

— Sim. Hipótese. Já que ainda não consegui identificar nada de concreto ou o quão profundo essa suposta desintegração possa tê-lo afetado. Doutor Orlando, nós não podemos esquecer a inexistência de antecedentes médicos e psiquiátricos do paciente…

— Pelo que entendi a senhorita jogou o trabalho da doutora Júlia Mathias no lixo, correto?

Gabriela fita o diretor sem responder ao tempo que ele segue sustentando o olhar com uma convicção tamanha.

— A senhorita sabe qual o castigo que os deuses deram a Sísifo? — Orlando pergunta; o rosto sério, mas os olhos dançantes sem deixar de examinar a jovem psiquiatra — O condenaram a rolar por toda a eternidade uma rocha montanha acima. E sua tarefa não terminava nunca, pois, uma vez colocada no alto da montanha, a pedra rolava novamente para a planície… Não há castigo mais terrível, doutora, do que um trabalho inútil e sem esperança.

Por uma fração de segundos, Gabriela é tomada pela ideia de largar tudo, pegar sua bolsa e ir embora. Sim. Está cansada, esgotada, vazia, porém, feliz ou infelizmente, sua firme honestidade, a base de sua natureza, não lhe permite. Qual é o problema do doutor Orlando? Primeiro ele reprova, mesmo usando uma ridícula camada de distinção, o comportamento de Júlia Mathias; em seguida contrata a ela, Gabriela, deixando claro que quer um trabalho realizado sem vícios, sem presunção ou prepotência; e agora lhe questiona os motivos de não estar seguindo os passos de sua antecessora? E tudo isso sem falar que neste último mês ele permaneceu inacessível… O diretor não pode ter mudado de ideia assim, tão de repente. E se o fez, o que o motivou? Onde está sua postura ética?

— Quero que me entregue o laudo do paciente antes da reunião com o advogado, por favor — Orlando determina já se colocando de pé.

— Envio por e-mail no máximo até amanhã — Gabriela descruza as mãos, mas não o acompanha — Doutor Orlando, tenho motivos para acreditar que o paciente Eve seja, sim, portador de esquizofrenia com característica paranoide… — comunica um tanto reticente enquanto encara o homem em pé à sua frente — Já conversamos sobre isso… Definitivamente não encontro nenhum indício de que ele seja portador do TDI, e o senhor sabe, esse transtorno é uma patologia incomum, que até hoje não encontra unanimidade em seu reconhecimento devido ao pequeníssimo número de casos no mundo todo… Infelizmente o advogado do desembargador terá que…

— E a senhorita também sabe que existe a noção de uma “janela de diagnosticabilidades” que fazem com que patologias possam ser confundidas em seu diagnóstico. E há um número considerável de pacientes com TDI diagnosticados equivocadamente com esquizofrenia — Orlando estreita o rosto, mal conseguindo ocultar a fúria que o está consumindo.

Gabriela se levanta, por fim. Recusa-se à intimidação.

— O senhor acompanhou o resultado do teste de Rorschach. Eve apresentou transtorno de pensamento subjacente ainda que sua autodefesa inconsciente tenha tentado camuflar. Ele possui transtornos mentais, sim, porém, os aspectos inconscientes de sua personalidade não nos entregou qualquer discrepância da própria identidade.

— Acredito que a doutora tenha ciência de que este teste gera muita controvérsia em nosso meio. Há vários estudos afirmando que ele não permite identificar a maior parte dos transtornos mentais. Espero, realmente, que a senhorita esteja sendo apenas ingênua.

— Doutor Orlando, o teste de Rorschach não foi, obviamente, a única referência utilizada e o senhor sabe disso, porém…

Gabriela percebe o aborrecimento atravessar o semblante do diretor e que ele, agora, não faz mais o mínimo esforço em parecer cordial.

 — Saiba que estou empenhada a ajudar, a fazer o possível para evitar que o desembargador seja punido por algo que não cometeu… ao menos conscientemente. Mas dentro dos limites da realidade e da ética.

O toque do celular de Orlando de repente ecoa pela sala e de imediato ele começa a buscar o aparelho pelos bolsos do terno, da calça, o que dá tempo para Gabriela reconhecer a música que está anunciando a ligação: I started a joke… Dorlan, seu companheiro, é fã da banda setentista que a interpreta e esta é uma das suas canções preferidas…

 

Eu comecei uma piada

A qual fez o mundo inteiro começar a chorar

 

Logo que consegue encontrar o telefone, Orlando, meneando a cabeça, o atende sem demora e, depois de alguns instantes, troca algumas poucas palavras um tanto evasivas, neutras, com a pessoa do outro lado da linha até que se afasta da cadeira e caminha na direção da porta, passos largos, como se precisasse deixar o lugar onde está para se apresentar o mais rápido possível seja qual for o destino. É o que Gabriela acaba deduzindo diante da inquietação notoriamente estampada no rosto do diretor que, a propósito, nem sequer se despede ao sair.

 

10 de fevereiro, 2017, sexta-feira

Mais uma semana estressante chega ao fim, carregada de deliberações sobre as arbitrariedades de juízes de primeira instância que precisam ser revistas; análises para concessões de habeas corpus; julgamentos de crimes de funcionários de Ministérios; metas processuais precisando ser alcançadas e superadas a qualquer preço… Decisões, decisões… A cabeça do desembargador lateja como se um milhão de pregos estivesse sendo martelado incessantemente dentro dela… Houve uma época de sua vida que acreditava que suas sentenças, suas resoluções só eram menos importantes que as de Deus. Sim. A arrogância circulava em suas veias, uma embarcação que precisava ser comandada com punhos fortes para evitar que ele fosse engolido pelo Sistema; para evitar que ele fosse consumido por si próprio… Mas agora…

“Você precisa deixar essa resistência de lado. Não pode ter medo, receio algum de encarar sua alma, sua essência… O Ego recusa-se a ser atingido pelas provocações da realidade. Insiste em que não pode ser afetado pelos traumas do mundo externo…”.

Talvez esteja na hora de mudar mais uma vez de terapeuta, o desembargador arremata enquanto se levanta. Suas pernas tremem, mas não falham; entretanto, ele se apoia na mesa para não perder o equilíbrio conforme o olhar desce até o sapato e depois ascende para percorrer a sala, a imensa sala que massageia o seu ego sempre que é preciso. Sem pestanejar, solta a mesa e se agacha, devagar. Uma vertigem, leve, nada grave, constata.

Um suspiro, longo, um breve exercício de respiração e então o desembargador se põe de pé, apoiando de início todo o peso do corpo à mesa até que, por fim, sentindo-se recuperado, decide sair de sua sala, caminhar a passos largos até o elevador e descer os doze andares que o aguardam, ainda que de maneira cabisbaixa, pensativa, meio sonolento. Mas o torpor que o envolve não é do tipo que faz a pessoa se sentir desesperada para se jogar sobre uma cama e entregar a alma a Morpheus e só acordar se possível dali a cem anos. Não. Não. O desalento que envolve o desembargador segue o caminho contrário. É uma válvula de escape gritando para que diminua a velocidade, mas apenas o suficiente para recobrar a energia necessária de modo a aproveitar tudo o que aquele começo de final de semana podia e pode oferecer. De modo a aproveitar a possibilidade de diversão que se descortinava à sua frente antes de precisar retornar para casa.

O desembargador atravessa o saguão do prédio rumo à saída sem deixar de cumprimentar, embora rapidamente, o segurança detrás do balcão da recepção. O rapaz, pois não deve ainda nem ter seus trinta anos, está a apenas duas semanas trabalhando na portaria do Tribunal. Jovem, parece bastante educado, pelo menos foi a impressão deixada no desembargador nos raros momentos em que trocaram meias-palavras. Talvez um mero comportamento de uma postura profissional, vai saber, todavia, ele, o desembargador, com um pouco mais de tempo, o apetite sexual de volta aos eixos — a maldita medicação —, somado a um convite irrecusável direcionado ao mancebo para saborear as doses de bebidas certas, quiçá, consiga conferir a origem desta educação e o quão grande e real ela possa ser de fato. Não seria o primeiro e por certo não será o último colaborador do Tribunal a passar por seu crivo. E se este jovem rapaz for daqueles que juram de pé junto só curtir mulheres, melhor ainda. Resistentes, machões, necessitando de autoafirmação. Não existe fruto mais doce que a bunda de um homem que se diz hétero.

Caminhando em direção ao estacionamento, o desembargador se convence mais e mais de que necessita urgentemente beber alguma coisa, relaxar, esfriar a cabeça… Algum bar? Não. Decerto não está com paciência para interagir socialmente, ensaiar sorrisos, cumprimentar conhecidos… Endireita os ombros e confere o relógio de pulso, 21 horas, e em seguida apanha o celular no bolso do terno e liga para o filho, que demora um pouco a atender. 

— Oi?

— Lucas, por favor, avise sua mãe que estou indo tomar um drinque com alguns amigos…

— Ela está no quarto e com o celular a tiracolo — o adolescente o interrompe sem titubear — Por que você mesmo não liga e avisa?

— Lucas… — o desembargador hesita antes de continuar — Eu não estou com cabeça para isso, agora. Por favor, dê o recado à sua mãe.

— Por que não resolvem logo essa confusão? Eu tô cansado de ficar servindo de ponte pra vocês dois. Só quero ver como vai ficar o climão nessa tal chácara que tu decidiu alugar pro carnaval… Na boa, eu não vou pra lá pra ficar servindo, também, de intermediador…

O desembargador engole em seco, respira fundo ao tempo que deixa o corpo descansar ao lado do carro, tão logo o alcança. O filho tem razão. Não deve fazer parte disso, da crise conjugal que atingiu a ele e a Abigail, tornando a convivência entre ambos cada vez mais desconfortável e os transformando em duas pessoas completamente estranhas, como se nunca sequer tivessem compartilhado qualquer tipo de intimidade; como se nunca sequer tivessem compartilhado o mesmo teto por dezessete anos de suas vidas.

— Somos uma família, Lucas — o desembargador finalmente retruca enquanto massageia as têmporas. Não vai deixar a noite escapar por entre os dedos — Temos que nos apoiar… Eu, e sua mãe, estamos com problemas? Sim. E você já é bem grandinho para entender que não vivemos num conto de fadas e que tampouco as coisas se resolvem num estalar de dedos…

— Cara, na boa…

— “Cara”? Eu ouvi direito? — o desembargador questiona o rapaz deixando a indulgência e a compreensão completamente de lado — Acredito que estamos fora de sintonia.

— Foi uma maneira de falar, pelo amor de Deus…

— Espero que sua mãe receba o recado, Lucas.

O desembargador dispara num tom glacial, finalizando a ligação em seguida. Ainda com o corpo apoiado sobre o carro, ele respira fundo, meneando a cabeça bem devagar ao mesmo tempo que guarda o telefone novamente no bolso do terno. Pensamentos sem nexo lhe passam pela cabeça e por incrível que pareça não consegue fisgar nenhum deles para talhar em palavras, em sussurros, que seja, até que algo começa a se encaixar… Logo, apanha novamente o telefone — desta vez quase deixando o aparelha cair — e enquanto vai digitando os números ele não deixa de repetir para si, como uma espécie de mantra, que está mentindo, mentindo, mentindo para Abigail, que está mentindo para Lucas, que está mentindo para ele mesmo… Que está mentindo para todos.

A pessoa do outro lado, diferente de Lucas, não demora a atender e o desembargador, então, se permite relaxar, deixando até mesmo que um meio sorriso sobressaia de seus lábios.

— Olá!

Ele responde ao cumprimento depois de alguns instantes, como se estivesse apreciando a voz que acabou de chegar aos seus ouvidos, que acabou de penetrar em sua mente, descendo, avassaladora, por cada canto de seu corpo, deixando-o imensamente feliz… Deixando-o, depois de um bom e longo tempo, abarrotado de desejo.

 

02 de fevereiro, 2017, quinta-feira

Com a cintura envolta numa toalha, Eve sai do chuveiro e logo depois de uma rápida conferida no espelho, onde o reflexo lhe devolve a imagem de um rosto tenso e contorcido, deixando-o irritadiço, retorna para o quarto ao lado, onde um jovem, nu em pelo e pele, o aguarda deitado. Matheus — ou ao menos esse é o nome que dera para Eve quando abordado na calçada algumas horas antes —, o garoto de programa contratado naquela noite, ao vê-lo de volta logo trata de esboçar um sorriso sacana ao mesmo tempo que coloca as mãos para trás, sob a cabeça, os cabelos úmidos do banho que havia tomado há pouco, e vai abrindo as pernas, bem devagar, até deixar seu sexo, já recuperado da gana de Eve, inteiramente à disposição.

— Levante e se arrume — Eve ordena sem pestanejar, já buscando as peças de suas roupas espalhadas pelo chão, ignorando a carne nua, a pele alva e o falo despontando das dobras claras do prepúcio de seu toy boy.

— Mas já? — Matheus questiona de pronto enquanto retira as mãos de trás da cabeça e se apoia sobre os cotovelos, projetando o corpo para frente até se sentar — Não íamos passar a noite…

— Mudança de planos. Iremos à sauna.

— Sauna?

— Sauna — Eve continua a se vestir sem deixar de fitar Matheus como se estivesse a desafiá-lo — Não vai me dizer que você nunca foi a uma sauna antes? — ele ironiza num tom de voz carregado de desprezo, cinismo e até mesmo, por incrível que pareça, uma pontada de compaixão.

— Já — Matheus dá de ombros — Mas não vejo necessidade. Estamos nos divertindo…

— E agora vamos atrás de uma diversão ainda melhor — Eve dispara sem qualquer comiseração ao passo que termina de fechar os botões da blusa social para logo em seguida caminhar até próximo ao ar condicionado, se inclinar, resgatar a gravata azul clara de sobre o carpete e, já de pé, enfiá-la num dos bolsos da calça.

— Vem cá, meu coroa — Matheus desliza sobre a cama até ficar a poucos centímetros de seu cliente, sentando à sua frente, encarando-o com um riso matreiro para logo em seguida voltar a abrir as pernas, agora com pressa e então começar a brincar com o próprio sexo — Tem certeza de que vai querer dividir tudo isso?

Eve deixa um suspiro escapar sem qualquer cerimônia ao tempo que com as sobrancelhas arqueadas, em uma surpresa debochada, aprecia as curvas e as tatuagens azuladas de Matheus e ato contínuo, em completo silêncio, se dirige até uma das cabeceiras da cama, estaciona junto ao telefone, disca para a portaria e pede a conta.

 

10 de fevereiro, 2017, sexta-feira

Márcio Antônio observa o desembargador dormindo ao seu lado, sobre a cama, envolto entre os lençóis daquele quarto de motel. O sexo, diferente dos últimos encontros, dos muitos últimos e escassos encontros, havia sido espetacular, tenso. Tinham transado duas, três, quatro vezes naquela noite como jovens enamorados, como adolescentes movidos por uma overdose de testosterona, realizando fantasias, buscando prazer forte, intenso e revigorante… Nem pareciam dois homens maduros, no alto dos seus cinquenta e cinco anos.

Márcio Antônio sorri um sorriso acanhado, afetado — e também frustrado. Ainda se lembra de quando no início da relação se sentia encantado, orgulhoso e talvez até mesmo privilegiado por ter em sua cama, rendendo-se, entregando-se, amando e se despojando de toda vergonha e limites, um homem influente, de grande prestígio da magistratura, onde transita e se relaciona muito bem com seus pares… Um homem que escolhera a ele, Márcio Antônio, um mero professor de filosofia que não tinha muito a oferecer além de si próprio…

Quão ridículo fora. E ainda é. Márcio Antônio assente, lamentando a situação em que se encontra. Como fora capaz de jogar fora todo o seu bom senso desde que se envolvera com o desembargador? Deixando de distinguir o certo e o errado, o bem e o mal? Como se permitiu sobreviver dentro desta relação desequilibrada de poder, em que apenas um dos dois é e sempre foi relevante? O universo nunca foi benevolente ou tampouco hostil, apenas indiferente às preocupações dos minúsculos seres que caminham sobre a Terra, e ele, agora, está na cama de um motel, arrependido por ter cedido ao impulso de uma maldita saudade.

Dez meses… Apenas dez meses… Os amores que duram tornam os amantes exaustos, e com ele e o desembargador não poderia ter sido diferente…

Enquanto passa a mirar o teto, Márcio Antônio sente o desembargador colocando um dos braços sobre o seu peito. A partir de agora vai ter que evitar se mexer, ou se o fizer, terá de ser bem, bem devagar, afinal, sabe que o amante não tem o sono tão pesado assim, conclui, à medida que se recorda — impossível não fazê-lo após o revival dessa noite — do instante, do exato instante em que esbarrou com o desembargador no saguão daquele Tribunal. Do exato instante em que se sentiu hipnotizado pelo homem parado à sua frente, lhe perguntando se podia ajudar, pois tivera a impressão de que ele estava um tanto desorientado… Foi naquela ocasião, sim, foi precisamente naquela ocasião que, pela primeira vez na vida, Márcio Antônio sentiu uma urgência intensa, magnética, de ter alguém do mesmo sexo para si de uma maneira íntima e verdadeiramente prazerosa, não mais uma conquista para um sexo mecânico, fajuto.

Sim, sim, sim. Márcio Antônio não conseguia entender o que estava sentindo enquanto, estático, vislumbrava o rosto do desembargador lhe sorrindo, um riso amigável, confortador, convidativo. Na verdade, não conseguia compreender o avassalador desejo despertado por um homem tão maduro quanto ele próprio, pois, até àquele momento, sem qualquer exceção, apenas se sentira atraído pelos mais jovens, pelos rapazes, moços que ainda não traziam as marcas do tempo, as amarguras… Muchachos que não lhe cobrariam nada, que não lhe questionariam…

Márcio Antônio havia decidido, por fim, que não deixaria passar aquela chance, não se permitiria carregar para o resto da vida o peso do arrependimento por não ter tentado, ainda que estivesse pisando num terreno desconhecido; ainda que sua silhueta musculosa e sem exageros, somada a olhares, gestos ou qualquer outro artifício que a linguagem corporal pudesse lhe dispor, não fosse suficiente. Ele precisava ter aquele homem, aquele exemplar genuíno da masculinidade sem afetações, e faria o que fosse preciso. Quanto à aliança que o desembargador trazia no dedo anular esquerdo? Bobagem! Não seria um anel que iria intimidá-lo.

Márcio Antônio olha para o desembargador de soslaio, voltando, no instante seguinte, a fitar o teto ao passo que o sentimento de aflição, a sua aflição, começa a ocupar um espaço enorme sobre a cama, tornando sua respiração rápida e superficial, obrigando-o a imediatamente inspirar, expirar, inspirar, expirar…

Tudo não deveria ter passado de uma boa noite de sexo, ou, no frigir dos ovos, um caso fugaz, como tantos outros que Márcio Antônio tivera no período em que esteve num relacionamento hétero de cinco anos, como buscou se convencer a todo custo depois das três primeiras transas com o desembargador. Todavia, os encontros com o amante se tornaram cada vez mais constantes e Márcio Antônio se viu surpreendentemente envolvido, sem o domínio que lhe era, até então, bastante peculiar: o de sempre, sempre seguir com sua vida sem olhar para trás, prático, analítico, sem o mínimo peso na consciência depois de exaustivamente saciado, já se preparando para encontrar algo melhor.

Uma das frases inesquecíveis de Milan Kundera em A Insustentável leveza do ser expõe a certeza de que onde o coração fala é indelicado que a razão contradiga.

Márcio Antônio, cansado de lutar como uma criança birrenta, provou pela primeira vez o amargo sabor do feitiço se voltando contra o feiticeiro ao aceitar, por fim, sua nova situação à sombra do homem que a cada dia aprendia a amar mais e mais, e também, por tabela, por mais ridículo e pueril que pudesse parecer, a condição de ter que dividi-lo com sua esposa e filho. Tudo na vida tinha um preço, não é mesmo? Por mais alto e burlesco que fosse. E ele pagaria, e pagou, com satisfação. Mas não demorou a perceber que o que sentia pelo desembargador não era amor. Não era. Ele, Márcio Antônio, queria que fosse, porém, evidentemente não era — apesar de amor e paixão serem duas forças, duas emoções intensas, apenas com um resultado final bem, bem diferente entre elas. E ele sabia muito bem disso. Já havia amado. Uma vez na vida. E jogou tudo fora. O que envolvia a relação com o homem deitado ao seu lado se baseava em excitação, e no pacote também a manipulação, a falta de respeito e as crises de ciúmes do desembargador.

Mas estava acabando.

Márcio Antônio sentia que finalmente aquilo tudo estava no fim. Tudo, tudo o que havia ignorado, sua dignidade, seu amor-próprio e seus princípios só para poder viver aquele inusitado sonho de amor — ou idolatria —, estava, graças aos céus, voltando a ocupar um lugar ao sol. E ele, decerto, não continuaria, não se permitiria ser tratado, não mais, de forma insidiosa e cruel. Não se permitira ser um estepe; precisava se ver livre daquele sentimento… Ao menos iria tentar.

“Diego, houve dois grandes acidentes na minha vida: o bonde e você. Você sem dúvidas foi o pior deles”, resumiu em seu diário a pintora Frida Khalo a intensidade da relação que tivera com o também pintor, Diego Rivera.

Márcio Antônio, agora, inspira e expira de forma lenta e profunda ao mesmo tempo que sente o coração ir à garganta, lançando sobre o amante, ato contínuo, um olhar absorto, amargurado para, então, voltar mais uma vez a mirar o teto até o momento em que o braço, aquele braço, abandona o seu peito. Sem pressa, inclina a cabeça na direção do desembargador, vendo-o se virar para o outro lado, dando-lhe as costas por completo. Márcio Antônio aproveita para se alongar antes de sair da cama. Precisa ir ao banheiro.

— Você já tem algum plano para o carnaval? — o desembargador lança sua pergunta, a voz rouca, um pouco mais grave, sem abrir os olhos, sem tirar o rosto de sobre o travesseiro e sem se virar para encarar Márcio Antônio.

 

09 de dezembro, 2016, sexta-feira

Um churrasco para comemorar o término do ano letivo acontece nas dependências do colégio Instituto de Ensino Pedro Gouveia, um evento que, como a tradição manda, reúne todos os alunos e professores, mas que neste fim de ano, após diversas reuniões e deliberações, foi decidido, quase por unanimidade, que aquela confraternização seria, além de um diferencial dos anos anteriores, algo “com um quê mais informal”.

Lucas está isolado de tudo e de todos. Observa de longe o movimento, as risadas, as conversações, as carnes sendo fatiadas, servidas. Olha a cada minuto para o celular a fim de conferir as horas, o que só lhe deixa mais impaciente conforme o tempo vai passando e nada de Márcio Antônio chegar.

Sim. Ele, Lucas, está fascinado pelo professor de filosofia já há alguns meses. Na verdade, se apaixonou por Márcio Antônio assim que o viu entrando em sala de aula pela primeira vez, vestido em mangas de camisa e usando uma gravata, diferindo garbosamente dos demais docentes, quando chegou ao colégio, no meio ano, para substituir o professor de filosofia anterior, encontrado morto em seu apartamento. Suicídio, disseram.

Lucas passou a sentar na frente para ver Márcio Antônio mais de perto, prestando uma atenção singular à sua aula, interessando-se pelo assunto, respondendo sempre que possível às perguntas e sendo curioso sobre tudo o que ele dizia. Nesse meio tempo já tinha perdido a conta das vezes que sonhara, imaginara, fizera planos de se declarar e Márcio Antônio, óbvio, aceitá-lo, correspondendo ardentemente sua paixão, ainda que o vínculo aluno-professor fugisse à ética profissional.

Como não se encantar, admirar alguém tão inteligente e com uma bagagem de vida?

Mas administrar aquele sentimento, aquela paixão platônica, estava ficando insuportável. Quantas e quantas vezes Lucas se permitiu mergulhar em meio a um mar de frustrações após as aulas de filosofia? E suas tentativas de iniciar um contato, criar um vínculo utilizando-se de um joguinho ridículo com livros e mangás, que deixava sobre a carteira, apenas serviu para contribuir ainda mais com o sentimento de insatisfação.  

Lucas decide, por fim, ir embora do churrasco, quando, graças aos céus, Márcio Antônio chega. O coração do adolescente dispara e o frio na barriga e a sensação de ter levado um soco no estômago e as mãos suando de ansiedade e tudo, tudo o mais deságua de uma só vez em cada canto de seu corpo, em cada músculo, em cada célula, dos pés à cabeça; dependência e euforia caminhando lado a lado. O professor de filosofia com seus ombros largos, cabelos castanhos, levemente desgrenhados lhe cobrindo as orelhas, e que não passam da altura de seu pescoço está, por incrível que pareça, ainda mais belo e mais provocativo que nunca. Agora só resta a Lucas aguardar que ele o enxergue.

Enquanto a razão de seu afeto segue cumprimentando todos os outros, Lucas o prescruta de cima a baixo, os olhos semicerrados: Márcio Antônio veste uma camisa branca com um capuz, entreaberta, deixando um pouco de seu peito a mostra, e uma bermuda vermelha que lhe marca a bunda e ressalta as coxas bem desenvolvidas. O conjunto reforça o que Lucas já havia constatado em sala de aula: o professor tem um corpo bem torneado, dono de uma silhueta musculosa, sem exageros ou excessos e que com toda certeza supera todas as expectativas que ele, Lucas, poderia esperar de um cinquentão.

Aguardar e aguardar. Até quando? Lucas respira fundo e umedece os lábios com a língua, repetidas vezes, à medida que imagina a nudez perfeita que certamente existe sob aqueles trajes.

Não. Não. Não quer ir tão rápido.

Lucas imagina Márcio Antônio pegando sua mão e o levando para o quarto, o quarto da casa onde mora, e os dois lá, em pé, olhando um para o outro até começarem a se beijar, até ele, Lucas, tomar coragem e empurrar o professor para cima da cama, recebendo um sorriso bem, bem malicioso como resposta e depois também se jogar sobre a cama, os dois continuando a se beijar até Lucas buscar a virilha de Márcio, depois o seu peito e daí colocar seu corpo sobre o dele, encostando suas virilhas, seus sexos, fazendo questão que o professor sinta o que está acontecendo sob o seu jeans enquanto os dois arrancam as camisas num gesto voraz… Lucas sente o desespero, a ansiedade, a respiração ofegante. Agora é pele na pele, suor no suor…

Lucas meneia a cabeça, buscando deixar de lado, imediatamente, o instante de fuga erotizada a que se propôs ao passo que divaga sobre a quantidade de punhetas que irá bater ao chegar em casa. Depois de inspirar profundamente pelo nariz, encher a barriga, o peito e expirar pela boca, liberando todo o ar inalado, volta o rosto para frente, se surpreendendo ao se deparar com Márcio Antônio lhe observando. Lucas tem a impressão de que o professor, em meio a dois, três alunos, o encara de maneira desafiadora.

 

25 de Julho, 2017, terça-feira

Gabriela termina de estacionar na garagem do prédio onde mora, em Laranjeiras, e não demora muito para alcançar o elevador tão logo recolhe as pastas com arquivos de seus poucos pacientes e sua bolsa do banco de trás do carro. Enquanto pressiona o botão para o décimo andar, agradece aos céus por estar sozinha e à medida que repara no visor do painel e os números se alterado, se aproximando mais e mais do seu andar, sente uma tensão inevitável atravessar todo o corpo. O dia havia sido exaustivo? Sim. O paciente Eve e sua resistência? Sim. E para coroar, aquela peculiar e, porque não, surreal conversa com doutor Orlando no final do expediente, que tinha lhe deixado um peso enorme sobre os ombros. Mas o que realmente a incomodava, ali, naquele exato instante, era a possibilidade real e imediata de encontrar Dorlan, o seu companheiro, com quem divide o apartamento há cinco anos, após terem vivido quatro meses de uma intensa paixão.

Infelizmente a relação já vinha dando sinais de desgastes há pelo menos uns seis meses, e sabia-se lá por quê, nenhum dos dois ainda tinha tomado a resolução inevitável de confrontar os problemas que os cercavam, ou o maior deles, o provável propulsor de todos os outros: o impasse da gravidez que ela, Gabriela, estava determinada a nem sequer cogitar, ao passo que Dorlan convergia todas as expectativas para ser pai, até porque já havia passado dos cinquenta anos, e obviamente não havia mais motivos para adiar essa decisão. Algo que protelara sem pestanejar nas diversas relações nem um pouco duradouras — algumas de apenas uma, duas noites — que mantivera até conhecer Gabriela, ainda que vinte e três anos de diferença os “separassem”.

Respirando fundo, Gabriela entra no pequeno apartamento e depois de acender as luzes da sala e da cozinha e realizar um rápido tour pelos outros cômodos, sente-se aliviada pelo companheiro ainda não ter chegado. No mesmo instante passa a sentir as pernas pesadas, o corpo, como se tivesse toneladas e, com certa dificuldade, se arrasta até o escritório, onde deposita sobre a mesa as pastas com arquivos de seus pacientes e a bolsa tiracolo, desmoronando, logo em seguida, como uma massa sobre um pequeno sofá, mergulhando em questão de segundos num sono profundo.

 

02 de fevereiro, 2017, quinta-feira

Eve e Matheus chegam à sauna e após terem a entrada liberada, ganham cartões e se dirigem a uma sala com armários numerados onde devem guardar suas roupas e demais pertences e onde também encontram, dentro desses armários, duas toalhas bem curtinhas para usarem enquanto estiverem no estabelecimento. Alguns clientes que já estavam no local começam a transitar por aquele espaço, interessados, a maioria deles, em medir Matheus — discretamente ou não —, o jovem efebo de pele ainda sem as marcas do tempo e com tatuagens azuladas se destacando no corpo perfeito, magro, definido em massa muscular e em percentual de gordura baixo; obviamente trabalhado à exaustão numa academia.

Completamente nus, exceto pela toalha em volta da cintura, acima dos joelhos, como todos os outros, cliente e seu garoto de programa percorrem o trajeto até o chuveiro coletivo. Um silêncio intencional passa a demarcar a relação entre os dois, já que Eve prefere assim, afinal, está focado em observar o seu entorno para deste modo começar sua triagem, escolhendo quais serão os felizardos que terão o privilégio de ajudá-lo a se divertir com o seu jovem e cobiçado brinquedo.

Enquanto tomam banho, Eve se compraz vendo os homens voltarem a transitar — como planetas gravitando ao redor de uma gigantesca estrela —, indo e vindo em questão de segundos defronte ao chuveiro coletivo para conferir uma, duas, três vezes Matheus, a mercadoria recém-chegada, mas dessa vez, graças a Oscar Wilde, sem um pedaço de pano para estorvar suas visões. E ele, Matheus, claro, não se faz de rogado. Percebe o prazer estampado nos olhos e em cada linha do semblante do homem que o alugara por toda a noite e então decide começar a jogar o seu jogo, dando início a um ritual de sedução com gestos aparentemente desatentos, porém, minuciosamente elaborados: as mãos ensaboando o próprio corpo sem pressa, deslizando pelo peito, braços, rosto… deslizando pela cintura, a virilha, a bunda… a pele brilhando sob o sabonete… a palma sendo lambida lentamente antes de dar início a uma falsa masturbação conforme ele, Matheus, vai lançando ao redor um olhar sub-reptício, pois está decidido e vai ganhar, como sempre, essa brincadeira onde coisas belas e sujas se misturam.

Logo após a chuveirada, Eve, acompanhado de seu toy boy, caminha pela sauna, pelos corredores, explorando cada quarto e refúgio; sempre olhando, conferindo cada ponto e cada espaço num mutismo absoluto. Está compelido a ver tudo o que for capaz ao mesmo tempo que mantém o seu foco em encontrar os “tais felizardos” e também o melhor local para, juntos, aproveitarem a diversão, aquela necessidade quase incontrolável de Eve em aviltar o “seu” jovem efebo…

Eve sempre se lembra do árduo autoconvencimento, dos dias e semanas de racionalização para conseguir ir a um lugar como aquele pela primeira vez, há alguns (muitos) anos, pois tinha medo de acabar encontrando algum conhecido, mesmo que estivessem lá pelo mesmo motivo. Imaginava esbarrar com alguém do trabalho. Ou algum conhecido de Gaby, mesmo estando na iminência do fim da relação; não podia desrespeitá-la daquela maneira… Ou algo ainda pior: com o passar dos anos, por mais improvável que pudesse parecer, imaginava, por que não, esbarrar com “ele”…

Eve continua sua peregrinação sentindo o forte cheiro de eucalipto — há quanto tempo mesmo já não frequentava uma sauna? — enquanto observa a vasta “fauna” ao seu redor, corpos, meros corpos espalhados pelo bar, pela sala de vídeo, pela entrada do dark room. Ele escrutina os homens paquerando a turma do chá de cadeira, alguns deles com o pau para fora, masturbando-se com delicadeza, se preparando para o caso de algum interessado se aproximar.

É interessante, ou até mesmo curioso, constatar como os padrões sociais e estéticos do mundo externo conseguem ser subvertidos dentro de uma sauna no intuito de alcançar o prazer. E ao contrário do que muitos pensam, elas, as saunas, não são a última e desesperada opção para quem procura por sexo. Há muitos jovens com seus corpos mergulhados em baldes de hormônios, beirando a perfeição do ideal grego de beleza, que poderiam ter qualquer um com um simples estalar de dedos no metrô, mas que clamam por idolatria nesses locais; se desesperando por alguém que os faça se sentirem conquistados e lhes deem prazer de uma forma ou de outra… e sem cobrar um centavo sequer. Na solidão, o solitário devora a si mesmo; na multidão devoram-no inúmeros.

— Porra. Jura que tu me trouxe aqui pra gente ficar passeando? — Matheus não consegue mais se conter.

Eve nada responde. Nem sequer olha para o acompanhante. Segue com sua peregrinação até estacar defronte a uma cabine ao final de um extenso corredor iluminado por luzes baixas. O pequeno quarto, mobiliado com apenas uma cama — possivelmente uma cama de solteiro king —, um dispensador de papel toalha, um discreto frasco de álcool em gel e uma lixeira, é bem iluminado, afinal de contas, precisa servir ao seu propósito.

— Pronto. Chegamos.

Eve anuncia já empurrando Matheus para dentro, porém, mantendo-se do lado de fora, no corredor, com um sorriso despreocupado, afável, tão alegre quanto um suspiro. Antes de fechar a porta da cabine, sem qualquer aviso e sem deixar de encarar seu menino, ele pede para que o aguarde, e preparado, bem preparado, pois lhe trará uma bela surpresa.

Matheus não ousa questionar. Para quê? Dentro de um lugar como aquele não corre nenhum perigo e o valor do programa daquela noite já estava mais que garantido. E no frigir dos ovos, fosse o que fosse o que aquele cliente estava tramando, era melhor que recrutar clientes na calçada e quase sempre pela metade do que estava recebendo.

Eve não demora mais do que quinze ou vinte minutos para retornar. Contudo, não está só. Ao abrir a porta da cabine, ao seu lado, estão dois homens; na verdade, dois senhores que sem qualquer sombra de dúvidas há muito deixaram a juventude para trás. Um deles, um homem gordo, parecendo o dono de um armazém, e o outro, um pouco mais magro, tem uma cara parecendo ter sido chupada de dentro do corpo, com um queixo exageradamente recuado.

— Mas que porra é essa? — Matheus não demora a questionar. Os olhos indo de um homem ao outro — Não combinamos nada disso.

Eve sorri docemente e depois de menear a cabeça convida os dois novos amigos a adentrarem na cabine, fechando sem demora a porta atrás de si, forçando, com esse contingente, Matheus a recuar, encurralando-o ao pé da cama, ao lado do dispensador de papel toalha.

Um silêncio, breve, paira no ar enquanto Eve passa em meio aos dois homens rumo ao encontro de Matheus, que o encara, firme. Seus rostos quase se tocam. Os olhos de Eve, elementos móveis numa face impenetrável, não deixam de fixar seu “brinquedo” ao passo que ergue a mão, sem pressa, para colocá-la no ombro de Matheus e, em seguida, com os dedos trêmulos, subir ao longo de seu pescoço, bolinar suas faces, seu nariz, beliscar delicadamente sua pele, depois descer para o seu peito, macio, sua barriga… Eve tateia seus músculos, à medida que vai sussurrando, repetindo o que a voz em sua cabeça lhe diz: nós, eu e sua mãe, lhes demos tudo. Então, nada mais justo que nos retribua.

Eve se volta, por fim, na direção dos dois homens, que permanecem parados, próximos à porta fechada da cabine, assistindo àquela exótica apresentação sem deixar de sentir certo constrangimento, já que Matheus parece uma estátua viva.

— Prontos para a festa? Tenho certeza que não vão dispensar esta oportunidade. Reverenciar este pupilo inteiramente à disposição — Eve desafia os convidados, já arrancando a toalha da cintura de Matheus — Quanto? — ele se vira para o jovem, pouco se importando com a apreensão que corre no rosto dele ao mesmo tempo que tira da toalha que está usando, sua gravata azul, clara, agora amassada, para envolvê-la no pescoço de Matheus… — Não se faça de rogado ou desavisado. Tenho certeza que já fez coisas piores nessa sua vidinha medíocre… Me dê seu preço.

A diversão, seja qual for a definição a ser dada, não demora a começar. Matheus, deitado sobre a cama, a gravata distinguindo-se sobre seu torso nu, sente as mãos e as línguas dos dois homens passeando por todo o seu corpo, para cima e para baixo, mergulhados, cada um deles, num mar de sofreguidão; vê também o sorriso de lábios úmidos na cara do velho obeso, entretanto, se recusa a fitar Eve, que está de pé, a um canto da cabine, assistindo todos os movimentos, ouvindo todos os gemidos, reconhecendo o quão talentoso o garoto de programa é em representar seu papel… Tudo na vida tem um preço… Mercadorias… Taras e gostos…

Eve segue acompanhando a encenação, ao espetáculo com as mãos crispadas às próprias pernas, o rosto estremecido por tiques até começar a rir às gargalhadas enquanto assiste às aves de rapina se fartando sobre o banquete oferecido…

De repente, uma dor de cabeça…

“Me deixem em paz… Me deixem paz… Nunca mais ouviu bem? Nunca mais”…

Uma dor de cabeça intensa, absurda, irradia de um ponto a outro em seu cérebro… Ele olha para a gravata no torso de Matheus, amassada, torta…

Um formigamento avança sobre o seu braço direito…

“Quero que responda olhando firme nos meus olhos. Alguma vez nós te forçamos?”.

Uma tontura… Eve fecha e abre os olhos, várias vezes… Mãos lhe abrem as pernas… Os verdugos… ele os enxerga, os verdugos, os dois, agora ajoelhados à sua frente…

“Você é muito branquinho, muito branquinho… Se tivesse nascido uma menina”…

Eve é invadido por uma lufada de angústia. Seus olhos embaçam, mas as lágrimas não vêm; os soluços que nascem em sua garganta, esgotam-se, deixando-o desamparado.

A cueca vermelha…

“Doutor… Eu… eu lembro… eu tive uma ereção… e depois…”

O cheiro de pele, pele humana, quente e úmida…

A gravata…

“Você foi abusado sexualmente e agredido. Não é culpa sua. Respostas fisiológicas são involuntárias”.

Os braços e pernas pesando toneladas…

Eve vê seu corpo, adolescente, sendo jogado no chão… o pai indo para cima dele, esbofeteando-o…

Visão dupla, tripla…

Eu devo suportar, eu devo resistir, eu serei mais forte que a escuridão, por você Bruna, somente por você…

Eve endireita o corpo… Uma voz grita em sua cabeça… Ele examina o seu entorno e então se agarra à parede atrás de si… a garganta seca… um assobio agudo escapando de seus pulmões…

“Me deixem em paz… Me deixem paz… Nunca mais ouviu bem? Nunca mais”…

Uma súbita dor torácica e palpitações o assaltam, a sudorese, a visão turva…

Eve abre a porta da cabine violentamente e sai correndo.

 

 

Artes: Cristina Ravela

 

Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real, terá sido mera coincidência. 

Atenção: A Widcyber tem a autorização do autor para publicar este conteúdo.

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NAVEGAR

  • AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!!!! Estou completamente chocado e estarrecido com esse episódio. Meu Deus, véi. E eu achando que a cena da Gabriela colocando o Orlando em seu devido lugar seria o ápice do episódio (a propósito Gabriela Rainha).

    Cara, que plot twist esse do paciente Eve, eu não imaginava que ele era o garoto que sofria abusos, o irmão da Bruna, pensava que fosse outra pessoa. Chocado estou!

    Também adorei o arco do Márcio Antonio, quem diria que o Lucas ia acabar se apaixonando pelo professor de filosofia? Enfim, só estou no aguardo do próximo episódio que espero com muita ansiedade.

    • Meu amigo, muitas coisas acontecendo.

      Obrigado pela leitura e vibração “pós texto”. Espero que possa gostar dos rumos que estão por vir, afinal, tudo está conectado (kkkkkkkkk).

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