Um-Homem-Singular
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NAVEGAR

O homem é um animal racional que perde sempre a cabeça quando é chamado a agir pelos ditames da razão

Oscar Wilde


Música para camaleões

 

É estranho como nosso cérebro armazena, mantém e acessa nossas memórias num processo que pode vir a ser fascinante ou doloroso. Ainda me lembro de cada detalhe daquela tarde de fim de mundo, em 1989, na minha cidade natal, Arena, onde já não coloco meus pés há quase 30 anos. É Impossível esquecer a aversão palpável e assustadora estampada nos olhos de meu pai, o velho Ezequiel, que mergulhado num lago de autoridade e certeza absoluta, mas também afogado num mar de desespero e orgulho ferido, incansavelmente repetia que o homem que ousasse se deitar com outro homem como se fosse com uma mulher, o sangue de Deus recairia sobre os dois, e ambos, certamente, seriam mortos.

Por incrível que possa parecer ainda consigo sentir o metal frio da fivela do seu cinto batendo forte no meio das minhas costas, me dando a impressão de estar sendo partido ao meio; ainda ouço os seus gritos me informando que daquele dia em diante eu não seria mais seu filho, já que ele se recusava a ser pai de um pecador e sodomita, e para não deixar qualquer sombra de dúvida, eu não seria mais nada seu, e ele também nunca mais queria me ver e me odiaria até o dia que Deus decidisse levar sua alma.

Por que Dionísio me delatou para o meu pai? Eu fiz tudo o que ele me pediu. Atravessei barreiras e conheci a degradação moral a que um ser humano pode se expor antes mesmo de sequer completar meus 18 anos, e para quê? Acreditar que nossas feridas serão curadas colocando nossa felicidade nas mãos de outro sem medir as consequências, nos obrigando a corresponder às suas expectativas para não perder o seu amor, é um dos maiores erros que cometemos, por mais imaturos que possamos ser. Se eu pudesse voltar no tempo faria tudo diferente. Não me sujeitaria e nem me permitiria chegar aonde cheguei…

Um grande amigo me disse uma vez, depois de ter ouvido a minha história, caso eu não me esforçasse para tentar esquecer, ou até mesmo perdoar, as chances de me tornar uma pessoa triste, rancorosa e amargurada seriam imensas. Respondi sem titubear que não me incomodaria em pagar esse preço, se fosse preciso, e não me sentia culpado, já que a culpa vem para você não devido às coisas que você fez, mas das coisas que os outros fizeram a você, e eu não sabia se algum dia iria conseguir perdoar o meu pai, ou perdoar o Dionísio, enfim, perdoar o meu passado; vinha me alimentando a tantos anos de tudo isso que não sabia mais se poderia viver sem essa razão. Ela estava entranhada em mim, e talvez por acreditar em sua força, eu pude seguir adiante depois que fui expulso de Arena e cheguei ao Rio de Janeiro abandonado à própria sorte.

                                                        1989 …
                                                  … 2018

 

 

Segundo Shakespeare, guardar ressentimentos é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra. Pois que seja, mas perdoar não se trata de uma simples questão de querer esquecer, porém admiro, do fundo do coração, quem, depois de uma decepção, segue em frente sem levar consigo o peso do que ficou para trás.

 

 

*   *   *

 

Aqui estou eu no meu quarto, sentado à beira da cama, nu, observando este rapaz deitado diante de mim, também nu em pelo, em pele, adormecido.

Nada nele é imperfeito. Seu corpo, firme, descansando em cima do lençol emaranhado, cobrindo quase toda a cama com sua pele clara como um manto, é um deleite onde me rendo fascinado diante dessa natureza quase etérea, permitindo me perder ao viajar pelos contornos de seus braços e pernas naturalmente definidos, lábios tão bem desenhados, um tórax completamente liso, uma barriga exata, perfeita, além, claro, da sua virilidade, ainda que adormecida, me hipnotizando.

Acredito que nunca vou abrir mão de ter um corpo jovem ao meu lado, mesmo que com o passar dos anos a diferença de idade esteja ficando cada vez mais notória entre mim e essas companhias, e conviver sob a sombra do preconceito nessa sociedade que prefere se preocupar em saber com quem você se deita ao invés de cuidar da própria vida, ainda necessita de muita inteligência e sagacidade. Mas por sorte sei me portar como um exímio cavalheiro e dançar, convenientemente, o ritmo que estiver em voga no salão. Aprendi a não gastar energia para tentar explicar o inexplicável até mesmo para mim, quanto mais para algumas mentes obtusas, carregadas de hipocrisia.

 

Respiro fundo, sem pressa, enquanto dou de ombros e me coloco de pé para sem grandes alardes caminhar até o pequeno sofá laranja, à minha direita, onde apanho o meu roupão Ralph Lauren, branco, com bordados em dourado e decote em V trespassado, e à medida que vou encaixando o meu corpo dentro dele volto a observar o jovem esparramado sobre os meus lençóis. Como se chama mesmo? Maurício? Marlon? Miguel? Não me recordo, sei que é um nome que começa com a letra “m”, mas também não vejo necessidade desse registro, afinal, ele é um, apenas mais um, e convenhamos, não vai deixar nenhuma saudade.

Um sorriso furtivo escapa do canto dos meus lábios e então me dirijo até o criado mudo de onde retiro o celular para guardá-lo num dos bolsos do roupão e sigo para a porta e depois de abri-la e fechá-la, possivelmente com a mesma cautela de quem está deixando para trás um recém-nascido no berço depois de uma batalha árdua para fazê-lo adormecer, tomo a direção da sala, sem urgência, enquanto vou amarrando a faixa do roupão em volta da minha cintura até me deixar cair sem qualquer sinal de hesitação sobre o sofá sem braços, vermelho, do tipo de vermelho que só encontramos nos filmes do Almodóvar, ao passo em que vislumbro o adesivo em tamanho natural de Bonequinha de Luxo onde Audrey Hepburn, com seu tubinho preto, seu coque, tiara, luvas e cigarro na mão, reina absoluta na parede à minha frente.

 

 

Aliás, amo esse filme e sem sombra de dúvidas amo Audrey como uma jovem sonhadora, excêntrica, extrovertida e sem recursos, cujo objetivo na vida é arranjar um rico casamento, mas ainda assim não descarto a possibilidade de Hollywood produzir uma versão menos otimista, menos comportada e mais fiel ao livro, onde a protagonista é uma prostituta bissexual, que fuma maconha e fala palavrão.

Sou tomado de sobressalto ao ouvir a campainha do meu apartamento, mesmo sabendo que Gustavo, o meu assessor, está para chegar; de pronto retiro o celular do bolso do roupão e confiro o visor: 16h30min. Como sempre Gustavo e sua irritante pontualidade britânica. Não sei como ele consegue esse feito até mesmo agora, faltando apenas uma semana para as festas de fim de ano.

Levanto-me ao mesmo tempo em que deixo o telefone sobre o assento do sofá e então inspiro profundamente antes de começar a caminhar na direção da porta enquanto reviro os olhos e coloco um sorriso enviesado no rosto antes de abri-la…

 Assim que Gustavo bate os olhos sobre mim, seu semblante toma ares de impaciência e desapontamento, o que não me surpreende, ao passo em que me deixo ser medido de cima a baixo.

– Qual o seu problema, Nicolas? – ele questiona num tom sério ao mesmo tempo em que atravessa o batente da porta, fechando-a atrás de si e passando ao meu lado como uma ventania no fim de uma tarde de verão para, enfim, se prostrar às minhas costas – Você ainda não está pronto? Pelo amor de Deus…

Viro-me bem devagar, o encaro de uma maneira incerta e deixo os ombros caírem. É a minha vez de medi-lo de cima a baixo.

Com seus 1.92m, pele muito, muito clara, queixo proeminente e os olhos grandes e assustadoramente azuis, Gustavo acha-se mais que alinhado dentro do traje de cerimônia que está usando. Um verdadeiro gentleman com sua gravata borboleta na clássica cor preta, em cetim, assim como o paletó gola xale e a faixa da cintura e as duas listras nas laterais da calça, e esta, assim como os sapatos no estilo oxford, também na cor preta, estabelecendo uma harmonia perfeita para que a camisa branca, com peitilho com pregas, colarinho alto engomado e bicos dobrados, possa sobressair sem grandes alardes.

– Definitivamente não estou preparado para ir… – respondo já contornando a figura estática do meu assessor e me dirigindo para o sofá disposto a poucos metros.

– Já tivemos essa conversa, Nicolas… – ouço Gustavo pontuar.

De soslaio observo que ele está me seguindo e logo nós dois caímos sentados sobre o estofado, apenas com alguns segundos de diferença.

– Nós não. O senhor já teve essa conversa – retruco tentando omitir o tom de galhofa – Eu disse com todas as letras que gostaria que você me representasse…

Gustavo deixa escapar o ar dos pulmões com uma cara de poucos amigos e então se levanta; com passos diminutos alcança o pequeno bar suspenso à parede, na sua direita, e eu aproveito para recostar a cabeça no apoio superior do sofá. Não demora muito e o seu braço paira no ar, me oferecendo uma bebida e é claro que eu aceito a oferta.

– Não vamos ter essa discussão novamente – ele reinicia enquanto deixa o corpo tombar ao meu lado – Já te representei nos últimos três eventos e esta situação já está ficando chata…

– Você é meu assessor, não vejo problemas nisso, e acredito, nem as pessoas… – contra argumento ao passo em que dou um gole na minha bebida. É um Cosmopolitan. Não é a toa que nós dois somos fãs de Sex and the city.

– Ledo engano – Gustavo derrama de uma só vez o conteúdo do seu copo goela abaixo e se volta para mim – As pessoas querem ver o escritor que as conquistou com suas histórias, a força que está por trás de cada palavra, de cada página que devoram…

– Menos, por favor – o interrompo me esforçando para usar um tom próximo do sensato.

– Nicolas… – Gustavo põe o copo vazio sobre a mesinha de centro sem deixar de me encarar – Eu não vou ficar aqui divagando, nem tão pouco te paparicando, até porque você sabe o valor que tem, e não estamos com tempo pra isso, então, por tudo que for mais sagrado, vai lá ao seu quarto tirar a merda desse roupão e colocar o seu Fraque…

Não consigo resistir. Abro um sorriso conspiratório.

– Você me conhece, Gustavo… – devolvo enquanto observo seu rosto começar a exibir sinais de tensão – Nunca fiz parte do rol das celebridades capazes de um tudo para ter o seu lugar ao sol, desesperadas por aparecer nas capas de revistas ou em programas de gostos duvidosos, determinadas a não perder os seus lugares na disputadíssima vitrine da fama… – beberico um pouco mais do meu Cosmopolitan antes de continuar – Sempre me contentei com a fatia do bolo que conquistei. Aliás, como dizia Goethe: jamais considerei minha ação e todo meu trabalho senão simbolicamente, e me foi bastante indiferente saber se eu fazia potes ou pratos.

Gustavo apoia os braços sobre os joelhos e enterra o rosto entre as mãos depois de uma longa lufada. Eu arqueio as sobrancelhas e cruzo as pernas enquanto um silêncio toma conta do ambiente por alguns instantes até ele levantar a cabeça e voltar a me fitar. É notório o esforço hercúleo que está fazendo para tentar conter um iminente descontrole. Por fim meu digníssimo assessor se coloca de pé deixando as mãos pender junto ao corpo, passando cerca de um minuto parado, fixando o nada.

– Nicolas… – ele baixa os olhos sobre mim – A Academia Brasileira de Letras vai te prestar uma homenagem esta noite… Que escritor sobre o território nacional não daria uma das mãos para ter essa honra?

– Camaleões. Criaturas excepcionais. A maneira como mudam de cor. Vermelho. Amarelo. Verde-limão. Cor de rosa. Lilás-claro. E sabia que adoram música? – replico, com um sorriso furtivo a fim de disfarçar minha obstinação.

– Do que você está falando? – Gustavo questiona um tanto atordoado.

Música para Camaleões, do genial Truman Capote – respondo descruzando as pernas, revirando os olhos e estufando o peito.

Meu assessor não se manifesta. Rugas impiedosas começam a surgir nos cantos de sua boca. Se eu continuar me comportando dessa maneira não duvido que ele vá ter um ataque apoplético.

– Ok. Academia Brasileira de Letras, lá vamos nós…

Respondo cínico e entre os dentes ao mesmo tempo em que me inclino para depositar o copo, ainda com a bebida pela metade, no chão, sobre o tapete redondo, listrado. Nesse instante ouço os passos de Gustavo se distanciando e então ergo a cabeça no momento exato em que ele está se virando na minha direção, tendo a porta ainda fechada atrás de si. Surpreendentemente ele não me fita. Com um semblante entorpecido que não demora muito a assumir as características de um cenho cerrado, seu olhar passa sobre mim para estacionar logo adiante.

Não tenho dúvidas do que Gustavo encontrou, mas ainda assim me viro e com a mesma certeza de que dois e dois são quatro, não fico nem um pouco admirado ao me deparar com a figura do meu jovem acompanhante na saída do corredor, em pé e vestido tão somente com sua cueca boxer branca, tentando de maneira desesperada manter as mãos sobre a virilha. Um silêncio constrangedor reina por alguns instantes enquanto acho graça da cena montada ao meu redor, porém preciso tomar as rédeas da situação antes que um desses dois personagens (ou ambos) tenha uma síncope. Sem grandes transtornos consigo despachar o garoto de volta ao meu quarto depois que libero o uso da minha suíte para que ele possa tomar um bom banho e de pronto retorno para sala, onde encontro Gustavo exatamente da mesma maneira que o havia deixado, em pé, defronte à porta fechada e com uma fisionomia carrancuda: uma estátua viva prestes a desmoronar.

– Por que não me disse que estava acompanhado?

– Faria alguma diferença? A propósito, você já pode respirar – sugiro pretensiosamente ao passo que volto para o sofá sem braços, inclinando-me em seguida para resgatar meu Cosmopolitan do chão, entornando imediatamente o que resta dele em minha garganta – Até parece que é a primeira vez que você vê um homem de cueca – completo, concentrando toda minha atenção no copo vazio que não demoro a depositar sobre a mesinha de centro.

– Um homem? – Gustavo questiona num tom de voz extremamente seco – Espero que esse garoto seja maior de idade…

Ergo a cabeça e o encaro. Com os olhos fixados sobre mim, como duas amoras pretas, meu assessor parece estar tentando ler meus pensamentos. Já conheço essa reação, essa postura prepotente sustentando o ar de quem consegue ver mais do que a maior parte das pessoas.

– Não estou acreditando que eu ouvi isso – semicerro os olhos e balanço a cabeça – Por quem me tomas? – interrogo de imediato, sentindo-me genuinamente ofendido.

Gustavo dá um passo à frente, sem deixar de me fitar, sustentando uma aparência quase inexpressiva, beirando o desprezo.

– Dois pesos e duas medidas… – ele se lança um pouco mais na minha direção, estacando, por fim, bem próximo do sofá – Você, Nicolas, com esse seu discurso carregado de preconceito e pragmatismo, apontando o dedo para as pessoas ávidas por seus quinze minutos de fama, não me parece estar fazendo algo de diferente, ou você acha que trazer esses moleques… – Gustavo inclina o queixo para o corredor sem deixar de me afrontar – Esses completos estranhos, aqui, para dentro do seu apartamento, não é o mesmo que se expor, não é o mesmo que pedir desesperadamente por um escândalo, isso sem falar no risco em que está colocando sua própria vida… – ele põe a mão direita na cintura ao passo em que meneia a cabeça para tão logo baixá-la novamente até onde estou. Sua fisionomia, agora, denota um cansaço, uma palidez, uma melancolia monstruosa – Você não precisa disso, Nicolas.

Não digo nada. Cruzo as pernas, arqueio uma de minhas sobrancelhas e olho para Gustavo com um ar imbecil, com uma boa expressão de estupidez.

– Vou descer e encontrar um táxi para o seu amigo e pedir mais vinte minutos de tolerância ao motorista que a Academia Brasileira de Letras disponibilizou para você, – ele comunica com um brilho de inteligência em seus olhos e uma expressão decidida nos lábios – Nem um segundo a mais ouviu bem, Nicolas? 

– Eu tenho escolha? – indago, sorrindo de maneira um tanto afetada.

– Graças a Deus, não.

Gustavo é taxativo em sua colocação e me lança um olhar de desconfiança; eu, claro, logo trato de esboçar um semblante carregado de inocência, mesmo sabendo que não irei convencê-lo. Nem parecemos dois homens beirando os 50 anos de idade, mas sim dois adolescentes em uma guerrinha particular inteiramente sem sentido.

Sem tardar, ele se vira e caminha com passos firmes até a porta, abrindo-a de súbito, porém antes de alcançar o corredor à sua frente, se volta cheio de decisão e me fita num silêncio sepulcral. Orgulho e carinho tomam conta de seus olhos, o que me deixa um tanto constrangido, mesmo depois de todos esses anos. Gustavo jamais escondeu o que sente por mim, ainda que eu lhe tenha deixado claro que não teríamos qualquer tipo de relação além da profissional e de nossa amizade, mas talvez se tudo tivesse sido diferente…

Com um olhar afetuoso, mas reprovador, meu assessor desaparece como que por encanto, apenas deixando em seu rastro o baque surdo da porta sendo fechada. Nessas horas sinto saudades da alma revolucionária e inconstante do Gustavo que conheci há quase trinta anos.

Lembro-me muito bem quando nos vimos pela primeira vez, na cozinha lotada daquele albergue, ele aparecendo do nada, sentando ao meu lado, me cumprimentando e colocando sobre a mesa sem o menor cuidado o copo com café com leite e o pacote de bolachas que carregava, se apresentando logo em seguida com uma reverência ridícula e afetada, como se fosse uma obrigação natural ter de conhecê-lo, e tampouco se intimidando diante da minha fria recepção, já que praticamente eu o ignorava enquanto o media de cima a baixo, como se não estivéssemos no mesmo barco.

Jamais acreditei que algum dia aquele Gustavo agitado, aquele adolescente disperso, poderia ser domado…

                                                                                                                      1989 …                                                         

Infelizmente aqueles sete anos que passou na prisão fez esse “serviço”, e eu, covarde, permiti que ele vivesse o inferno do encarceramento no meu lugar, e tê-lo ao meu lado, durante todos esses anos, após essa traumática experiência, de certo influenciou negativamente no nosso bem estar, na nossa amizade, mesmo Gustavo jamais tendo me cobrado qualquer coisa, um pedido de desculpas sequer, aceitando de bom grado estar à minha sombra… Transformá-lo em meu assessor era o mínimo que eu poderia ter feito, nada mais além disso. 

                                                                                                                      … 2018       

Engulo em seco e busco relaxar os ombros, movimentando-os em círculos ao passo em que semicerro os olhos enquanto reflito sobre as reviravoltas da vida… Bem, não há o que se fazer. Academia Brasileira de Letras, aí vamos nós, repito num murmúrio, quase fechando os olhos por completo, não fosse a Cavalgada das Valquírias, de Wagner, tocando no meu celular. É a música que escolhi para anunciar as ligações de Arena, minha cidade natal.

De relance contemplo o número no visor do aparelho, mais que decidido de que não estou em condições psicológicas para falar com Adoniran. Certamente meu digníssimo irmão vai jogar conversa fora, reclamar da vida e depois me pedir algum dinheiro extra para alguma coisa que eu não vou fazer a mínima questão de entender. Se não fosse por minha vó Teresa, não sei se teria voltado a manter contato com a minha família depois de ter permanecido afastado por tantos anos…

Faço menção em me levantar do sofá, mas a insistência de Adoniran me deixa irritado a ponto de não conseguir ignorá-lo por definitivo e então atendo a merda do telefone.

– Alô? – não tento disfarçar em nada a minha contrariedade.

– Os médicos confirmaram o diagnóstico, Nicolas. Nosso pai está com um câncer na próstata… – Adoniran começa a chorar do outro lado da linha.

– Do que você está falando? – pergunto ao passo em que busco assimilar o que acabei de ouvir.

Adoniran, pouco depois de se recuperar e entre soluços, relata o drama do velho Ezequiel, desde os sintomas iniciais com o ardor e a dor ao urinar até a resistência para realizar os exames, blá, blá, blá… Sinto-me como se estivesse completamente anestesiado, ausente, enquanto a imagem do meu pai me deixando nu diante de toda cidade de Arena invade meu cérebro numa velocidade avassaladora ao lado de suas palavras terríveis, gritando que eu iria embora da sua casa e que não levaria nada já que nada ali me pertencia, nem mesmo a roupa do corpo, derramando sobre mim toda sua cólera e frustração por eu não ter sido o filho perfeito, rugindo ferozmente que estava arrependido por ter me adotado depois que a assassina da minha mãe havia sido condenada.

Meneio a cabeça com força, mas não consigo afastar essa e tantas outras malditas lembranças daquela tarde de fim de mundo. Todas, uma a uma, circulam covarde e violentamente acima de mim, mergulhando e cravando garras dilacerantes em meu cérebro. A voz de Adoniran, do outro lado continua, mas ouço suas palavras como se estivéssemos na escuridão. Nenhuma delas faz sentido. Odeio meu passado e odeio a mim mesmo por ainda me permitir ser consumido por todo esse veneno.

Sinto-me empertigar. Meu cérebro, cansado, move-se lentamente e então levo a mão livre até a altura da cabeça. Ódio, novamente o ódio e também desgosto ardem em meus olhos. Preciso escapar desse beco sem saída, reflito diante da familiar sensação de indiferença que sempre se fez enraizar dentro de mim, tomando conta de cada músculo do meu corpo sem que eu faça qualquer esforço contrário.

– Graças ao Nosso Senhor essa coisa ainda está num estágio inicial, mas está avançando… – Adoniran comunica com sua voz ainda entrecortada por soluços…

Finalmente consigo compreendê-lo. Abro e fecho os olhos e durante esse movimento parece que minha coluna está querendo sair pelo alto do crânio.

– Nicolas? Nicolas? – Meu irmão me chama uma, duas, três vezes…

Respiro fundo e então me pronuncio, enfim:

– Sei de gente que combateu essa doença e saiu vencedora… – disparo completamente seco, não deixando de me espantar, por incrível que possa parecer com o fato de manter-me tão apartado.

– Ele não queria que você soubesse Nicolas… – Adoniran, carregado de hesitação, deixa que as palavras escapem de sua boca – Tínhamos esperança que os exames dessem negativo…

– De verdade, eu não me importo… – pareço estar com a cabeça inchada e estremeço até quando tento virar os olhos – Não se preocupe com gastos. Nenhum de vocês – reinicio ao mesmo tempo em que busco controlar minha impaciência que avança assustadoramente – No que depender de mim, o velho Ezequiel terá o tratamento que for necessário, mas ele também vai precisar fazer a parte que lhe couber, pois caso seja imprescindível sair desse fim de mundo que é Arena para ir a Belo Horizonte…

– Nosso pai disse que não suportaria passar por mais essa humilhação. Para ele tem sido difícil todos esses anos receber o dinheiro que você tem mandando, Nicolas… – ouço meu meio irmão engolir em seco antes de prosseguir – E seria insuportável ter mais essa dívida… Você conhece o nosso pai…

– Conheço muito bem até onde pode ir o orgulho do velho Ezequiel melhor do que ninguém, mas de que forma vão lidar com a situação? – questiono objetivo; uma raiva subindo do fundo do meu estômago – Sejamos práticos, Adoniran. Com que dinheiro vocês poderão dispor? O armazém, pelo que você me disse, já há tempos não está tão bem assim, na verdade pior do que já estava, e até aonde eu sei, vocês não possuem nenhuma economia satisfatória, na verdade nenhuma economia que possa custear um tratamento médico, seja ele qual for.

Sei que estou sendo extremamente rude, entretanto não consigo reagir de outra maneira. É mais forte do que eu. O veneno que vem me consumindo a quase trinta longos anos, não irá desaparecer, agora, em apenas trinta segundos. O câncer que alcançou o velho Ezequiel não é o antídoto para isso, pelo contrário…

– E como está vó Teresa? – pergunto depois de fechar os olhos a fim de tentar apaziguar meus pensamentos, minhas reações.

– Nossa avó está inconsolável – Adoniran expõe com um fiapo de voz – Quando lhe contei, ela me disse, escondida de todos, inclusive do pai, que não sabia quando aquela doença iria matá-lo, mas com certeza ela havia morrido naquele instante e que iria pedir a Deus que não a deixasse viva para enterrar seu próprio filho…

– Ela é mãe… – murmuro enquanto abro os olhos, amargurado, triste, ao tentar mensurar a dor que minha vó deve estar sentindo… – Nenhuma mãe, Adoniran, por pior que o filho possa ser, merece passar pelo padecimento de sepultá-lo.

Eu e Adoniran nos despedimos e então respiro fundo, ainda com o celular desligado entre os dedos. Uma onda de náusea e golpes atordoantes toma conta de mim. Num salto, temendo esmorecer caso arrisque caminhar normalmente, alcanço o bar suspenso à parede e entorno num copo a primeira bebida que encontro, inclinando a cabeça logo em seguida, puxando o fôlego e bebendo rapidamente. O líquido queima minha garganta e meu estômago ao passo em que volto para o sofá e praticamente arranco o celular da sua superfície e olho para a minha imagem refletida no visor escurecido: deparo-me com a fisionomia de um homem embriagado pelo cansaço, raiva e autopiedade ardorosa e então atiro o aparelho e o copo no chão e me deixo cair sobre o estofado com os braços e pernas para os lados… A raiva impotente me sufocando…

Arena… Academia Brasileira de Letras… Gustavo… Homenagem… Fui expulso de lá… Aquela tarde de fim de mundo… Dionísio… Dionísio…

Um redemoinho de fragmentos de lembranças, nomes e lugares passeiam vertiginosamente diante de mim sem que eu consiga interligá-los, sem que eu consiga ter qualquer domínio sobre eles. Sinto uma ardência no couro cabeludo e dores no peito, como se estivesse recebendo punhaladas, como se estivesse recebido um tiro, como se estivesse sendo atingido por um martelo… A dor é insuportável.

O velho Ezequiel… O velho Ezequiel…

 

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