Um-Homem-Singular
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Tem loucuras que a gente só faz com muita maturidade

Cáh Morandi

 

Um homem singular

 

– Estamos recebendo em nosso programa o célebre escritor, Nicolas Coutinho, que aos 27 anos teve o seu segundo romance aclamado pela crítica e público, tendo sido o título mais vendido por seis meses aqui, no Brasil, e logo em seguida traduzido para doze idiomas, além de uma adaptação para o cinema, transformando-o num grande sucesso da noite para o dia, e desde então não parou mais, e agora, prestes a completar seus 47 anos de vida, está, até onde sabemos, cuidando do seu oitavo romance… Com toda essa estrada percorrida, Nicolas, você teria algum conselho para os escritores que estão começando?

– Boa noite, Marília. Obrigado por essa apresentação maravilhosa e por essa oportunidade de estar aqui, no seu programa…

– Sem agradecimentos, Nicolas. Não disse nada mais que a verdade.

– Bem… Antes de qualquer coisa gostaria de frisar que um escritor iniciante ainda depende muito de suas impressões pessoais, e por isso mesmo seu texto é imaturo, incompleto. Jorge Amado apregoava que poderia haver muita deficiência no livro de um jovem, mas em contraponto também existia uma coisa fundamental: a força da juventude. Eu acredito que todo escritor deva buscar aprendizado com os grandes nomes da literatura…

– Você disse há um tempo, numa entrevista para uma famosa revista, que os novos autores não gostam de críticas e pensam que escrevem bem…

– Não generalizei Marília, porém observo que existe uma leva considerável de jovens autores que acham que já estão prontos, que sabem tudo e que é uma questão de tempo até que o mundo compreenda sua genialidade. Eles não gostam de ler, leem pouco ou leem apenas um gênero… De um modo geral autores imaturos estão a todo o momento gastando mais energia tentando justificar seus erros do que os corrigindo. Recusam-se a editar seu texto. Pensam que cada parte dele é como um pedaço dos manuscritos do Mar Morto. Nada pode ser cortado.

– O que acha Nicolas, dessa nova leva que surge a todo instante pelas redes sociais? Boa ou ruim?

– Bom ou ruim são visões particulares. Muitos dos autores que hoje figuram entre os maiores da literatura foram tachados como sem talento… Eu mesmo já conheci muitos autores dentro e fora das redes sociais cujo dom para a escrita era suspeitosa, assim como também tive a oportunidade de acompanhar com imenso prazer outros tantos, e não quero parecer arrogante com essa declaração, afinal eu mesmo já passei por essa experiência, e, não obstante, depois de todos esses anos e já trabalhando no meu oitavo romance, confesso que a insegurança ainda me visita.

– Então o que tem a me dizer sobre as plataformas virtuais que facilitam esses autores, novos ou experientes, a expor suas obras?

– Encontramos de tudo nesses sítios, especialmente erotismo brocha e fantasia estilo Senhor dos Anéis de baixo orçamento linguístico. Chego a me surpreender com a falta de originalidade, ou talvez seja realmente preguiça, já que muito desses autores optam pelo clichê ao invés de criar sua própria narrativa. Todos os escritores, ou qualquer outro tipo de artista, devem deixar um pouco de lado o “eu sou” para tentar conhecer o mundo que o rodeia e libertar-se da superfície do próprio temperamento. Mais uma vez cito o nosso ilustre Jorge Amado: pobres dos escritores que não se dão conta de que escrever é transmitir vida, emoção, o que conhece e o que sabe; sua experiência e forma de ver a vida.

– Ok, Nicolas. Agora vamos ao ponto crucial: quando os seus fãs poderão ter o privilégio de conhecer sua nova história? Qual o enredo que você aborda dessa vez?

– Bem, realmente já estou trabalhando no meu próximo romance, ainda sem título, cuja espinha dorsal é a história de um jovem de 17 anos, que acredita ter sua orientação sexual guardada a sete chaves, julgando mantê-la sob um total controle, até que se vê inesperadamente diante de uma paixão avassaladora pelo melhor amigo, um rapaz extrovertido, sem papas na língua, enturmado e hétero, levando o protagonista questionar suas próprias convicções…

– Um segundo protagonista adolescente e gay? Não foi esse o tema que o catapultou para a fama?

– Sim. Mas o Lauro, de O Inesperado Agora lidava bem com a sua orientação sexual…

 

 

Surpreendo-me com o avançado das horas ao olhar para o relógio digital que fica no rodapé do meu laptop. Já são quase nove da noite, constato enquanto deslizo o braço esquerdo sobre a mesa até alcançar o controle remoto da televisão.

Como bem disse Katharine Hepburn, a morte será um alívio, pois não haverá mais entrevistas, disparo ferozmente ao mesmo tempo em que levanto a cabeça para dar uma última olhada na imagem da TV, disposta poucos centímetros à minha frente, onde a repórter, com um semblante carregado de altivez, encara o “meu eu” parado diante de si, esperando a próxima pergunta como se estivesse aguardando o anúncio de uma sentença judicial. Sem titubear, aperto o botão mágico para ver a imagem da fina e elegante LCD 32 polegadas, embutida na parede, desaparecer como que por encanto, ao passo em que devolvo o controle remoto para o seu lugar e oferto um sonoro e cínico boa noite, Marília para um vazio amarronzado.

Um tanto hesitante, eu faço menção em continuar a digitar nos teclados do meu laptop, mas desisto, e respirando fundo levo as mãos para trás da nuca, enlaçando-as e em seguida as usando para pressionar de leve a cabeça, ao mesmo tempo em que movimento minhas omoplatas em pequenos círculos até me recostar por completo na cadeira, relembrando as últimas palavras proferidas por aquele psicólogo, há duas semanas, depois da segunda sessão que tivemos, quando abandonei sua sala a passos largos, estampando um inconfundível sorriso de deboche após ele ter me perguntado se eu estava feliz por estar evitando encarar minha alma a fundo por medo de encontrar as sombras que nela habitavam.

Eu não deveria tê-lo procurado. Não poderia ter voltado atrás na minha convicção de que esse tipo de profissional é quem precisa pagar, e caro, para escutar minhas histórias. Nunca precisei da ajuda de nenhum deles durante todos esses anos. Aprendi a lidar com cada fantasma, cada trauma, cada noite mal dormida, cada batalha travada dentro de mim sem a necessidade de ficar ouvindo seus discursos pragmáticos, sem me tornar dependente da opinião de um completo estranho…

Minhas sombras, balbucio entre os dentes, com certo desprezo, enquanto observo meu entorno, me deparando com os poucos móveis e objetos que já estou cansado de saber onde estão dentro desse apartamento, podendo mesmo, com os olhos fechados, afirmar o local que cada um deles ocupa e sem qualquer margem de erro. Eu sei que deveria tê-lo alugado, ou vendido após a morte de Aramis, há cinco anos, porém eu precisava me redimir depois de tudo o que lhe fiz, e permanecer por aqui, neste local onde ele dizia ter conhecido a felicidade ao meu lado, era o mínimo que eu poderia ter me permitido em prol da sua memória.

Até hoje me pergunto o que Aramis teria visto em mim quando entrou na pequena livraria em que eu trabalhava. Aos 25 anos eu não passava de um rapaz amargurado, mergulhado num mar de completa infelicidade, carregando a alma de um ancião centenário que aguardava tão somente o dia da própria morte; um aspirante a escritor frustrado, faminto por reconhecimento e por uma vida decente, morando em uma pensão barata e fazendo de um tudo para não voltar a viver nas ruas. Será que Aramis sabia que eu nunca o amei de verdade? Que nunca consegui encontrar a forma de retribuir aquilo tudo que me oferecia? Será que ele sabia das minhas traições? Não foram poucos os casos que mantive enquanto estivemos juntos. Aramis tinha plena ciência da minha atração pelos mais jovens. De minha parte, tenho certeza que nunca deixei rastros. Sempre fui discreto. Eu podia ser o que fosse, mas sabia respeitá-lo, e no final das contas, sempre que me envolvia com alguém, eu o compensava na cama, lhe permitindo realizar todo e qualquer desejo, surpreendendo-o muita das vezes.

Se nossos caminhos não tivessem se cruzado, será que eu teria me tornado o escritor que sou hoje? Aramis sempre me garantiu que a paixão que sentira por mim não influenciou nem um centímetro sequer na sua decisão profissional. Ele era um editor e crítico renomado e me causou um espanto tamanho, que por pouco não beirou a esquizofrenia, ao resenhar sobre o meu segundo livro, O Inesperado Agora, falando do prazer de patrocinar um novo e jovem brilhante romancista brasileiro. Quanto à atração ou o amor, enfim, o havia tomado de forma repentina, literalmente repentina, já que ele era um homem casado, de meia idade e tinha aprendido a conviver com a certeza de que possuía uma sexualidade ambígua, apesar de nunca ter conseguido defini-la com precisão, sobrevivendo assombrado por uma sensação de angústia até me conhecer.

Apesar de termos assumido uma relação e ficado juntos por doze anos, a família de Aramis nunca me enxergou com bons olhos. Para eles eu não era nada mais que um destruidor de lares, um michê com pretensões literárias, um alpinista social que foi capaz de seduzi-lo, convencendo-o a deixar para trás um casamento tradicional e bem estruturado. A mentira que Aramis vivia, negando-se a reconhecer o quão infeliz estava dentro daquela união, não pagou a conta no frigir dos ovos.

Aliás, não me surpreendeu em nada o clima de turbulência excessivo que pautou todo o trâmite do divórcio de Aramis e sua digníssima senhora. Dalva apelou de todas as formas para tornar a vida dele, e, por conseguinte a nossa, num verdadeiro inferno. Desde a pachorra de colocar em cheque a virilidade de Aramis, a fim de justificar a falência do seu matrimônio, isso de maneira sórdida e bastante pejorativa, até o cúmulo de provocar escândalos nos lugares em que ambos haviam frequentando enquanto casados, não se importando nem um pouco com a própria exposição desesperada, e por que não patética, a que também se impunha. 

A hombridade com que Aramis encarou o caos naquele momento de sua vida foi exemplar e Dalva ao constatar que de fato nada o atingiria, apelou para a cartada final, movendo mundos para tentar lhe tirar a guarda do único filho que tiveram. Felizmente não obteve sucesso, mas Ian, depois de ter sobrevivido ao exaustivo processo judicial da guarda compartilhada, foi acometido por uma leucemia mieloide aguda, falecendo dois anos após a contenda final de seus pais. Ele tinha apenas seis anos de idade.

Volto a respirar fundo ao mesmo tempo em que meneio a cabeça até sentir o peito suficientemente cheio para então expirar todo o ar retesado, sem pressa, a fim de reciclar minhas energias enquanto encaro novamente a tela do meu laptop para constatar sem muita demora o inevitável: não consigo pensar em nada. Nenhuma palavra, nenhuma frase. Nada!

Não vou digladiar com meu cérebro, decido, e desato as mãos de trás da nuca e me inclino para frente, até alcançar a superfície da mesa, onde apoio os cotovelos e começo a massagear as têmporas com o polegar e o indicador da mão esquerda, fazendo pequenos círculos sobre a pele. Demoro alguns minutos repetindo esse gesto, de olhos fechados, tentando não pensar em nenhum dos meus problemas, lutando para manter minha mente completamente vazia, neutra, mas é impossível e então recolho minha mão e abro os olhos e encaro a tela do meu laptop ao passo em que me recosto, mais uma vez, por completo na cadeira.

Daqui a três semanas eu preciso entregar o original do meu novo livro à editora, porém tudo que consegui escrever até aqui, nesses últimos seis meses, está extremamente ruim; palavras, textos sem vida. Minhas ideias se perderam completamente e tenho a sensação de que está faltando muito, muito pouco para eu me tornar a imagem caricata do escritor que se descabela diante de uma folha em branco, desafiado covardemente por um pedaço de papel, ou no meu caso, por uma tela de computador…

Com gestos abruptos, carregado de ansiedade, salto da cadeira giratória e contorno a mesa e caminho até uma das duas janelas largas que cobrem a lateral do meu apartamento, abrindo logo em seguida a cortina de poliéster para me envergar, cautelosamente, sobre o vidro que está a poucos centímetros à minha frente, fixando de imediato a atenção nas pessoas se movimentando lá embaixo, todas como sempre apressadas em meio ao trânsito alucinado dessa selva de pedra.

Seis meses… Seis meses desde que recebi aquela notícia de Adoniran e em seguida os seus relatos periódicos me colocando a par dos tratamentos dos quais o velho Ezequiel vem se submetendo sucessivamente, desde os medicamentos ao mal estar provocado pelas sessões de radioterapia, até a intervenção cirúrgica, a algumas semanas, da qual ainda não se sabe o resultado, já que o câncer, diferente do que pensavam, não estava em um estágio inicial.

A impressão que tenho é a de que meu meio-irmão está me prestando contas de um modo sádico, me punindo pela enfermidade do nosso pai, como se eu tivesse gestão sobre isso, e o que me deixa ainda mais frustrado, indignado, é não conseguir mais sair desse ciclo infernal, convivendo com esse suplício involuntário aonde venho lutando diariamente contra a autopiedade e a culpa. Mas não vou me deixar manipular dessa forma. Não vou validar minha rendição diante de um emaranhado de emoções baratas. Maria Luzia, eu preciso reconhecer, soube criar Adoniran muito bem.

Fecho a cortina sobre a janela ao mesmo tempo em que me volto na direção da mesa, para onde me dirijo a passos firmes, deixando-me cair sobre a cadeira giratória. Uma forte dor de cabeça começa a tomar conta de mim e então volto a massagear minha fronte. Por mais que eu tente, apesar de tudo, não consigo enxergar o velho Ezequiel de outra forma além daquela figura impaciente, altiva, mergulhada dentro de uma fé cega, intolerante, incapaz de um gesto de carinho; uma autêntica muralha humana.

Cerro os olhos e conto até dez e então me levanto da cadeira e caminho até meu quarto, onde estaciono em frente ao espelho do armário de roupas para observar minhas costas curvadas, meus ombros totalmente caídos, meu peito, escavado. Num misto de piedade e desprezo encaro o reflexo prostrado diante de mim e por um instante não me reconheço. Sou a imagem atroz do abatimento e do desânimo. Revoltado, arqueio minha sobrancelha direita e tomo a direção da cama, onde me sento, jogando todo o peso do meu corpo sobre o colchão.

Preciso beber alguma coisa, relaxar, esfriar a cabeça e quem sabe…

Coloco-me de pé imediatamente e em seguida tomo o rumo da sala, pisando forte, como se toda minha vida dependesse dessa marcha e sem pestanejar apanho a carteira, a chave do carro e o celular que estão sobre a mesa, próximo ao laptop, e me dirijo até a porta, e antes mesmo de atravessar o seu limiar, desligo o interruptor mergulhando o apartamento num breu infinito para em seguida percorrer do lado de fora o curto e silencioso corredor até alcançar o elevador, cuja descida dos dez andares até o hall do prédio é feita sem qualquer escala, graças a Deus.

Com um rápido aceno de cabeça, cumprimento o jovem recém-contratado que está sentado atrás do balcão, separando algumas correspondências, enquanto atravesso a portaria. É um belo rapaz, simpático e se tiver 25 anos de idade é muito. Quem sabe, depois, com mais tempo, o convido para um café… Prontamente me lembro de que não vou à academia a duas semanas, postergando e quebrando, com as mais estapafúrdias desculpas, a rotina que venho mantendo há anos, principalmente agora, depois dos 40 e cada vez mais próximo dos 50. Discretamente, após cruzar a porta do hall, enquanto caminho na direção da garagem, passo a mão sobre a minha barriga e descubro o início de uma camada de gordura se formando.

Esteira, bike, transport, step, me aguardem. Minha amiga Micaela vive dizendo que a concorrência está cada vez mais acirrada entre as mulheres, pois ela está enganada. O universo gay está parecendo com a Faixa de Gaza. A juventude está assumindo sua homossexualidade cada vez mais cedo, e o pior, sendo ousada, sem pudores e com a vaidade a flor da pele (isso sem falar nos hormônios). Como disputar com um rapaz de 17, 18, 19 anos, com um corpinho sem nada fora do lugar, uma pele maravilhosa, abertos, convidativos, interessados, dispostos e disponíveis? Simples, quer dizer, nem tanto. Depilação, peeling, limpeza de pele, dermoaroller, hidratação, drenagem linfática, eletrolipoforese, preenchimento… Modéstia a parte estou muito bem para os meus 46 quase 47. Eu sei me cuidar, mas não sou ingênuo; a gravidade é um ser monstruoso e cruel e depois dos 30 a ordinária nos ataca enquanto dormimos…

 

 

*   *   *

Termino de beber o que resta do meu quinto Martini e com um discreto aceno de mão me dirijo ao rapaz atrás do balcão do pub bar onde já estou sentado há quase duas horas.

– Então, senhor, continuamos no Martini? – ele pergunta num tom de voz bastante simpático depois que se aproxima.

– Se continuar a me chamar de senhor, juro que vou reclamar com a gerência – respondo em tom de galhofa, deixando escapar um sorriso tímido no canto dos lábios ao passo em que meço o seu rosto barbeado, pedindo logo depois um uísque cobbler que não demora a ficar pronto.

– Prontinho… – ele deposita o copo com boca larga à minha frente e me dá uma piscadela.

Gostei mesmo desse rapaz. Prestativo, atencioso, hábil, competente e com uma destreza ímpar nas mãos. Nem mesmo a sobriedade do uniforme que está usando consegue ofuscar sua carinha de anjo doido para atravessar as portas do inferno, constato, semicerrando os olhos, num completo e inebriante silêncio depois que ele se vira, já se afastando para continuar o seu trabalho, indo de encontro à outra extremidade do balcão, onde um pequeno grupo de mulheres, desvairadas, não se preocupando em sequer manter o mínimo de compostura, quase não consegue aguardar sua chegada. Um bando de ordinárias. Oferecidas. E depois dizem aos quatro ventos que os homens, e principalmente os gays, é que são lascivos … Nossa! Lascivos? Eu acabei de usar esse adjetivo? Preciso beber mais alguma coisa.

Entorno meu uísque cobbler de uma só vez na garganta e volto a acenar para o jovem barman, mas dessa vez com o copo vazio ao passo em que o encaro como seu eu fosse uma águia prestes a atacar uma presa sem qualquer chance de defesa.

 

Praticamente não consigo controlar o sorriso de satisfação que atravessa o meu rosto de um canto ao outro enquanto caminho para o estacionamento do pub bar, congratulando-me por ter saído vitorioso, depois das três horas que fiquei sentado de frente para aquele balcão, disputando a atenção do bonitinho do barman com aquele bando de frenéticas que mais pareciam ter escapado de algum filme do Almodóvar.

Eu sabia que minha vasta experiência no campo da conquista não iria me deixar na mão, ainda mais quando o foco é um boyzinho que jura de pés juntos só curtir mulheres. Esses são os melhores. Resistentes, machões, extremamente narcisistas, necessitando de atenção e aceitação, enxergando nos gays a forma ideal de serem ainda mais admirados e adorados. Corpos mergulhados em baldes de hormônios, fervilhando de tesão, desesperados por alguém que os faça se sentir conquistados, que lhes dê prazer de uma forma ou de outra, e alguns até mesmo buscando alguém que os ajude a despir a máscara de macho alfa que a sociedade heteronormativa os impõe.

As saunas gays que o digam. Muitos heteros-presos-no-armário buscam esses locais para extravasarem seus instintos básicos, colocar em prática desejos que muitas pessoas podem não considerar como convencionais, ou simplesmente “como coisa de veado”, enquanto desfilam vestindo apenas toalhas brancas, clamando por idolatria e reverência, mantendo cobertos seus membros ansiosos por sexo anônimo tão somente o tempo necessário.

Por Cristo. Quanto sofrimento por não entenderem que a sexualidade não cabe em embalagens tão simples de serem rotuladas. A nossa “fauna” é rica em diversidade. Existem os gays, os heteroflexíveis, a galerinha Júlia Roberts, em Uma linda Mulher, anunciando que faz de um tudo menos beijar, e também aquela “do não sou gay, só como”, e isso sem falar nos bissexuais, que transitam entre o homo e o hétero.

Muito barulho por nada, isso sim e pouco me importo. Não existe fruto mais doce que a bunda intocada de um mancebo que se diz hetero, afinal, levar outro gay para a cama é usual. Sem grandes esforços já arrastei vários, até porque possuo o cartão de visitas que abre as portas necessárias para isso: uma silhueta musculosa e sem exageros somados a olhares, gestos ou qualquer outro artifício que a linguagem corporal me disponha, e o imprescindível, sempre me comportando como um cavalheiro, um lorde inglês, uma hábil aranha tecendo sua teia de seda, quase imperceptível, arquitetando com prazer e volúpia a armadilha com qual envolverá a presa para então receber, sem falsa modéstia, o merecido prêmio entre as mãos… ou garras.  

Desativo o alarme do meu Audi 3 Sedan vermelho ao passo em que me abaixo até o porta luvas para conferir o estoque de preservativos que comprei há alguns dias para logo voltar a ficar de pé, passando a apoiar todo o peso do meu corpo sobre a porta fechada do carro e, de braços cruzados, aguardar em grande estilo a chegada do meu barman.

Não vejo a hora de tê-lo só para mim, aproveitar cada densidade de sua pele, sentir seu cheiro, experimentar cada centímetro de sua anatomia, despi-lo de qualquer pudor que por acaso possua, o que eu duvido. Estou merecendo esse singela diversão.

O rapaz não demora a apontar na entrada do estacionamento, graças aos céus, e eu então aceno para ele, sem estardalhaço, ao mesmo tempo em que o vislumbro se aproximando, vestindo uma camisa branca com capuz, entreaberta, deixando um pouco de seu peito a mostra, e uma bermuda vermelha que lhe marca a virilha e ressalta as coxas bem desenvolvidas.

Hedonista, narcisista e volúvel. Não sou tão diferente assim dos meus iguais do sexo masculino, ou pelo menos de uma boa parte deles… Em nossa defesa, Oscar Wilde em O retrato de Dorian Gray: a beleza traz de fato algo de superficial em si, desde que não a comparemos ao pensamento! Se comparado ao pensamento, a beleza é muito mais profunda, já que somente as pessoas superficiais não julgam pelas aparências. O mistério do mundo está no visível, não no invisível.

– Desculpe – o bonitinho, já bem próximo, inicia um tanto reticente – Mas a troca de turno é sempre um pouco demorada…

 – Imagina – respondo com uma piscadela.

– Então?… – ele pergunta nitidamente desconcertado, sem saber sequer onde colocar as mãos. Adoro esse tipo. Quanto mais o terreno me parece proibido, mais tenho vontade de quebrar o bloqueio – Tem alguma ideia para onde podemos ir?

Tenho vontade de responder que certamente cinema não é uma opção, mas me detenho e deposito minhas duas mãos sobre os seus ombros, lhe desferindo um sorriso simpático, denotando uma aparente tranquilidade enquanto pergunto o seu nome, o que ele responde de pronto.

– Então, Lucas, que tal decidirmos no caminho? – sugiro, retirando as mãos de seus ombros, não sem antes acariciá-los discretamente.

O rapaz assente e à medida que o vejo se dirigir para o lado do carona, observo com os olhos ávidos suas nádegas perfeitamente ajustadas na bermuda vermelha e suspiro, quase um gemido profundo, ao tempo em que sinto um espasmo lancinante correr-me a virilha.

Antes mesmo que eu termine de abrir a porta do Audi para sentar ao volante, ouço a Cavalgada das Valquírias tocando no meu celular. Eu não posso acreditar nisso. Não vou atender. Não estou com tempo e nem disposição para ouvir as ladainhas do Adoniran sobre os exames do velho Ezequiel, as visitas médicas, a ansiedade de todos lá em Arena… Não vou me deixar impregnar e estragar toda a expectativa que depositei nesse barman. O resto da minha noite vai ser maravilhoso, sim, e só está começando.

Entro no carro praticamente tombando sobre o estofado da poltrona e seguro o volante com as duas mãos, que não demoram a ficar vermelhas diante da solidez com que as aperto… A chamada de Arena continua ao passo em que ouço Lucas me perguntar, um tanto hesitante, se está tudo bem. Não me viro. Não quero que ele veja a minha fisionomia destemperada.

– Sim. Sim. Só me dê um segundo… – respondo, mal conseguindo disfarçar minha impaciência, como se mal o tivesse escutado, mal soubesse a que ele se referia.

– Acho que tem alguém querendo falar com você. E parece ser urgente…

Sinto um toque delicado sobre minha mão direita e então puxo o braço asperamente, levando a mesma mão em seguida para o bolso da calça, retirando o celular num gesto abrupto e violento, ao mesmo tempo em que saio do carro, a passos largos, afastando-me o máximo que posso antes de atendê-lo.

– Se vai fazer um relatório médico do velho… – inicio quase aos berros.

– Nicolas, os médicos o desacreditaram – Adoniran me interrompe com um tom de voz mesclando robustez e aflição – Metástase, foi o que eles disseram. O câncer se espalhou para o fígado, pulmão e os ossos também. O nosso pai quer revê-lo, Nicolas, antes que a medicação forte o faça perder os sentidos e ele não possa mais reconhecê-lo… Antes que o Senhor o leve desse mundo.

Sou tomado por um atordoamento imobilizante. Um ricto nervoso corta os meus lábios ao mesmo tempo em que vacilo sobre minhas pernas, sentindo gotas de suor frio escorrer em minhas costas e um rubor quente tomar conta de todo o meu rosto. Minha garganta imediatamente fica seca e meus músculos, tensos. Palpitações disparam no meu peito… Por alguns segundos sinto medo de morrer, perder o controle ou o conhecimento… De pronto entrevejo o rosto de Aramis… Ele está deitado… Uma sonda respiratória na sua laringe e na sua traqueia… Um assobio agudo e então seu peito se eleva num ritmo espantosamente lento… De repente seu semblante vai se desfazendo até se tornar completamente irreconhecível, um enigma para em seguida tomar a forma do velho Ezequiel, seus traços extremamente severos, seu rosto quadrado, seu queixo proeminente, as sobrancelhas retas lhe conferindo ares de indiferença, mas seu pescoço e pálpebras estão inchados como se fossem bexigas… Seu coração está ligado a uma máquina… Tenho vontade de gritar.

– Nicolas, todos aqui em Arena já estão ansiosos com a sua volta. Mesmo que infelizmente nessas condições… De alguma maneira isso iria acontecer…

Não deixo Adoniram prosseguir. Sua voz aumenta ainda mais a sensação de asfixia que tenta me dominar. Meu cérebro carrega uma poção de pregos com pontas afiadas.

– Como assim ansiosos com a minha volta? – interrogo possesso, engolindo saliva, sentindo meus lábios queimarem – Quem disse que vou colocar meus pés aí, em Arena?

 

 

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