Os ressuscitados

O mundo foi misteriosamente assolado por uma onda de ressurreição. Pessoas de toda parte do mundo contam casos e mais casos sobre o retorno de entes queridos, outros não tão queridos assim. Apesar do assombro e da comoção geral, os economistas previam que, se isso continuasse, causaria o maior impacto financeiro mundial em todos os setores. Por isso, governos convocaram cientistas para estudarem o fenômeno. Contudo, dois anos de pesquisas incessantes foram inúteis para revelar o motivo do tal surto fenomênico. O assunto passou a ser tratado como uma doença pandêmica. Aliás, um prato cheio para os religiosos, pois, estava claro para eles que o fim do mundo estava próximo. Não se faz religião sem a ideia de se estar na iminência do fim. As igrejas estavam abarrotadas de fiéis amedrontados pela promessa bíblica do juízo final.

Até o grupo dos vinte países mais ricos do mundo convocou uma reunião para discutir o aumento populacional súbito e o respectivo impacto econômico e social. Seguindo um protocolo de ação de emergência, a Organização das Nações Unidas – ONU, propôs a formação de uma agência de coordenação e controle dos ressuscitados – ACCR. Seria uma agência mundial, presente nas áreas de maior incidência do fenômeno.

Desde o primeiro caso de ressurreição, há dois anos, a população de ressuscitados triplicou o que, certamente, afetaria todos os setores da economia, inclusive o setor da saúde, contrariando a expectativa dos médicos, diga-se de passagem. Isso porque os ressuscitados não eram como os humanos comuns. Nunca dependeriam de remédios. Simplesmente não adoeciam, mesmo sob condições extremas. Ao invés disso, podiam se regenerar com surpreendente rapidez.

Logo após a sua criação, a ACCR assumiu a liderança com grande estilo. A agência ficou tão forte e independente que não mais responderia ao sistema comum. Fora concedido a ela o poder de intervir politicamente e militarmente em qualquer país com o argumento de salvaguardar os interesses da segurança mundial. Para qualquer um que desejasse pleitear uma vaga na agência, o exigido era que o candidato tivesse sido treinado pelo menos um ano em qualquer uma das forças armadas. Além disso, que estivesse familiarizado com aparelhos de alta tecnologia. A ACCR tinha seu próprio departamento de inteligência, um braço importantíssimo na manobra de controle dos ressuscitados, pois, muitas questões estranhas tinham de ser esclarecidas. Uma delas e a mais importante era proibir que qualquer família mantivesse um ressuscitado oculto. Ele deveria ser denunciado, apresentado e entregue a qualquer posto de confinamento da agência local. Caso essa diretriz fosse negligenciada, a família pagaria por crime de ocultação de ressuscitados e atentado contra o equilíbrio da população mundial.

Reuniões de emergência eram comuns de serem convocadas. Mas foi em uma delas que ficou decido que áreas de habitação para ressuscitados deveriam ser criadas, as quais facilitariam o controle efetivo do crescimento populacional destes “seres” e resolveriam o problema das estatísticas desta estranha população. Sim, estranha, pois, não se sabia ainda como classificá-la. Um departamento específico da ACCR, o conselho tutelar, fora criado para cuidar dos velhos, adolescentes e crianças retornados das entranhas da terra.

No Brasil, a quantidade de ressurgidos da morte já atingia a marca de cem mil cabeças. Em consequência disto, era previsto que os humanos, os meros mortais, não vissem com bons olhos a atuação da agência que frequentemente usava a força bruta para arrancar um ressuscitado do seio familiar. A resistência da família contra a retirada de um deles era ainda maior por uma situação óbvia: ao voltarem da morte, não se comportavam como antes. Eram dóceis, dóceis até demais. E era estranho ver como tal comportamento despertava nas pessoas uma sensação diferente, uma necessidade de proteção maior, semelhante àquela que é despertada quando estamos diante de um bichinho de estimação indefeso.

Sempre havia choque entre as tropas da ACCR e a comunidade humana. A ação se tornava tão violenta que as pessoas começavam a temer por suas vidas devido a ameaça dos soldados da agência. O povo tinha de se adaptar à nova realidade. Obviamente algo nada fácil, visto o ciclo de nascimento, vida e morte ter sido quebrado com o surgimento do fenômeno.

Em todo lugar que se pudesse ir, sempre pairava no ar a pergunta resultante da expectativa causada pelo fato em questão: será que fulano vai voltar? As pessoas se reuniam nas casas, nos bares, nos parques, e a primeira coisa que se indagavam era: E aí? Já voltou? Algumas, ainda chocadas, respondiam que sim, outras, decepcionadas respondiam que não. Outros diziam: – Ainda bem que aquele desgraçado não voltou. E se voltar eu mesmo mando de volta para o inferno.

Em pouco tempo a ACCR tornou-se uma corporação poderosa, tão poderosa que assumiu o controle da segurança em muitos países. E não resta dúvida que a consequência de tanto poder é a corrupção. A agência tornou-se fortemente militarizada, corrupta, e qualquer agente, qualquer um mesmo, até o mais raso deles, era autorizado a usar a força de acordo com seu próprio julgamento.

Baseados nisso passaram a usar a violência como base estratégica de repressão. O argumento: proteger o país do caos social. Mas além dele havia outra crise, talvez pior que a própria violação da segurança nacional: a crise econômica. Mesmo que ainda não declarada oficialmente, a tal crise já se fazia sentir. Falava-se por aí em racionamento de alimentos. E o fornecimento ficaria ainda pior sob condições térmicas especiais, como o frio do inverno. Um ressuscitado regenera-se mais rapidamente e torna-se mais ativo em temperaturas baixas. Quanto mais frio, melhor. Isso o faz consumir o dobro de comida que um ser humano mortal. Contudo, o oposto acontece no verão. Os ressuscitados diminuem as atividades entrando numa espécie de letargia. Talvez não chegasse a tanto, na verdade estaria mais para um tipo de ócio improdutivo, uma lentidão mental. Eles definitivamente não suportam o calor. Também não costumam falar muito. Não reagem a quase nada, não têm ambição. Ficam todo o tempo com um olhar distante, como se estivessem vendo algo que uma pessoa comum não pode.

Em suma, quanto mais o tempo passava, mais os sinais de prejuízo se tornavam evidentes. Seres que não produziam, mas consumiam. Com a retirada deles para as áreas de controle populacional, ficaram privados de qualquer direito à cidadania. E como poderiam? Direitos pertencem aos vivos e não aos mortos. O que se dizer, então, de mortos-vivos?

Foi quando um jornalista de uma grande rede de televisão, cansado de receber e-mails de gente indignada com o tratamento que os ressuscitados recebiam, decidiu fazer uma matéria-denúncia. Quis expor de maneira nua e crua a maneira cruel que os ressuscitados eram tratados. Lembro de que a matéria começou assim:

Em maio deste ano, a ACCR do Brasil recebeu várias denúncias anônimas de ressuscitados, dentre eles, mulheres, velhos e crianças, que foram horrivelmente surrados sem terem cometido qualquer delito. Testemunhas que não quiseram se identificar alegaram terem visto alguns deles servindo de alvo para a prática de tiro realizada por traficantes locais. Tudo por mera diversão. Depois de serem repetidamente baleados, estes pobres indivíduos retornavam às suas casas cambaleantes sem ao menos pronunciarem uma palavra a respeito. Isso despertou revolta na população. Nenhuma providência é tomada…

A ACCR negou. Dizia que mantinha o controle do surgimento de novos ressuscitados com mão de ferro e zelava pela segurança deles. No entanto, sabia-se que pouca importância dava a tais fatos. E o número de ressurgimento de falecidos já beirava centenas por dia. Cemitérios eram cercados e familiares armavam barracas no local na expectativa do retorno de seus entes queridos.

Já outros se armavam até os dentes para garantir que seus inimigos mortos não retornassem em hipótese alguma. As contradições se encontravam na porta do cemitério e não era raro ver pessoas lutarem entre si para defenderem suas opiniões sobre a ressurreição. Uns alegavam que a vinda de Jesus estava próxima, outros diziam que se tratava de um feitiço criado pelo diabo.

Sendo coisa de Deus ou do diabo, era comum ver agentes de coordenação e controle de ressuscitados invadirem casas para uma vistoria de rotina. Usavam um método simples e eficaz para saber se algum integrante da casa era um ressuscitado. Os agentes portavam um aparelho simples especialmente fabricado para tal averiguação. Tratava-se de um emissor de luz alaranjada e ondas térmicas de calor. Ao ser direcionado para um ressuscitado, isso provocaria uma reação reflexa de proteção, pois se sabe que eles não suportam calor excessivo e luzes incandescentes de certas frequências. Seria impossível para um ressuscitado resistir a tal abordagem. Essa prática tornou -se padrão em outras partes do mundo. Dessa forma, o confinamento ficou lotado em várias regiões do país, pois, o número de ressurretos crescia, bem como, o de familiares que os escondiam.

O segundo ano de ressurreição contínua era marcado por mudanças profundas na humanidade. O assombro, o terror e o respeito foram diminuindo e o comportamento das pessoas modificando. Para pior. Por algum motivo, a docilidade silenciosa dos ressuscitados despertava algo obscuro em certos indivíduos. A costumeira passividade daqueles seres, especialmente diante das urgências da vida, chegava a despertar em alguns humanos uma espécie de desvio de personalidade, um sadismo gratuito, algo como uma neurose destrutiva. Por conta disso, a quantidade de denúncias sobre abusos contra os ressurgidos, crescia rapidamente. No Brasil, a coisa era vergonhosa. Os tormentos e a discriminação eram evidentes a ponto de os coitados serem chipados como animais assim que capturados. Ao mesmo tempo, pessoas comuns os usavam como brinquedos para todos os tipos de malignidade.

A ACCR resolveu dar um fim nisso e lançou um comunicado informando que qualquer um que fosse pego acobertando um ressuscitado ou mantendo-o cativo, seria processado e julgado por crime contra a nação. Se condenado, e certamente seria, pegaria no mínimo dez anos de reclusão. Além disso, seriam monitorados por câmeras e rastreadores vinte e quatro horas do dia durante todos os anos de sua miserável vida.

Apesar do aviso, os abusos não diminuíram, como também não diminuíram os casos de cidadãos, imbuídos de bons princípios, que se arriscavam para salvarem os recém-chegados da morte. Tudo em nome da religião, pois, sabiam que estariam cumprindo um desígnio de Deus. Já os ressuscitados pegos e chipados e colocados em áreas restritas, esses não demonstravam qualquer sinal de tristeza, não que fossem alegres, mas simplesmente porque eram assim. Tal comportamento e a saúde plena desses seres despertava inveja nos cidadãos comuns que queriam ser como eles. A não reatividade lhes conferia certo ar de superioridade angelical, pareciam indivíduos tão fleumáticos que nem se importavam com as mazelas humanas. E o fato de não adoecerem fortalecia essa ideia. “Deviam ser divinos, tinham de ser”. O fato era que todo mundo queria ter os mesmos atributos, afinal também se consideravam filhos de Deus. Em virtude disso, algumas pessoas começaram a considerar seriamente a possibilidade de colocar o pé no outro lado, pois o divino garantiria o retorno deles vivos e melhores. Foi assim que a onda de suicídios aumentou. Alguns foram até mesmo motivados pelos próprios líderes religiosos.

Mas uma coisa era crucial: para os cientistas e políticos, o surto de retorno do sono da morte tinha de ser esclarecido. Foi quando uma segunda reunião dos G vinte aconteceu. Os países mais ricos do mundo assumiram frente para definir o que deveria ser feito para se minimizar a crise que estava por acontecer. Mas o simples fato dos maiores líderes do mundo se reunirem em tão pouco espaço de tempo, era porque a coisa não cheirava bem. Após dias de parlatório, enfim, a certeza veio à tona. Concluíram que a economia mundial entraria em colapso em pouquíssimo tempo. Ora, não precisaria ser um gênio para concluir isso diante dos fatos.

Contudo, a divulgação do conteúdo integral da reunião não agradou os líderes dos direitos humanos das Nações Unidas. Prevendo uma retaliação contra os ressuscitados, um tratado redigido às pressas entrou em cena para garantir os direitos de os ressuscitados existirem como indivíduos. Mas o tratado causou repúdio dos capitalistas. E para quem esperava um apoio das religiões, um balde de água fria. Até mesmo os principais líderes religiosos preferiram se abster de qualquer opinião com medo da acusação de incentivarem o acobertamento de novos ressuscitados. Prefeririam permanecer com a pregação do divino e deixar a prática decisória para a política.

Se a política condenava e a religião se abstinha, isso significava que a população mal-intencionada perderia a coleira da moral. Portanto, haveria um sinal verde para fazer o que bem entendessem daquelas suaves criaturas. Foi quando surgiu uma onda de todo o tipo de agressão que se poderia imaginar. E as cenas de tal barbárie passaram a ser s mostradas pela comunidade jornalística de maneira escancarada. Isso aumentava o índice de audiência. Os jornais corriam atrás de cenas cada vez mais dantescas, o verdadeiro retrato do inferno. A princípio, as matérias jornalísticas foram recebidas pela população com total indignação, mas o tempo foi passando e aquilo não mais afetava o espectador. Ao contrário, tornou-se motivo de risos e indiferença. A sede de cenas cada vez mais fortes crescia.

Para se ter uma ideia, geralmente à noite, longe da observação da ACCR, traficantes e líderes de gangues se reuniam nos isolamentos estritamente criados para os ressuscitados, e os arrancavam dos seus quartos de forma violenta. Isso significava que aquela seria mais uma noite de apostas. No começo era assim: acendiam uma fogueira. Devia ser bem alta e com um fogo bem intenso. Um dos traficantes traçava um círculo e colocavam dez ressuscitados a correr ao redor do fogaréu. Deveriam completar o círculo e não parar. Os apostadores investiam naquele que achavam ter condições de permanecer firme por mais tempo sem cair. Enquanto os coitados corriam, os traficantes e líderes de gangues comiam, bebiam e riam. Tudo filmado para ser postado nas redes sociais. Não era raro agentes das ACCR, vestidos à paisana, também participarem das apostas. Mas nunca foram denunciados.

A situação evoluiu e piorou quando as humilhações entraram na lista de atrocidades, as quais não eram poucas. Pela manhã, quando o dia ainda estava fresco, era o momento que os ressuscitados sentiam mais fome. A ração era distribuída, porém, agentes da própria ACCR, antes de distribuírem os kits, os faziam zurrar como jumentos, latir e cacarejar. Alguns eram até forçados a plantar bananeira. Depois jogavam a ração sobre eles como se fossem animais e pronunciavam inúmeros palavrões. Porém, os ressuscitados não se mostravam indignados.

Certa vez, um agente recebeu uma denúncia que o deixou em alerta. Chegou a suspeitar que as aberrações psicológicas e comportamentais dos humanos estariam se agravando. Uma denúncia anônima recebida numa tarde chuvosa se referia ao uso de crianças ressuscitadas em rituais de magia negra. Elas eram repetidamente mutiladas e violentadas, tendo a pele de seus rostinhos retirada para servirem de troféus. Visto a imediata capacidade regenerativa, isso era feito continuamente, dezenas de vezes com a mesma criança. Seus corações também eram retirados a sangue frio e devorados enquanto ainda batiam, pois, a crença era de que o poder de um ressuscitado seria passado para quem os comessem.

Apesar de alguns agentes aparentemente cumprirem com o dever e a agência possuir uma conduta de repressão, na prática não havia uma verdadeira preocupação em verificar de perto tais casos, pois, o problema global econômico era considerando pior que tais bobagens. Tais denúncias eram, portanto, arquivadas como improcedentes ou tratadas como casos isolados.

Entretanto, ficava cada vez mais claro que os ressuscitados deveriam ser a todo custo isolados da convivência dos humanos. Não poderiam fazer parte da vida cotidiana, então, nada de transitarem por aí. Cinema, teatro, parques, restaurantes nem pensar. Estes estabelecimentos, inclusive, foram equipados com dispositivos de incandescência antirressuscitados. Em contrapartida, preocupada com o seu lado altruísta, a agência preocupava-se em divulgar, através de todos os tipos de mídia, que o dito controle rigoroso destes seres tinha o intuito de dar-lhes uma vida melhor, um local mais seguro, só deles e que seus parentes humanos teriam sim o direito de visitá-los quando bem entendessem. Mas a coisa não era bem assim. Todos os humanos eram subliminarmente induzidos a superar o sentimento de amizade, afeto, camaradagem ou gratidão em nome do “bem-estar” comum. E isso significava limpar a sociedade humana de seres que vinham atrapalhar a normalidade da vida.

Por falar nisso, algumas pessoas se revoltavam com a ideia de um dia terem sofrido por causa da perda de um ente querido, e que agora, ele simplesmente retornava, belo e folgado, livre de doenças e senhor da situação. As pessoas até mesmo incorporam em suas frases do cotidiano um slogan que a ACCR criou para minimizar a onda de suicídios que dizia o seguinte:

Somos merecedores da riqueza da vida, cuide bem dela.”

Uma frase que na verdade despertou outro sentido. Havia nela algo mais. Os ressuscitados não podiam mais ser considerados vivos. Portanto, concluiu-se que não eram merecedores de cuidados. Afinal eram mortos. E assim a coisa piorava. Numa manhã de segunda-feira, um importante jornal do país exibia na primeira página a matéria, cuja autora era uma polêmica e reconhecida jornalista, uma profissional bastante controversa por falar a verdade sem maquiagem política.

A chamada dizia:

Impotente: É assim que a ACCR está diante do crescente número de ressuscitados”

Em resumo, a matéria denunciava a falta de uma política estratégica para manter os ressuscitados em reservas adequadas e que o colapso econômico seria um dos principais problemas que o mundo enfrentaria dentro de um ano. Por causa do caos iminente, a sociedade estava se degradando. Gangues, traficantes e assassinos psicopatas, infiltrados nas áreas de reserva, estariam praticando todos os tipos de horror. A matéria enfatizava que, enquanto não houvesse regras e nem leis estabelecidas para os ressuscitados, não seria possível condenar ninguém. Temia-se pela sanidade mental da população.

Mais do que uma profecia, já era fato. A matéria só trouxe à tona aquilo que já era visto nas ruas e desprezado pelo poder público. Não havia como condenar alguém por matar uma pessoa que já morreu. E foi exatamente isso que um desembargador alegou numa das entrevistas dadas com exclusividade ao jornal. A matéria causou uma movimentação incomum na cúpula da ACCR. A repercussão extrapolou o território nacional e chegou à central internacional de coordenação e controle de ressuscitados na Suíça.

Entretanto, nenhuma resposta, nenhuma reação com o objetivo de se discutir o problema fora deflagrada. Somente o silêncio tumular prevalecia. E o número dos ressurgidos já chegava à casa dos milhões em todo o mundo. Eram vistos como uma praga, e o sentimento de hostilidade contra eles, dia após dia, deixava de ser velado. Diretores das agências de alguns países, incluindo o Brasil, procuravam precariamente encontrar meios de contornar a situação. O presidente da agência brasileira, em resposta à respectiva matéria, em coletiva, disse:

Tenho plena convicção de que há compreensão geral, de toda a população, de que não temos um problema de ordem comum, e sim, de ordem sobrenatural. Estamos para receber instruções quanto a uma ação que trará benefícios aos ressurretos e que os tornarão produtivos. Agora devemos ter em mente que, o fato de não reagirem, de não mostrarem qualquer preocupação quanto a autopreservação e nem mesmo de darem importância à própria dignidade, não quer dizer que não sejam capazes de aprenderem e trabalharem. E nisso a agência internacional auxiliará. Daremos diretrizes e métodos para mudar essa situação o quanto antes. A agência brasileira de coordenação e controle de ressuscitados, em conjunto com a central internacional, em breve, lançará um projeto ousado, importante, que trará novamente a paz para a população humana e a merecida dignidade para os que retornaram do sono da morte.”

Apesar dos jornalistas ficarem ávidos por conhecerem que plano era aquele o qual se referia, o presidente da ACCR Brasil se reservou o direito de não informar. Após uma semana, o endurecimento da posição das potências europeias diante do problema foi apresentado numa reunião secreta de cúpula. Dos países do cone sul, o representante da agência brasileira fora o único a comparecer. A reunião durou três dias. No último, os líderes inglês, francês e italiano lançaram um contra-argumento em relação a exigência proferida pelo presidente da agência brasileira, que previa a criação de um território unificado, específico para os ressuscitados do mundo todo, para que pudessem ser retirados de uma vez por todas da sociedade humana. Uma espécie de exílio.

Isso gerou tumulto, pois, logo levantaram a hipótese de que se fosse assim, com o volume crescente de ressuscitados, um novo país surgiria. E o que aconteceria caso esta terra lhes fosse dada? A troco de que daríamos a eles esse poder? E se desenvolvessem um poderio militar de super soldados já que possuem a capacidade de regeneração? Seriam invencíveis! Trabalhariam noite e dia, e suas produções, seja lá do que, superariam qualquer produção mundial. Seria outro tipo de caos econômico. E a economia mundial se mantém graças à morte e não à eternidade.

Depois de muita discussão, o relatório da reunião concluiu que os ressuscitados eram inadequados a viverem em sociedade. Representantes das demais agências presentes concordaram. E no mesmo relatório, foi citada uma proposta de ação emergencial: “Deve-se controlar a ressurreição custe o que custar”.

Quatro dias depois, uma ação militar deu início nos cemitérios cujo objetivo seria calcinar a terra para não possibilitar a ressurreição. Entretanto, cientistas interviram para que alguns cemitérios fossem preservados para estudos. Questões importantes poderiam ser respondidas, por exemplo, como um ressuscitado volta à vida; por que somente os que foram enterrados ressurgem e os cremados não; por que um comportamento regenerativo celular somente na espécie humana e não em outros seres vivos; de que forma poderiam ser contidos; e assim por diante.

Unidades de observação e pesquisa foram montadas em três cemitérios importantes da cidade de São Paulo. Equipes de plantão foram designadas para observarem qualquer movimentação estranha. Lápides foram removidas para ocultar a identidade do morto e criar um campo limpo para observação. Famílias protestaram dia e noite do lado de fora e acabaram contidas pelos soldados da ACCR.

Uma cientista chefe, doutora Deise Vianna, logo após a pesquisa de campo ter sido autorizada, emitiu um prévio parecer em rede Pan-americana de rádio:

Eles vêm das tumbas. Seus corpos, antes consumidos por bactérias, vermes e insetos, agora se refazem. E é isso que queremos ver. Cabe a nós, cientistas, descobrir como e por que isso ocorre. Se não for pela mão de Deus, o que duvido que seja, caberá a nós descobrir por conta de que isso acontece.”

Num esforço conjunto para o amplo entendimento do comportamento dos ressuscitados, uma equipe de psicólogos também foi designada para estudar a ausência de reatividade destes seres. Tê-los frente a frente era incômodo, pois não transmitiam luz pelo olhar, nem havia calor em suas peles. Apenas um débil batimento cardíaco. Quais seriam suas necessidades? Por que não se organizam? Por que tentam voltar aos seus lares e quando são retirados, muitas vezes à força, simplesmente não reagem?

Falam apenas o necessário e quando agredidos fisicamente não revidam. Seria isso o sinal de que áreas específicas do cérebro teriam sido danificadas durante o processo da ressurreição? A equipe estava ansiosa para descobrir.

Enfim, as pesquisas começaram. Aquela noite geraria expectativas. Ossos de diversas partes do corpo, crânios, falanges de mãos, vértebras e demais impurezas foram desenterradas. Mas tudo era mantido cuidadosamente no próprio local. Câmeras filmadoras foram instaladas por toda parte e quatro cientistas foram encarregados de filmarem e registrarem o acontecimento. A pesquisadora Rejane tinha consigo uma câmera HD. Estava trêmula, ansiosa demais. O colega da equipe, Ivã, ao percebê-la assim, perguntou se precisava de ajuda. Respondeu secamente que não e que deveriam prosseguir.

A noite prometia ser longa. Os minutos avançavam lentamente e o silêncio era esmagador, apenas interrompido pelo ofegar tenso dos pesquisadores. Havia medo sim, mas a ansiedade era maior. Num dado momento, um leve nevoeiro começou a cobrir o local. Isso dificultou a visão do terreno, pois, como saber em qual local ocorreria o fenômeno?

Cada centímetro do terreno era observado pelas câmeras. Entretanto, conforme o tempo passava, nada de significativo chamava a atenção. Quando o cansaço estava a ponto de nocautear os ânimos, lá adiante, sobre o solo, surgiu uma estranha luminosidade. Era azulada e pulsante de frequência lenta. Os pesquisadores, agora três biólogos moleculares, se direcionaram às pressas ao local. Quem sabe aquele seria um indicador do início do fenômeno em si.

Ao se aproximarem mais, apesar da neblina, viram que o brilho emergia de um osso, um cóccix que cintilava. A câmera, então, sobre um tripé, foi fixada ali, e os pesquisadores cercaram a área. Rejane tirou do bolso um gravador para registrar suas impressões. Ivã e Juliene decidiram fazer uma coleta cuidadosa do solo ao redor do osso. Isso deveria ser analisado quanto a possíveis índices de radiação residual. Mas antes que pudessem realizar a amostragem, usaram um contador Geiger e um magnetômetro. Porém, não detectaram qualquer nível de elevação magnética ou radioativa. Mas a luminosidade continuava a aumentar de intensidade e pulsação.

Rejane supôs que poderia, então, ser algum tipo de bioluminescência, quem sabe provocada por bactérias. Ivã sacou do bolso um tubo para coletar uma porção de terra para análise microbiológica.

Juliene, verifique a câmera. – Disse Ivã.

Na posição e gravando. – Respondeu Juliene, enquanto Rejane mantinha os olhos fixados no brilho que emanava do osso.

Quem diria! Estamos prestes a testemunhar uma ressurreição. Sinto-me como um personagem bíblico. – Disse Ivã.

Acho melhor controlar sua síndrome de João Evangelista e prestar atenção. – Repreendeu Rejane. – Engraçado, sou especialista em genética. Passei anos extraindo DNA de ossos pré-históricos, mas nunca vi isso.

Como são as coisas, hem!? Tanto tempo estudando pra nada. – Disse Juliene com os olhos pregados no osso. Algo, então, chamou-lhe a atenção. Dispersos no solo, havia mais dez ossos, todos cóccix, que brilhavam da mesma forma. – Vocês viram aquilo? Acho que teremos uma multidão de ressuscitados esta noite.

Vamos continuar focando neste. – Ressaltou Rejane não perdendo tempo em montar o equipamento fotográfico para registrar o terreno iluminado.

Bem ao longe, as lamúrias daqueles que aguardavam os parentes ressurgirem aumentavam. Muitos gritos e clamor a Deus. E o exército mantinha o cordão de isolamento. Os soldados estavam de prontidão para o recolhimento dos possíveis recém-ressuscitados. Três caminhões os aguardavam. E a tensão aumentava, e os pesquisadores já podiam senti-la, o que deixou Ivã bastante assustado. Contudo, Rejane parecia se controlar melhor, mantinha-se concentrada no que deveria fazer. Foi quando notou que o brilho azulado foi se apagando. No lugar, uma gosma esbranquiçada brotou do osso. Tinha uma consistência gelatinosa. Ivã precipitou-se para adquirir uma amostra para análise. Depois de retirar o equivalente a uma pequena colher das de café, o espaço deixado foi logo preenchido pelo dobro de quantidade. Pequenos filamentos albuminosos começaram a se formar na superfície. Rejane decidiu verificar mais de perto com o auxílio de uma lupa. Mas a luz proveniente da câmera era precária, foi necessário usar uma lâmpada auxiliar, bem mais forte. Ao ser direcionada para a massa gelatinosa, esta, como que portadora de vida própria, se retraiu. Todos se espantaram e Ivã tomou a lâmpada das mãos de Rejane e diminuiu a intensidade. Com um foco mais fraco a massa não mais reagiu. Fotossensibilidade! Esta foi a exclamação do grupo. Isso explicava o porquê as ressurreições ocorriam somente à noite. Quem sabe o excesso de luz pudesse causar algum problema durante o processo de formação do corpo.

Com a lupa em mãos, Rejane pôde, enfim, se aproximar para uma melhor observação, e ficou assombrada com o que viu.

Minha nossa! Angiogenia! Como pode? A gelatina está servindo como substrato para a formação de veias.

Juliene e Ivã tomaram nota das observações de Rejane e mal podiam acreditar. Cerca de meia hora depois, já se podia perceber que a gelatina estava mais densa, maior e coberta por veias. No ambiente, o silêncio era mortal, apenas quebrado vez ou outra por choros e lamentações da população ao longe. Rejane notava que a massa aumentava cada vez mais de volume. Dobrou em muito pouco tempo. Juliene percebeu que a colega não estava bem. O suor escorria pelo rosto. Tinha de acalmá-la:

Rejane, você não parece bem. Quer voltar para o carro? Tudo bem, eu assumo daqui.

Não. – Mas seus olhos permaneciam fixados na massa a qual aumentou novamente o seu volume. Neste momento já atingia cerca de um metro e sessenta de comprimento e meio metro de diâmetro. E já se podia notar uma forma, parecida com um casulo. A superfície coloriu-se de castanho escuro com uma textura lisa e escorregadia. Tudo aconteceu de maneira tão rápida que foi difícil de acompanhar os detalhes de cada etapa.

Enquanto os três pesquisadores procuravam ali atinar aquilo com os sentidos, uma lufada de vento provocou a queda do tripé da câmera sobre o casulo. O impacto rompeu a parede membranosa. Um líquido vermelho vivo vazou. Hesitantemente Rejane colheu uma amostra e aproveitou para iluminar o interior do orifício. Para sua surpresa havia algo que se mexia lá dentro. Estava vivo.

Olhem só isso! Então, é assim que eles se formam? – Indagou eufórica Rejane.

Uma criação extracorpórea! – Completou Ivã.

Vejam, os movimentos estão ficando mais vigorosos. Acho que está na hora de ele renascer. O túmulo se torna o berço. Vamos temos de registrar isso. – Alertou Juliene.

Rejane ficou mais eufórica ainda. Uma espécie de fascinação combinada com ansiedade e medo. O ser dentro do casulo se contorcia fortemente. Foi aí que um gemido profundo e uma projeção espasmódica dos braços, quase um gesto de agonia, fez romper a membrana. De dentro, imerso numa espécie de líquido amniótico, emergiu um ressuscitado. Era um homem, de rosto coberto por um cerume gelatinoso e sangue. Ele emitiu um longo e lamentoso apelo, quase um grito cheio de dor e agonia. Rejane, num gesto instintivo, lançou-se sobre ele e começou a limpar-lhe o rosto com um lenço. Em seu colo, depois de fitar-lhe bem nos olhos de um jeito maternal, Rejane ergueu-o com cuidado e deixou-o ali em pé.

Os dois colegas o seguraram pelos braços e o conduziram até os soldados que, sob o clamor público, juntou-o sem demora aos outros recém-ressuscitados. O ato instigou revolta em todos aqueles que aguardavam com ansiedade os entes queridos. E os soldados tiveram de usar a força para contê-los. Sob uma chuva de pedras e pneus em chamas, o primeiro caminhão saiu lotado em direção à reserva.

Os pesquisadores tiveram de se abster de qualquer emocionalismo e trataram de recolher os instrumentos de observação:

Muito bem, acho que temos aquilo que precisamos. – Disse Ivã com vários cabos e aparatos científicos nas mãos.

Ainda não. – Contradisse Rejane. Ivã e Juliene estancaram.

Como assim? – Perguntou Juliene

Falta saber qual é o critério.

Que critério?

O critério para se retornar à vida. Qual é a ordem cronológica? E os que foram cremados? Por que eles não? E os afogados? E os que morreram numa explosão? Esses também voltariam?

Ivã e Juliene se entreolharam.

E o que isso importa agora, Rejane? Com a quantidade de dados que coletamos esta noite, não acho que este seria o momento de nos importarmos. – Disse Juliene. – Além disso, pelo que se sabe, os cremados não ressuscitam.

O que eu quero saber é se uma pessoa de mil novecentos e vinte ressuscitará. Outro que morreu o ano passado também ressuscitará? Qual o critério de tempo? Se pessoas de todas as épocas ressurgirem, o problema será pior do que imaginávamos. – Ressaltou Rejane.

A saída é pedir uma lista de todos os ressuscitados catalogados pela ACCR. Assim teremos ideia da data das mortes e o dia da ressurreição. Só assim teremos ideia de qual período os ressuscitados são. – Disse Ivã.

Ótimo! Poderemos incluir isso no relatório antes de enviarmos para a agência central. – Concluiu Rejane já pronta para deixar o cemitério e ainda assombrada pelo ocorrido naquela noite.

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