Preparativos para a pesquisa

 

—Devo confessar que fiquei surpreso com o seu convite.

—Um amigo nunca deve ser esquecido. Sabe, apesar de nossas diferenças conceituais, e de nossa formação, você ainda é meu melhor amigo. Aquele que conheci lá na adolescência e que agora anda por aí de vestido.

—Que ousadia! Isso não é vestido. É um hábito. Afinal, é assim que os padres se vestem. Discreto e impõe respeito.

—Pra mim é motivo de piada. Em pleno século vinte e um, por favor…

—Rui, você não vai mudar nunca. Agora entendo por que fui um dos poucos amigos que teve. Isso já é um bom motivo para acusá-lo de bullying

—Só faltava essa. Na nossa época isso se chamava tiração de sarro. Agora vivemos num mundo de gente fresca. Qualquer coisinha que se diga pode traumatizar fulano, agredir sicrano. Que besteira!

—Tudo bem, tudo bem, mas diga lá, por que você me convidou para esse café em plena manhã de sábado? Já adianto que não vou sair em nenhuma escola de samba com você. Aliás, não fica muito bem para um antropólogo participar de festividades pagãs.

—Sempre foi minha paixão. Sabe, desfilar numa escola de samba é como um ritual de passagem, onde as pessoas se juntam para transmitir uma mensagem ao mundo. É algo que foge do tempo e do espaço. Assim como essa bela manhã, não é mesmo? Sei lá, meu amigo, mas voltando à nossa conversa, sinto falta de um rosto conhecido.

—É isso. Já sei, quer se confessar. Finalmente o arrependimento tocou seu coração.

—Arrependimento de quê? Nunca, meu caro padre. Dos meus problemas cuido eu. Gosto de escutar minha própria alma.

—Alma? Não sabia que tinha uma. Aposto que ao invés de escutar sua alma, você vai buscar a lógica no compêndio da sua imaginação fraca de pecador.

—Ih, lá vem você… opa…. Você viu aquela moça?

—Sou padre. Não fico olhando para mulheres por aí.

—Não, não é o que está pensando. É que ela levou um tropeção. Viu? Isso poderia ter acontecido com você também.

—Não entendi. E o que isso tem a ver… Aonde quer chegar?

—Imagine, meu bom amigo padre Feliciano. Imagine se você estivesse no lugar daquela moça: você caminha calmamente e, de repente, leva um belo tropeção.

—E daí?

—Deus não pôde fazê-lo se prevenir de um mero tropeção. Ora, se ele é onisciente e olha por nós…

—Espere, espere um pouco aí. Vamos inverter isso. Imagine se fosse você.

—Dá na mesma.

—Se não percebe o que está a seus pés, por que questiona aquele que está acima de sua cabeça?

—Se Ele é onipresente, também deveria estar sob meus pés. E nem assim seria capaz de me amparar.

—Deus nos dá o tropeço conforme a fé que temos Nele. E garanto que Ele certamente foi generoso com a moça, convenhamos. Ela poderia ter quebrado a perna ou caído e batido a cabeça no chão e morrido.

—Viu? Notou seu argumento, padre? Vocês são assim. Exageram um simples fato e o transforma numa desgraça. Isso induz a qualquer um ter fé. Menos eu. Sou macaco velho.

—Descrente você quer dizer. Sinceramente não vejo mais esperança no seu caso. Você perdeu sua alma. Antropólogo sem fé.

—Deixe disso. Por mais desgraçado que eu me sinta, acredito que a esperança de me arrebanhar como uma de suas ovelhas nunca irá abandoná-lo.

—Concordo, meu amigo. E aí, eu te conheço, o que aflige seu coração?

—Você é o único com quem eu poderia me abrir. Por isso o chamei. Agora faço parte de um projeto do governo. Fui escalado juntamente com a minha equipe para estudar o fenômeno da ressurreição. Nesta próxima segunda-feira estaremos na reserva do Rio Grande do Sul. É a maior reserva da América, você sabe disso. Terei que observá-los, conversar com eles e procurar entendê-los.

—Quem diria, burrinho na escola do jeito que você era… Brincadeira. Essa é uma ótima oportunidade pra você. A escolha foi perfeita. Sim, um antropólogo de competência. Não poderia ser outro.

—É, eu até concordo. Mas o impacto que o fenômeno causou no mundo…

—Deus sabe o que faz. Já estava previsto nas escrituras. Temos que aceitar.

—Parece que Deus não teve uma visão bem planejada. Será que não sabia do impacto ambiental e sociológico que isso causaria?

—Rui, Deus sabe o que faz.

—Já sei, já sei, Deus sabe tudo. O fato é que antes de entrar lá queria conversar com alguém, sei lá, me desabafar.

—Eu te conheço, Rui. Você está inseguro.

—Acho que sim. É… é isso. Eles são tão diferentes. A responsabilidade é muito grande.

—Rui, na bíblia, o apocalipse de João Evangelista diz que a ressurreição aconteceria, pois o juízo final estaria por vir. E todos seriam julgados. Todos aqueles que morreram retornariam diferentes, melhores. Certamente os ressuscitados estão no aguardo do julgamento.

—Pra mim isso é uma anomalia que não sei explicar. Tem de haver uma explicação lógica para isso.

—Viu? Quem sabe, quando ingressar na reserva, você descubra Deus.

—Sim, quem sabe. Mas Deus permitiria tudo isso de ruim acontecer? Essa loucura social na qual vivemos? De certo o novo governo amenizou, mas…

—Rui, Deus sabe o que faz. Entenda isso de uma vez por todas. Pare de controlar a vida. Cumpra a sua missão que é a de observar. Você já é um cinquentão, um homem maduro, experiente, um dos melhores pesquisadores do mundo, sabe que se deve observar e entender tudo no seu próprio contexto. Essa loucura mundial é sinal de que o ser humano não saiu da infância. É pura inexperiência de criança assustada.

—Matar, torturar, esquartejar é inexperiência? Isso pra mim é pura maldade.

—Inexperiência sim. Um ser humano de verdade, maduro, conhecedor de seu papel no mundo não vê vantagem nenhuma em destruir a criação divina. Isso só ocorre porque a maioria das pessoas não consegue ver a importância da criação de Deus.

—Sabe, Feli, se não fosse meu amigo e ainda por cima padre, eu te mandaria pra p-

—Não diga. Deus o castigará.

—Está bem. A conversa está boa, mas tenho que ir agora. Preciso terminar de arrumar minha bagagem.

—Ah, sim, eu também preciso ir. Tenho um missa logo mais. Foi bom revê-lo. Vou orar por você.

—Agradeço muito ter vindo.

—Trouxe uma pequena lembrança. Tome.

—O que é?

—Abra.

—Um crucifixo! De prata!

—Bonito. Nem sei como agradecer.

—Use-o. Sei que Deus não é uma referência pra você, mas pelo menos isso o fará lembrar de nossa conversa. Ah, sim, só mais uma coisa. Posso perguntar?

—Claro.

—Você tem expectativa de encontrá-la?

—Sim, tenho sim. Mas temo que ela não seja mais a mesma.

—Quem sabe? Como disse: Para Deus…

—… Tudo é possível. Sim, sim, é claro. Foi muito bom vê-lo, Feli. Até breve.

—Até, meu amigo. Cuide-se.

O final daquela conversa mexera comigo. Como sinto sua falta, Érika. Minha Érika. Às vezes me pego conversando com ela em meus pensamentos. Talvez eu tenha aceitado essa missão com o intuito de…. Sei lá. Quem sabe. Vir para casa me faz criar manias. Crio rotinas entediantes. Prefiro me ancorar nelas, pois me deixam livre de pensamentos. A cabeça não para. Fuga. Preciso fugir das lembranças de Érika. Por que a vida a tirou de mim? As missões de pesquisas sempre me ajudam. Mas esta em específico, não. Tenho a impressão de que vou ao seu encontro. É de enlouquecer.

Tínhamos muitas coisas em comum. Nutríamos um amor respeitoso, inversamente proporcional. Eu sem o comportamento virilizado do homem frustrado querendo ser dominante e ela sem o impulso clitoriano de controle sobre mim. Ao contrário, era tão meiga. Isso não nos deixava na penumbra melancólica de um casal tradicional sem paixão. As lembranças de nossas vidas juntas me perseguem por toda parte, até no banheiro. Um dia eu me barbeava. Escanhoei bem o rosto, enxaguei-o, sequei-o bem com uma toalha branca felpuda. De repente, lá estava Érika, bem ao meu lado. Então, ela, com um leve sorriso, como que me apreciando beijou o meu rosto e ficou a me olhar. Não disse uma palavra. Fiquei encabulado. Só ela me deixava assim. Então perguntei:

—Por que me olha?

Ela se aproximou e colou o rosto no meu e fez outra pergunta:

—O que você vê?

—Vejo você. – Respondi intrigado com a pergunta.

—Não. Você, olhe você. Não consegue ver um rosto bonito?

—Só vejo o seu rosto bonito. O meu não é bonito. Aliás, o meu rosto destoa do seu. Você é bonita e eu não. Olha que nariz torto eu tenho.

—Então vem cá.

Ela me puxou para a sala. O Sol despontava com toda força naquela manhã de primavera. E ela perguntou:

—Não é lindo?

—É o mesmo de ontem e será o mesmo de amanhã. Vamos tomar café?

—Querido, como você é chato!

—É que você é tão linda! Talvez meu estado de espírito não me permita ver o que você espera que eu veja. Sofro de raquitismo de percepção poética. Aí eu contamino a beleza que só você vê. Ou então, isso seja coisa de criação, sabe como é, meu passado, pais rigorosos, briguentos…

—Então esqueça seu passado e faça um novo comigo. Sim, é isso. Vamos ter um lindo futuro juntos e vamos preencher nosso passado com muito amor.

Ela me abraçou e me beijou a boca como se tivesse me conhecido naquele momento. Ela era assim. Eu a amei muito. Só lamento não ter mostrado mais, ficado mais com ela.

Lembro do primeiro dia que nos conhecemos. Parece coisa de filme. Eu proferia uma palestra no anfiteatro da faculdade. Nossa! Isso foi há vinte anos. Estava lotado, mas havia um único lugar onde coloquei minhas coisas. Obra do destino mesmo. Nesse caso tenho de dar a mão à palmatória. A entrada ficava distante de onde eu me encontrava. Foi quando a vi entrar. Vestia uma blusa bege e uma saia do mesmo tecido fino e cor. Ela desceu a rampa bem devagar a procurar um assento desocupado. Não pude conter o impulso cavalheiresco e liberei a poltrona que eu tinha usado para apoiar as coisas. Então acenei para que ela viesse se sentar. Ela correspondeu com um lindo sorriso. Que lábios! Bem delineados… Meu coração acelerou. Doeu uma dor de paixão e saudade de não sei o quê. Talvez uma saudade da vida que teríamos como um casal de eternos amantes. “Ela tinha de ser minha” pensei com a certeza de que meu coração batia por ela.

Perdi o compasso, gaguejei. Fiquei difuso. Ela sentou-se delicadamente como uma princesa. Abriu o caderno, segurou a caneta na posição de escrita e lançou um olhar de pérolas negras para mim. Não sei como consegui terminar aquela palestra. Juro que nem ao menos lembro de como cheguei até o fim.

Logo que terminei, todos se levantaram. Várias pessoas desejaram falar comigo, dirimir dúvidas e criar outros questionamentos, mas eu só tinha olhos para Érika que permaneceu sentada enquanto anotava algo. Foi difícil me desvencilhar da multidão. Com esforço consegui chegar até ela e, um tanto atrapalhado, convidei-a para tomar um café. Érika aceitou. Saímos rapidamente do anfiteatro e foi assim que iniciamos nosso relacionamento. O típico clichê “amor à primeira vista”. Sempre acreditei que jamais aconteceria comigo. Pouco tempo depois pedi a sua mão em noivado. Ela ficou tão feliz! E depois de um ano e meio nos casamos. Alugamos um pequeno apartamento próximo à universidade. E começamos nossa vida juntos. Claro que passamos dificuldades como todo casal, mas o nosso relacionamento tinha algo de muito especial: o bom humor. Mesmo diante de uma situação difícil Érika conseguia dissipar a sensação com uma boa dose de otimismo. Pena que a vida a ceifou. Que ironia! O ciclo da vida ceifa sem dó. Nem quero pensar nisso. Procuro evitar a todo custo lembrar o que senti quando ela partiu. O problema é que os móveis estão exatamente do jeito que ela os arrumou da última vez. Tenho que deixar isso pra lá. Tenho de esquecer isso. Eu tenho que me concentrar na missão.

Ainda bem que o projeto etnográfico já está pronto. Mas é difícil saber o que vou encontrar. Afinal, são pessoas, ou pelo menos foram exatamente como nós. Apenas mudaram um pouco. Preservam a memória da vida que tiveram quando vivas, mas a forma como se relacionam parece atípica.

Café. Preciso de um café. Penso melhor assim. Esse dedo que não para de coçar. O indicador está até inchado. Toda vez é a mesma coisa. É só ficar ansioso ou preocupado, o maldito coça. Ah, sim, achei. Aqui está ele. O relatório do encontro que tive com a cientista, a famosa bióloga. Famosa e esquisitinha. Não sei por que, mas senti vontade de espremê-la só pra ver se sairia mais informação da sua boca. Ela parecia ocultar coisas. No entanto, achei curioso o que relatou. A maneira como os corpos se regeneram. Vi a filmagem que fizeram. É de impressionar.

Esse café está ruim. Vou passar outro.

Queria ter conversado com os outros dois cientistas, mas fui informado que ambos foram transferidos para a base brasileira na Antártida. Missão confidencial. A doutora Rejane, pelo que me consta, fora escalada para tal missão, contudo ela alegou não estar apta. Pergunto-me o porquê.

Ah, agora o café está melhor. Esse cheirinho…. Com autorização do general Kauffmann, fiz um levantamento completo nos arquivos da ACCR. Encontrei dados interessantes sobre o comportamento dos ressuscitados. No entanto, acredito que ambientes fechados, como o da reserva, afetem o comportamento. E quanto aos ataques de grupos hostis? Será que eles ainda ocorrem?

Fui um cara que fez vários primeiros contatos com tribos indígenas, povos afastados da civilização, grupos de beduínos há muito adaptados à vida no deserto, mas essa é a primeira vez que irei contatar pessoas que emergiram da morte. Que tipo de estrutura mental e social vou encontrar? Será bem interessante, ou não. De repente, minha expectativa supera a razão. Terei quinze dias para descobrir. Imersão total.

Aqui está: meu dispositivo de alta tecnologia. Não consigo ficar sem ele: meu bloquinho de anotações. É o mais importante. Aliás, fui instruído a não levar nada mais. Nem roupas. Deverei me misturar a eles sem interferir no contexto de vida social, se é que eles têm alguma. Afinal, quem já partiu dessa pra melhor e voltou, deve ter deixado qualquer protocolo de boas maneiras para trás. É o que penso. Geralmente nos unimos para sobrevivermos em grupo. Eles não precisam mais disso. O que será que sobrou de suas experiências? Tenho que descobrir.

Já é tarde. Será que vou conseguir dormir? Minha mente não para. Será que vou… Tire isso da cabeça. Esqueça Érika. Se ela voltar? Como vou reagir? Ela se lembrará de mim? Não sei bem se quero que isso aconteça. Acho que a vida deve nos acalmar com o desbotamento das lembranças. Mas ao envelhecermos, e isso acontece em qualquer cultura, o futuro fica sem graça e o passado é o que vale. Ele se mesclou com o presente e ficamos então aprisionados, selados entre a vida de hoje e a de ontem.

A água quente do chuveiro me faz lembrar de que tenho limites. Como é bom! Quando penso demais fico difuso, me perco. Reencontro-me na água quente. Sei que estou aqui.

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