A caminho da Reserva

 

Segunda-feira: 8:00h

Tive uma péssima noite de sono. Ansiedade é um veneno que corroí. Depois de rolar na cama, jogado de lá para cá por pensamentos dos mais variados, decidi me levantar. Nem me dei conta de que horas eram. Também nem me interessei em saber. Lavei o rosto, preparei um café e liguei a TV, mas não me rendi a ela. Preocupei-me em verificar se tudo estava correto para o meu ingresso na reserva. Só o que me restava era esperar pelo veículo da ACCR que viria me buscar. Oito horas. O voo está previsto para às dez. Na TV as vozes dos jornalistas se misturavam aos meus pensamentos. Às vezes eu até me confundia. Não sabia se havia pensado ou se a TV tinha engendrado algo na constelação de ideias que me assediavam.

Contudo, uma notícia em particular fez com que eu saísse daquele limbo. Parei por um momento para ouvir: o presidente declarou que governará o país com mãos de ferro (ainda bem que não será com a testa) e não deixará a crise assolar os cidadãos. Isso soou mais como outra promessa vazia. Mas como contestar? Afinal, trabalho para ele agora.

Passarei quinze dias sem contato com o mundo exterior. Preso em um lugar desconhecido com gente que nem faço ideia de como se comportam. Não que eu não estivesse acostumado. Já vi muitas culturas bizarras. Mas isto seria diferente. Desta vez irei lidar com pessoas que violaram a lei natural mais importante conhecida. Só o que temos são relatos bíblicos que para mim, sinceramente, não dizem nada.

Meu bloco de anotações… Ah! está aqui. Esse ficará comigo para onde eu for. Canetas. Não podem faltar, claro. Presumo que escreverei bastante. Meu crucifixo. Vou colocá-lo. Oito e trinta. Acho que vou descer e levar a bagagem. Apenas uma mala. E é tão pequena…. O motorista já deve ter chegado. Bem vamos lá. E esse elevador que demora tanto. Quando se tem pressa… Chegou!

Lá está. O veículo preto combina com o motorista. Que cara amarrada!

—Bom dia.

—Bom dia, senhor. O senhor foi orientado a não levar nada além do necessário, correto?

—Só trouxe uma muda de roupa e objetos de higiene pessoal.

—O senhor não vai precisar. Os ressuscitados não usam absolutamente nada.

—Nem escovas de dentes?

—Para eles, procedimentos higiênicos são desnecessários. Não desenvolvem bactérias. Cheiram bem, como se tivessem acabado de sair de um banho. Se quiser se infiltrar sem chamar a atenção, sugiro que seja discreto com a sua escova de dentes. Já podemos ir.

—Como está o trânsito esta manhã?

—Bom. Faremos o trajeto em trinta minutos se tudo correr bem.

—Se fizermos nesse tempo vai parecer um milagre.

E realmente o trajeto ocorreu no tempo previsto. Desembarquei no portão da respectiva companhia aérea. Sem dizer nada o motorista partiu. Realizei o check-in e me dirigi ao portão de embarque. A ansiedade parecia ter dissipado. Isso me propiciou refletir sobre o comportamento humano atual. Olhei em torno e percebi a pessoas mergulhadas nelas mesmas, tão aprisionadas que a única forma de escape da realidade opressora na qual vivem é através de pequenas janelas abertas em seus computadores, celulares e tabletes. O contato, mesmo o visual as incomoda. Restrição. Aprisionados em seus corpos, em suas mentes. Onde foi parar o cavalheirismo, a boa conversa, as boas maneiras? Se alguém me ouvisse certamente me chamaria de saudosista. Acho que envelheci.

Anunciaram meu voo. Portão cinco. Acho que agora não tem mais volta. Só consigo relaxar mesmo quando estou abordo. É claustrofóbico, mas é quando aproveito para ler e descansar um pouco. Esse meu dedo… como coça! Nervosismo! Nervoso com a decolagem. Só esta pequena mala, não precisarei despachar. Chegar ao destino e ficar na espera diante das esteiras rolantes é um saco. Gosto de agilidade.

Finalmente entrei na aeronave. Gosto dessa palavra. Soa como algo espacial. A poltrona… que número… pronto. Achei. Agora é só guardar a mala e apertar o sinto. Gosto de sentar-me próximo à janela. É quando posso contemplar o prodígio humano. Viajar por sobre as nuvens. Somos realmente capazes de realizar coisas fenomenais e ao mesmo tempo somos tão intolerantes quanto ao que desconhecemos. Incoerência. Talvez sejamos assim porque somos vastos.

Relaxei afinal. Vou anotar meus pensamentos em meu diário. Anotá-los é como que congelá-los. É isso: aprisiono meus pensamentos nas letras e os selos com tinta. Bem, é tudo muito poético, mas preciso me concentrar na missão. Aliás, existem coisas que eu não consigo entender. Se o atual governo mostra um grau elevado de tolerância com os ressuscitados, por que não os manter com seus familiares? Essa era a ideia a princípio. O custo de manutenção de uma reserva fica a cargo do estado. Isso realmente encarece os cofres públicos. Por quê?

E mais: sendo eles humanos, teriam a capacidade de serem reintegrados à sociedade. Tudo bem que todos sabem que eles parecem improdutivos, mas quem sabe… Por que mantê-los isolados? E qual o motivo de um estudo comportamental. Sei que é interessante, principalmente para mim. Esse pioneirismo me fará famoso, mas o problema é que as peças não se encaixam.

Lembro que tentei discutir essas questões com o general Kauffmann, mas ele se limitou a transmitir o que eu deveria fazer. Postura bem militar. Preciso falar com a pesquisadora, a bióloga, como é mesmo o nome dela? Ah, sim, Rejane. Preciso conhecer certos detalhes mais aprofundados sobre sua pesquisa, até porque seria interessante traçar um paralelo diferencial entre nós e eles. Quem sabe até desenvolver uma etnologia biológica mais específica.

Estou ficando ansioso outra vez. Vou tentar me distrair. Onde está o jornal de bordo? Aqui. Vamos ver: Agressões contra ressuscitados volta a aumentar nos últimos trinta dias.” Matéria de capa. Ora, pensei que isso tivesse diminuído. Deixe-me ver; aqui diz: “Em novembro foi registrado um aumento do número de delitos cometidos contra ressuscitados. Denúncias sobre torturas e abusos têm aumentado assustadoramente. Os registros indicam que a violência atingiu seu pico superando estatísticas do trimestre anterior, conforme dados fornecidos ontem à noite pela secretaria de segurança pública (SSP). No mês passado foram noventa e cinco ataques registrados. Estes sempre motivados por grupos locais. Cento e cinquenta casos de abusos sexuais e oitenta casos de extração de órgãos para venda ilegal. Não houve queda do número de ataques a ressuscitados tal qual se pensava ao ser instituída a ação de proteção. Quando questionada, a agência de controle e coordenação de ressuscitados (ACCR) diz que, em relação ao primeiro semestre, a linha epidêmica esteve bem abaixo quando comparada com a situação atual. Talvez o problema esteja no número de denúncias que aumentou graças a abertura governamental. O delegado-geral, no entanto, explica que tais casos ocorrem distante do centro da cidade e dos bairros nobres. Ainda segundo o delegado, o criminoso e grupos antirressurreição buscam agir em locais ermos. Muitos ressuscitados emergem em terrenos baldios ou locais onde foram enterrados e esquecidos. Ao surgirem, se deparam com os bandidos que não perdem tempo. E reforça que é preciso analisar não só onde as ressurreições ocorrem, mas também a deficiência da ACCR em coibir tais ações.

É… Isso realmente parece não ter fim. Que situação! Devo aproveitar melhor esse tempo para traçar uma boa estratégia sobre como conduzir a pesquisa. Se a minha mãe estivesse viva, ela certamente estaria na linha de frente em defesa dos ressuscitados. Ao contrário do meu pai. A velha sofreu na mão dele, que a fez retrair, pouco a pouco, todos os dias até restringir por completo sua espontaneidade. Ela tinha uma espécie de inofensividade estéril, sem vida. Mas ela de forma alguma expunha seus sentimentos. Talvez isso explique o porquê, ao longo do tempo, sua coluna curvou na altura da cervical. Era como se ali todo o peso da tristeza tivesse sido depositado. Mas quando ficava só, desentranhava uma sequência de orações balbuciadas e os dedos começavam a comprimir as contas do terço que carregava consigo como uma boia salva-vidas. Isso acontecia sempre quando meu pai estava em vias de retornar de alguma missão. Bem, mas pensando nisso, me veio à mente o general Kauffmann. Estranho! Em momento algum ele se posicionou quanto ao que pensa sobre os ressuscitados. Pelo que sei, ele perdeu um filho. Isso foi há muito tempo. Faleceu numa explosão juntamente com meu pai. Ambos faziam uma inspeção na fábrica de nitrocelulose do Ministério do Exército. Uma das caldeiras de nitroglicerina explodiu. Explosão! Por que não pensei nisso antes? Mortos por queimaduras não se regeneram. Talvez seja por isso que ele não fala nada a respeito. Notei pouca expectativa em seu olhar o dia em que tivemos aquela reunião. Na época, quando o acidente ocorreu, eu era um rapaz. Lembro que o general ficou muito abalado. Ele pessoalmente nos deu a notícia sobre o acidente. Seu rosto ficou duro, e com um tom de voz frio disse:

—Fatalidade. Talvez pudesse ter sido evitada.

Percebi seu queixo tremer, houve como um laivo de emoção em seu olhar, mas logo se recompôs com um estufar de peito. Minha mãe ficou chocada. Chocada demais para perceber que aquele acidente mudaria nossas vidas para sempre. Mas o tempo passou e acho que seu espírito se aquietou. Já o do general, tenho cá minhas dúvidas.

Dizem que o meu nome fora indicado por ele mesmo. Não tive tempo para agradecer-lhe. Farei isso ao retornar daqui a quinze dias.

Tripulantes e passageiros, preparar para aterrissar.

Passou rápido. E lá vamos nós.

Ah! finalmente a saída. Lá está o motorista da ACCR.

—Bom dia, Dr. Montenegro. Mais alguma bagagem?

—Não.

—Muito bem. Por aqui, senhor.

Caminhamos até o estacionamento. De lá nos dirigimos à reserva. O rapaz manteve-se calado durante todo o trajeto. Eu também não estava muito a fim de falar. A viagem por terra levou cerca de duas horas. Percorremos estradas vazias. Algumas delas de terra batida. O mato nas beiradas do acostamento estava alto. Não era possível sequer avistar o horizonte. A reserva ficava em local bastante retirado. Nenhum sinal de civilização em um raio de vários quilômetros. E se houvesse algum, o mato o ocultaria com toda certeza.

Logo depois de uma curva, pude visualizar uma enorme estrutura. Duas torres de vigilância e um portão fechado. Guardas caminhavam de um lado para o outro nas torres. Todos com fuzis em punho. Ao chegarmos um segurança se aproximou do portão. O motorista saiu do veículo e apresentou uma carta. O soldado fez sinal com a mão e o portão foi aberto. Estranhei o fato de não pedirem minhas credenciais ou, pelo menos, alguma referência emitida pela ACCR. Talvez a carta…

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