Alerta leitura sensível: maltratos psicológicos infantil.


Lan Huan acordou cedo, como havia combinado a conferência ‘online’ com seu tio e a ex-secretária de seu pai para conversar com eles. Eles acertaram todos os papéis e testemunharia sobre a situação de Zhan e a documentação falsa. Com uma prévia positiva de que tudo se resolveria e recolhido muitas provas a inocência de Zhan seria provada.

Como no momento o trauma de Zhan não o permitia entrar em um avião, foi decidido que a audiência ocorreria no Brasil junto a embaixada chinesa e o ministério público de relações exteriores e um juiz designado ao caso.  Zhan e Huan estavam sentados em frente ao notebook, não tardou muito e a vídeo chamada em conferência com a Sra. Liu e Lan QiRen iniciou, junto a eles um advogado passaria orientações.

— Huan e Wang está é a Sra. Liu que trabalho para o pai de vocês. – QiRen iniciou a conversa.

Zhan resmungou irritado com certo desdém.

— O meu não…

QiRen suspirou e um tanto entristecido não respondeu, afinal ele não tinha o direito de impor um pai que, na verdade, nunca o assumiu esse papel.

— Wang, antes da Sra. Liu contar o que sabe, quero lhe pedir perdão, pois havia sinais e mesmo assim eu não os considerei. – QiRen tinha um olhar sofrido. – Eu conversei antes com a sra. Liu porque queria lhe preparar, não será fácil, mas tanto eu quanto seu irmão estamos presentes para lhe apoiar.

Zhan ouvia o seu tio e fechou os olhos, afinal o que mais poderia ser ruim que já havia descobrido. Suspirou e voltou a abri-los curvando leve a cabeça.

— Tio, seja o que for, pior do que eu já passei não deve ser. – Zhan olhou para Huan e esboçou um breve sorriso amargo. – Vamos começar e resolver logo de uma vez toda essa história.

— Claro.

A Sra. Liu olhava para Zhan com os olhos cheios de lágrimas, era nítida a expressão de culpa em sua face.

— Lan Wang, e fico feliz em vê-lo bem apesar de tudo. – A mulher tinha a voz tremula e emocionada. – Eu também quero te pedir perdão, eu presenciei tantas coisas ruins que lhe foi feita e não fiz nada a respeito. – Mulher curvou a cabeça e com as mãos unidas em prece repetia o pedido.

— Sra. Liu, não sei o que me foi feito, afinal não tenho como perdoar algo que não me recordo.

Ela parou de fazer o gesto e voltou a falar com a voz chorosa.

— Sr. Lan era muito cruel com o menino Wang, sempre exigindo ao extremo que fosse o melhor em tudo, mas nunca o reconheceu como um filho. – Ela olhou para Huan e continuou. – O menino Wang era arteiro e falador. Nesse triste dia da descoberta a traição de sua mãe, eu estava recolhendo alguns documentos quando o Sr. Lan recebeu um telefonema e de repente tudo mudou. Nunca vi tamanha fúria em uma pessoa. O menino Wang brincava e quando viu o Sr. Lan, ele correu para seus braços como sempre fazia, falante e curioso. – A mulher parou de falar, como quem quisesse reunir forças para continuar. – Foi a cena mais chocante que presenciei em minha vida. “Cala a boa, pare de falar, você nunca deve fala nada.” Aos gritos e sacudindo enfurecido o pequeno. “Você é um estorvo, destruiu minha vida, cala a boca.”

Huan fechou os olhos e estremeceu, ele sabia alguns detalhes antes relatados pelo seu tio e ao voltar a face para Zhan notou que o irmão mantinha a face inexpressiva sem demonstrar nenhuma emoção ouvindo o que a sra. Liu relatava.

— Eu fiquei em choque e não pude fazer nada, apenas o vi ficar assustado enquanto era arrastado pelo braço para o quarto. Foi nesse dia que mudou tudo, o casal apaixonado e considerado o conto de fadas afundou em brigas e mais brigas. – Sra. Liu fez uma breve pausa. – Sr. Lan descontava a raiva pela traição de sua mãe no menino Wang, ele dizia que era a prova de que sua vida foi arruinada.

— Uma criança não tem culpa pelo erro dos pais. – Zhan a interrompeu em tom distante e frio. – Se um homem despeja sua frustração em cima de uma criança inocente, só mostra para mim que é mau-caráter.

— Lan Wang está certo, não tiro nenhuma razão.

— Sra. Liu, eu não quero ouvir sobre o que este homem me fez, afinal não tenho minhas lembranças e neste caso fico agradecido que me poupo desses relatos. – Zhan demonstrava impaciência.

— Eu concordo e é bom que não se recorde, afinal foram momentos dolorosos e torturantes para jovem Wang. Porém, preciso contar parte do que aconteceu no começo para entender que só embarcou no avião porque sua mãe estava sob ameaça de prisão.

Nesse instante Zhan se alarmou, virou os olhos para Huan que imediatamente tocou em seu ombro para lhe demonstrar apoio.

— Por que ela seria presa?

— Seu pai abriu uma denúncia crime, acusando de traição e fraude, com a prova de um filho ilegítimo. Ele deserdou-o e pediu a remoção de seu nome da documentação. Ele alegou que sua mãe planejou para ter parte da fortuna Lan e fugir para o Brasil.

Zhan se mostrou ainda mais irritado, ironizando por fim.

— Quanto mais ouço desse homem, mais agradeço aos céus por ter me afastado de tudo.

— Toda essa história é triste demais, quando recebemos a notícia da queda do avião e com o resgate do corpo de sua mãe, Sr. Lan fez questão de trazer para China e surpreendentemente a cerimonia foi celebrada com o altar da família Lan. Alguns dias depois, recebi o telefonema da sra. Han avisando que Wang estava vivo.

— Não precisa contar o resto, essa parte nós sabemos. – QiRen a interrompeu.

— Claro Sr. QiRen, eu quero apenas contar a minha parte nessa história. O Sr. Lan o abandonou e eu o convenci de que deveria enviar uma quantia mensal para calar a Sra. Han, afinal o exame de DNA acusou negativo na paternidade, porém na maternidade era fácil de provar já que o irmão Huan poderia ser testado e comparado que ambos são filhos da mesma mãe. – Sra. Liu suspirou entristecida. – Convenci que seria um escândalo se descobrissem a verdade. Então, para não levantar suspeitas, Sr. Lan depositava o valor em minha conta e eu enviava a Sra. Han. Seu estado era grave e precisava de tratamentos, o medo era ser abandonado em um abrigo ou não resistir no hospital, me desesperava. Ao menos esse dinheiro serviu para curá-lo e poder se erguer.

Zhan demonstrava indiferença quando se levantou e caminhou pela sala. Ele se recordou que a ex-secretária queria que Wei Xian estivesse presente na conversa, virou-se e a questionou:

— O que Wei Xian tem a ver com tudo que me contou, já que queria falar com ele?

— O filho do sr. Wei foi enganado pela sua mãe. Ele acreditava que você estava indo com ela para o Brasil por vontade própria.

Zhan olhou para Huan e suspirou dizendo:

— O motivo que eu desisti e fui viajar.

— Eu suponho que ela tenha usado o jovem Wei para conseguir convencê-lo a viajar.

Huan olhava para Zhan que estava de pé em frente a varanda do apartamento, ele olhava para fora e sua expressão era distante e cada vez mais fria.

— Sra. Liu, Wang e Xian brigaram um dia antes da viagem. – Huan a questionou.

— Eles brigaram? Então, acho supus errado, desculpas, se imaginasse… – Ela suspirou. – Eu não teria promovido o reencontro de ambos.

Zhan abriu os olhos ligeiramente surpreso e voltou para encarar a tela do notebook. Huan estranhou e olhou para QiRen que aparentemente sabia o que ela estava falando. Ele fez um gesto para deixar a Sra. Liu falar.

— Promoveu nosso reencontro? – Zhan estava ansioso quando a questionou.

— Sim, seu me sentia muito culpada e com um peso enorme que não me deixava em paz. – Sra. Liu fez uma pausa para enxugar as lágrimas que escorriam pela face. – Eu tinha contatos no Brasil e com ajuda da Sra. Han, usei esses contatos para que seu currículo e indicações fossem entregues na empresa JW S/A e com isso, Wei e Wang se encontrassem.

Zhan e Huan ficaram surpresos se olharam, afinal para eles o que parecia ter sido um reencontro ao acaso fora orquestrado pela Sra. Liu e a tia adotiva de Zhan.

— Tia Han não me contou. – Zhan sentou e suas mãos começaram a soar frio, uma leve tremedeira correu por todo corpo.

— Eu a convenci em deixar acontecer, a Sra. Han dizia que o jovem Wang questionava-a constantemente e estava tentando superar o trauma do avião para ir a China. 

— Sra. Liu, não teria sido mais fácil ter nos procurados? – Huan a intimou.

— O que eu poderia fazer? Estava em uma situação delicada e o medo de se tudo viesse à tona. A pessoa que estava acobertando todos os erros do Sr. Lan era eu. Muitas das vezes fui ameaçada pelo Sr. Lan que se algo vazasse era por minha culpa. – Entristecida voltou o olhar a Wang. – Foi o medo que me fez ficar calada, então, acreditei que se Wei Xian e Lan Wang se encontrassem, ambos descobririam e seria mais fácil provar minha inocência, já que fiz tudo sob pressão.

Zhan olhou para o tio e depois para a sra. Liu, ele não tinha o que dizer, afinal tudo aquilo era só por ele não ser filho legítimo? Era inacreditável que pudesse ter passado por tantas situações ruins sem ao menos ter culpa do que aconteceu. Então, Zhan se levantou e disse para encerrar o assunto definitivamente.

— Sra. Liu, meu desejo nesse momento é poder permanecer neste país, não ser deportado e poder cuidar de meu filho que vai nascer. – Curvou a cabeça e se levantou. – Espero contar com sua ajuda em corrigir esse erro, no mais é seguir com nossas vidas deixando o passado enterrado com esse homem. – Zhan olhou Huan e curvou levemente a cabeça saindo por fim da sala e indo para seu quarto, precisava de um momento sozinho para absorver tudo e controlar-se, já que estava sentindo um ódio imenso em seu coração.

Huan observou Zhan sair da sala, seu coração estava dolorido pelo irmão. Realmente, muito do que Wang passou na infância e adolescência fora abusos e cobranças além do normal. Tais palavras de humilhação e rebaixando a nada eram ditas e ninguém ousou enfrentar ou mesmo intervir por ele.

Lan Huan se culpou por ter sido negligente.

Lan QiRen se culpou por ter notado que algo estava errado e mesmo assim ter sido ludibriado pelo irmão.

Desde daquele dia o menino sorridente e curioso desapareceu, dando lugar a uma criança apática que mal falava. Vivia trancado em seu quarto e muitas das vezes demonstrava medo com pessoas que falavam alto. Ele se encolhia na frente do pai e não o olhava.

Huan tinha 12 anos na época e achava que era um momento, ou mesmo o jeito de seu irmão. Wang a cada ano se tornava cada vez inexpressivo, um semblante sem emoção era o que ele apresentava em todos os lugares que a família Lan, muitos comentavam que aquele menino era uma criança estranha.

Quem imaginaria que fora as palavras duras e odiosas vinda de seu pai que tornaram Wang o que era. Aquelas palavras que por todos os anos eram repetidas: estorvo, não me serve para nada, idiota e imprestável… Não fale, não corra, não brinque, não sorria…

Quando Wang tinha 7 anos, Huan que tinha 16 anos e estava no final do ensino médio, se preparando para prestar o concurso e entrar para faculdade, tinha imensa preocupação, afinal seu irmão não tinha amigos na escola, só saída do quarto para a aulas, não tinha diversão, somente estudava. Ele o forçou a ir à escola sozinho, nesse dia quando o encontrou no portão de saída no final das aulas com Wei Xian ao seu lado segurando a barra do casaco de Wang mal pode acreditar que seu irmão havia feito um amigo.

Aquele pequeno garoto sorridente que não parava de falar foi o que salvou Wang de uma imensa solidão. XianXian o tirou do quarto vazio e lhe mostrou o mundo, Huan sentia-se aliviado e incentivou mais e mais aquela amizade.

— Eu sou XianXian o melhor amigo do Wang-gege. – Largo sorriso adornou a face do pequeno.

— Irmão, ele é chato. – Wang tentava puxar a barra do casado da pequena mão de Xian. – Não é meu amigo.

— Hahahahaha Wang-gege é engraçado. – Xian soltou a barra do casaco e o agarrou pela cintura. – Meu amigo, me salvou do monstro cheio de dentes.

Huan sorriu se divertindo com os dois meninos.

— Sai, chato! – Wang tentava se soltar dos braços de Xian.

— Wang, calma! – Huan interveio. – XianXian está sendo grato, que bom que tem um amigo tão bonitinho e divertido.

Wang suspirou e virou o rosto desistindo de se soltar. Xian tinha os olhos abertos e luminosos quando foi chamado de bonitinho, soltou Wang e voltou a segurar a barra do seu casaco, tagarelando sem parar.

Huan mantinha a mente naquelas lembranças, seu irmão passou por tantos momentos ruins que não conteve o choro angustiado.

— Eu falhei com você, Wang… – Murmurou se culpando. – Eu não o protegi.

✽ • ✽

— Olá meninas bom dia! – Bel entrou pela porta principal do salão que trabalhava no shopping Rio Sul, era início da manhã.

— Olá bom dia, Bel! – A recepcionista a cumprimentou.

Carol entrou no local logo em seguida carregando sua maleta de maquiagens, apresada foi direto para sua mesa.

— Bom dia, bom dia, bom dia… – Falou com todas e olhou para a amiga. – Bel e ai alguma mensagem do Zhan?

Bel preparava sua mesa para receber as clientes agendadas para diversos serviços que faria no dia, de cortes de cabelo a escovas. Fazia anotações na agenda enquanto olhava a tela de seu smartphone.

— Nenhuma mensagem, quando saiu pela manhã ele indo para a empresa, não estava com a cara muito boa. – Bel suspirou, antes de ir ao trabalho, Zhan contou a ela brevemente o que aconteceu na reunião cedo com seu tio. – Foi muita coisa chata.

— Nossa, imagino. – Carol demonstrava preocupação. – Meu amigo só tem levado bordoada em cima de bordoada, nada de bom vem dessa história?

— Se não fosse pelo irmão Huan e o tio QiRen, arrisco dizer que era melhor nem ter descoberto nada de seu passado. – Bel suspirou. – Ele anda muito calado, amuado e isso me preocupa.

— Quando você me contou, fiquei preocupada com ele, meu amigo não está bem. – Carol continuava a ajeitar seu kit de maquiagem. – Bel fico com medo dele voltar a ter as crises.

— Ai! Carol, vira a boca para lá… – Bel parou as anotações e olhou para a amiga. – Eu tento não pensar, por isso falei para ele conversar com a Dra. Odete, conseguiu marcar uma hora com ela.

— Que bom. – Carol notou o semblante da amiga e sabia que tinha algo mais. – E você, como está diante disso tudo?

Bel olhou para Carol uns segundos antes de dar de ombros e voltar a sua agenda de clientes do dia. Respondeu um tanto apática.

— Eu sinto do mesmo jeito, Zhan tem evitado falar muitas coisas comigo e tenho que puxar assunto para saber o que está acontecendo. – Suspirou baixo. – Eu sei que não é um momento bom para ele, mas sinto que ele não está confiando em mim para se abrir.

Carol sabia bem o que era aquele sentimento e disse a Bel de forma até mais rígida que antes.

— Bel, não quero ser do contra e muito menos pessimista, mas não é de hoje que Zhan se mostra assim para você. – Carol caminhou para perto de Bel. – E sabe bem que não é de agora, ele descobrir sobre seu passado só fez vir à tona que ele sempre se queixou.

Bel esboçou um ar descontente ao ouvir aquelas palavras, apesar de não gostar, sabia que eram verdadeiras. Zhan sempre se queixava de se sentir vazio e deslocado, que precisava descobrir essa sensação oca que tinha em seu coração.

A terapia ajudava a aliviar, as medicações controlavam as crises de ansiedade, porém não permitia que Zhan se sentisse melhor daquele vazio.

— Eu sei, mas apesar de tudo somos amigos e sempre contamos um com outro. Eu não quero que ele sofra, afinal foi tanto tempo juntos que deveria ser levado em conta.

— Eu te entendo, acho que o melhor a fazer é conversarem, mas deixa a poeira baixar e então resolvam com o coração aberto. – Carol voltou para sua mesa. – Zhan sempre te ouve no fim das contas, só espera ele passar por essa fase chata.

— Claro, acho que o ideal é está presente para caso ele precise. – Olhou a hora para a primeira cliente do dia. – Eu só quero que tenhamos sempre um ao outro para contar, nosso filho precisa de nós.

“E mesmo que algo aconteça e mude o rumo de nossa história, ainda quero poder contar com Zhan.”

Carol concordou e ambas voltaram ao trabalho atendendo as primeiras clientes com hora marcada.

✽ • ✽

Zhan passou o dia focado no trabalho, pediu a Huaisang que o liberasse uma hora mais cedo para a consulta com a sua terapeuta. Em troca compensou dispensando a hora do almoço para adiantar o serviço e comeu em sua mesa.

As 17 horas, saiu do trabalho e foi direto para sua consulta, o consultório da Dra. Odete ficava em Botafogo. Huan combinara com Zhan de ir à consulta, para que pudessem conversar e claro contar com o testemunho da doutora. Este se direcionou ao local onde aguardou Zhan chegar.

Dra. Odete era uma senhora elegante de cabelos grisalhos, sua voz era bem tranquila e gostava de esboçar um sorriso divertido.

Zhan desde que descobriu sobre seu passado vinha informando-a dos acontecimentos então, quando foi a consulta ela já sabia de boa parte do assunto e se prontificou de imediato a testemunhar para seu paciente.

— Lan Huan, fico contente em lhe conhecer. – Estendendo a mão gentilmente convidou-os a sentarem.

— Dra. Odete não imagina como estou contente e claro muito grato pelos cuidados que presta ao meu irmão.

Odete olhou Zhan com imenso carinho, mesmo que fosse uma relação de paciente e médica, com tantos anos que cuida dele já o via muito mais que isso.

— Prefere que eu fale em mandarim sr. Lan? – Ela se empolgou. – Zhan me ensinou, acho que é uma boa oportunidade de praticar. – Sorriu piscando para Zhan.

Zhan concordou esboçando finalmente um breve sorriso.

— Interessante, claro. – Huan se animou.

A conversa entre eles se desenvolveu de forma natural, como se o trio fossem velhos amigos se encontrando para papear. Odete ouvia tudo e vez ou outra questionava Zhan sobre o que sentia.

— Irritado. – Respondeu depois de suspirar.

— Não o julgo, quando soube de tudo me senti revoltada. – Odete olhou para Huan. – Eu acompanhei, desde que saiu do hospital, a sua recuperação era sofrida e muito desgastante. – Voltou a olhar Zhan. – Eu quero que se sinta melhor, mas não vou mudar sua medicação, estamos evoluindo para que algum momento não precise mais tomar. Em vez disse, vou pedir que você não o guarde os sentimentos que vem aparecendo desde que tudo isso começou, não se cale e não se isole. Fale Zhan, mas no seu momento sem cobranças ou mesmo obrigações.

Zhan olhava a Dra. Odete concordando no fim, olhou o irmão e disse:

— Irmão, gostaria desse momento conversar somente com a doutora.

— Claro, não precisa nem pedi. – Huan se levantou e despediu de Odete, saindo da sala para aguardar Zhan na recepção.

Tão logo ficaram a sós, Zhan relaxou.

— É sobre Wei Xian e Anabel quer falar, certo?

— Hm. – Zhan confirmou.

— Como eles estão?

— Wei Xian ao que parece está em um relacionamento com um brasileiro.

— Hum, interessante. – Sorriu ao notar uma oscilação nos olhos de Zhan, concluindo ser ciúmes. – E ao que parece isso o incomoda.

— Eu descobri muito sobre nosso passado, éramos um casal com planos e minha vinda ao Brasil foi uma interrupção de nossa relação. – Zhan ofegou. – Ele estava mal com isso e de repente aparece sorrindo e com esse rapaz ao lado.

— E você concluiu que ambos estão juntos…

— Dra. Odete sabe que é de nossa cultura contatos tão próximos sem não for de alguém muito íntimo. – Zhan deu com ombros. – Eles estavam bem íntimos a meu ver.

— Entendi, e tem lhe despertado outros sentimentos. – Odete ficou pensativa. – Ciúmes?

Zhan ergueu o olhar a ela e confirmou levemente com a cabeça.

— Não é certo, já que não somos nada um do outro e eu tenho a Bel que está grávida. – Resmungou. – Eu não entendo o fato de sentir tantas coisas por ele sem nem me lembrar de nosso passado e o fato de ter me assumido gay e, no entanto, estou com a Bel, eu gosto dela é minha companheira.

— Sim, tudo que falou é valido e suas dúvidas são naturais diante de tudo que vem acontecendo nessas últimas semanas. – Odete girou a cadeira e olhou para sua estante de livros que ficava a suas costas. – Você viu os vídeos e artigos que lhe enviei? – Pegou um livro e voltou a ficar de frente a ele.

— Não li os artigos e vi alguns daquele depoimentos.

— O que achou?

— Eu achei interessante, fez sentindo em algumas coisas para mim.

— Se identificou com os depoimentos?

— Sim, por isso que estou mais confuso. – Zhan a questionou em seguida. – Existe algo assim?

— Sim, uma parte da sexualidade que vem sendo estudada alguns anos. – Odete sorriu e estendeu o livro a Zhan. – Patrick escreveu esse livro, meu filho conta nele tudo que descobriu sobre quem ele é e sua sexualidade.

Zhan pegou o livro e folheou, conhecia o rapaz até se simpatizava com ele, afinal algo era diferente em Patrick que acabou se identificando.

— Zhan, você tem grande chances de ser demissexual.

Zhan inspirou fundo e virou a face para a doutora, não conseguiu falar nada apenas esperou.

— Os sentimentos e até a relação sexual tem que estar ligada a conexão entre você e a pessoa que se relaciona, independente do gênero que ela apresenta. Você se imagina com alguém que para muitos são extremamente belos e sensuais? Não.

— Quer dizer que preciso amar alguém para me relacionar?

— Sim, amar e ser amado na mesma conexão, sem isso você não consegue manter nem contato físico. – Odete sorriu gentil. – Anabel no começo de sua relação era tudo que você precisava, no entanto mesmo se relacionando com ela, seus sentimentos eram do vazio.

Zhan começou a entender e seu coração palpitou ao lembrar de Wei Xian, com ele era diferente, sempre que estavam juntos, mesmo de forma formal no trabalho, se sentia bem e feliz. Era uma admiração e alegria que não conseguia explicar.

— Eu não quero magoar ninguém, principalmente a Bel, sinto que se fizer algo serei desleal com ela. – Zhan murmurou e seus olhos se encheram de lágrimas.

— Eu sei, por isso que é importante que converse sobre tudo que sente com ela, inclusive se desejar podemos marcar um encontro a três, para que Anabel entenda que o que te acontece não é culpa dela. – Odete compreendia aquela situação. – Não é culpa de ninguém na verdade e você em nenhum momento seria desleal com Anabel.

Zhan concordou e um pouco tremulo se ajeitou na cadeira.

— Eu falarei com ela e marcaremos uma consulta.

— Ótimo. – Odete olhou a hora e pegou seu receituário. – Vejamos, primeiro de tudo quero que continue a medicação para evitar as crises. – Enquanto prescrevia no bloco falou a ele. – Sobre seu ex-chefe, seria bom tentar olhar de fora a situação, uma vez eu lhe disse que supor algo que viu pode ser perigoso, procure ver de fato o que acontece antes de concluir. – Sorriu e estendeu a receita para ele. – E sei que você é bem mais capaz de notar a situação de diversos ângulos que muita gente que eu atendo nesse consultório.

Zhan pegou a receita e olhou, guardando na mochila. Olhou para a doutora e disse:

— Eu quase me afoguei na praia.

Odete arregalou os olhos assustada. Zhan sorriu em seguida e acenou para ela não se preocupar.

— Wei Xian veio falar comigo depois de semanas me ignorando. – Zhan corou leve a face. – Eu fiquei feliz.

— Viu só, nem tudo é o que parece. – Odete levantou e caminhou junto a Zhan até a porta, ao abrir viu Huan e se despediu deles. – Zhan cuidado na praia, vai me susto de novo hein!?

Zhan sorriu e colocou a mochila nas costas, olhou para Huan e saíram para retornarem para o apartamento, aquela noite de sexta estava apenas começando e ele queria chegar em casa e descansar.

Continua…

Obs: Falando um pouco de demissexual, eu quero que conheçam sobre a sexualidade e entendam que Zhan só se relacionou com uma mulher devido a essa ligação que teve inicialmente.

O que é demissexualidade?

Esse termo é utilizado para descrever uma forma de relacionamento diferente. Sendo que nele a atração sexual só aparece depois de estabelecido um vínculo psicológico, intelectual ou emocional. Ou seja, a pessoa não sente atração por uma pessoa apenas porque ela é bonita. É preciso conhecer o outro.

Além disso, a demissexualidade está em uma zona de indefinição localizada entre os assexuais (que não possuem nenhum interesse em sexo) e os alossexuais (que podem se sentir atraídos sexualmente por qualquer outra pessoa). Isso porque, para um demissexual, a conexão é o mais importante. Então, em alguns casos, ele pode aparentar não sentir atração por ninguém. Porém, a conexão, quando estabelecida, não depende do gênero.

Dessa forma, o que move a pessoa demissexual é a conexão. Esse é o fator que nos permite entender a demissexualidade, afinal, tudo depende desse vínculo quase transcendente com o parceiro. Sendo a conexão o que dá prazer aos demissexuais, o sexo aparece depois e não é o aspecto mais importante do relacionamento.

Fonte: https://www.psicanaliseclinica.com/demissexual/

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