Num sofisticado apartamento, localizado na área central da Cidade Limpa, vivia Triti. Tornou-se um homem de vinte e oito anos, dinâmico, portador de uma brilhante mente. Enquanto se preparava para sair para o trabalho, era seu costume assistir às notícias e variedades do jornal das sete, em seu projetor sensorial:

“Esta é uma receita muito fácil de torta de banana, canela e uvas passa. Sinta o aroma.” – Triti aproximou-se da imagem e deliciou-se ao sentir o aroma simulado pelo aparelho.

– Que delícia! Fiquei com fome. Bem, deixemos a gulodice de lado. Preciso ver como as coisas andam no mundo. Não tão diferentes, imagino. Projetor, canal cinco.

Com um simples comando de voz, o projetor holográfico sensorial saltou para o canal especificado. A notícia em destaque era sobre a execução de um prisioneiro num país asiático e o aparelho indagou:

– Para melhor realismo, deseja sentir a simulação do odor de sangue do executado, senhor?

– Claro que não! Não suporto isso. – Exclamou Triti, ao tomar o último gole de café. Pegou o cartão de identificação do veículo e saiu apressado. Neste mesmo instante, o neurofone anunciou a entrada de uma chamada.

“Agora não, que saco!” – Pensou antes de atender. Pressionou, então, um chip sob a pele do antebraço esquerdo. A imagem e som surgiram instantaneamente em seu cérebro. Verificou a identidade de seu comunicante. Era seu amigo Kleber:

– E aí, tudo bem? O que faz você no meu córtex visual assim tão cedo?  – Cumprimentou Triti, enquanto caminhava em direção ao veículo.

– Aonde vai desse jeito apressado? Posso ver seus batimentos cardíacos.  – Disse Kleber, de maneira irônica, já sabendo de seus costumeiros atrasos.

– Trabalhar, é claro.

– Imaginei que pudéssemos sair hoje e derrubar a casa. Conheci umas garotas maravilhosas.

– Talvez. Não garanto.

– Triti, posso te fazer uma pergunta indiscreta?

– Vá em frente. Aliás, desde quando você pede permissão pra perguntar alguma coisa?

– Está bem. Como você conseguiu um emprego na Nanobios Corp? Só contratam Potentes!

– Devo essa ao velho Ganimedes.

– Seu pai? Como assim?

– Um primo dele, de segundo grau, – Se não me engano se chama Waldir – ganhou muita grana e tornou-se um Potente. Isso graças ao meu pai.

– Como conseguiu ajuda-lo? Seu pai também não tinha a menor condição. Com todo respeito, é claro.

– É verdade. Meu pai não tinha dinheiro, mas era um inventor com mais de quinhentas patentes registradas. Foi aí que ele decidiu dar ao seu primo um de seus projetos, e ele apresentou-o à Nanobios. O projeto foi aprovado em caráter de urgência (aliás, não sei por que) e isso lhe rendeu um bom emprego.

– Então, foi o primo de seu pai que lhe conseguiu um emprego.

– Antes de morrer, meu velho entrou em contato com Waldir e pediu que olhasse por mim. Minha mãe nunca soube de nada. Com aquele seu jeitinho ganancioso, ela causaria um enorme desconforto à família.

– Puxa! Que sorte!

– Não acho que tenha sido sorte. Fiz mesmo por merecer. Passei anos debruçado sobre livros, estudando tudo o que podia sobre microbiologia e biotrônica. Tornei-me especialista nestas áreas e hoje ministro aulas para os Potentes.

– Você se tornou um Potente, não? Deve ter implantado nanobots de última geração, certamente.

– Não mesmo. Optei por ser natural. Uma denominação mais adequada para substituir o termo Selvagem. Preferi seguir a filosofia de meu pai. Ele sempre acreditou que os nanobots violam a natureza.

– Como podia ter tanta certeza? Ser um Potente é o que há. Sem doenças, sem limitações, meu caro. Falando nisso, preciso fazer uma nova atualização.

– O corpo é seu. Tenho de ir agora. Entro no seu cérebro depois.

– Tudo bem, Triti. Me liga mesmo, tá? Vai ser divertido.

Triti aproximou-se do veículo que se abriu automaticamente após o reconhecimento fisionômico. Sentou-se e o sistema foi acionado, juntamente com a mensagem de saudação.

– Bom dia, senhor. Espero que tenha tido uma ótima noite de descanso.

– Sim, foi ótima. Vamos para a Nanobios, por favor.

– Imediatamente. Devo alertá-lo que teremos que traçar uma rota diferente, senhor. Uma das ruas que conflui para o nosso trajeto foi interditada devido a um grande acidente.

– Acidente? Que tipo de acidente?

– Desconhecido, senhor.

– Tudo bem. Podemos seguir.

Enquanto o veículo trafegava ao longo de uma rua paralela àquela interditada, a certa altura, Triti pôde ver a esquina bloqueada por unidades móveis da polícia. Com a curiosidade aguçada, o rapaz parou. Em seguida, ordenou:

– Entre na próxima travessa e estacione. – Rapidamente, o veículo cumpriu a ordem. Triti saltou e caminhou em direção a um oficial. Em meio à confusão, perguntou:

– O que houve?

– Não sabemos. Morte de causa desconhecida. O indivíduo simplesmente desintegrou. Por favor, estamos pedindo a todos que retornem aos seus veículos para que possamos proceder com a investigação. Aqui não é um lugar seguro.

– Sim, claro. – Concordou Triti, porém, ainda muito curioso com o misterioso fato.

De volta ao veículo e impressionado pelo ocorrido, mal se dera conta de que já havia chegado à Nanobios Corp. Uma arquitetura piramidal espelhada simbolizava o poder científico, a Meca de todas as ciências, ali integradas. Uma organização gigantesca, ramificada em centenas de setores técnico-comerciais.

A Nanobios obrigava que todos os projetos fossem mantidos em alta confidencialidade. Para acesso às dependências do complexo, a rotina de identificação biométrica de cada funcionário incluía verificar cento e cinquenta e seis pontos fisionômicos. Um procedimento que não levava mais do que alguns décimos de segundo. Triti tinha verdadeira aversão de ter de se submeter ao robô biométrico, mas o regulamento exigia.

Depois da entediante rotina de identificação, o elevador em espiral conduziu Triti, já atrasado, à sala de reunião. Seu chefe o aguardava impaciente, mas estranhamente sorridente:

– Bom dia! Como vai, nesta linda manhã? – Triti olhou para trás para certificar-se de que a conversa era realmente com ele. – “Ele deve estar irado comigo por causa do meu atraso.” – Pensou.

– Desculpe, senhor Ivo, é que aconteceu um acidente e…

– Tudo bem, meu caro. Precisamos conversar.

“Putz, serei despedido.”

– Sente-se aqui. Tenho ótimas notícias.

“Vai chutar minha bunda agora mesmo”.

– Apesar dos costumeiros atrasos, seu desempenho tem sido excepcional. Quem diria que um selva…, quero dizer, um emergente natural, pudesse ter tamanho destaque aqui. Suas aulas de biotrônica abriram as portas para novas linhas de pesquisas. Veja, sendo filho de quem é, a empresa até abriu mão de forçá-lo a se tornar um Potente e designou-o como um Natural. Uma classificação bem generosa e elegante. Eles foram bons com você. Além disso, tem se dedicado aos novos projetos aqui.

– Tenho me dedicado bastante, senhor Ivo. Prometo que vou chegar no horário daqui pra frente.

– Não me interrompa, rapaz e escute: hoje cedo fui chamado pela diretoria. Eles requisitaram sua transferência para o setor de pesquisas avançadas. O que acha? Acabei me antecipando e concordei em transferi-lo.

– Ma-mas… fui requisitado para qual unidade?

– Para a unidade de alta prioridade, setor Vermelho. Não me preocupei em obter muitos detalhes a respeito. Aliás, diga-se de passagem, não é qualquer um que é chamado para trabalhar numa área como aquela.

– Bem, sendo assim, acho que devo organizar minhas coisas e…

– Já estão organizadas. Só terá que levá-las ao seu novo setor. Uma equipe o aguarda.

“Que estranho!” – pensou Triti a coçar a cabeça sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo. Então questionou: – Assim tão rápido? Pensei que costumavam fazer uma proposta antes. Nunca conversei com ninguém que tivesse trabalhado no setor Vermelho.

– Também não faço ideia de como é trabalhar num setor de segurança máxima. Só sei que sua convocação não foi proposta, meu rapaz, foi… digamos… profissionalmente imposta. – Doutor Ivo segurou Triti pelo braço de forma a conduzi-lo de maneira forçosa para fora da sala:

– Bem, meu rapaz, foi um grande prazer trabalhar com você, e muito obrigado pela colaboração em nosso setor.

Depois de algum tempo parado no saguão do prédio, sem compreender o que havia ocorrido, Triti decidiu subir à sua sala para verificar se havia esquecido algo para trás. Ao abrir a porta, deparou-se com um rapaz que já ocupava seu lugar. Diante do computador, nem se deu ao trabalho de erguer os olhos para cumprimentá-lo.

Triti agachou para pegar uma caixa com o resto de seus pertences.

“Estranho… muito estranho. Nem mesmo fui comunicado pessoalmente.” – Conjecturou, imerso numa constelação de hipóteses. – “Pelo que sei, o setor Vermelho é de altíssima prioridade. Trabalhar lá é o mesmo que estar confinado num cárcere.”

Dirigiu-se receoso ao setor ao qual fora destinado. No posto primário de identificação, nem bem pronunciou seu nome, um segurança já possuía em mãos todos os seus registros e a respectiva autorização de acesso.

– Devo conduzi-lo à sala de seu novo supervisor. – disse de maneira fria, impessoal, quase robótica.

Caminharam lado a lado por um longo corredor sufocante, escurecido, estéril. O silêncio permitia ouvir somente o som dos passos e da própria respiração. O segurança deteve-se diante de uma porta fortemente lacrada. Após a identificação, ambos entraram. Sentado diante da escrivaninha de metal, havia um homem, mergulhado na penumbra, que o aguardava.

– Olá, Triti. É assim que o chamam, não é? Por favor, sente-se. Meu nome é Alfânio. – disse com voz misteriosa. – Vamos ao que realmente interessa. Imagino que sua cabeça deva estar cheia de perguntas. Sua convocação para trabalhar neste setor não foi mero acaso. Você se destacou devido ao seu conhecimento em biotrônica. Na verdade, o chamamos porque queremos proteger nosso país.

– Estamos em guerra?

– Há algo deu errado em um de nossos projetos. Os nanobots apresentaram mal funcionamento, uma espécie de anomalia. Isso causará uma catástrofe mundial. Temos de traçar uma ação para interceptar a epidemia que está por vir. Para isso, contamos com pesquisadores como você. Teremos oito gênios envolvidos em descobrir a anomalia. Contudo, por se tratar de algo secreto, terão conhecimento de somente partes do projeto. Cada um deverá trabalhar num único fragmento para se evitar o conhecimento do todo. No final, reuniremos as peças fundamentais.

– Volto à estaca zero e fico impossibilitado de perguntar qualquer coisa.

– Exatamente. – Ergueu-se da cadeira e completou. – Você deverá seguir as instruções que lhe serão dadas assim que deixar a sala. Um segurança o conduzirá ao local de trabalho. Dispensado.

O mesmo segurança que o acompanhara anteriormente, com pouco protocolo de boas maneiras, segurou-o pelo braço, e prosseguiu, com a escolta, para outra sala.

– Sente-se e aguarde. – Disse o segurança.

Triti acomodou-se numa cadeira. Olhou à sua volta. Não havia nada além de espaço vazio. Subitamente, ergueu-se do chão à sua frente uma esfera transparente que, de seu interior, emanava uma luz azulada. Emitiu um som metálico, uma imitação de voz humana, que pediu para que ele posicionasse sobre ela as mãos espalmadas. Uma luz branca pulsou forte assim que foi tocada. E a voz prosseguiu:

– Técnica avançada de reconhecimento está sendo utilizada. A frequência vibratória da molécula de seu DNA é aferida e registrada para futuras identificações. Ao posicionar-se diante de seu novo computador, este o reconhecerá como seu usuário autorizado. Caso a segurança seja violada, o sistema emitirá um alarme silencioso. O suspeito será detido. Em caso de condenação, deverá ser executado.

A voz metalizada, em monotonia fria, continuou:

– Antes do início das atividades, suas roupas convencionais deverão ser substituídas por roupas inteligentes, as R.I. Um sistema de localização implantado nos fios no tecido indicará sua posição. A R.I. Também monitorará seus sinais vitais, indicando o momento certo para se alimentar, descansar e até mesmo a hora para aliviar suas necessidades fisiológicas. Para aferição, responda a algumas perguntas:

– Qual é o seu nome?

– Triti.

– Primeiro nome completo.

– Trimegistro.

– Correto. Dispensamos o sobrenome.

– Idade. Procure dizer uma idade falsa.

– Cinquenta.

– Incorreto. Muito bem. – Já temos o que precisamos. Por favor, dirija-se à sua nova sala e tenha um ótimo dia.

– Já estou tendo.

– Resposta de natureza irônica. Boa sorte.

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