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Os órfãos de Eldarion – Capítulo 3 – Exército de Prata

 

Capítulo 3

O Exército de Prata

                                                                       

Fios de prata seguravam os guerreiros enquanto pulavam de um lado para o outro com seus arcos. Eles se prendiam as pilastras de sustentação das torres em carretéis de prata que pendiam de suas cinturas. Homens e mulheres vestidos em armaduras reluzentes se equilibravam nas pequenas gretas dos muros com suas lanças. Dificilmente erravam o alvo. E quando acontecia, começavam tudo de novo, numa rotina de pulos e saltos. Will só conseguia enxergá-los na sombra. O sol refletia um dourado em suas vestimentas cegando o oponente. O garotinho de cinco anos que caminhava ao seu lado tentava ver o treinamento, mesmo sabendo que era inútil olhar para cima enquanto houvesse luz do dia.

_ Como conseguem saltar desse jeito? – Perguntou para Will.

_ Com muito treinamento.

Um homem gordo vestindo um avental azul levou-os para o refeitório. Havia meninos comendo em pequenas canecas de barro. Uma menina de cabelos vermelhos se destacava do restante da trupe. Mantinha os olhos na comida, com receio de olhar para os lados. Parecia esquecida num canto, perdida em pensamentos que não gostaria de compartilhar com ninguém. Mesmo assim Will se aproximou, com  o menino de cinco anos ao lado.

_ Podemos sentar com você? – Perguntou com sua caneca de sopa.

Ela se afastou, dando espaço para eles.

_ Me chamo Will, e esse é o …. _ o órfão de Lotz não sabia o nome do garotinho recém-saído das fraldas.

_ Luke _ se apressou em dizer. _ É assim que me chamam em Terra Morta.

A menina assentiu com a cabeça.

_ Sou Rayssa das Terras Alagadas.

Os três se sentaram num banco só, olhando para os outros com reserva. Will buscou por mais sopa, assim como Luke. A menina não quis repetir, sentia-se satisfeita com o pouco que tomara. O cabelo vermelho dela contrastava com seus olhos negros e textura da pele.

_ Você pinta o cabelo? _ Perguntou Luke.

_ Não.

_ Por que é de pouca fala? Tua língua tá machucada é?

A menina pegou a sua caneca e foi para longe deles. Will constatou que de alguma forma Luke a irritara. No entanto, no auge dos seus 10 anos sabia que meninas eram assim mesmo: umas chatas de galocha.

_ O que foi que eu fiz? – Perguntou o garotinho de cinco anos.

Will balançou os ombros sem saber o que dizer. Ele olhou para Rayssa com interrogação, fazendo um trejeito estranho com a boca. Ela não retribuiu aos seus maus modos, deu de ombros para as coisas chatas dos meninos. O órfão de Lotz tomou mais um pouco de sua sopa, sem perceber que ela mostrava a língua para eles.

A noite veio mais rápido do que imaginaram. Todos as crianças foram colocadas no pátio, com cobertores de algodão e um travesseiro de pena. Will procurou por Luke, que logo se aconchegou ao lado de Rayssa. Os três deitaram juntos, olhando para as estrelas que brilhavam no céu soturno.

_ De onde vocês acham que veio o dragão ? _ Perguntou a órfã de Terras Alagadas.

Will não quis revelar o que sabia. Tinha medo de colocar em risco a vida de Banshee.

_ Talvez de um outro mundo _ respondeu olhando para a lua.

_ Vocês viram os olhos dele? _ Luke sussurrou com as mãos na boca. _ Pareciam feitos de fogo.

_ Eu não cheguei tão perto assim, fiquei com tanto medo que me escondi no lago.

_ São olhos mortos, de coisa ruim mesmo.

O menino de Lotz continuou calado, sentindo a terra quente nas costas. Lembrava-se muito bem do suspiro do dragão na sua face. Jamais esqueceria aqueles olhos de fogo encarando-o de forma traiçoeira.

_ Acho melhor pararmos com a prosa. Amanhã começa o treinamento, vamos precisar de descanso _ disse mudando o rumo da conversa.

_ Você tem medo do dragão, Will? _ Perguntou a menina.

_ Eu não tenho medo de nada.

Mentiu para fazê-la calar a boca.

Não demorou para que pegassem no sono. Inúmeras tochas iluminavam as Montanhas de Lys, assim como a estrada de acesso ao portão de Sentz. Homens trabalhavam no muro, fazendo a ronda do perímetro. Carregavam seus arcos e flechas nas costas, sempre atentos aos movimentos nas árvores. Nada passava despercebido aos olhos dos Guerreiros de Prata, nem mesmo o coaxar de um sapo.

***

Quando o silêncio abraçou as serranias de Mythos, uma lufada de vento apagou as tochas nas montanhas. Will levantou sobressaltado, acordando Rayssa e Luke.

_ O que foi? – Perguntou a menina esfregando os olhos.

_ Vocês estão escutando o barulho?

Um vento forte soprava do norte com sons ritmados de asas.  Eles se levantaram prestando atenção nas folhas das árvores que sacudiam como numa tempestade. Os Guerreiros de Prata pareciam em suspensão, com seus arcos e flechas nas mãos. O que os recebera no portão viu que estavam acordados.

-Se escondam no refeitório. Ficarão seguros lá.

Will puxou Luke pelos braços, forçando-o pelo caminho. Rayssa sentiu a quentura no rosto assim que olhou para uma das torres. Os outros órfãos foram acordados pelo guerreiro da velha guarda e empurrados rumo ao refeitório. Sem fazer barulho, Eldarion surgiu do morro, avançando com sua bocarra de fogo. Os Guerreiros de Prata lançaram suas flechas. A criatura planou sobre Sentz, esparramando labaredas pelas torres. Elas começaram a se desfazer, estatelando destroços pelo pátio. Os órfãos gritavam em meio aos tijolos retorcidos.

_ Corram! Depressa! Entrem no refeitório! – Gritou o homem gordo da canja.

Um jovem Guerreiro dos muros preparou sua lança. Quando percebeu a aproximação do Dragão, arremessou-a rumo ao coração da besta. Uma de suas asas desviou-a para longe, fazendo um giro de 360º sobre seu próprio eixo. Por um tempo a criatura alada sumiu na bruma, para depois reaparecer entre as montanhas de Lys.

_ Corram!

Eldarion avançou sobre o pátio, queimando o que via pela frente. Sua boca escancarada lançava chamas nos cobertores esparramados pelo chão. Os gritos ensandecidos das crianças irritavam a criatura, que jogava seu rabo nas fundações do muro de Sentz. Ele o derrubou com apenas três estocadas, ceifando a vida dos guerreiros que se equilibravam nele. Will puxou seus amigos para baixo de uma das mesas. Havia sangue no rosto da menina.

_ Precisamos encontrar um poço – disse para Luke.

_ Eu não vou sair daqui. O homem disse que estaríamos seguros no refeitório.

Os outros órfãos se espremiam nas curvaturas das paredes.

_ Você precisa, Luke. Vamos morrer se continuarmos aqui.

Rayssa puxou-o pelo braço. Luke começou a chorar.

_ Precisamos nos esconder do fogo! _ Gritou Will para os outros órfãos.

Eles deram de ombro para seu conselho e continuaram se espremendo nas mesas. Will seguiu Rayssa pelas chamas, com medo de encarar Eldarion.

_ Olhe! – Disse Luke apontando para o Dragão.

Os Guerreiros de Prata lançaram suas linhas sobre ele, tentando imobilizá-lo. Os carretéis se esticaram ao máximo, rangendo com a força de mil homens. As armaduras reluzentes brilhavam no breu da noite, deixando o Dragão confuso. Seus olhos de fogo se dilataram quando o Guerreiro da velha guarda tentou acertá-lo no coração. Sua lufada de fogo acertou-o no peito, jogando-o sobre Will. Os órfãos tentaram levantá-lo, mas Eldarion escancarou sua bocarra sanguinária rumo ao pátio. Os meninos se abaixaram deixando que as chamas consumissem o corpo do guerreiro. Rayssa puxou-os pelas mãos para que saíssem do transe.

_ Precisamos encontrar o poço _ gritou contra o vento.

Os três correram para uma das torres. Não havia luz no lado de dentro, apenas o fogo bravio das chamas. O teto se espatifou quando tentavam se esquivar dos destroços, fazendo com que Luke gritasse como um corvo na carniça. Will pegou-o no colo, correndo para os fundos da Torre.

Do lado de fora, Eldarion se debatia com suas asas, afastando os Guerreiros de Prata. Ele voou sobre eles e a favor do vento. Com uma única lufada esparramou fogo sobre o que sobrara do muro. Em outro voo rasante, queimou o refeitório. Os órfãos correram para o pátio enquanto Will, Rayssa e Luke se enfiavam nas entranhas da torre.

_ Não estou vendo nenhum poço – Luke tremia nos braços de Will.

_ Mamãe dizia que as carnes são guardadas em lugares refrigerados nos castelos. – Rayssa buscou pela cozinha. – Podemos nos esconder lá dentro.

Will colocou Luke no chão para que ajudasse a empurrar as portas. As asas de Eldarion sobrevoavam a torre, lançando uma sombra mortiça sobre os órfãos. Vez ou outra ouvia-se suas lufadas de fogo.

Os três tatearam no escuro, procuravam por uma parede gelada. Luke conseguiu destrancar uma das portas perto da bancada do fogão.

-Achei! – Gritou para os amigos.

Eles se arrastaram para dentro de um cubículo escuro e úmido.  Havia vacas inteiras dependuradas no teto, assim como pernis defumados. Will escutava a respiração acelerada de Luke, enquanto Rayssa abraçava os joelhos.

-Ele ainda tá lá fora? – Perguntou o garotinho recém-saído das fraldas.

Rayssa maneou a cabeça.

O ataque do dragão destruiu todas as construções de Sentz. Escutava-se o rachar das pedras, o barulho dos tijolos caindo do teto. As lufadas de fogo exalavam o cheiro da morte, levantando fuligem e chamas. As cinzas começaram a entrar pelas janelas destruídas, como uma neve sorrateira e escura.

O bater das asas tornou-se uníssono entre as Montanhas de Lys. Depois se diluiu na noite, se esparramando pelas serranias. Will foi o primeiro a colocar a cara para fora. Luke veio logo atrás, esperando que Rayssa os acompanhassem.

_ Você não vem? _ Perguntou para ela.

A menina demorou para ficar de pé. Quando o fez, voltou seu olhar para os meninos. Os três empurraram a porta com leves empuxos. Um rangido fez com que se afastassem com os olhos esbugalhados de dúvidas. Não havia nada do lado de fora, apenas destruição.

Eles caminharam para o pátio de fuligem; as cinzas caindo no cabelo, as roupas molhadas pelo calor intenso. Havia chamas nas copas das árvores e chão quente. Os órfãos haviam desaparecidos junto com o Exército de Prata. Luke segurou a mão de Will, Rayssa fez o mesmo. Ficaram alguns minutos acabrunhados sobre a destruição. O menino de Lotz foi o primeiro a deixar os portões de Sentz.

_ Aonde você vai, Will? – Gritou Rayssa vendo-o sumir na escuridão.

_ Matar esse maldito dragão.

Os órfãos correram para alcançá-lo. Precisavam trabalhar juntos se quisessem vencer Eldarion.

 

Annie Lennox – Into the West (lyrics)

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