Não posso dizer que sou um herói, ou nada do tipo, minha vida não é nada fantástica, na verdade somos só eu e mamãe morando em uma casa alugada no subúrbio da cidade. Não posso negar que eu gosto daqui, é um lugar tranquilo sem muito barulho e perto da natureza, uma vista perfeita.
Mamãe trabalha o dia todo como gerente de uma rede de farmácias, cuidando de autorizações, recebimento e despacho de medicamentos entre outras coisas, e por causa disso eu passo a maior parte do tempo sozinho, com minhas histórias, livros e jogos.
Eu sou uma criança feliz apesar dos poucos amigos, os verdadeiros, para falar a verdade eles não me fazem a menor falta.
Minha casa fica em frente a um pequeno parque, rodeado por arvores dos mais diversos tipos e tamanhos, o que dá um frescor diferente ao local. Da janela do meu quarto eu posso ver o sol se esconder por de traz da copa das arvores do parquinho o vento traz consigo o aroma das flores e a intensa gritaria das brincadeiras infantis.
Daqui eu vejo tudo o que acontece do lado de fora, as pessoas que passam apressadas para o trabalho, babas olhando as crianças brincarem no parque enquanto jogam conversa fora, casais de namorados apaixonados vendo o sol se por.
Apesar de tudo, gosto de ficar no meu canto observando as coisas acontecerem. Mamãe sempre me manda sair do quarto, brincar com as outras crianças, mas eu simplesmente não quero, não depois do que aconteceu há três anos.
Prefiro o mundo dos livros, onde minha imaginação pode ganhar asas e voar além do que os olhos podem ver. Aqui posso derrotar dragões, salvar princesas em meu cavalo ou simplesmente visitar o mundo das fadas, ou qualquer outra coisa que minha imaginação me permita fazer. Mamãe lê para mim todas as noites antes de dormir, ela diz que este é o nosso momento especial do dia, o momento em que podemos nos dedicar um ao outro sem interrupções. Às vezes eu conto histórias para ela também, historias inventadas em momentos de tédio ou às vezes sonhos onde eu sou o protagonista capaz de realizar qualquer coisa que minha imaginação permitir. “Você é capaz de fazer qualquer coisa meu pequeno. Basta apenas acreditar.” Ela sempre diz sorrindo enquanto me beija a testa.
Eu sempre sorrio em resposta, ela afaga meus cabelos negros antes de apagar a luz do abajur ela diz baixinho ao meu ouvido. “Sonhe com os anjos, meu menino.”
Em poucos segundos eu adormeço.
Ao abrir os olhos eu não estou mais no meu quarto, estou em uma caverna escura, ao meu lado uma garota muito bonita, trajando roupas simples e uma sacola a tira colo. Ela esta de olhos fechados com as mãos unidas em oração.
– Albert, eu preciso da sua ajuda.
– Você conhece o meu pai?
Ela me olha com ternura e cheia de esperança e antes que ela possa responder qualquer coisa à cena muda novamente.
Agora eu estou em uma caverna e dentro dela a mesma garota está presa em um cristal de gelo, envolta por um brilho vermelho. Ela tem as mãos postas em uma prece.
Então… Eu me aproximo.
— Albert — seus lábios não se movem, mas eu ouço seu nome mais uma vez. — Me ajude! Ele não pode se libertar, não esta noite.
De repente da escuridão surgem um par olhos amarelos e um sorriso macabro, então eu vejo sua face.
— Ele não pode ajuda-la princesa! — Uma voz gutural a interrompe, e avança em minha direção. – Meus lacaios já deram um fim nele, muito tempo antes dessa sua jornada começar.
– Mentira… – Ela grita em desepero.
Suas garras a seguram pelo braço forçando-a a se aproximar, então um grito meu rompe o silencio. Finalmente acordei desse pesadelo.
Minha respiração parece falhar ofegante, meu coração está tão acelerado quase saindo pela boca eu estou molhado de suor.
Tudo não passou de um sonho, ou melhor um pesadelo, mas me pareceu tão real. Eu nunca tinha passado por isso. Uma sensação de impossibilidade e de medo.
Eu tive medo!
Mamãe adentra meu quarto às pressas. Ela foi acordada pelo meu grito de pânico.
— O que houve? — Ela pergunta abrindo a porta às pressas sentando-se ao meu lado.
— Um monstro… — Eu digo chorando
— Foi só um sonho ruim meu filho. — Ela diz se aninhando junto a mim na pequena cama de solteiro. — Já passou.
— Tudo me pareceu tão real.
– Tão real quanto o outro? – ela me pergunta lançando-me um olhar preocupado.
– Não como aquele. Tem uma garota, ela quer a ajuda do papai para alguma coisa.
– Ele não está aqui querido. – Ela diz me abraçando tão forte que eu quase não consigo respirar.
Naquele abraço eu me sinto protegido, é como se uma redoma protetora se formasse ao meu redor.
— Sonhos tem esse poder meu querido, mas num piscar de olhos eles desaparecem.
— Eu sei. — Respondi baixinho.
— A mamãe está aqui, não precisa mais se preocupar. — Ela diz me fazendo um carinho. — Isso só prova uma coisa.
— O que?
— Você tem assistido muita TV ultimamente, então nada de TV pra você, pelo menos por enquanto.
— Ah mamãe.
— Foi só um sonho, nada além disso. — Ela disse se levantando. – Tente voltar a dormir. Amanhã você tem aula e eu trabalho bem cedo.
— Tudo bem.
— Vou deixar a porta aberta e a luz do corredor acesa, qualquer coisa é só me chamar.
Mais uma vez mamãe apaga a luz e fecha a porta, mas não por completo deixando uma pequena brecha que permite que a luz do corredor entre pelo meu quarto.
Fecho os olhos mais uma vez tentando dormir novamente mas meus pensamentos me levam de volta ao sonho.
Como pode ser possível eu vivi tudo aquilo, como pode ter sido só um sonho?
O sono não vem, apenas a imagem daquela garota que me pede ajuda, seus olhos azuis e sua voz doce me pedindo socorro. E eu não fui capaz de ajuda-la.
Seu rosto triste invade minha mente mais uma vez e com ele o olhar amarelo do mostro sorrindo maliciosamente se divertindo pela minha incapacidade em poder ajuda-la. Um sonho que se repetia noite após noite sempre da mesma maneira.
Quem é esta garota e o que ela quer com meu pai?
Um pedido de socorro ao qual meu pai não pode mais ajudar.





