(Nota: Para maior experiência, utilize fones de ouvido)
TORÚN, POLÔNIA, 2001 – NOITE.
Chove em Torún, uma belíssima cidade localizada na voivodia da Cujávia-Pomerânia.
Um casal está na sala montando peças de lego juntamente com a sua filha de 6 anos, Ewa.
O pai Józef e a mãe Anna estão muito contentes em ver a tamanha inteligência da filha com tão pouca idade. Anna tem 27 anos, cabelo loiro até os ombros. Józef tem 31 anos, alto, barba por fazer e cabelo castanho claro.
A pequena Ewa tem os cabelos loiros quase brancos, olhos claros e um rosto angelical. A pequena consegue montar uma casa de lego e sua mãe se orgulha do feito da filha.
— Muito bem, meu amor! Você conseguiu! Estou muito orgulhosa de você.
— Obri… Obrigada… Ma-mãe.
— Ow tão linda, minha pequena!
— Sei que a brincadeira está ficando boa, mas já está na hora de ir pra cama, mocinha. Vai dar 21h.
— Ah papai!
— Promessa é dívida! E já brincamos bastante por hoje.
— Teu pai tem razão, filha. Vamos dormir e amanhã prometo que trago mais jogos pra a gente brincar.
— Promete, mamãe?
— Claro que sim.
Józef segura ela no colo e a coloca na “carcunda”.
— Bem, está na hora de levar esse anjinho pra cama. Vamos!
— Oba! Cavalinho!
O pai sobe as escadas levando a filha até o quarto. Ao chegar lá, vemos que o quarto é abarrotado de bonecas e ursos de pelúcia em todo o lugar. Há uma boneca específica que fica sentada em uma cadeira próxima à janela, que sempre provoca um certo desconforto em Ewa.
Józef a coloca na cama.
— Prontinho. Vai dormir que nem um anjo nessa chuvinha gostosa.
— Pai, canta pra mim aquela música! Por favor!
— Não sou muito bom pra cantar, meu amor.
— Chama a mamãe e vocês dois cantam juntos, por favorzinho.
— Tá bom, tá bom. Anna! Anna, a tua filha quer ver a gente pagar mico.
Anna chega ao quarto.
— Sim, querido?
— Ela quer que a gente cante “Brilha, brilha estrelinha” pra ela.
— Ow, querida. Você já tem 6 anos, ainda quer mesmo que cantemos essas musiquinhas pra você dormir?
— Sim… Eu gosto.
— Bem, já que não temos outro remédio… Então vai lá!
Os dois começam a entoar a cantiga:
“Brilha, brilha estrelinha
Quero ver você brilhar
Lá no alto, lá no céu
Num desenho de cordel
Brilha, brilha, estrelinha
Baila, linda bailarina”.
Ao terminar a cantiga, ambos dão um beijo na testa de Ewa. Sua mãe a cobre com o cobertor enquanto o pai desliga o abajur.
Ambos dão boa noite e saem do quarto. Ewa se recosta na cama e fica olhando pra aquela boneca que está sentada na cadeira. Ela fica encarando a boneca por alguns segundos. Por um momento ela tem a sensação de que a boneca também a está encarando, então ela vira para o lado oposto para não ter que olhar para ela de novo.
Vemos que a boneca continua ali enquanto continuava a chuva lá fora.
É madrugada, a chuva continua a acontecer. Vemos todos os cômodos da casa. Sala de estar, cozinha, corredor…
Mas algo está errado.
No quarto da pequena Ewa, vemos ela tranquilamente dormindo. Está abraçada ao seu urso de pelúcia e um barulho é ouvido.
Ewa acorda. Continua a ouvir alguns ruídos abafados e que não ficam muito claros pra ela, talvez pelo som da chuva que persiste naquele lugar.
— Papai? Mamãe?
Ela espera que seu pai ou sua mãe lhe dê alguma resposta, mas nada é escutado após isso. Ela tira o cobertor, pões os pés pra fora da cama, calça suas pantufas, deixa o urso em cima da cama.
Ao dar os primeiros passos, ela percebe que aquela boneca que sempre ficava ali na cadeira, não está mais ali. Olhou nas prateleiras ao lado, pelo chão perto da penteadeira e simplesmente a boneca desapareceu. A princípio isso talvez não signifique nada pra ela, mas a garota ainda intrigada, decide sair do quarto.
Ao girar a maçaneta, ela vai para o corredor. Está escuro, mas a luz da lua está iluminando a janela do final do corredor que fica atrás dela.
— Mamãe? Papai?
Ewa vai caminhando pelo corredor e sente que algo está muito, mas muito errado ali. Seus pais não a respondem. O que poderia ter acontecido?
Ela toma coragem de ir até o quarto dos pais. Ao abrir uma pequena brecha da porta, ela pode ver apenas uma parte da mão de um deles estirada na parte de baixo da cama. Ewa fica com os olhos arregalados e sua respiração começa a acelerar. Com medo de entrar e possivelmente ver algo que ela não queria, ela fecha a porta bruscamente e se afasta para a outra parede do corredor.
Ewa está respirando ofegante, quase chorando, quando olha pra frente, vê aquela mesma boneca que ficava no seu quarto no final do corredor sentada e era possível ver sangue escorrendo pelo rosto da boneca.
Ewa fica olhando aquela cena assustada, talvez pensou: “A boneca está viva?”. Antes de concluir qualquer linha de pensamento, ela vê a sombra de alguém saindo da penumbra no final do corredor atrás da boneca e os passos firmes são ecoados no piso.
A pequena se assusta e sem olhar pra trás, corre para o seu quarto.
Ao chegar lá, ela fecha a porta, vai para trás ainda olhando para frente. A pequena ainda não tem certeza absoluta do que viu.
Ewa sobe na cama, se embrulha no cobertor. O medo invade o seu pequeno e jovem coração e ela não sabe o que fazer.
— PAPAI! MAMÃE!
A porta do quarto vai se abrindo lentamente. Vemos uma mão negra entrando pela brecha.
— VAI… VAI EMBORA!
Aquela coisa que não sabemos o que é, tira a mão da brecha da porta dando a sensação de que havia desistido. Até que ele abre a porta bruscamente e joga aquela boneca na cama de Ewa.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHH AHHHHHHHHHHHHHH!!!
Ewa vê algo se aproximando, mas a sua vista está turva, não sabe do que se trata. Até que ouve alguém chamar por seu nome.
— EWA! EWA!
— EWA!!
Olhos são abertos, e vemos uma Ewa já adulta e sentada em uma poltrona num escritório.
— Eu… Eu quase consegui! Mas não foi dessa vez. Sinto muito!
________________________________________________________________________________________________________________
OPENING:
__________________________________________________________________________________________________________________________
INTÉRPRETE DO TEMA DE ABERTURA “NUMB”:

R.I.P XXX TENTACIÓN
(1998-2018)
________________________________________________________________________________________________________________
CAPÍTULO 1:
“BRILHA, BRILHA, ESTRELINHA”
________________________________________________________________________________________________________________
VARSÓVIA, POLÔNIA- DIAS ATUAIS.
Ewa agora com 25 anos de idade, está mais uma vez passando uma tarde na consulta com a sua psicóloga, a Dra. Berta Nowak. Uma mulher de pouco mais de 40 anos, negra, usa um óculos de grau alto e brincos longos.
Ewa agora têm cabelos cacheados até os ombros e apesar de ser uma adulta, continua com uma aparência de ser bem mais jovem do que é.
— Não precisa se preocupar se não conseguiu dessa vez, Ewa. Tentar acessar suas memórias de infância é um processo longo e doloroso. E pra ser sincera, talvez você não consiga lembrar exatamente de tudo o que aconteceu pela idade que tinha na época.
— Eu sei disso, Dra. Berta, é que… Já faz tempo que eu tento me lembrar e… Ás vezes eu tenho esses sonhos, e toda vez que eu sonho, eu tenho a lembrança daquela noite, mas nunca consigo me lembrar exatamente o que aconteceu.
— Já faz 20 anos que seus pais faleceram, e conforme os dias vão se passando, nossas memórias da infância vão se perdendo.
— Eu só queria saber o que realmente aconteceu naquela noite, sabe? A única coisa que eu lembro depois foi de uns policiais chegando no meu quarto e eu estava escondida debaixo da cama. A única coisa que eu lembro ter dito pra eles foi:
“A boneca. Foi a boneca”.
— Você sempre me dizia que essa boneca sempre a assustava quando era criança, que você lembra claramente do rosto dela manchado supostamente de sangue. Por que acha que essa boneca tem algo a ver com o que aconteceu com os teus pais?
— Olha, eu não estou dizendo que a boneca ficou possuída pelo demônio e do nada surtou e matou os meus pais. Claro que imaginamos muitas coisas quando éramos crianças, mas… Eu soube depois que nunca encontraram essa boneca após o ocorrido. Vasculharam toda a casa e por mais que eu tentasse me lembrar, eles disseram que não viram nenhuma boneca com as características que eu descrevi.
— Quando você entrou no quarto dos teus pais, Ewa… Você lembra exatamente do que viu?
— A única coisa que eu me lembro é ver a mão de alguém estirada, parecia ser a mão do meu pai, não sei, mas… Eu não quis entrar… Talvez se eu tivesse entrado, eu saberia de fato o que aconteceu com eles. Mas nunca me deixaram ver os corpos deles… Nunca.
— Eu entendo, querida. Bom… Vamos mudar um pouco de assunto… Como está no trabalho?
— Pra ser bem sincera… Estou de aviso.
— Sério? Mas por quê?
— Parece que estão fazendo um corte de funcionários, dizendo que a empresa está passando por uma crise financeira. Pode isso?
— Ai querida, e como você vai fazer? Como vai continuar pagando o aluguel do seu apartamento?
— Eu já estou começando a me levantar e mandar meus currículos pra outras empresas, mas… Sabe como são as coisas hoje em dia, né?
— Bem vinda ao século 21, querida! Toda a tecnologia de hoje não significa que estamos progredindo na humanidade.
— É, deu pra perceber.
— Mas e o livro? Como está indo?
— Bom… Estou completamente parada. Sem ideias, parece que nada flui.
— Ewa, querida, você é uma ótima escritora! Precisa colocar o seu talento pra fora. Seu primeiro livro teve até uma boa recepção pra uma iniciante.
— Sim, não vou mentir que o primeiro até que eu vendi bem se considerar que eu não tenho visibilidade nenhuma. Mas o problema é que quase tudo eu tive que tirar do meu bolso, não recuperei nem 40% do que eu investi e de uma certa forma, acabei saindo no prejuízo. Só de imaginar a dor de cabeça que é mexer com editoras e essas coisas, eu já fico estressada de antemão.
— Acredito que você só precise de uma oportunidade, querida. Algo que possa mudar a sua vida de uma vez por todas.
— É sim e… Sabe lá Deus, quando eu terei essa oportunidade.
— Bem, infelizmente nosso tempo acabou, e… Irei atender outra pessoa em 20 minutos.
— Muito obrigada, doutora Berta. Sabes bem que têm sido a minha única amiga durante esse tempo todo… E sinceramente não sei como vou continuar me consultando com a senhora quando eu for demitida, pois… Meu convênio certamente será suspenso.
— Não tem que se preocupar com isso agora, querida. Tenha fé que tudo vai dar certo.
— Sendo assim, muito obrigada. Eu estou indo!
— Passe bem, Ewa. E quero progresso sobre esse novo livro na próxima consulta, hein?
— Pode deixar.
Ewa sai do consultório. Berta se senta na poltrona pensativa. Ela sente um apreço por Ewa e se preocupa com o seu estado.
Horas mais tarde, Ewa está voltando ao seu apartamento. Após a morte de seus pais, ela foi morar com os avós por um bom tempo até finalmente se mudar para a capital da Polônia e tentar seguir sua vida.
Entretanto, os traumas que ela enfrenta desde criança a prejudicam em muitas outras áreas da sua vida. Não tem amigos, não tem relacionamentos, não tem nada. Apenas ela mesma e a doutora Berta que é sua única amiga.
É noite, por volta das 21h. Ewa acaba de fazer um chá, ela sai com sua caneca pra sala, senta no sofá e abre seu notebook. Ela vê algumas fotos nas redes sociais de quando ela lançou seu primeiro livro, que na verdade era uma coletânea de poemas.
Apesar de gostar da poesia, Ewa sempre quis escrever um best-seller, algo mais denso, e por mais que tentasse, sempre alguma coisa a travava.
Ela abre o documento Word no notebook, fica por alguns segundos com os dedos nas teclas, morde os lábios como se estivesse se esforçando pra pensar em algo, mas nada saia de sua cabeça.
Ela chateada com esse bloqueio criativo decide fechar o notebook e o coloca em cima da mesa de centro.
— Você é mesmo uma inútil, Ewa!
Um pouco depois, Ewa está no banheiro escovando os dentes, ela faz gargarejo e cospe a água na pia. Enxuga o rosto com uma toalha e depois fica se olhando no espelho por alguns segundos, ela fica pensativa, com um olhar cabisbaixo.
Ainda olhando-se no espelho, ela pronuncia algumas palavras.
— Eu juro que estou tentando… Estou tentando ser uma pessoa normal, mas… Quanto mais eu tento ser normal, mais estranha eu me sinto. Eu queria muito saber o que realmente aconteceu com meus pais naquela noite, estou presa nesse sentimento de culpa e… Não sei… Simplesmente não sei.
Ao pronunciar a última frase, uma pequena lágrima escapa de seus olhos. Ela fica até mesmo impressionada, pois há muito tempo Ewa não chorava, até pensou uma vez que suas lágrimas haviam secado.
Ela tenta enxugar suas lágrimas e vê no reflexo do espelho, alguma penumbra vindo do lado de fora do banheiro.
— Oii!
Ewa sai do banheiro, olha para o corredor e não vê nada. Ela fica parada, respirando acelerado.
— Quem tá aí?
Ao ver que nada surte efeito, ela decide ir até a cozinha e pega uma faca do gaveteiro. A jovem começa a andar pelo apartamento com a faca na mão tendo quase certeza que alguém entrou ali.
Ela ouve um barulho vindo do quarto. Ela vai lentamente até chegar lá. Abre a porta aos poucos, a cadeira de balanço está rangendo e tem alguém (ou alguma coisa) sentado ali.
Ewa arregala os olhos, coloca a faca na frente querendo ameaçar aquela pessoa que está ali sentada na cadeira de balanço.
— Quem… Quem é você?
A cadeira de balanço para. A figura que está sentada parecia um homem de terno e gravata. Ele se levanta sem olhar para trás. Ewa continua estagnada e com as mãos tremendo diante daquilo.
A figura começa a virar o rosto lentamente para a direção de Ewa. Vemos que aquilo não é um homem, parece mais um boneco humano. Ele se vira para a frente de Ewa, fica mais próximo da luz e ela vê claramente que há um boneco de tamanho normal bem na sua frente.
— Mas o que é…
— Deveria ter entrado no quarto, Ewa.
— O… O quê?
— VOCÊ MATOU OS TEUS PAIS!
O boneco parte pra cima dela. Ewa cai no corredor, deixa a faca cair no chão. Se arrasta pra chegar na parede.
— NÃO, SOCORRO! POR FAVOR!
— Tudo isso é culpa sua, Ewa!
— NÃO, NÃO, EU NÃO FIZ NADA! EU NÃO FIZ NADA!
— Vai se juntar aos seus pais agora.
— NÃO… NÃAAAAO!!!
Ewa se levanta gritando da cama. Ela acaba de ter um terrível pesadelo.
Ela está respirando muito ofegante, suor escorre pelo seu rosto. Ainda tentando assimilar que havia acabado de voltar de um sonho, o telefone toca.
— Ahhh!!
Ela fica completamente assustada. Se levanta da cama em direção ao telefone. Ela o tira do gancho com muita cautela e atende.
— A… Alô?
— Oi, Ewa? Sou eu, a Berta. Desculpa tá ligando essa hora, você já tava dormindo?
— Ai, doutora Berta, você me deu um tremendo susto.
— Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
— Não, não, estou bem, só… Não estava esperando alguém me ligar.
— Peço mil desculpas mesmo, mas precisava entrar em contato contigo ainda hoje. Preciso que venha ao meu consultório amanhã às 10h. Tenho algo que possa ser do teu interesse.
— Mas… Nossas consultas são só uma vez por semana, eu não sei se meu convênio vai querer cobrir por mais…
— Não, não, querida. Não será uma consulta, dessa vez quero que venha como amiga. Tenho algo muito importante a te dizer e quero você aqui. Pode ser?
— Bom… Tudo bem então.
________________________________________________________________________________________________________________
CONSULTÓRIO DA DRA. BERTA, 10H05.
Ewa bate na porta do consultório. Berta a recebe com um sorriso no rosto.
— Olá, querida. Entre.
— Me desculpe pelo atraso, doutora.
— Na verdade você acabou de chegar. Quero que conheça alguém. Esse é Oton Kamiński, ele é jornalista e trabalha com… Bom, ele te explica.
— Muito prazer, senhorita Ewa. A Berta me falou muito de ti.
Oton é um homem negro, rosto bonito e um físico atraente, tem 33 anos.
— O prazer é meu, mas… O que realmente está acontecendo aqui?
— Esse rapaz tem uma proposta muito boa pra você, Ewa.
— Que tipo de proposta?
Alguns minutos se passam e Ewa está tentando processar tudo o que falaram pra ela durante esse meio tempo.
— Espera um pouco, vocês querem que eu passe três noites em uma mansão abandonada em Kościelniki Górne? (Pronuncia-se “costielniki gurna”)
— Somos um grupo de pesquisadores de uma ONG e estamos há anos tentando descobrir o que levou ao abandono total da mansão de Koscielniki Górne. Nenhuma pessoa conseguiu realizar o feito de passar uma noite sequer naquele lugar.
— E vocês acham que eu seria capaz? Logo eu?
Berta argumenta:
— Ewa, conhecendo bem o seu estado clínico e sabendo das coisas que sua mente acessa. Talvez ir para um local como esse vai ajudar em muitas coisas. Além de ter um tempo pra liberar a sua mente, aquele lugar pode te servir como inspiração para o seu livro. Talvez você possa escrever uma história sobre a sua experiência na mansão.
— A minha história de vida já é um romance de terror. Por que eu queria investir nisso?
Oton diz:
— Escuta, Ewa. Não estamos dizendo que você necessariamente vai começar a escrever terror depois de ir pra lá… Mas a tua experiência servirá tanto pra você quanto pra nós e as pessoas que ficarem sabendo que uma jovem da tua idade passou 3 noites naquele palácio.
— Olha, eu sei que as coisas na minha vida não tem sido das melhores, mas chegar a esse ponto, pra mim é loucura.
— Querida, de todas as pessoas que se consultam aqui comigo, você é a mais corajosa. Eu percebo que há um espírito de vida querendo sair de você… Mas você mesma não está se permitindo. Precisa se liberar.
— Eu não posso, doutora… Sinto muito, gente, mas… Eu não posso, isso é demais pra mim.
Óton diz:
— Não é uma colônia de férias em uma mansão que estamos te oferecendo, Ewa… É um contrato. E estamos dispostos a pagar se você conseguir cumprir o combinado.
— Espera, espera… Querem pagar pra eu passar três noites em um local abandonado?
— Sim, Ewa… E não estamos falando de um salário mínimo. Estamos falando de nada mais e nada menos que 1 milhão de złotys.
– UM MILHÃO DE Złotys? Vocês só podem estar zombando da minha cara.
— Não é nenhuma zombaria, Ewa. Estamos dispostos a te pagar essa quantia se conseguir passar as três noites na mansão.
— Querida, pense bem… Essa é uma oportunidade única pra você. Finalmente vai poder ter uma melhoria de vida, vai conseguir escrever seu livro e terá estabilidade financeira para o resto da vida. Eu não teria indicado você ao Óton se não soubesse do que era capaz.
— Mas… Mas… Isso é absurdo! Com que verbas vocês iriam conseguir desembolsar uma quantia tão alta para pagar uma desconhecida como eu?
Óton responde:
— A Berta me contou a tua situação e tudo o que você passou quando era criança. E precisamos de uma pessoa que tenha o corpo fechado.
— Corpo fechado? Como assim?
— Alguém que não seja vulnerável ao sobrenatural, Ewa.
— Vai me dizer que eu vou virar uma caça-fantasmas? Era só o que me faltava mesmo.
Berta tenta contornar a situação.
— Ewa, eu sei que você é uma moça de coração puro e certamente jamais aceitaria propostas a caráter questionável. Mas eu conheço a equipe do Óton há muitos anos e sei que eles trabalham de maneira honesta, ainda que bizarras, se for vista do ponto de vista do cidadão tradicional polonês. Você vai passar apenas 3 noites naquele local, poderá levar seu material para você trabalhar e passando as três noites você estará livre.
— Essa talvez seja a oportunidade da sua vida, Ewa. Eu se fosse você reconsideraria.
— Tá, mas… E se eu não conseguir passar as 3 noites? Se acontecer alguma coisa comigo, ou… Eu simplesmente querer desistir?
— Dentro da mansão iremos instalar câmeras de segurança e na sala vamos colocar uma alavanca de emergência. Se você puxar aquela alavanca, entenderemos que você decidiu não continuar com a missão. Mas entenda, que se você desistir antes, não receberá a quantia que lhe foi oferecida, afinal de contas você estará quebrando um contrato, então… Tudo precisa ser formalmente por escrito.
— Eu… Eu… Tudo bem… Mas se eu me sentir desconfortável, na primeira oportunidade eu caio fora.
— Perfeito! Então vou providenciar a papelada ainda essa semana e conversar com minha equipe pra fazer toda a organização de sua transferência pra lá. Se tudo der certo, viajaremos em 2 semanas.
— Veja só, Ewa. Até lá o seu aviso na empresa já vai ter vencido e não estará mais trabalhando lá.
— É… É… Fazer o quê? Sempre fui uma publicitária fracassada mesmo.
_______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
2 semanas depois…
Em plena tarde, em um carro grande e confortável, está dirigindo Óton em uma estrada cercada por uma linda floresta verdejante. É possível ouvir o som da calmaria daquele lugar mesmo estando em movimento. No banco do passageiro está Ewa recostada e adormecida. Ela começa a mexer levemente suas pálpebras e aos poucos começa a despertar e olha para a estrada um pouco confusa.
— Olha só quem resolveu acordar!
— Nossa! Oton, quanto tempo eu dormi?
— Bastante tempo, pra ser sincero. Você parecia estar bem cansada, nem me atrevi a te acordar.
— Me desculpe, não tenho dormido direito nos últimos dias.
— Está tudo bem, não tem que se desculpar.
— E… Onde estamos?
— Bem, já estamos em Koscielniki Gorne. Chegaremos na mansão em cerca de 20 minutos. Peguei essa estrada porque é mais tranquila. Não se preocupe, não sou nenhum psicopata que está te sequestrando e levando para o fim do mundo.
— Pra quem quer que eu passe 3 noites em uma mansão abandonada, eu não duvido de mais nada.
— Relaxa, eu estou do teu lado. Mas… Preciso te contar uma coisa antes, sobre a mansão.
— O quê?
— Na verdade é sobre os antigos moradores daquela mansão. Eu não sei se você é muito ligada em história, mas… Há muitos anos atrás, creio eu que no século 19, se não me falhe a memória, a Polônia fazia parte da Alemanha. Depois da segunda guerra mundial, com a divisão de territórios, foi que o palácio de Koscielniki Górne acabou sendo oficialmente incluído dentro da área polonesa. Não se sabe a exatidão dos fundadores daquela mansão, mas houve gerações de famílias que passaram por ali: Os Von Gersdorf, os Von Göttlich e os Von Witzleben.
Ewa respira levemente mostrando interesse no assunto. Oton continua.
— Os últimos proprietários da mansão foi a família Von Carnap. Peter Von Carnap comprou Kościelniki Górne dos Witzleben por volta de 1866 ou 1886, não se sabe ao certo. Os von Carnaps tomaram conta do local por muitos anos até a morte deles. Ilse Von Carnap foi a última moradora de lá e ainda não se sabe ao certo em que ano ela morreu, mas acredita-se que tenha sido por volta de 1920.
— Ok… E?
— Na mansão existe um mausoléu da família onde três membros deles foram enterrados.
— Quê? Tá dizendo que existe uma tumba de mortos pra onde eu vou?
— Basicamente isso, mas… Não tem que se preocupar com essa parte.
— Claro, porque não é você que vai passar 3 noites ali, né?
— Durante a segunda guerra mundial, Kościelniki Górne serviu como abrigo para as pessoas fugirem da guerra. A invasão alemã e toda aquela situação provocou um verdadeiro caos. Mas tem uma coisa sobre Kościelniki Górne que não é colocada nos registros históricos.
— E o que é?
— Depois de anos, houve uma família que morou no palácio nos anos 80.
— Nos anos 80? Isso foi bem recente, se analisarmos de quando esse local foi fundado.
— Sim, sim, e… Não tínhamos muitas informações de como eles conseguiram se alojar na mansão e seguir suas vidas normalmente como se nada tivesse acontecido. Sabe-se apenas que o homem era corretor de imóveis. Eles tinham uma filha, ao que parece eles se mudaram pra lá quando ela tinha por volta de seus 12 anos de idade.
— Pobrezinha.
— Sim… Tudo ia aparentemente bem, até… Até o início dos anos 90 que aconteceu algo inusitado.
— O que aconteceu?
— Os pais dessa menina foram encontrados assassinados dentro da mansão.
— O… O quê?
— Sim, sim… E foram justamente pesquisadores que estavam explorando a propriedade que tiveram a curiosidade de entrar na mansão. Sentiram o mal cheiro e viram os corpos do casal. Ao que tudo indica, eles estavam mortos há quase 1 mês antes de serem encontrados.
— E a garotinha? O que aconteceu com ela?
— Essa é a parte mais bizarra, Ewa… A garotinha nunca foi encontrada.
— O quê?
— Sim, ela simplesmente desapareceu, como se tivesse sido engolida por um buraco. Não há sequer rastros do paradeiro dessa menina e muito menos do assassino dos pais dela.
— Mas, então como que…
— Na casa, havia fotografias da família, as roupas deles, e um baú com vestidos infantis femininos. Eles viviam naquela casa como pessoas comuns, mas nunca fizeram uma reforma. Preservaram a identidade do palácio como antes, talvez para que ninguém soubesse que eles estavam morando ali, não sei.
— Isso não faz sentido nenhum. Como uma família viveu por quase uma década em uma mansão como aquela sabendo das condições do local?
— Eu também queria saber. Queria poder obter todas as respostas. Nunca descobrimos quem foi a pessoa que matou o casal e muito menos o que aconteceu com a garotinha. As teorias da conspiração apontam que ele ou ela levou a garotinha consigo e nunca mais voltou.
— Por que não me contou isso?
— Se eu te dissesse, jamais toparia vir.
— Sabe o que mais me assusta nisso tudo? É que… Se não fosse pelo fato de que eu não desapareci… Diria que a história dessa garotinha se parece muito com a minha. Eu nunca soube o que realmente aconteceu com meus pais.
— Eu não sei o motivo, Ewa, mas desde que te vi pela primeira vez, percebi que você possui uma sinergia capaz de tirar do fundo do poço as memórias mais profundas de Kościelniki Górne. Talvez essa missão seja mais importante do que apenas receber uma boa quantia em dinheiro, talvez você consiga finalmente acessar as suas próprias memórias em um ambiente onde… Aconteceu de tudo.
— Sim, eu… É possível. Eu só acho ainda que…
Ewa olha para frente e vê uma mulher vestida de branco na estrada.
— ÓTON, CUIDADO!
— O QUE FOI?
Óton vira o volante e depois freia bruscamente no meio da estrada. Ewa, ofegante, tira o cinto de segurança, abre a porta do carro e sai de lá indo para frente certificando-se que aquela mulher estava bem ou não.
Óton desce do carro e vai em direção à Ewa.
— Ewa, o que aconteceu?
— Eu… Eu… Eu juro que tinha visto uma mulher na estrada.
— Quê?
— Sim, sim, ela estava aqui parada, não se movia pra nada, ela tinha um olhar estranho e ela…
— Ewa, Ewa, não tem ninguém aqui nessa estrada. Veja… Não tem nada. Acho que a história que eu te contei acabou fazendo você imaginar coisas.
— É… Talvez tenha sido isso, eu…
— Olha, vou ser franco com você agora. Estou te dando essa chance para você desistir.
— O quê?
— Sim, eu sinto que… A Berta e eu te pressionamos demais, então… Você pode escolher desistir agora e voltamos para Varsóvia.
Ewa fica pensativa, a proposta é tentadora, afinal ela não sabe o que a espera naquele lugar. Talvez seja melhor perder uma boa grana do que perder a própria vida.
______________________________________________________________________________________________________________
30 minutos depois…
O carro de Óton estaciona nos portões da propriedade de Kościelniki Górne. Ele desce do veículo para abrir os portões, que incrivelmente não estão trancados.
Óton volta ao carro e olha para Ewa ainda ali.
— Fiquei surpreso de não querer voltar.
— Já estávamos no meio da estrada… Não tínhamos motivos pra voltar.
Óton entra com o carro para dentro da propriedade. Eles estacionam em frente à portaria. Ewa desce do carro olhando para o alto impressionada com a imensidão daquele local.
Se descrevermos a arquitetura do palácio de Kościelniki Górne, diríamos que ela possui uma planta de duas alas,dois e três vãos, de vários andares, com uma entrada fortemente saliente avant-corps com terraço no topo. A fachada tem um caráter eclético do Renascimento francês, decorada com reboco rústico e ricas vergas das janelas.
— “Oh my God!”
— Legal, né?
— Legal não seria a palavra adequada para descrever, mas serve.
Eles entram na mansão. Lá dentro tudo continua aos moldes antigos, mas com algumas alterações.
— Fizemos uma limpeza na casa pra você não passar mal de alergia com a poeira que se acumula aqui. Como a mansão é gigantesca, arrumamos apenas a sala principal, um quarto aqui embaixo e dentro do quarto há um banheiro. Nossa recomendação é que evite transitar pelos outros cômodos da casa, principalmente durante a noite. E nem estou falando da possibilidade de você encontrar fantasmas ou espíritos, mas sim de algum animal indesejado, e por aí vai. E também porque você corre o risco de se perder aqui dentro.
— Pelo menos eu não vou precisar ter que estar subindo escadas pra poder ir para o quarto.
— Venha. Vou mostrar o quarto que você vai ficar.
Óton leva Ewa para um quarto um pouco mais no fundo atrás da escadaria principal onde eles fizeram uma mini-reforma que seja suficientemente decente para uma pessoa comum conseguir passar três noites ali.
— Bem, esse é o seu quarto, deixe suas coisas ali no canto, e… Como eu disse: Se tiver que explorar a casa, melhor que seja agora durante o dia. Até porque a casa não terá energia elétrica em todo o território.
— O quê? Eu vou ficar aqui sem energia elétrica?
— Calma, calma. Nós instalamos um gerador de energia, mas ele não pode ficar muito tempo ligado, fizemos isso porque também instalamos câmeras de segurança dentro da casa.
— O quê? Então eu serei vigiada? Não sabia que estava participando da nova edição do Big Brother Polônia.
— É por questão de segurança, Ewa. Se te serve de consolo… Não há câmeras no teu banheiro.
— Ótimo. Não quero ver um monte de tarado me assistindo tomar banho.
— Bom, aí é que entra outra questão.
— Do que está falando? Imagino que aqui tenha um chuveiro, não?
— Infelizmente não, Ewa. Se quiser se limpar, recomendamos o lago que fica no final da propriedade. Lá é limpo, não se preocupe.
— Tomar banho no lago em pleno frio? Nem morta.
— Bom, infelizmente é o que temos.
— Tá bom, tá bom. Que seja.
Os dois saem do quarto e vão para a sala principal.
— Bem, eu não posso ficar muito tempo aqui senão escurece. Peço que use esse roteador portátil no seu notebook e faça a conexão Wi-fi no teu celular. Não ficará 100% isolada aqui. Eu entrarei em contato contigo sempre às 09 da manhã pra você me passar seu relatório de como foi cada noite.
— Ok, Oton. Mas e se… E se algo acontecer comigo? E se de repente eu ficar apavorada e… Quiser me mandar daqui? Como eu faço?
— Bem, eu sabia que você iria perguntar isso. Lembra que no consultório da Dra. Berta eu te falei sobre uma alavanca?
— Acho que sim.
— Pois bem. Aquela alavanca ali na parede emite um alerta pra todos nós, principalmente pra mim que estarei te monitorando. Puxando ela, a gente entende que você está desistindo de participar do programa e pretende retornar. Mas aviso desde já que se você puxar essa alavanca antes das 09h da manhã de Segunda-Feira… Não irá receber a sua recompensa e todo o seu esforço de ter vindo até aqui terá sido em vão, então… Pense bem antes de tomar qualquer decisão.
— Tá, mas… Suponhamos de que eu esteja em perigo e precise te acionar. Como você vai chegar aqui sendo que estará há milhares de quilômetros de distância?
— Calma, Ewa. Eu não vou voltar pra Varsóvia.
— Não vai?
— Não, eu ficarei em Kościelniki Górne. Aluguei uma pousada há 30 minutos daqui. Então… Não ficará tão sozinha.
— Bem, sendo assim… Fico mais aliviada… Eu acho.
— Bem, eu preciso ir. Precisa de mais alguma coisa? Alguma dúvida?
— Bom, eu… Acho que por enquanto é tudo. O que pode acontecer de ruim, né? Já vivenciei o pior da minha vida.
— Cuide-se, Ewa. E boa sorte!
Quando Oton se vira em direção à porta, acompanhado por Ewa, esta última percebe uma casa de bonecas em cima de uma mesa de vidro no canto de uma parede da sala.
— Espera, e essa… Casa de bonecas?
— Ow, bem legal, né? Ela estava aí desde a última vez que nós viemos. Acredita-se que tenha sido da garotinha que eu te falei, a última a viver aqui.
— Ai, meu Deus!
— O que foi?
Ewa começa a ter pequenos lapsos de memórias. Algumas imagens surgem em sua mente, entre elas, uma casa de bonecas em seu antigo quarto em Tórun.
— Eu me lembrei agora. Eu tinha uma casa de bonecas!
— Sério?
— Não era parecida com essa, mas… Agora que eu estou vendo ela aqui na minha frente, estou tendo… Estou tendo um dejavú ou coisa do tipo.
— Pelo visto… Você terá muito trabalho a fazer por aqui, Ewa.
— É… Muito mais do que eu imaginei.
Horas depois…
É por volta de 9 horas da noite. Como Óton havia falado, o gerador de energia utilizado faz com que em algumas partes estratégicas da casa tenham energia. Há luzes de emergência em alguns pontos, mas foi deixado ali um lampião, velas e lanternas por precaução.
Ewa está sentada no sofá com o seu notebook em mãos. Ela abre o documento Word pra tentar escrever alguma coisa e nada sai do movimento de seus dedos. Ao invés disso, ela pega o seu gravador. Fecha o notebook o colocando no sofá. Depois pega o gravador e começa a falar.
— Meu nome é Ewa Wos, tenho 25 anos, estamos em Dezembro de 2022, e… Estou no palácio de Kościelniki Górne, noite 1. Até o atual momento, percebi que a mansão, apesar do abandono, não está em um estado tão caótico como eu imaginei que estivesse. Estou na sala de estar e me aconselharam a não transitar pelos outros cômodos da casa durante a noite. Há um quarto modesto onde eu irei passar as três noites, mas já mostrei minha imensa insatisfação de não haver um chuveiro no banheiro. Fora isso, o local é silencioso e o máximo que eu ouvi até agora, foi barulho das folhas, do vento do lado de fora e o canto dos pássaros. Dentro da casa, mais precisamente na sala onde estou agora, há uma casa de bonecas e que se parece muito com a miniatura da própria mansão. Não sei como essa casinha conseguiu se manter aqui durante tantos anos sem ter sido vandalizada ou ter acumulado poeira e/ou teias de aranha. Acredito eu que meu mentor Oton tenha limpado tudo isso com sua equipe antes de eu vir me alojar nessa casa, e querem usar um pouco de sensacionalismo barato para me assustar. Mas não posso negar que quando entrei aqui dentro, senti algo estranho, como se parte das minhas memórias de infância estivessem voltando aos poucos, mas ainda é tudo muito turvo, ainda é tudo muito estranho. Quando fiz a minha coletânea de poesias, nunca imaginei que um dia precisaria vir para um lugar como esse para ter inspiração para escrever. Mas a verdade é que não tenho ideias, estou com um bloqueio criativo enorme e possivelmente não consiga extrair nada desse lugar até o meu último dia. Mas estarei relatando tudo nesse gravador para que sirva de aprendizado para as pessoas que desejem visitar essa casa algum dia.
Ewa desliga o gravador. Pega suas coisas e vai para o quarto.
Em uma pousada ali na cidade, Oton entra em um quarto, tira o seu notebook de dentro da bolsa e o coloca em cima de uma escrivaninha.
Ele digita uma senha no notebook, entra em um programa específico e lá estão as imagens das câmeras de segurança. Ele vê Ewa se preparando para dormir.
— Boa sorte, Ewa. Tenho certeza que você vai conseguir.
Aparentemente tudo estava indo bem, nada de anormal havia acontecido até então.
Entretanto…
Palácio de Kościelniki Górne- 02:45 da manhã.
Ewa está adormecida na pequena cama de solteiro em seu quarto improvisado. Ela começa a ouvir um pequeno cântico e que parecia ser a música que seus pais cantavam para ela quando pequena. Era uma voz doce que cantarolava apenas o ritmo da canção, mas não pronunciava nenhuma palavra.
Ewa acorda, até pensou que estava tendo um sonho e que ouviu a música na sua mente, mas ela escuta um ruído mais estranho que insiste em aparecer.
O ruído que às vezes se fundia com sons de risadas discretas faz com que Ewa se levante da cama. Ela pega uma lanterna que deixou ali do lado e começa a investigar.
Ewa está de camisola e um casaco bege por cima. Ela vai para a sala principal e se depara com o silêncio inquietante daquele lugar.
Ela apesar de ter dito que não tem muito medo de tais coisas, estava um pouco preocupada, tem certeza que ouviu alguma coisa.
Ela anda um pouco e fica próxima à aquela casa de bonecas que a intriga desde o momento em que ela pisou naquele local. Após encarar a casinha por alguns segundos, ela ouve um barulho vindo do andar de cima. Ela pega sua lanterna e aponta para o breu que estava na parte de cima da escada.
Ewa anda lentamente até a ponta da escada, passa a mão no corremão, mas depois sente que não é uma boa ideia.
— Ewa, Ewa. Não faça isso. Você só está cansada, volte a dormir e tudo vai se resolver.
Ewa decide ouvir os seus extintos e se dirige de volta ao seu quarto. Mas antes mesmo de chegar ali, alguma coisa cai do andar de cima na frente dela. É algum objeto e se parecia muito com um boneco pequeno de porcelana.
Ewa olha para o objeto e em seguida olha para cima apontando a lanterna. Ela não quer fazer isso, mas sente a urgência de verificar o que tem lá em cima com seus próprios olhos.
Dá meia volta, coloca o seu pé no primeiro degrau da escada. Ainda fica hesitando continuar subindo ou não. Apesar de tudo, está tremendo, sente algo gelar a sua espinha.
Ela vai subindo as escadas lentamente, não está com pressa, muito pelo contrário, quer sair dali o quanto antes. Ela chega ao corredor. Aponta a lanterna para um lado. Aponta a lanterna para o outro. Qual direção seguir? Pra que lado caminhar?
No corredor, ela ouve um barulho como um ranger de madeira. Vai andando aos poucos, olha para o teto e percebe algo incomum ali.
— Mas… O que é isso?
Aparentemente havia uma portinha naquele teto, uma espécie de sótão, possivelmente. Ewa vê do lado da parede, um ferro fino com um gancho na ponta. Ela entende que aquilo deve servir para abrir seja lá o que for aquilo.
Ela usa aquele ferro para puxar a alça daquela portinha. Ao fazer isso, uma escada desce de uma vez de lá de cima.
— Ahh!
Ewa se assusta, vai um pouco pra trás. Vê que realmente há um pequeno sótão ali.
— O que eu estou fazendo? O que eu estou fazendo?
Ewa se aproxima da escadinha, balança ela um pouco pra ver se está suficiente firme. Ela começa a subir por aquela escadinha segurando a sua lanterna.
Ela chega ao local, usa a sua lanterna para iluminar ali antes dela subir de vez. Aparentemente não encontrou nada de muita relevância, mas o local está cheio de objetos velhos, empoeirados e com teias de aranha.
Ela ouve algum barulho vindo de lá de cima, sua respiração começa a ficar um pouco mais acelerada. Apesar do medo, a curiosidade pra saber o que mais escondia dentro daquele sótão era maior.
Ewa sobe de uma vez e ainda está tentando se situar direito no local onde foi parar. Era de fato um sótão, tinha muitas coisas ali, objetos estranhos, bem similares aos tempos antigos.
Ela vasculha mais um pouco e se depara com algo que não devia. Ela vê uma espécie de tabuleiro ouija no canto de uma das paredes.
— Meu Deus… Isso é um péssimo sinal.
Ela decide deixar o tabuleiro ali onde encontrou, aponta a lanterna para outra direção e se assusta com algo.
— Aaaahh!
Ao olhar novamente, havia uma boneca sentada em uma cadeira velha ali dentro.
— Meu Deus…
Ao olhar para a boneca, Ewa tem pequenos flashes da noite em que seus pais morreram. Lembrou-se da boneca no corredor suja de sangue. O mais bizarro é que essa mesma boneca se parece muito com a que ela tinha.
— Meu… Deus.
Ewa se levanta, ainda está bem assustada com o que viu e em um canto mais afundo daquele sótão, ela encontra um baú. Aponta a lanterna iluminando e vê que a fechadura está aberta.
Ela abre aquele baú, lá dentro havia uma roupa de bailarina. No canto do baú, umas sapatilhas velhas. Ela estira aquela roupa e fica observando por um tempo. Coloca medindo em seu corpo e percebe que aquela roupa era do tamanho adulto.
Ewa até pensou que aquela roupa poderia ser da garotinha que o Óton comentou que havia morado ali, mas era uma roupa que servia para uma mulher adulta, então não tinha como isso acontecer.
Ainda intrigada com o que vê, Ewa percebe que há uma carta naquele baú em cima de outros tecidos. Ela pega a carta e está escrita com uma caneta de tinta preta:
“Para a minha futura garotinha, um dia você será o orgulho dessa família.”
Ewa termina de ler aquilo e ainda segue intrigada. Ela ouve um barulho vindo de dentro do baú. Na verdade, ela sente que os tecidos que estão ali estão se movimentando um pouco. Ela estira um dos braços para mover o tecido e ao fazer isso, um rato enorme pula dali na direção dela.
— AAAAAAAAAHHHHHHHH!
Ewa cai para trás e vai se rastejando. Ela olha para a boneca sentada na cadeira e leva outro susto.
— Aaaaaahhh!!
Ela deixa a lanterna cair no chão. Algo que não deveria acontecer de maneira nenhuma tendo em vista a situação em que ela se encontra.
— Ai não, não, não. Onde tá? Onde tá?
Ela está no chão apalpando o piso tentando encontrar a lanterna a qualquer custo.
— Onde tá? Onde tá? Droga!
Finalmente ela consegue achar a lanterna, tenta liga-la imediatamente.
— Ai não! Funciona! Funciona, pelo amor de Deus!
Desesperada, Ewa bate várias vezes na lanterna até fazer com que ela funcione.
Ao funcionar, ela aponta a luz da lanterna para todas as direções. Sua respiração está acelerada, ao dar alguns passos para trás, ela sente ter encostado em algo.
Ela respirando forte, com o coração quase saltando pela boca. Olha para trás e vê a silhueta de uma pessoa debaixo de um pano branco.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHH!!!
Ewa tenta correr. Tropeça no piso. O desespero toma conta dela.
— SOCORRO! SOCORRO!
Ela sem conseguir enxergar quase nada olhando para um ponto cego. O rato avança em seu rosto.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHH!!
Ewa dá um pulo pra trás, não percebe o buraco da portinha atrás e cai de cima daquele sótão batendo com a cabeça e fica totalmente inconsciente naquele corredor.
Pelo ponto de vista de cima do sótão, alguém a está observando e ela está ali desmaiada.
Talvez sua primeira noite em Kościelniki Górne tenha sido a sua última.
![]()






Muito interessante a forma como o autor capta as emoções da Ewa, tanto no nosso primeiro contato, e tanto nos dias atuais. A trilha ajuda demais a nos convidar para dentro dessa história. Gostei muito.
Muito obrigado, meu amigo. Achei importante estabelecer bem a importância da protagonista Ewa logo no primeiro capítulo pra ela ficar mais próxima do público. Também gosto muito das trilhas.
Obrigado mais uma vez!
Prometeu tudo e entregou tudo, amei a forma como descreve a Ewa e nos traz o seu passado, esse primeiro capítulo nos introduz a história e nos prende do começo ao final. Ansioso para os próximos capítulos e decorrer da história. Claramente estamos diante de uma obra prima! Parabéns!
Obrigado, minha vida! Fico feliz em ter justamente o seu apoio nessa estreia que é essencial pra mim. Logo, logo vamos descobrir o que vai acontecer com nossa heroína Ewa.
Muito interessante a forma como o autor capta as emoções da Ewa, tanto no nosso primeiro contato, e tanto nos dias atuais. A trilha ajuda demais a nos convidar para dentro dessa história. Gostei muito.
Muito obrigado, meu amigo. Achei importante estabelecer bem a importância da protagonista Ewa logo no primeiro capítulo pra ela ficar mais próxima do público. Também gosto muito das trilhas.
Obrigado mais uma vez!
Prometeu tudo e entregou tudo, amei a forma como descreve a Ewa e nos traz o seu passado, esse primeiro capítulo nos introduz a história e nos prende do começo ao final. Ansioso para os próximos capítulos e decorrer da história. Claramente estamos diante de uma obra prima! Parabéns!
Obrigado, minha vida! Fico feliz em ter justamente o seu apoio nessa estreia que é essencial pra mim. Logo, logo vamos descobrir o que vai acontecer com nossa heroína Ewa.
Que babado. Amei o episódio cheio de mistério e cenas maravilhosas será o fim de Ewa? Queria a oportunidade de passar um fim de semana em uma mansão antiga em troca de grana tbmm kkkk.
Olha, eu acho que também toparia e ainda convidava os espíritos pra tomarem um chá comigo kkkkkk. Muito obrigado, amiga!
Que babado. Amei o episódio cheio de mistério e cenas maravilhosas será o fim de Ewa? Queria a oportunidade de passar um fim de semana em uma mansão antiga em troca de grana tbmm kkkk.
Olha, eu acho que também toparia e ainda convidava os espíritos pra tomarem um chá comigo kkkkkk. Muito obrigado, amiga!
Chegueiiiiiiiiiiii! Que episódio de estreia magnífico e intrigante foi esse, hein? Acho que pisquei pouquíssimas vezes!!!! E detalhe, eu já tive uma boneca com o rosto de porcelana que ganhei da minha tia Elita e que me trazia essas mesmas sensações. Não queria mais entrar em casa enquanto minha mãe não se desfizesse da boneca! Tenho medo até hoje. O gatilho é real! Trilha sonora perfeita e aumentou mais ainda a imersão em toda a narrativa. Ansiosa pelo próximo episódio com urgência. A coitada da Ewa já chegou passando perrengue! Tomara que sobreviva as 3 noites e pelo menos consiga encher o bolso depois de todo o terror … kkkkk … PARABÉNSSSSSSSSSSSS!!!!!!! PS: Eu adoraria ter esse tipo de experiência. Me mandem para uma mansão mal assombrada, please!
Boneca é sinônimo de desespero, não tem jeito kkkk. Fico feliz que tenha gostado prima, a Ewa não tem um minuto de paz, a coitada kkkkk.
Chegueiiiiiiiiiiii! Que episódio de estreia magnífico e intrigante foi esse, hein? Acho que pisquei pouquíssimas vezes!!!! E detalhe, eu já tive uma boneca com o rosto de porcelana que ganhei da minha tia Elita e que me trazia essas mesmas sensações. Não queria mais entrar em casa enquanto minha mãe não se desfizesse da boneca! Tenho medo até hoje. O gatilho é real! Trilha sonora perfeita e aumentou mais ainda a imersão em toda a narrativa. Ansiosa pelo próximo episódio com urgência. A coitada da Ewa já chegou passando perrengue! Tomara que sobreviva as 3 noites e pelo menos consiga encher o bolso depois de todo o terror … kkkkk … PARABÉNSSSSSSSSSSSS!!!!!!! PS: Eu adoraria ter esse tipo de experiência. Me mandem para uma mansão mal assombrada, please!
Boneca é sinônimo de desespero, não tem jeito kkkk. Fico feliz que tenha gostado prima, a Ewa não tem um minuto de paz, a coitada kkkkk.