ATENÇÃO!
O episódio a seguir contém cenas e situações que podem ser consideradas extremamente perturbadoras.
Se você estiver precisando de ajuda, ligue 188 no CVV (Centro de Valorização da Vida)
ATO III
Algumas horas se passaram, Ewa acabou adormecendo na poltrona do quarto de Heiko. Esta se encontra na cama deitada de bruços com os cabelos arreganhados de tanto chorar.
Ewa desperta. Observa Heiko naquela situação. Ela percebe que aquela pobre alma infeliz não tinha culpa do que fez, embora nada justifique os seus atos impulsivos.
Ewa se levanta da poltrona, se aproxima de Heiko.
— Heiko? Heiko, você está bem?
Heiko ainda de olhos fechados e de bruços na cama, murmura:
— Você deve me achar uma infeliz, não é?
— Do… Do que está falando?
Ela levanta a cabeça e olha para Ewa.
— Toda a minha vida foi uma ilusão, tudo o que eu vivi antes de chegar aqui foi uma maldita ilusão.
— O que você está vivendo agora é uma maldita ilusão, Heiko. Por que não saímos daqui? Vamos procurar ajuda, você vem comigo para Varsóvia e você pode conversar com a minha psicóloga. As coisas não precisam ser assim.
— As coisas precisam ser assim, Ewa. Porque elas foram assim. Eu ainda não terminei de contar tudo. Estava exausta e precisava de um tempo pra respirar, precisava me recuperar pra eu te contar o final dessa minha maldita história.
VOLTAMOS A ADENTRAR NAS MEMÓRIAS DE HEIKO.
A morte do meu Peter era só o início da minha maldita morte mental. Eu não pude comparecer ao enterro, obviamente, porque não era próxima à família dele e muito menos dos amigos.
Precisei viver essa dor sozinha. Os abusos do filho da puta do meu pai continuaram e o vício da vagabunda da minha mãe também.
Eles já não tinham mais nenhum pudor, eu estava sofrendo o luto da perda do meu amado, enquanto continuava a ser abusada pelo meu pai. Mas houve um dia, pra ser mais sincera, uma noite… Que eu estava carregada de ódio. Alguma coisa nesta casa estava alimentando um desejo veemente de acabar de uma vez com tudo.
Aquele mesmo sentimento que eu tinha outrora de me matar estava voltando, mas dessa vez não queria que fosse fácil, queria que todos fossem punidos, queria que todos sofressem.
Era Outubro de 1985… Eu não sabia que esse dia seria o dia da minha liberdade.
Estudei o dia inteiro, depois saí e fui passear pelas ruas, não contei pra ninguém. Estava tentando conciliar tudo o que havia ocorrido nos últimos dias e anos.
Eu não percebi que estava ficando tarde. Eu nunca cheguei tarde da noite em casa, mas não estava nem um pouco preocupada com isso.
Cheguei em casa por volta das 20h. Estava lá na sala meu pai e minha mãe. Ela se levantou bruscamente do sofá, veio em minha direção e me sacudiu pelos ombros, dizendo:
— Onde você estava, Heiko? Por que chegou tão tarde?
Eu fiz uma cara de paisagem para a minha mãe.
— Por que você não responde?
Meu pai se levantou do sofá também e de longe era possível sentir o bafo de pinga.
— Responda a tua mãe, seu moleque malcriado!
— Por que está tão preocupado, papai? Ah é verdade, hoje você não tinha sua putinha pra você comer enquanto a mamãe não chegava não, é?
— Do que, do que está falando, moleque?
— Como se atreve a falar assim com o teu pai, Heiko?
— Oh, vai dizer que você não sabe, mamãe? Não seja fingida. Você sabe muito bem a quem o papai anda fodendo dentro desta casa e pode ter certeza que não é você, mamãe. Acho que o papai se cansou de uma vagina e preferiu um ânus jovem do filho afeminado de 12 anos.
Minha mãe ficou com os olhos fumegando e meu pai mais atrás da mesma forma.
— Não diga mais nenhuma palavra, Heiko.
— Por que, mamãe? Tá com medo que eu diga que meu pai parou de foder você pra foder com o próprio filho?
— CALA ESSA BOCA!
Eu me distanciei deles. Fui para perto da lareira. Os dois estavam me encarando com tanto ódio. Mas eu não estava com medo. Pela primeira vez eu não estava com medo deles.
— Como eu adoro essa família! Vocês viviam se vangloriando pelo status e por serem uma família conservadora de merda enquanto morávamos na cidade. Quando na verdade meu pai estava devendo uma grana alta para a empresa e minha mãe começou a perder tudo e foi queimada pela vizinhança ao ser pega fumando maconha. Por isso que vocês fugiram, não é? Eu descobri tem pouco tempo, mas agora ligando todos os pontos, percebi os tremendos de uns filhos da puta que vocês dois são.
Meu pai deu um passo à frente e se exaltou:
— Não fale assim com seus pais, seu moleque insolente!
— Ora, ora, ora… Não era assim que você me tratava quando pedia pra eu ajoelhar e chupar teu pinto nojento. Ou já se esqueceu, papai? “Esse será o nosso segredinho. Não conte nada pra tua mãe e eu deixo você usar o vestido de bailarina dela”. Awwn que fofo! Que meigo! Acho que a mamãe nunca havia chupado o teu pau antes, né? Porque justifica você querer que eu fizesse isso em todas as vezes.
— Seu… Seu…
— Mas de uma coisa você não sabia, papai… Era enquanto você achava que eu era exclusivo seu, outros homens me comiam na escola. Sim! Eu dava pra eles, eram 5 ou mais rapazes. E ao contrário de você que é um velho decrepito asqueroso que se esforça pra deixar o pinto minimamente ereto. Eles eram viris, cheios de energia, faziam eu ter orgasmos enquanto você se esforçava pra fazer o mínimo.
Minha mãe, incomodada, disse:
— Já chega! Eu não quero ouvir esse tipo de coisa!
— É claro que você não quer ouvir, mamãe. Porque estava muito ocupada enfiando teu nariz em várias tiras e tiras de pó branco. Acha que eu não via? Acha que eu não sentia? Acho que por isso que meu pai parou de te comer, né? Porque você virou um trapo sujo. Agora uma coisa eu não me arrependo: De gostar tanto dos homens. Sim, papai! Você arruinou a minha vida tornando a minha experiência uma verdadeira desgraça, mas eu me apaixonei por um homem de verdade. Um homem que eu tinha certeza que seria o amor da minha vida! O homem que eu sonhei todos os dias durante os meus sonhos. O homem que eu imaginei que seria o anjo do bosque daquela música. PETER ERA O MEU HOMEM! PETER ERA O AMOR DA MINHA VIDA! E A VIDA… A VIDA TIROU ELE DE MIM! Era ele que eu queria, era ele que eu imaginei me casar com um vestido de noiva, era ele e mais ninguém! ERA ELE, PORRA! E VOCÊS NUNCA VÃO ENTENDER ISSO!
Minha mãe se revoltou, avançou em cima de mim e me deu um tapa.
— MOLEQUE MALDITO! EU DEVERIA TER TE ABORTADO! EU DEVERIA TER ABORTADO VOCÊ!
— E POR QUE NÃO ABORTOU, SUA VADIA? HEIN? POR QUE NÃO ME ABORTOU DE UMA VEZ, SUA PUTA FRACASSADA!
— CALA A BOCA! CALA A BOCA!
Meu pai foi até a mim, me puxou pelos cabelos e tentou me levar para as escadas.
— Eu vou te dar uma lição, seu moleque maldito!
Eu consegui me desvencilhar do meu pai, me afastei dele e comecei a provocá-lo.
— O QUE VAI FAZER COMIGO, PAPAI? VAI ME BATER? OH, É VERDADE, VOCÊ PREFERE COMER SEU FILHINHO, NÃO É?
— CALA A BOCA!
Eu estava perto de uma escultura de porcelana em cima de uma mesinha. Então comecei a provocar ainda mais.
— ANDA! VAI! COME TEU FILHO, DESGRAÇADO!
— CALA ESSA BOCA!
— VAI! ME COME SE VOCÊ FOR MACHO, SEU FILHO DA PUTA! MOSTRA PRA MAMÃE QUE VOCÊ ME FODE MELHOR DO QUE FODE ELA! ME COME!
— AHHHHHHHHHHH EU VOU TE MATAR!
Meu pai avançou em cima de mim, eu peguei aquela escultura e acertei a cabeça dele.
— AAAAHHHH!
Meu pai caiu no chão. Minha mãe ficou possessa em fúria.
— O QUE VOCÊ FEZ??
Ela veio em minha direção, eu corri para a porta. Ela me alcançou. Me puxou para trás. Começou a me puxar pelos cabelos e me levar para as escadas. Meu pai ainda estava no chão sentindo dor, mas estava consciente.
— ME SOLTA! ME SOLTA!
— VOCÊ VAI APRENDER A RESPEITAR ESSA FAMÍLIA!
Minha mãe foi me arrastando para cima, eu tentava me debater com ela. Chegamos no topo da escada, eu consegui morder o braço da minha mãe.
— AHHHHHH MOLEQUE IMUNDO! SUA BICHINHA MALDITA!
— NÃO ME CHAME DE BICHINHA, SUA VAGABUNDA!
Eu empurrei a minha mãe com toda a força. Ela rolou pelas escadas. Quando chegou ao chão, ela caiu com tanta força que quebrou o pescoço.
Eu não estava acreditando no que havia feito. Eu não queria ter feito aquilo. Rapidamente desci as escadas. Me aproximei dela e vi que ela estava totalmente morta.
— Ma… Mamãe.
Meu pai se levantou mareando. Ele viu o estado da minha mãe.
— Na…Não. Querida! QUERIDA!
Ele se agachou no corpo da minha mãe. Eu me afastei um pouco, estava perplexa com o que eu tinha feito, não foi minha intenção, apesar do ódio que eu sentia.
— VOCÊ MATOU A TUA, MÃE! MATOU A TUA PRÓPRIA MÃE!
— Não, eu… Eu não tive culpa! Ela começou!
— Agora eu vou te mostrar como é que se faz, seu garoto de merda.
Eu corri para próximo da lareira, puxei um daqueles ferros e comecei a ameaçar o meu pai.
— FICA LONGE DE MIM! FICA LONGE DE MIM OU EU JURO QUE…
— … O QUÊ? VAI ME MATAR COMO MATOU A TUA MÃE? VOCÊ NÃO TEM CORAGEM! É COVARDE! SIM… UM VIADINHO COVARDE!
— PARA COM ISSO!
— SIM, FILHO! VOCÊ NÃO PASSA DE UM VIADINHO CHUPADOR DE PINTO! VAI FAZER O QUÊ, VIADINHO? HEIN? O QUE VAI FAZER?
Naquele momento, eu pude ver de longe a senhora Von Carnap lá no fundo dizendo: “Vá. Faça o que for preciso”. O ódio do meu coração se triplicou, e comecei a lembrar de todos os abusos que meu pai fez e não podia mais deixar isso barato. Eu empunhei aquele ferro com toda ousadia e disse:
— NÃO ME CHAME DE VIADINHO! EU- SOU- UMA- DAMA!
Eu acertei aquele ferro na cabeça do meu pai, pude ver o sangue espirrando, ele ficou fraco e como se não bastasse eu o acertei de novo. Ele quase caindo no chão e o acertei mais uma vez.
Meu pai caiu, ficou quase inconsciente. Eu fiquei em cima dele. A senhora Von Carnap e vários espíritos da casa estavam ao meu redor neste momento. Eu podia ouvir suas vozes: “Mata, mata, mata, mata, mata, mata”.
Aquelas vozes eram o meu ponto de partida. Eu peguei a ponta pontiaguda daquele ferro, levantei ao céu e perfurei o seu estômago. Meu pai cuspiu sangue. Pela primeira vez eu estava sentindo prazer. Eu queria ver o sofrimento do meu pai. Então comecei a perfura-lo mais e mais. Não contente em apenas fazer isso, peguei uma escultura que ficava na sala dura como pedra. Eu a peguei, a beijei e segurei firme com minhas duas mãos. Eu acertei o rosto do meu pai, quando acertei a primeira vez não queria mais parar. Acertei uma e outra, e outra vez até deixar o rosto dele completamente deformado.
Eu estava ensandecida de ódio. Quando terminei, fiquei tentando me situar, tentando arrumar uma fórmula de justificar os corpos dos meus pais, caso alguém encontrasse. Então a senhora Von Carnap apareceu pra mim, ela disse que se eu fizesse um pacto com ela, eu poderia ser livre e teria a vida que eu sempre quis.
Eu aceitei o pacto. A primeira coisa que eu fiz foi queimar todas as roupas de menino que haviam na casa, todos tinham que pensar que naquela casa morava um casal e uma filha, o Heiko garoto tinha que morrer, ele não podia mais existir.
Fiz isso em pouco tempo e deixei esperar. Escondi os corpos dos meus pais. A senhora Von Carnap disse que queria um lar para mim e que não poderia ser qualquer lar. Então surgiu a ideia da casa de bonecas. Sim, aquela casa de bonecas era dela, não contei isso antes, mas quando vimos morar aqui, essa casa já existia.
Minha mãe e meu pai não quis se livrar dela, porque ela era muito parecida com a mansão e até cogitaram que poderia ser apenas uma réplica da casa. E querendo ou não, o local onde ela fica deixa o ambiente muito mais convidativo, por assim dizer.
Então finalmente a senhora Von Carnap me ofereceu aquele lugar como lar. Então ela usou uma magia negra poderosíssima e transformou aquela casa no lar onde estamos agora. Foi lindo, Ewa! Foi simplesmente lindo!
VOLTAMOS NOVAMENTE NO QUARTO ONDE ESTÁ EWA E HEIKO.
— E o boneco? Onde esse boneco entra nessa história?
— Ow, é verdade. Bem, passaram-se alguns anos. Eu já tinha mais de 20 anos de idade, a minha saudade pelo Peter estava demais. Eu precisava de algo para sustituí-lo, então, minha cara Ewa… Sabendo que o mundo da internet já tinha chegado, procurei por bonecos humanoides e fiz uma compra. Você deve se perguntar: Como? A senhora Von Carnap conseguiu fazer algum milagre. Nem me pergunte, querida, mas ela realmente era tão poderosa que conseguia interferir nas coisas externas à essa casa. Um entregador veio de longe trazer o boneco. Ele não sabia o que fazer. Então a senhora Von Carnap me deu permissão de sair da casa de bonecas para atendê-lo.
— Pois não?
— Eu… Tenho uma entrega para…
— Oh sim, sou eu mesma. Obrigada! Estava esperando.
— Espere, moça. Pode assinar aqui, por favor?
Eu assinei rapidamente e entrei para dentro com a caixa.
— O que aconteceu depois?
— Voltei para dentro da casa de bonecas e consegui trazer o Peter comigo. Quando abri a caixa, vi que era ele, vi que ele era idêntico ao meu amado Peter que me deixou. Desde então vivemos aqui, querida. E agora você faz parte de nossas vidas.
— Eu não quero fazer parte dessa vida.
— Você não tem escolha, jovem Ewa.
— Só não entendo uma coisa: O que eu tenho a ver com tudo isso? De nada me serve você saber de tudo isso e não saber do que aconteceu com os meus pais.
— Ah! Por favor, Ewa. Vai me dizer que você não sabe? Vai me dizer que não se lembra?
— Do que você está falando?
— Ah por Deus, Ewa! Foi você! VOCÊ MATOU OS TEUS PAIS!
Ewa cambaleia, vários lapsos surgem em sua mente.
— N… Não, não.
— Sim, querida. Nossas histórias são muito mais parecidas do que você imagina. O teu pai também abusava de você, minha criança.
— NÃO! NÃO!
— Ele te enganava com as cantigas de ninar para te aliciar todas as vezes quando sua mãe dormia. Mas a tua mãe era uma vadia igual a minha, ela no fundo sabia que ele fazia essas coisas com você, então… Você sendo uma criança de 6 anos, não aguentava mais tanta dor, você pegou a sua boneca favorita, pegou uma faca na cozinha, entrou no quarto dos teus pais e enquanto eles dormiam, você degolou os dois, querida.
Ewa coloca as duas mãos na cabeça.
— PARA! EU NÃO FIZ ISSO! EU NÃO FIZ ISSO!
— Você não queria saber a verdade, Ewa? Essa é a verdade! Seu pai era um filho da puta abusador de crianças, sua mãe a cúmplice e você… VOCÊ… OS MATOU!
— NÃO! É MENTIRA! EU NUNCA FARIA ISSO COM MEUS PAIS! NUNCA!
— EU TAMBÉM ACHEI QUE NÃO FARIA ISSO COM OS MEUS PAIS, EWA! MAS VOCÊ NÃO IMAGINA O PRAZER QUE FOI, NÃO IMAGINA O QUANTO EU SENTI TESÃO EM VER MEU PAI ESFOLADO E VER MINHA MÃE COM O PESCOÇO QUEBRADO. VOCÊ TAMBÉM SENTIU ISSO, NÃO É? VOCÊ TAMBÉM FICOU EXCITADA AO CORTAR A GARGANTA DOS TEUS MALDITOS PAIS?
— JÁ CHEGA! VOCÊ NÃO VAI ME PERSUADIR, HEIKO! MEUS PAIS NUNCA FARIAM ISSO COMIGO! VOCÊ É UMA FRACASSADA!
— TENTA FUGIR, EWA! TENTA! VAMOS VER SE CONSEGUE.
— Por que faz isso comigo? Por que faz isso??
Ewa se aproxima de Heiko ensandecida, esta última puxa uma pistola escondida de dentro de suas calçolas.
— Você não vai me impedir dessa vez, Ewa.
— Como você pode ter uma arma nesse lugar?
— Eu disse… Nesse lugar eu tenho tudo! E você também pode ter tudo aqui.
— O que você vai fazer? Vai me matar como matou os teus pais?
— Eu não quero te matar, Ewa. Eu quero que sejamos amigas. Quando é que você vai entender isso?
— Eu já estou cansada disso! Cansada de seus devaneios, de suas histórias, de suas mentiras, cansada!
— Você não entende que tudo isso é sobre nós duas! TUDO É SOBRE NÓS!
— NÃO! NADA É SOBRE NÓS! TUDO SEMPRE FOI SOBRE VOCÊ!
Ewa tenta avançar em Heiko. Um forcejo começa para tentar tirar a arma um do outro. Eles continuam a forcejar no quarto se atracando nos objetos até que a arma dispara.
Ewa cai no chão impactada. Olha para trás. O tiro acertou a porta do armário. Heiko segura a arma e aponta para ela.
— Eu só estou tentando te ajudar, Ewa. Só isso. Agora seja uma boa menina, se levante e vá para o quarto que eu preparei para você.
— Tá bom, tá bom.
Ewa se levanta devagar com as mãos ao alto. Ela sai da porta do quarto e vai andando pelo corredor. Heiko está atrás e continua apontando a arma para ela. Ela pede para Ewa virar e entrar em um dos quartos.
— Vamos! Entra aí.
Ewa entra. É um quarto bem arrumado e muito parecido com a da Heiko. Lá na cama, tem um vestido. Na penteadeira, alguns acessórios de maquiagem.
— Bem, temos algumas horas. Não se preocupe que escrevi os votos em um cartão e vou te entregar no momento da cerimônia.
— Espera, o… O quê? Cerimônia?
— Sim, querida. Você vai casar eu e o Peter esta manhã. Ai estou tão animada! Mas por favor, se arrume, querida! E depois venha me ajudar a colocar o meu vestido de noiva, precisa estar tudo incrível! Até mais tarde, “honey”!
Heiko fecha a porta do quarto.
— Espera! HEIKO! HEIKO,VOLTA AQUI!
Ewa olha para trás e se recosta na porta totalmente incrédula. O pesadelo para aquela jovem estava longe de terminar. Como lidar agora ao saber do passado de Heiko? E pior ainda… Como lidar agora que descobriu a verdade sobre o seu passado?
Ewa não tem mais saída.
Ou ela vira o jogo,
Ou se torna parte dele.
OPENING:
EPISÓDIO 3:
“SE ESSA RUA FOSSE MINHA- PARTE 2”
ATO IV
(FINAL)
POUSADA DE KOSCIELNIKI GÓRNE, 2 DA MANHÃ.
Óton está tentando entrar em contato com Ewa a todo custo, mas nada surte efeito.
— Ewa, pelo amor de Deus! Por que você não tá atendendo?
Ele desliga o celular molesto. Olha as câmeras, vê a imagem de Ewa dormindo. Mas começa a achar estranho ela não ter dado nenhum sinal de vida.
— Ewa, o que tá acontecendo?
CASA DE BONECAS.
Ewa está sentada em frente à penteadeira, ela se olha no espelho e começa a murmurar com ela mesma.
— Isso não pode estar acontecendo. Eu não acredito que a Heiko tenha feito tudo isso. E eu não acredito que esse era o passado que eu me recusava a acreditar, meu pai não faria esse tipo de coisa comigo.
Neste momento, tudo ao redor daquele quarto fica em uma imensa escuridão e somente a penteadeira onde ela está sentada tem luz. O reflexo de Ewa no espelho desaparece para dar lugar a outra imagem que não estávamos esperando.
— EWA!
— Ah! O que tá acontecendo? Quem tá aí?
Eis que o reflexo de Ilse aparece no espelho.
— Sou eu. Ilse Von Carnap.
— Você? Como se atreve? Tudo isso que tá acontecendo é sua culpa.
— Calma, Ewa. Eu preciso que me escute. Eu tenho pouco tempo. Foi muito difícil conseguir fazer esse contato com você sem ser descoberta, então essa será minha única chance, pode me ouvir?
Ewa, ainda relutante, consente.
— Tudo bem. O que você quer?
— Primeiro quero que saiba que Heiko não é a tua inimiga. E o que ela passou quando ainda se considerava um garoto foi tudo verdade. Heiko foi abusado pelo pai, sofreu abusos na escola e perdeu o garoto que ele amava. Ele realmente matou o pai e a mãe. Tudo o que ele/ela falou sobre sua vida pessoal, era tudo verdade.
— Sim… E como se não bastasse, você selou um pacto com ele pra acabar de vez com sua vida.
— Não, Ewa… Eu não selei pacto nenhum.
— Como não? Ele até enchia a boca pra falar que a senhora Von Carnap criou essa “casinha da barbie” aqui pra ele.
— Deve também se lembrar que eu não era a única Von Carnap dessa casa. Eu tive 4 filhos, Ewa… E entre eles, só tive uma única filha… Truth.
— O… O quê?
— Não fui eu que fiz o pacto com a Heiko, Ewa. Foi a minha filha Truth. Ela é a causadora de tudo isso que tá acontecendo nesse lugar.
— Mas… Como?
— Eu vou te contar tudo, Ewa.
Neste momento, passamos por flashbacks para adentrarmos nas memórias de Ilse.
Quando o meu Rudiger morreu afogado naquele dia, a nossa família começou a ir para a ruína.
Johan já não conseguia mais trabalhar como gostaria. Isso era inaceitável para um homem com a patente que ele tinha, mas estávamos dispostos a seguir em frente apesar de que eu fui a mais afetada em tudo isso. Imagine você perder o seu primogênito? Ainda mais de uma forma tão horrível como foi.
Os anos foram se passando. O meu Gert assumiu a primogenitura após a morte de Rudiger. Entretanto, ele não pretendia seguir os negócios da família, então conheceu uma fazendeira, se apaixonou por ela, e se casaram e foram morar em outro distrito.
Gert teve dois filhos lindos. Um menino e uma menina. Mesmo morando longe, eu estava tão feliz por agora ser avó. Meu filho estava conseguindo ter a vida que ele sempre quis.
Mas isso não se resultou para a minha Truth. Ela também se apaixonou por um rapaz de boa família. Chegaram a se casar. Foram morar não muito longe daqui, sempre dava pra visitar eles e vice-versa.
Mas aí é que começou a prova de fogo da minha filha. Ela queria muito ter filhos e, obviamente, o marido dela também queria. Mas as tentativas estavam cada vez se tornando menos favoráveis.
Foram vários abortos, vários. Ela já estava ficando cada vez mais cansada. Finalmente depois de um tempo, ela enfim conseguiu levar uma gestação até o final.
Ela concebeu uma garotinha. Minha filha sempre sonhou em ter uma menina. Ela queria dar à ela tudo o que nós não podíamos. Queria que a filha fizesse balé clássico, que fosse da arte.
Mas aí a vida não estava nem um pouco a favor dela. Um surto de meningite na época fez com que a pobre bebê fosse infectada juntamente com a Truth. Ela resistiu, mas a criança não. A bebê estava com 6 meses quando partiu.
Eu como mãe e que também perdeu um filho, senti toda a dor da minha Truth. Eu tentei consolá-la como podia, mas era impossível.
Não existe dor pior nesse mundo do que perder um filho. Nada… Nada supera essa dor.
Após isso, os médicos na época chegaram à conclusão de que Truth não poderia mais ter filhos. Outra gravidez como essa poderia significar o fim de sua vida. Então retiraram o útero dela.
Mesmo com a medicina precária da época, parece que Deus não hesitou em usar as mãos dos homens naquele momento para operarem minha filha.
E como se não bastasse toda a dor que minha Truth estava sentindo. O marido dela se cansou. Ele a abandonou e não teve o menor pudor por ela. Simplesmente se cansou, disse que não queria mais carregar esse fardo, que Truth estava atrasando a vida dele.
Nunca me esqueci em um dia no meio da noite e chovendo, que ouço a campainha da minha porta. Corro até a maçaneta para abrir, e ali está a minha menina com uma mala na mão, toda molhada e chorando muito.
— Mãe… Me ajuda, por favor… Me ajuda!
Eu abracei a minha Truth, a levei para dentro de casa. Eu jamais abandonaria ela naquele momento. Ela era a minha filha, saiu de meu ventre.
Os dias foram se passando… E eu fui percebendo que Truth estava ficando cada vez mais estranha. Havia dias que eu pegava ela no corredor olhando pra janela intacta.
— Truth? Você está bem, filha?
Ela a princípio não respondeu. Mas depois virou para mim, deu um sorriso amarelo e disse:
— Estou ótima, mamãe! Ow, preciso dar de mamar para a neném. Já volto!
Eu não havia entendido o que estava acontecendo. Mas depois de uns dias, percebi que ela começou a colecionar várias bonecas, várias. Todo mês ela chegava com uma boneca diferente ou com algum objeto estranho. Eu passei a desconfiar que todo dia ela saía pro mausoléu levando algumas coisas.
Não demorou muito pra eu descobrir que minha própria filha estava envolvida em magia negra. E não era uma magia negra qualquer, era algo muito maligno.
Então ela comprou a casa de bonecas. Eu reprovei no exato momento, pois aquela casa foi uma fortuna e nossas economias estavam indo de mal a pior.
Mas a minha filha já não estava mais em si. Eu pegava ela no quarto conversando com as bonecas. Como se elas fossem suas amigas.
Após um período, Truth começou a ter um hobbie estranho de colecionar aranhas. Ela sempre as pegava de algum lugar e colocava dentro de um frasco.
Nunca entendi isso. Ela sempre tinha medo de aranhas ou de qualquer animal personhento.
As coisas estavam começando a fugir do controle. E quando eu achava que me preocupar com a Truth já era o bastante, eis que me deparo com a morte do meu marido Johan. E foi da maneira mais improvável possível: Queda de cavalo.
Dá pra imaginar que ele foi cavaleiro a vida inteira pra morrer justamente nisso? Eu estava desolada, minha vida caindo aos pedaços, não sabia mais o que fazer, tudo indo de mal a pior.
Passaram-se mais alguns dias e finalmente chegou o estopim de tudo isso…
Eu cheguei em casa e a Truth estava na beira da escada com o pescoço enrolado em uma cortina.
— Truth, minha filha! O que está fazendo? Sai daí!
— Eu finalmente descobri qual é o meu propósito nessa vida, mamãe. Poderei finalmente ter a vida que eu sempre quis ter. Agora serei uma mulher muito mais poderosa e poderei fazer o que quiser quando eu estiver do outro lado. Não se preocupe, mamãe, jamais vou te machucar, mas o meu ódio vai percorrer por gerações nesta casa. Quem ousar tentar profanar esta casa, será réu da minha ira.
— O que tá dizendo, Truth? Sai daí!
— Agora estou pronta… Pra que satã me receba em seus braços como sua noiva.
Truth se lançou da beira da escada e ficou enforcada com aquela cortina que ela usou como corda. Eu queria ir direto tirar ela de lá, mas eu não pude. Não tive coragem de fazer isso. Meu sofrimento era demais!
Então eu perdi a minha filha. E pior ainda, perdi ela para as trevas. Algo que nunca poderia ter acontecido.
SAÍMOS DAS MEMÓRIAS DE ILSE E RETORNAMOS AO QUARTO.
— Desde então, minha cara Ewa… Tudo têm se tornado apenas trevas na nossa família.
— Mas… Você teve outro filho, não teve? O que aconteceu com o caçula?
— Eu iria chegar nessa parte… Por muito tempo deixei o meu último filho longe de tudo, porque não queria que ele visse a ruína da família chegar. Depois que o Rudiger morreu, ele foi para um internato longe de tudo isso. Fiz isso para ele ter uma família de bem, algo que nem mesmo Gert com o tempo conseguiu, pois conforme os anos foram passando, a vida familiar dele também foi desmoronando. Então meu caçula Haskel Johan Von Carnap cresceu longe de seus pais e seus irmãos. Não vou mentir que conforme os anos foram passando, a saudade ia aumentando, mas foi melhor assim.
— O que houve com ele? Ele retornou à Koscielniki Górne depois?
— Ele retornou apenas para o casamento da Truth e depois disso não voltou mais pra cá. E ainda bem. Ele se formou, teve o primeiro filho já com 35 anos de idade. Meu Haskel foi o único da família que teve um bom legado, e morreu de velhice, algo que não aconteceu com nenhum de nós.
— Eu não entendo, Ilse. O que você fez pra parar tudo isso?
— Esse é o problema, Ewa… Eu não fiz nada… Absolutamente nada.
Voltamos novamente às memórias de Ilse.
O suicídio da Truth pra mim foi a gota d´água. Eu já havia perdido o Rudiger, Johan, meu Gert estava indo de mal a pior, meu Haskel longe de mim, eu já não tinha mais nada. Tudo o que me restava era aquela imensa casa onde a minha solidão iria ser a minha companhia.
Eu decidi a mim mesma que eu queria morrer como uma lenda que nunca existiu, por isso mesmo que não queria ocupar o meu lugar de direito na minha tumba. Queria morrer livre. Queria morrer em paz.
Então um certo dia eu me levantei pela manhã, estava vestindo a minha camisola branca. Eu fui pra fora e estava descalça. Aquele vento gélido das 6 da matina estava soprando nos meus cabelos. Eu fui caminhando sem pressa até chegar na beira do lago.
Eu cheguei na beira. Fiquei parada. O vento continuava a assoprar gentilmente em meus cabelos. Uma lágrima insistia em violar o meu rosto, então eu pronunciei uma frase que veio de dentro do meu peito.
“Eu, Ilse Von Loedbbecke, viúva de Von Carnap. Mãe de quatro filhos: Rudiger, Gert, Truth e Haskel. Matriarca, filha e esposa, moradora de Koscielniki Górne… Eu me responsabilizo por enfrentar qualquer maldição profanada neste lugar por conta da ira de minha filha Truth. Enquanto o mal existir, eu também irei existir. Se eu não puder impedir a minha filha, determino que em 100 anos, Deus irá enviar alguém pra quebrar a maldição de Koscielniki Górne… E todas as almas que morreram aqui finalmente serão libertas… Amém!”
E foi assim que aconteceu. Após encerrar a minha oração, eu coloquei os meus pés na água. Eu fui caminhando para o meio daquele lago. Conforme eu fui indo para mais além daquele lago, o meu medo foi se esvaindo. Um espírito de paz e tranquilidade pairou sob mim.
Cheguei numa parte onde a água pegava no pescoço. Eu olhei para trás novamente. Dei um sorriso e me despedi da mansão. Eu estava preparada. Então eu imergi na água. Deixei que o meu corpo flutuasse na profundeza daquele lago. A minha camisola branca estava em sintonia com o movimento das águas. Meus cabelos também acompanhavam o ritmo dessa dança fúnebre.
Do meu ponto de vista, o sol estava lá em cima sorrindo, um feixe de luz solar veio diretamente em minha direção. Eu peguei as minhas duas mãos, juntei uma na outra em sinal de oração. Eu já sabia que a minha hora havia chegado. Então eu fechei os olhos lentamente e deixei meu corpo ser abraçado pelo lago, até que por fim… A minha alma encontrou passagem para outro lugar e finalmente pude descansar o meu corpo físico para sempre.
SAÍMOS DAS MEMÓRIAS DE ILSE E VOLTAMOS AO QUARTO.
Ewa continua atenta ouvindo tudo o que Ilse está lhe contando.
— O meu corpo físico descansou, mas… Minha alma não. Pois ela sabia que eu tinha uma missão… Eu precisava impedir a ira da Truth.
— Se você veio impedir a Truth… O que a Heiko e eu temos a ver com tudo isso?
— Na verdade, Ewa… Vocês têm tudo a ver. Se enganam se não têm uma parte em tudo isso, pois vocês têm.
— Então era tudo verdade sobre o que a Heiko disse? Sobre a minha família?
— Tudo o que a Heiko disse sobre sua família e o que ela fez com seus pais era verdade. Mas não sobre o que houve com você, Ewa… Você nunca matou ninguém. Da mesma forma que seu pai nunca tentou fazer algo de ruim contigo.
— Então… Então por que ela contou todas aquelas coisas? Por que ela quis me machucar daquela forma?
— A Heiko estava com inveja. Ela queria transferir a responsabilidade do que aconteceu com ela pra outra pessoa. Então ela tentou te persuadir para que a culpa dela seja dividida com você, mas a verdade é que nada do que ela falou sobre você realmente aconteceu.
— Então você sabe, Ilse? Sabe o que realmente aconteceu com os meus pais quando eu tinha 6 anos de idade?
— Sim, Ewa. Eu sei… E é com muita dor no meu coração que… Eu digo que foi ela! Truth matou seus pais.
— O… O quê? Mas como se ela… Se ela…
— Sim, eu sei, ela já estava morta. Mas a ira dela continuou permeando Koscielniki Górne e todo o país.
— Mas eu nasci em Torún. Eu não posso ter nenhuma ligação com ela ou com a Heiko.
— Tanto você quanto a Heiko têm… Por isso que a Truth queria matar vocês… Ela queria se livrar de todos aqueles que tinham o sangue dos Von Carnaps.
— O sangue dos…? Então quer dizer que…
— Sim, Ewa. Heiko é descendente de meu filho Gert. O Gert é tetravô dela.
— Meu Deus… Como isso pode ser possível?
— E você, Ewa… Você é tataraneta de Haskel. Você é descendente do meu quarto filho.
Ewa fica em choque. Até pensa em se levantar da cadeira, mas prefere se segurar ali mesmo.
— Meu Deus, então… Então…
— Eu sou sua tetravó. Você é uma Von Carnap como nós. Mesmo com o parentesco distante, o sangue Von Carnap corre em suas veias. A sua mãe era bisneta do neto do Haskel. Ela não sabia da trajetória da família, obviamente. E seu pai muito menos. O avô de sua mãe ainda usava o sobrenome. Mas os filhos que vieram depois e foram se casando, foram abandonando cada vez mais o sobrenome, cortando cada vez mais os laços com essa família. Por um lado isso funcionou, pois escondeu isso da Truth.
— A Heiko sabia que ela era uma descendente do Gert?
— Não. Ela nunca soube. O pai dela que era o descendente direto do Gert. A vida do meu filho começou a entrar em ruínas a partir de seus netos. Seu filho sempre foi um bom homem, mas foram os filhos dele que levaram a família à perdição.
— E enquanto ao Haskel? E enquanto ao meu tataravô?
— Os descendentes de Haskel eram os únicos de sangue puro da família. Nenhum deles se envolveu com as trevas. Por isso Truth ficou furiosa, ela queria acabar com toda a linhagem Von Carnap. Ela teve inveja que seus irmãos estavam tendo filhos, netos, bisnetos e por aí vai e começou a interferir. Seu pacto com as trevas foi poderoso o suficiente para influenciar o outro mundo com esse.
— Ela é tão poderosa assim?
— Mais do que você imagina, Ewa. Sabe como ela matou os teus pais? Foi em um dia comum em que um pesquisador vindo de Torún veio visitar o palácio. Truth conseguiu possuir este homem. Diferente de Heiko que ela só o persuadiu a matar seus pais, com este pesquisador foi diferente. Era um pobre coitado qualquer. Truth sabia que os últimos descendentes estavam vivos e era você e seus pais. Não me pergunte como ela descobriu, mas ela conseguiu. Então este homem sendo dominado pelo espírito raivoso da Truth descobriu onde seus pais moravam e… Ele agiu.
FLASHBACK- NOITE DA MORTE DOS PAIS DE EWA.
Ele esperou que todos vocês estivessem dormindo, conseguiu entrar na casa sem mal fazer barulho. Por causa da chuva, nem seus pais e nem você puderam ouvir alguma coisa.
Então ele foi na cozinha, pegou uma faca e subiu as escadas. Ele primeiro entrou no quarto de seus pais apenas para conferir se eles estavam dormindo. Os alvos eram você e sua mãe, seu pai não era descendente de Von Carnap.
Então ele encostou a porta e foi em direção ao seu quarto. Ele entrou, viu você dormindo. Ele levantou a faca em sua direção, mas tinha algo errado. Algo que não permitia que ele desse continuidade a aquilo. Então Truth dentro daquele rapaz viu a sua boneca e ficou encantada. Ele pegou aquela boneca, olhou pra você novamente e pensou em entrar no seu corpo, seria melhor te possuir do que te matar.
Mas o seu coração era puro demais para uma alma das trevas possuir. Isso deixou Truth devidamente irritada, ela precisava de um escape. Então o homem possuído por ela saiu de seu quarto, quando deu a volta ao corredor, seu pai escutou o barulho e saiu do quarto.
— Ewa? É você, filha?
Ele com a boneca na mão, virou para o corredor. Não dava pra ver direito o seu rosto porque estava um pouco escuro, somente o clarão dos relâmpagos estavam presentes.
— Quem é você? O que fez com minha filha?
O espírito raivoso possuindo aquele homem fez com que ele avançasse pra cima do seu pai cravando aquela faca em seu estômago. Quando ele deu a primeira cravada, seu pai cuspiu sangue. Sangue esse que marcou o rosto daquela boneca.
O homem possuído deixou a boneca no chão sentada no corredor. Seu pai estava ali ainda agonizando, sua mãe ouviu o barulho e veio pra fora do quarto.
— Querido, o que tá acontecen… Ahhhhhh!
Ele tentou ir atrás de sua mãe. Seu pai, ferido, tentou impedi-lo.
— Fique… Longe dela!
Ele cravou outra faca no estômago de seu pai. Seu pai caiu morto em seguida.
Sua mãe tentou escapar.
— O que você quer de nós? Fique longe da minha filha!
Truth odiava a palavra “filha”, pois ela se lembra da única filha que teve e perdeu.
Então ele avançou pra cima de sua mãe, pegou a cabeça dela e jogou contra a parede.
Sua mãe estava no chão, naquele corredor, não sabia quem era aquele homem e porque ele estava ali. Ela estava se arrastando. Ele olhando ela clamando por misericórdia.
— Por favor, não… Por favor!
Aquele homem cravou a faca na barriga de sua mãe várias vezes.
Após terminar, ele arrastou primeiramente o corpo dela para dentro do quarto. Em seguida arrastou o corpo de seu pai. Deixou ambos ali deitados na cama de bruços.
Ao sair do quarto, ele encosta a porta e vai em direção às escadas. Quando está prestes a dar os primeiros passos degrau abaixo, ele ouve a tua voz.
— Papai? Mamãe?
Você entrou no quarto de seus pais. Você não se lembrou depois, mas não foi só a mão de seu pai ensanguentada que você viu. Você viu os corpos de todos eles claramente. A sua mente bloqueou isso, mas você viu tudo, Ewa. Tudo!
Quando você saiu do quarto e foi para o corredor. Ele voltou das escadas e veio em sua direção. A boneca continuava ali sentada no chão com o rosto manchado com o sangue do teu pai.
Você ficou com medo, naquele momento o espírito de Truth sentiu vontade de te matar. Então ela tentou mais uma vez. Usando o corpo daquele homem, ela foi em sua direção, você voltou para dentro de seu quarto, estava morrendo de medo. Você se embrulhou nos lençóis, ele havia pegado a boneca antes disso.
Ele abriu a porta e jogou a boneca na sua cama. Nessa parte onde você não se lembra de nada, ele entrou no seu quarto. Você estava embrulhada no lençol. Ele se aproximou de você. Ele tirou o cobertor de cima de você. Você ficou olhando pra ele com os olhos em lágrimas.
— Por favor…
Ele apontou a faca em sua direção. Mas tinha algo que o impedia. Nem a própria Truth entendia porque ela não conseguia avançar, então ela fez algo com você. Colocou a mão na sua cabeça e fez com que você desmaiasse.
Ele pegou a boneca, como sinal de triunfo por ter matado os últimos Von Carnaps, com a exceção de você, e foi embora. Truth fez com que o homem viajasse quilômetros de distância de volta só pra trazer o espírito dela novamente para dentro da casa.
Ao voltar, o homem se deu conta de si, mas ele era uma peça que não podia sair desse tabuleiro, então a própria Truth o matou em seguida, o jogando no lago de cadáveres no túnel do mausoléu. Ali é onde ela guardava todas as pessoas que ousaram profanar Koscielniki Górne, como ela dizia.
FIM DE FLASHBACK.
Ewa está impactada com tudo que está ouvindo.
— Então foi isso? Mas por que ela poupou a Heiko? Sendo que ela também é uma Von Carnap?
— Heiko estava tão dominada pelo ódio quanto ela. Ela precisava da Heiko pra fazer seu espírito permanecer vivo para os próximos anos. Ela sabia que cedo ou tarde você iria reaparecer, sabia que a descendente do quarto filho seria a peça fundamental para todo esse desfecho. Sabia que você fazia parte da profecia que eu proliferei antes da minha morte. Os 100 anos se passaram, Ewa… Você é a pessoa que vai colocar um fim em tudo isso.
— Como? Como eu posso colocar um fim em tudo isso?
— Bem… A primeira coisa que você tem que fazer é… Precisa entrar no jogo da Heiko. Precisa realmente se arrumar para o casamento dela, precisa casar ela com o Peter (boneco) e deixar ela ter esse momento só pra ela.
— Então terei que atuar nessa casa de bonecas?
— Sim, Ewa. Precisa entregar aquilo que a Heiko quer.
— E depois?
As luzes começam a piscar.
— O que é isso?
— Droga, tenho pouco tempo. Minha projeção vai se dissipar e a Truth vai descobrir que eu estive com você. Sem mais delongas, preciso te contar algo que a Truth fez e se você conseguir ir atrás de tudo isso,vai conseguir derrota-la.
— O que foi?
— Como eu disse. O pacto que Truth fez foi extremamente poderoso. Como ela sabia que um dia alguém iria tentar destruí-la, ela fragmentou a sua alma em três partes.
— Três partes?
— Sim, ela alojou cada um desses fragmentos em algo específico para que em hipótese nenhuma, descobrissem a sua fonte de poder.
— Entendo… Como as horcrux em Harry Potter… Desculpe, mas sou uma leitora voraz.
— Pra conseguir derrotar a Truth, precisa destruir todos os objetos no qual ela alojou um fragmento de sua alma.
— E como eu descubro onde eles estão?
— O primeiro fragmento está no boneco.
— O Peter?
— Sim. Ela sabia que a Heiko nunca iria deixar alguém se aproximar daquele boneco, então, por segurança, alojou um fragmento de sua alma naquele boneco. O segundo está na casa de bonecas, esta que você se encontra.
— Mas como vou destruir ela estando aqui dentro?
— Aí é que tá. Se você destruir o boneco, uma boa parte do poder da Truth vai enfraquecer, isso te dará a chance de conseguir sair da casa de bonecas, mas precisa dar um jeito de trazer a Heiko contigo ou ela vai morrer aqui dentro.
— Tá, e a terceira? Onde está?
— Essa é a parte mais difícil, Ewa…
— O quê?
— A terceira parte tinha que estar num lugar onde ninguém imaginasse… E de preferência… Alguém de coração puro.
— Não, não me diga que… Não me diga que…
— Sim, Ewa. Você é o último fragmento da Truth.
Baque em Ewa.
— Não… Não pode ser possível, significa que o único jeito de parar a Truth é… Se eu morrer?
— Eu… Eu sinto muito. Eu não queria que as coisas fossem assim. Como a Truth não conseguiu possuir você quando criança, ela transferiu o terceiro fragmento de sua alma pra você. Por isso suas memórias foram apagadas e você não se lembra de quase nada daquela fatídica noite.
— Então eu carrego um espírito maligno dentro de mim durante todos esses anos?
— Por isso que você tinha pesadelos com o boneco da Heiko. Eram os fragmentos da Truth tentando se conectar uns com os outros. Você, o boneco, a casa de bonecas, a Heiko… Vocês são peça chave de tudo isso.
— Olha, eu… Eu já perdi tudo lá fora. Pela primeira vez eu concordo com a Heiko quando ela diz que não tenho mais nada lá fora, então se eu morrer… Que seja pra fazer o bem. Que seja pra acabar de vez com essa maldição.
— Ótimo. Então se arrume para o casamento, não deixe a Heiko e nem mesmo a Truth desconfiar. Ela nem sempre é onipresente e onisciente, essa foi a única maneira que eu consegui entrar em contato com você. Precisei acessar o mundo dos mortos pra conseguir fazer isso.
— Obrigada, Ilse… E me desculpe por desconfiar de você.
— Não se preocupe, querida… Agora você tem uma guerra para vencer.
O reflexo de Ilse no espelho desaparece. As luzes voltam ao seu estado normal. Heiko bate na porta.
— Ewa, querida. Como está aí?
— Ah, eu já tô me arrumando, Heiko. Daqui a pouco eu te ajudo com o vestido. Que horas será o casamento?
— Não se preocupe, querida. Teremos 3 horas ainda pela frente.
— Ok. Então vamos nos preparar.
Horas se passaram, chega enfim a fatídica “cerimônia de casamento” entre Heiko e aquele boneco. Fizeram ali na sala mesmo. Um tapete vermelho estava estirado onde seria o local que Heiko passaria.
Ela está com um vestido de noiva modesto. Sem calda longa, apenas para cerimônias mais simples. Carrega um buquê de tulipas brancas. Ela faz a sua marcha nupcial sozinha. Ewa está no final do corredor com uma bíblia na mão e um papel. O boneco se encontra do lado de Ewa escorado na parede.
Heiko vem em direção ao “altar” sorrindo, está a ponto de chorar emocionada. Ela finalmente chega ao “altar”. Ewa pega o boneco e o coloca do lado dela deixando em pé e firmando no braço de Heiko para que ele ficasse de pé igualmente com ela.
Ewa segura o papel e começa a declamar:
— Nesta madrugada, em Koscielniki Górne estamos selando o laço matrimonial entre… Peter e… Heiko Koslowski. Duas almas que nasceram para se amar e agora estão selando por fim a sua união.
Heiko coloca uma mão no olho enxugando uma lágrima, emocionada.
— Bem, senhor… Peter… Aceita a senhorita Heiko Koslowski como sua legítima esposa?
Vemos apenas o rosto do boneco. Ewa pensa consigo mesma: “Só faltava mesmo esse boneco falar”.
— Ai, por favor, querido. Não seja tímido, sei que está emocionado. Ele disse que sim, Ewa.
— Bem, se você está dizendo. Amm… Senhorita Heiko Koslowski, aceita o senhor Peter como seu legítimo esposo?
— É tudo o que eu mais quero neste mundo. Sim! É claro que sim.
— Ok, então com o poder investido a mim, eu acho… Eu vos declaro marido e mulher. Já pode beijar a noiva… Se puder, claro.
Heiko imediatamente dá um beijo naquele boneco. Ewa fica completamente perplexa com a seriedade que ela tomou pra si aquela cena. Era como se realmente ela tivesse acreditado que estava se casando com um homem de carne e osso. E isso é assustador aos olhos de qualquer pessoa.
Como se não bastasse, depois de horas, em sua noite de “núpcias”. Heiko se despiu na cama e começou a ter relações sexuais com aquele boneco. Para ela, era o seu Peter que estava ali se deitando com ela, mas o boneco era apenas um objeto de plástico de que em nada servia.
Ewa do corredor ouvia os gemidos de prazer de Heiko. Ela enojada, vai pra dentro do banheiro de seu quarto e vomita dentro do vaso.
Ela precisava de um plano. Precisava de uma forma de acabar de vez com aquele boneco, mas não sabia como.
Então ela foi lá pra baixo, ela se lembrou que a Heiko havia dito que tudo o que ela quisesse e desejasse ter naquela casa, o seu desejo seria atendido.
Não demorou muito até Ewa se aproximar da lareira e ver um machado ali escorado. Era aquilo que seria a arma pra acabar de vez com o boneco. Mas não poderia fazer isso com a Heiko acordada, então esperou até que ela adormecesse.
Horas se passaram, já é mais ou menos 08:30 da manhã da Segunda-Feira no mundo do lado de fora. Ewa entra sorrateiramente no quarto de Heiko. Ela está adormecida na cama. O boneco está ali deitado.
Ewa se prepara para a sua prova de fogo. Ela dá passos cautelosos em direção à cama. Heiko está deitada de bruços e está com um braço agarrada ao boneco.
Ewa precisa ser cautelosa. Ela começa a retirar lentamente o braço de Heiko de cima do boneco. Heiko solta um suspiro alto. Ewa fica paralisada. Sabe que se ela acordar, terá sérios problemas.
Ela espera que Heiko se acalme e volte a dormir tranquilamente. Então enfim ela consegue tirar o boneco de cima da cama. Ele estava apenas com a camisa branca de baixo e sem o terno. Ewa sai do quarto sem que Heiko suspeitasse.
Enquanto isso, Oton está na pousada com o computador ligado. Ele estranha algo de imediato. Percebe que os movimentos que Ewa está fazendo na casa já são conhecidos. Ele tenta aproximar a câmera, percebe que aquelas imagens são de fim de tarde, não poderia acontecer isso em um horário pela manhã.
— Merda. A gravação tá congelada. Ewa!
Óton pega rapidamente um casaco, as chaves do carro, e se dirige em direção ao palácio.
Dentro da casa de bonecas, Ewa está em seu quarto e deixou o boneco sentado na beirada da cama.
Ela está com o machado na mão. Começa a se lembrar de tudo o que Ilse disse.
— O único jeito de sair daqui… É me livrando de um fragmento da alma da Truth. Desculpa, Peter, não é nada pessoal, mas… Não tenho escolha.
Ewa empunha o machado.
Enquanto isso, Oton está na estrada a toda velocidade tentando se comunicar com Ewa pelo celular.
“O número chamado está desligado ou fora da área de cobertura”…
— DROGA! MAS QUE DROGA!
Ele disca um outro número no celular.
— Telefonista, bom dia!
— Preciso que me passe para o serviço de emergência, por favor.
— Qual a localização, senhor?
— O palácio de Koscielniki Górne.
Voltamos novamente para dentro da casa de bonecas, Ewa ainda está com o machado nas mãos, mas começa a hesitar.
— Droga! Não sei se consigo fazer isso.
Ela abaixa o machado, se afasta, fica receosa.
— Eu não entendo. Não estou machucando uma pessoa de verdade, é só… A droga de um boneco estúpido que serviu pra suprir os desejos sexuais da Heiko. Vamos lá, Ewa! Você consegue!
Vemos mais uma vez na estrada, Óton conversando com a polícia pelo telefone.
— Escuta, eu não tenho que dar o meu nome, porque eu não sou o importante agora. Tem uma moça naquele palácio e que está correndo perigo. Enviem alguém pra lá… AGORA!
Óton desliga o celular furioso.
— PORRA!
Ele respira com bastante apreensão.
— Aguenta, Ewa! Estou chegando.
Na casa de bonecas, Ewa tenta mais uma vez tirar coragem de onde não tem.
— Ok, vamos lá… Eu sinto muito, Peter. Mas eu preciso fazer isso.
Ewa empunha mais uma vez o machado, olha para o lado pra ver se Heiko não está vindo, depois desce o machado em direção à cabeça daquele boneco, mas o inesperado acontece.
— O… O quê?
O boneco segura o braço de Ewa impedindo que aplicasse o golpe.
— Não… Pode ser.
O boneco empurra Ewa para o canto do quarto. Pela primeira vez, vemos uma expressão facial no seu rosto. Uma expressão maligna. Ele levanta da cama lentamente. Ewa no chão, atordoada.
— Isso é impossível… Você é só a porra de um boneco de plástico!
O boneco faz uma expressão de fúria e corre em direção à Ewa tentando enforca-la no chão.
— Ah! Me solta! Me solta, seu monstro!
Ele continua em cima dela enforcando-a mesmo com aquelas pequenas mãos.
Ewa está sentindo o ar se esvair, tenta alcançar o machado. Ele percebe que ela está esticando o braço pra apanhá-lo, então ele solta as mãos e pega o machado.
Ele sai de cima do colo de Ewa, fica de pé e empunha o machado.
Ewa olha pra ele por alguns segundos e declama:
— JÁ CHEGA, TRUTH!
O boneco sente uma forte “dor de cabeça”, Ewa dá uma rasteira nele. Ela se levanta rapidamente e vai para fora do quarto.
Ao sair, Ewa tropeça no corredor, vira para trás, vê aquele boneco saindo do quarto. Ele decide não pegar o machado e o joga pelo vão da escada.
Ewa sente o perigo se acercar à ela. Então ela se levanta para iniciar a sua fuga.
O boneco sobe no vão da escada e começa a persegui-la como um animal de quatro patas. Ele ainda de 4 patas, sobe na parede e em seguida está correndo pelo teto.
Quando Ewa está prestes a descer as escadas, ele pula do teto pra cima dela. Os dois rolam as escadas. Ewa dá vários socos no boneco. Ele revida e tenta fazer o mesmo. Ewa tenta se levantar, ele agarra suas pernas, a arrasta pra si e começa a golpeá-la.
— Ahh! Sai!
Ewa chuta o boneco. Ele se levanta rapidamente, a alcança e a prensa na parede. Ewa tenta se esquivar daquele boneco. Ele era mais forte do que ela mesmo imaginava.
— Seu… Demônio maldito!
Ewa pega uma estatueta em cima da prateleira ao lado e acerta a cabeça dele. O boneco fica atordoado, então Ewa aproveita o momento para ir atrás do machado.
Ao chegar perto, ela ouve a voz de Ilse.
— EWA! NÃO É O BONECO QUE ESTÁ FAZENDO ISSO. É O ESPÍRITO DA TRUTH, PRECISA SE LIVRAR DELE O QUANTO ANTES OU ELE VAI TE MATAR!
Ao ouvir o recado, o boneco vêm saltando pra cima de Ewa com toda fúria.
— Ah! Já chega! Chega!!
O boneco continua forcejando contra Ewa. Finalmente ela soube o que fazer naquele momento.
— Eu sei que é você, Truth.
O boneco reage.
— Eu sei que você que está tentando fazer isso.
O boneco sai de cima dela, começa a recuar.
— Você está tentando criar esse mundo imaginário para a Heiko e eu ficarmos presas aqui dentro, mas você não tem esse direito.
Ewa segura o machado, o boneco se sente enfraquecido.
— Então não me leve a mal, querido Peter. Mas eu não faço parte do Multiverso da Barbie, e eu vou sair da porra dessa casa!
Ewa acerta a cabeça do boneco com o machado. De maneira inexplicável, sangue saía daquele boneco como se ele fosse humano.
— MORRE DE UMA VEZ POR TODAS, SEU BONECO ESTÚPIDO!
Ewa começa a acertar o corpo do boneco várias e várias vezes. Estava completamente ensandecida e disposta a por um fim em tudo aquilo.
Ela finalmente se prepara para dar o golpe de misericórdia.
— A HEIKO NUNCA VAI SER SUA… E MUITO MENOS EU!
Ela com toda fúria corta a cabeça do boneco fora. A cabeça sai rolando pelo chão da sala.
A casa de bonecas estremece. Algo aconteceu. Pelo lado de fora, podemos ver a casinha piscando as luzes lá dentro.
Do lado de dentro da casa de bonecas, Ewa ainda impactada com o que fizera, não percebe Heiko ali parada no meio da escada em estado de choque.
— O… O que você fez?
— Heiko… Heiko, calma… Nós podemos conversar, calma.
Do lado de fora do palácio, Óton chega na porta cantando pneu. Ele desce imediatamente do veículo e se dirige até a porta. Ele entra abruptamente.
— EWA! EWA, CADÊ VOCÊ? EWA!
Do lado de dentro da casinha, Ewa ouve a voz de Óton.
— Droga. ÓTON! Escuta, Heiko, é para o seu bem… O Peter, ele… Ele não era real.
— Você… Você matou o meu Peter. VOCÊ MATOU O MEU MARIDO!
— Ele não é o seu marido, pelo amor de Deus! A Truth enganou você. Ela só queria te usar para matar a todos os descendentes dos Von Carnaps.
— Não, não, não, ela me deu de presente esse paraíso!
— ESSE PARAÍSO ESTÁ DESMORONANDO, HEIKO! A TRUTH FEZ ESSA CASA PARA MATAR NÓS DUAS! SOMOS AS ÚNICAS VON CARNAPS VIVAS NESSE MUNDO. ELA CRIOU ESSE LUGAR PARA ACABAR COM A NOSSA LINHAGEM!
— NÃO! A SENHORA TRUTH ME DEU TUDO. TUDO! E agora você tirou de mim a coisa mais importante da minha vida, Ewa. EU TE ODEIO!
Do lado de fora da casinha, Óton continua procurando Ewa constantemente.
— EWA! EWA, CADÊ VOCÊ? EWA! PORRA!!
Na casa de bonecas, o local está começando a se definhar aos poucos, as luzes estão piscando e pedaços do teto caindo.
— Escuta, Heiko. Vamos sair daqui juntas. Você não precisa viver nesse mundo de ilusão, lá fora você vai encontrar um Peter de carne e osso que vai te amar como você merece e não a droga de um boneco de plástico!
— Eu havia perdido tudo nesse mundo e a única coisa que me restava era o amor do meu Peter. E você tirou isso de mim. Lamento, Ewa, mas… EU VOU TE MATAR SUA FILHA DA PUTA!
Heiko ensandecida em fúria, vai pra cima de Ewa.
— Para, Heiko! Chega!
— EU VOU TE MATAR!
Ewa tenta se esquivar de Heiko, ela a agarra e a lança pra longe.
— Sua vagabunda! Eu vou acabar com você.
— A TRUTH USOU VOCÊ, HEIKO! PARA!
Do lado de fora da casinha, Óton está na sala segurando as duas mãos na cabeça sem saber o que fazer. Mas ele nota uma movimentação estranha vinda de dentro da casa de bonecas. A casa está piscando as luzes e ele se aproxima percebendo algo estranho.
Lá dentro, Heiko está forcejando contra Ewa no chão.
— ME… ME SOLTA, HEIKO!
Ewa não vê outra alternativa e dá uma cabeçada na testa de Heiko.
— Ahh!
Heiko cai no chão. Ewa se levanta. Apanha o machado. Corre pras janelas.
— ÓTON! ÓTON, ME ESCUTA! ÓTON!
Óton do lado de fora está tentando entender o que está acontecendo.
— ÓTON! EU TÔ AQUI! ABRE A PORTA! ABRE A PORTA!
Óton olha pra janela da casinha, percebe uma miniatura lá dentro, mas ainda está incrédulo com o que vê.
Lá dentro, Ewa pega o machado e acerta o vidro da janela assustando Óton do lado de fora.
— ÓTON, SOU EU, A EWA! ABRE A PORTINHA DA CASA!
— MAS QUE PORRA É ESSA?
— ABRE A PORTA!! AGORA!!
Heiko se levanta e vai correndo na direção de Ewa.
— MORRE, SUA VADIA CRETINA!
Ao quase se aproximar de Ewa, Óton abre a portinha da casa. Uma luz surge envolta daquela casa de bonecas. Oton se afasta. Então de dentro daquela luz, sai Ewa e Heiko.
As duas caem no chão tossindo muito. Óton fica em estado de choque.
— QUE DROGA É ESSA? QUEM É ELA?
— ÓTON, FOGE!
Heiko se levanta e vai direto atacar Óton.
— ME SOLTA! ME SOLTA, SUA MALUCA! QUEM É VOCÊ?
— MALDITOS! MALDITOS! VOCÊS ME TIRARAM TUDO! TUDO!
— SAI DE CIMA DE MIM!
— ELA NÃO É A INIMIGA, ÓTON! ELA FOI USADA COMO TODOS NÓS. Mas eu vou colocar um fim em tudo isso de uma vez por todas.
Ewa empunha o machado para a casa. Heiko se afasta de Óton.
— Não, Ewa. Por favor, não faz isso. Não destrua o nosso lar, por favor.
— Esse lugar nunca será o nosso lar. Bem vinda ao mundo real, Heiko!
Ewa pega o machado para acertar na casa de bonecas e uma mão feminina a impede.
— Não… Truth?
O próprio espírito da Truth com um vestido negro aparece ali para impedir a finalização de seu plano. Ela arremessa Ewa contra a parede.
— AAAAAH!
Óton se desespera.
— EWA!
Ela estica os braços e faz com que Óton flutue no ar e sinta sua garganta ser sufocada.
— Ahhh! Socorro!
— ÓTON! DEIXA ELE EM PAZ!
Ela arremessa Óton para o outro lado. Heiko fica completamente encantada.
— Senhora Von Carnap… Eu juro que fiz de tudo. Eu fiz tudo o que a senhora falou, Milady. Eu levei a idiota pra dentro da casa, mas ela matou o meu Peter, me coloca dentro da casa de novo, por favor, eu serei uma boa menina, eu juro.
Truth alisa o cabelo de Heiko.
— Você foi uma boa menina, Heiko… Mas eu não preciso mais de você.
Ela empunha as suas garras para a direção de Heiko, então ouve a voz de Ewa.
— Aí, Truth!
Ela vira rapidamente para Ewa.
— Acho que esqueceu que eu também sou uma Von Carnap.
Ewa acerta o machado na casa de bonecas. Truth solta um grito ensurdecedor. Ewa acerta mais uma vez e um pulso de energia transparente sai de dentro daquela casa explodindo em mil pedacinhos.
A mansão começa a estremecer, o brasão da família na torre do palácio cai. Tudo está desmoronando.
Lá dentro, todos ficam sem reação ao que está acontecendo. Óton se aproxima de Ewa no chão. Truth está dando gritos histéricos.
— Ewa, você está bem?
— Acho que sim, mas… Heiko! Heiko, vem pra cá!
— Eu… Eu…
— Ela tentou te matar. Você viu ela tentando te matar.
Truth para de gritar e se lamentar. Então ela olha pra direção de Ewa com uma fúria inimaginável.
— Só podia ser parente daquele bastardo do meu irmão. Você estragou todos os meus planos, Ewa!
— Você perdeu, Truth! Chega!
— Você será enterrada juntamente a aquele lago de cadáveres.
Quando Truth se aproxima para atacar Ewa e Óton. Ilse aparece na frente dela.
— JÁ CHEGA, TRUTH!
— NÃO SE META, MAMÃE!
— Já chega, filha! Não pode mais ficar remoendo o passado. Faz mais de 110 anos que você está vivendo isso.
— NÃO! Todos têm que me pagar. Você não vai me impedir, mamãe… Nunca vão descobrir onde eu escondi o último fragmento.
— Não vou deixar você tocar na Ewa.
— E quem disse que eu estou falando da Ewa?
Ela olha em direção à Heiko.
— O… O quê?
Ela pressiona suas mãos e Heiko começa a se sentir sufocada.
— Não! Não, senhora! Não me mate, por favor!
— JÁ CHEGA, FILHA!
— Tá vendo o poder que eu tenho, mamãe? Eu sou capaz de qualquer coisa.
Ewa testemunhando a luta, murmura com Óton.
— Espera, tem alguma coisa errada.
— O que foi?
— Se eu não estou com o último fragmento da alma dela, ela não poderia matar a Heiko, senão mataria ela também.
— O que você tá tentando dizer?
— Ela esconderia no lugar onde ninguém iria procurar. Se fosse a Heiko seria muito óbvio. Eu sei onde ela escondeu.
Ewa se levanta, vai em direção às escadas pelas laterais. Truth a avista.
— ONDE PENSA QUE VAI, SUA IMUNDA?
Ilse a impede.
— NÃO! Você não vai fazer nada com ela.
— SEGURA ELA UM POUCO, ILSE! EU JÁ SEI COMO DAR UM FIM NISSO TUDO.
Ewa rapidamente sobe as escadas.
Truth se enfurece. O espírito de Johan aparece para ajudar Ilse.
— JÁ CHEGA, TRUTH! CHEGA!
Lá em cima, Ewa está no corredor. A escada do sótão desce automaticamente. Ela se assusta, mas percebe que é Rudiger que está ali.
— Depressa, Ewa! Impeça a minha irmã!
— Tá bom.
Ewa sobe na escada do sótão. Vai até la em cima. Abre o baú. Pega o vestido de bailarina. Em seguida ela desce as escadas do sótão. Quando desce se assusta a ver um homem alto e barbudo na sua frente.
— Ahh! Quem é você?
— Gert Von Carnap. Talvez precise disso aqui (ele entrega um isqueiro à ela).
— O… Obrigada.
Ela apanha o isqueiro e sai correndo.
Lá embaixo o embate entre os espíritos continua.
— POR QUE ESTÃO TENTANDO IMPEDIR A MINHA VINGANÇA? POR QUÊ?
A ira de Truth faz tudo estremecer. Óton continua na porta agachado, enquanto Heiko está ali do lado, na parede, sentindo muito medo. Ilse tenta convencer a filha a largar todo esse ódio.
— POR FAVOR, TRUTH! SE ENTREGUE! DEIXA ESSE RANCOR DE LADO, POR FAVOR! VENHA SER FELIZ COM A GENTE!
— NÃAAAO! ME DEIXEM EM PAZ!!
Ewa chega na ponta da escada, carrega aquele vestido de bailarina em suas mãos. Ela pega o isqueiro e o acende.
— Eu sabia que você não iria conseguir esconder seu terceiro fragmento em um humano, Truth. Porque a verdade é que você foi escondendo na ordem. O boneco que era o último e esse vestido é na verdade o primeiro.
Ewa coloca fogo no vestido. Truth grita desesperadamente.
— NÃAAAAAAAAAAAAAO!!
— ACABOU, TRUTH!
O vestido pega fogo, o poder de Truth começa a se enfraquecer cada vez mais. Ela cai nos braços de Johan e Ilse.
Heiko naquele momento fica completamente descontrolada. Ela sobe as escadas ignorando a presença de Ewa.
— NÃO! NÃO! EU NÃO QUERO VOLTAR PRO MUNDO REAL! EU NÃO QUERO!
— HEIKO, ESPERA!
Ewa vai atrás de Heiko. Óton também decide segui-las.
— Ewa, espera!
Heiko sobe ainda mais as escadas. Ela vai para o terraço do palácio. A mansão está começando a ceder. Heiko se aproxima da beira do terraço da casa.
Ewa chega lá em cima.
— HEIKO! HEIKO, POR FAVOR… Não faz nenhuma besteira.
— A… Acabou. Minha vida acabou. Eu não tenho mais nada nessa vida.
— Não… Você ainda pode recomeçar. Você ainda é nova, vai conseguir se reerguer novamente.
— Eu não consigo, Ewa. Eu já lutei durante todos esses anos, eu cansei de lutar. Cansei.
— EWA!
Óton chega ali.
— Por favor, Heiko. Segure a minha mão, vamos sair dessa casa juntas, podemos ser amigas lá fora.
— Eu acabei de tentar te matar. Não podemos ser amigas.
— Você foi enganada assim como eu. Durante anos tive a verdade sobre os meus pais escondida dentro da minha própria memória. Mas agora está tudo tão claro como água. Venha com a gente, Heiko. Não precisa ser assim.
— Eu… Eu só queria ser amada, Ewa… Eu só queria ter um amor. Será que isso é pedir muito? Será que é pedir demais?
— Não, Heiko. Não é pedir demais… Você merece ser feliz.
— Ewa,a gente precisa sair daqui logo, a casa tá desmoronando.
— Não saio daqui sem a Heiko. Por favor, Heiko… Somos quase irmãs… Somos parentes agora, você é uma Von Carnap assim como eu, somos as únicas no mundo inteiro. Podemos selar a nossa linhagem do jeito certo. E acabar de vez com a maldição de Koscielniki Górne.
— Ewa, eu…
Ewa se aproxima ficando bem próxima dela.
— Vem com a gente, Heiko… Por favor.
Neste momento, a casa estremece mais uma vez e um pedaço do piso onde Heiko está em pé, cede.
— Ahhh!
Heiko se desiquilibra, Ewa consegue segurar o seu braço e fica pendurada, Oton vem logo atrás.
— EWA! EWA, AGUENTA FIRME!
— SEGURA A MINHA MÃO, HEIKO!
Heiko está segurando a mão de Ewa. Ela olha pra baixo e depois olha pra Ewa novamente.
— Tá tudo bem, tá tudo bem. Eu te segurei, você tá a salva.
Heiko observa uma luz resplandecente saindo de trás de Ewa. Somente ela está vendo aquela luz.
— Ewa…
— Sim?
— Acho que você teria sido uma ótima esposa pra alguém.
Ewa com lágrimas nos olhos, a responde.
— Vo… Você também, Heiko.
— Pode apenas me responder uma pergunta?
— Sim, Heiko. Quantas você quiser.
— Você acha que… Eu vou encontrar ele algum dia? Que eu vou encontrar o anjo do bosque?
— É claro que vai, Heiko. Você vai encontra-lo e ele vai te amar como nunca. Ele vai te amar da forma que você merece.
— Fico aliviada. Acho que agora sim eu sinto que eu posso finalmente ser feliz.
Naquele instante, vemos apenas um clarão. Ao fim desse clarão está Heiko com um vestido de bailarina em uma rua cheia de cristais no chão.
Ela está caminhando como se flutuasse ali. Ao descer mais, ela chega ao bosque no final da rua. Ela avista asas gigantescas de trás de alguns arbustos. Fica paralisada na frente do bosque. Aquelas asas começam a se mexer para depois sair de trás dos arbustos.
Eis que aparece Peter (o verdadeiro) com asas de anjo se acercando à ela.
— Eu esperei por você, minha dama.
— Peter… Meu anjo.
— Milady… Você me concederia esta dança?
— É… É claro, milorde.
O anjo segura em suas mãos e eles dançam valsa no meio da rua. Pela primeira vez, Heiko está sorrindo aliviada. O anjo envolve Heiko debaixo de suas asas. Ele a observa e olhando gentilmente em seus olhos, diz:
— Eu te amo!
Heiko, emocionada e ao mesmo tempo com um semblante de alívio, diz:
— Eu te amo!
Debaixo daquelas asas, Heiko aproxima os seus lábios nos lábios daquele anjo. E um beijo apaixonado, puro e sem malícia é proferido.
No mundo real, Heiko acabara de soltar a mão de Ewa. Ela está caindo como se flutuasse. Com um sorriso no rosto no qual ninguém mais poderia tirar dela naquele momento. Lá em cima apenas as lágrimas de desespero de Ewa que era acolhida por Oton para que ela não viesse a cair também.
A queda de Heiko na verdade foi a sua ascensão, foi a sua liberdade. Enfim ela pôde descansar.
Minutos depois, após a queda de Heiko, o palácio parou de estremecer. Ewa e Óton chegam na sala e testemunham os últimos minutos de Truth ali. Ela está evaporando aos poucos, mas pelo visto, o perdão a alcançou.
— Me desculpa, mãe… Me desculpa, pai.
— Vá em paz, filha… Vá em paz, minha Truth.
— Eu… Eu revogo toda maldição proliferada em Koscielniki Górne. Todos vocês estão livres.
Ao pronunciar isso. Várias luzes em pontos específicos da mansão inteira e do território começam a surgir.
Essas luzes representam as almas que foram mortas em Koscielniki Górne. Truth enfim evapora de uma vez por todas. Johan juntamente com Gert e Rudiger abraçam Ilse.
Ewa vêm se aproximando deles juntamente com Óton. Eis que outra pessoa que ela não estava esperando surge na frente dela.
— Estou orgulhoso de você.
— Quem… Quem é você?
Antes que ele respondesse, Ilse o chama pelo nome.
— Haskel!
Ewa olha para ele novamente.
— Ai, meu Deus! Você é o meu tataravô.
— Muito obrigado, Ewa. Graças a você, o nome da família Von Carnap finalmente foi limpo. Obrigado por tudo!
Ele se aproxima para próximo de sua família. Os abraça. Em seguida, Ilse se afasta um pouco deles para dar um recado à Ewa.
— Só pra você ficar sabendo… Os teus pais estão muito orgulhosos de você. Eles são tão puros que suas almas nem sequer poderiam tocar em um local como esses. Mas eu posso ver o sorriso de cada um deles te admirando neste momento, posso imaginar o quanto eles queriam ver a filhinha querida deles feliz.
— Eu sinto tanta falta deles. Tanta.
Ilse consegue segurar nas mãos de Ewa sem ter nenhuma interferência.
— Eu quero que se lembre de uma coisa, Ewa… Nem sempre a morte é o fim de tudo. Ás vezes é o início de um novo ciclo. E não se esqueça que aonde existir amor… A morte dará lugar à vida. Foi o amor da Heiko pelo seu amado e o seu amor pelos teus pais que agora somos livres. E você também está livre agora, Ewa. Toda palavra de maldição na tua vida foi quebrada hoje, e nada mais pode te ferir. Siga a sua vida, criança! Seja uma mulher feliz e bem sucedida.
Johan diz:
— Tá na hora!
Ewa, curiosa, pergunta:
— Tá na hora do quê?
— Vamos finalmente descansar, Ewa. Pode ir indo, querido.
Johan se aproxima do meio do canto da porta da sala, uma luz irradia do teto, ele sobe por essa luz e desaparece.
Em seguida Gert vai para aquela luz.
— Foi um prazer te conhecer, Ewa.
Ele sobe pela luz e desaparece.
É a vez Rudiger.
— Se eu tivesse vivo e fosse um pouquinho mais velho… Eu juro que me casaria com você, Ewa.
Ilse sorri e brinca.
— Filho, você é cerca de 120 anos mais velho que a Ewa, claro que você é mais velho.
Eles começam a sorrir. Rudiger conclui.
— De todo jeito… Obrigado por salvar a gente, Ewa. Eu nunca vou me esquecer de você.
Rudiger sobe na luz e desaparece.
É a vez de Haskel.
— Eu fico muito feliz ao saber que… A linhagem do meu filho Andrzej gerou alguém tão inteligente e tão especial como você, Ewa. Sou muito orgulhoso por ser seu tataravô… Acredito que agora muitas vidas poderão ser ajudadas graças a você. Fique em paz… E seja muito feliz!
Haskel sobe na luz.
Finalmente chegou a vez de Ilse.
— Bem… Acho que agora sim é a nossa despedida.
— Obrigada por tudo, Ilse. Se não fosse você… Não sei o que teria sido de mim.
— Você é muito mais forte do que pensa, Ewa… Muito mais.
— Vamos nos reencontrar algum dia?
— Talvez… Nunca se sabe quando alguém aqui na Terra precisará da ajuda de um ser astral, não é mesmo? Mas até lá… Viva a sua vida normalmente. Faça de tudo isso, uma linda história de amor.
Ilse sobe na luz. Óton segura no ombro de Ewa para saírem da casa. Ao saírem, várias viaturas já se encontram ali prontos para socorrê-los.
DIAS DEPOIS…
Apesar de tudo o que eu sofri lá dentro, o programa de isolamento de Koscielniki Górne foi um sucesso! E claro, recebi a minha recompensa em dinheiro. Ninguém iria acreditar na história de que eu estava presa dentro de uma casa de bonecas enfrentando vários espíritos, então infelizmente tivemos que usar a Heiko para fortalecer o nosso álibi.
“GAROTA DADA COMO MORTA NOS ANOS 80 RETORNA APÓS ANOS E TENTA ATACAR PARTICIPANTE DE UM PROGRAMA DE ISOLAMENTO EM PALÁCIO ABANDONADO”.
Essas foram as matérias que saíam em todos os jornais. Eu não queria, mas acabei me tornando uma sub-celebridade depois disso. Óton também foi muito mais bem sucedido em sua cia do que imaginávamos. Eu sei que tudo era por dinheiro e por status, mas de uma certa forma ele mereceu.
Ah! Consegui comprar uma casa boa em Varsóvia e claro… Escrevi meu livro.
Vemos Ewa em uma sessão de autógrafos de seu livro para várias pessoas, fotógrafos e jornalistas.
Eu aprendi muita coisa com a Heiko nesses dois dias que eu estive com ela.
Descobri que o amor está nos pequenos detalhes.
Ewa está em uma estação de trem.
E que o amor não é invasivo quando é verdadeiro.
Um rapaz jovem e bonito passa por Ewa e deixa cair a sua carteira no chão.
— Ei, moço! Sua carteira caiu!
Mas tem muita coisa que o amor é capaz de fazer.
— Nossa, obrigado! Se eu perco essa carteira, estou ferrado.
— Sim, nem me fale.
— Vai pegar esse mesmo trem que virá?
— Sim, é claro que sim.
— Bom, então boa viagem pra nós!
Quando a gente se pega dependente de tudo, com a aquela sensação de sufocar o peito. Eu chego à conclusão que… Somente o amor machuca assim.
Ewa já está dentro do trem. Está tomando café em sua cabine, tem um jornal do lado.
— Vai parecer que estou te perseguindo, mas… Posso me assentar aqui um instante, senhorita?
— Ow, claro.
Se eu pudesse, agradeceria à Heiko. Ela nasceu um homem maravilhoso e morreu como uma mulher maravilhosa.
— Ah desculpe, meu nome é Kristofer Lewandowski. E o seu?
A Heiko e a Ilse me fizeram descobrir quem eu realmente sou.
— Meu nome é Ewa… Ewa Von Carnap.
Negar o meu passado não significa esquecer. A melhor forma de esquecer, é reconhecer que ele existiu. Eu não quero mais fugir do meu passado. Agora finalmente vou poder seguir adiante.
No trem, Ewa vê a imagem de Heiko escorada no canto do vagão dando um sorriso pra ela. Ela retribui e o jovem Kristofer olha pra trás.
— Pra quem você estava olhando?
— Não, não era nada. O que você estava dizendo mesmo?
Obrigada, Heiko. Obrigada, Ilse. Obrigada, papai. Obrigada, mamãe.
— Então, Ewa… Você… Poderia autografar o meu livro?
O jovem Kristofer mostra uma cópia do livro que Ewa escreveu. Na capa está escrito “The Doll on the House”.
— Não acredito que você possui o meu livro.
— Tá brincando? Esse é um dos melhores best sellers de romance gótico que eu já vi na minha vida! Admito que fui seco esperando um terrorzão no estilo de Stephen King por conta do título do livro, mas você se saiu a versão feminina de Edgar Allan Poe.
— Obrigada pelo elogio!
— A propósito… Por que o título é “The Doll on the House” e não “The Doll in the House”?
Não quis escrever uma simples história de fantasmas, quis que as pessoas vejam que não há o que temer quando existe amor envolvido.
— Porque a boneca pode estar em qualquer lugar da casa. Não necessariamente dentro, mas… Isso vai ficar na interpretação de cada um de vocês.
— Eu ainda vou para o último capítulo, então… Pode me dar um spoiler? Terá um final feliz?
— Depende… O que é final feliz pra você, Kristofer?
— Bom… Quando tudo dar certo, eu acho.
— Bem… Você decide o seu final. Se será feliz ou não.
Eu descobri também que a morte não pode apagar um amor verdadeiro. Porque quando ele é verdadeiro, arde até os confins da Terra. Nada pode impedir isso.
Finalmente descobri o que significa amor, mas precisei conhecer o horror antes disso. No mais… Acho que finalmente a minha história terá sentido. E a história de Heiko será minha inspiração para os próximos anos.
Ela encontrou o seu anjo do bosque. E agora está feliz. Nunca vou me esquecer dela.
Heiko Koslowksi,
Para muitos, o ex-garoto.
Para mim… A boneca da casa.
Voe alto, Heiko! Voe e dance juntamente com o seu anjo.
Aqui eu me despeço e agradeço a todos que acompanharam essa história. Lembre-se que os fantasmas de nossas vidas jamais podem apagar o amor verdadeiro que habita em nós. Eu, Ewa, vou lutar para que isso nunca aconteça.
E você também precisa lutar.
Sem temer a morte.
Pois não há morte onde o amor reina.
A todos o meu muito obrigada!
Atenciosamente, Ewa Wos Von Carnap.
A página de um livro é fechada em cima de uma escrivaninha. É o mesmo livro escrito por Ewa, o livro de sua própria história, de sua história de vida e de sobrevivência: “The Doll on the House”.
“Dedico esta história ao meu anjo do bosque, Guilherme Fernandes Rodrigues. “
Att. Melqui Rodrigues, 2023.
FIM
![]()






Que história incrível! Linda e cheia de emoções. Superou todas as minhas expectativas, término essa história sem palavras. Você tem uma mente brilhante, claramente estamos diante de um fenômeno chamado “Melqui Rodrigues”.
Serei sempre o seu anjo!
A melhor parte de ter finalizado essa história foi por estar completamente apaixonado por você, meu amor. Você será sempre o meu anjo, e diferente do que aconteceu com a Heiko, vamos nos amar na vida e também na morte.
Te amo muito!
Que história incrível! Linda e cheia de emoções. Superou todas as minhas expectativas, término essa história sem palavras. Você tem uma mente brilhante, claramente estamos diante de um fenômeno chamado “Melqui Rodrigues”.
Serei sempre o seu anjo!
A melhor parte de ter finalizado essa história foi por estar completamente apaixonado por você, meu amor. Você será sempre o meu anjo, e diferente do que aconteceu com a Heiko, vamos nos amar na vida e também na morte.
Te amo muito!
Terminando esse capítulo aqui. The Doll on The HOUSE é mais uma obra prima de Melqui Rodrigues. Os personagens, a trama em si, tiraram um sentimento a mais de mim. Não achei tão assustador quanto seus antecessores, mas Melqui conseguiu mostrar a todos e a todas por que eu adoro esse autor. Obrigado por compartilhar esse trabalho conosco.
Muito obrigado, meu amigo. Realmente ela não é assustadora (que realmente não era pra ser), mas espero que tenha gostado de todo o arco e dos personagens. Valeu!
Terminando esse capítulo aqui. The Doll on The HOUSE é mais uma obra prima de Melqui Rodrigues. Os personagens, a trama em si, tiraram um sentimento a mais de mim. Não achei tão assustador quanto seus antecessores, mas Melqui conseguiu mostrar a todos e a todas por que eu adoro esse autor. Obrigado por compartilhar esse trabalho conosco.
Muito obrigado, meu amigo. Realmente ela não é assustadora (que realmente não era pra ser), mas espero que tenha gostado de todo o arco e dos personagens. Valeu!