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Uma Aventura de Natal

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Vilarejo de Saint Dumas – sul do Brasil

Era uma vez um singelo vilarejo no sul do Brasil. Um lugar de difícil acesso onde a principal fonte de renda vinha do cultivo e das plantações dos seus próprios alimentos e das criações de ovelhas. Um lugar onde a paz reinava entre os povos e que a loucura dos grandes centros passava longe.

Em uma chácara rodeada por uma densa floresta no interior deste vilarejo, vivia uma humilde família: o pai Marcus, a mãe Angel e a pequena Giulia Emanuelle, de 7 anos de idade, uma menina meiga e feliz, serelepe e inteligente e de uma imaginação bastante fértil.

As datas comemorativas tinham um lugar especial nos corações de cada morador do vilarejo. A pequena praça, a igreja central, as ruas e as casas estavam todas enfeitadas com o brilho e as cores do Natal. Era o dia 24 de dezembro de 2026 que nascia repleto de luz.

Giulia Emanuelle abriu os olhos heterocromáticos. Estava deitada em sua cama rodeada de ursos de pelúcia, no seu quarto no topo da casa de dois pisos. Olhou para a janela entreaberta onde as cortinas rosas tremulavam com o vento suave que soprava em todas as manhãs, e viu um estranho pássaro azul pousando no parapeito. Seu canto emitia um som doce e forte como notas de um violino. Levantou com seus cabelos loiros ondulados e bagunçados, calçou seus chinelos e correu até a janela. O estranho pássaro lhe encarou com uma expressão como se estivesse sorrindo e alçou vôo ganhando o céu azul além da floresta.

A vista da janela do quarto de Giulia era o que mais especial se tinha daquela casa no alto da colina. A densa floresta rodeava toda a chácara e, além da mata, os campos verdes eram cortados por um rio de águas cristalinas que findavam em uma linda cachoeira, onde a menina fazia questão de brincar e se banhar todo final de tarde vendo o sol se pôr atrás dos montes. Giulia suspirou encantada com a vista de todos os dias, mas além disso, encantou-se com aquele pássaro de beleza exótica que pousou e cantou na sua janela e agora voava livre por cima da floresta. “Bom dia sol”, disse ela contente ao mesmo tempo em que outros pássaros da mesma espécie se juntavam ao companheiro em uma dança sob aquele céu azul.

Giulia Emanuelle desceu as escadas esvoaçando seus cabelos loiros. Passou como um jato pelo pai que subia com uma bandeja na mão e, pela mãe Angel que estava preparando o desjejum na cozinha, ela mais pareceu um vulto passando depressa em direção à porta. Ficou na pontinha dos pés para abrir o trinco do alto da porta e saiu para fora deixando a mesma entreaberta. Habib, seu velho gato de estimação, dormia atirado no sofá mas não se aguentou ao ver a luz do sol lá fora e saiu correndo atrás da garota.

Aquele dia lindo trazia um brilho fora do comum naquela véspera de Natal. Tudo parecia estar diferente. No curral as ovelhas berraram contentes quando viram a pequena Giulia passar correndo através do caminho de pedras que levava até a entrada da floresta. Habib corria atrás da menina parecendo saber que devia estar perto para cuidar dela quando precisasse. Foi quando, de repente, aqueles pássaros de beleza exótica pousaram no caminho de pedras fazendo a garota de cabelos dourados interromper sua corrida. Habib parou ao seu lado miando em direção às aves e, então, Giulia o pegou no colo. Os pássaros, um a um, começaram a voar rasantes entrando na mata fechada desviando dos galhos e troncos. O último pássaro, o mesmo que pousou no parapeito da janela, deu duas voltas ao redor da garota e seguiu o mesmo caminho. Giulia abraçou firme o gatinho Habib e entrou na floresta cuidadosamente.

– Ei, pássaros, me esperem! – dizia Giulia ao mesmo tempo em que Habib se desvencilhava do seu colo e corria na sua frente.

O gatinho saltou sobre alguns galhos troncos caídos e sentou-se sobre uma pedra com os olhos amarelos arregalados perante uma grande ponte. Giulia surgiu logo atrás escalando os troncos caídos com dificuldade. Espantou-se ao avistar a ponte, algo que ela jamais tinha ouvido falar que existia naquela floresta. Diante dela apareceram os pássaros rodeando uma criatura esquisita que fez a pequena menina serelepe e o seu gatinho se esconderem atrás do tronco grosso de uma árvore milenar. Espiando com cuidado ela pôde reparar naquela estranha criatura. Corpo verde e magro, levemente arqueado com grandes pés peludos e longos e finos dedos nas mãos. Seu rosto dava medo em uma primeira vista, mas depois transmitia uma certa paz através dos seus olhos grandes e escuros, nariz arrebitado, boca de dentes muito brancos e orelhas pontudas. “É um elfo parecido com aqueles das histórias que o papai conta”, pensou Giulia. Os pássaros exóticos pareciam à vontade ao redor daquela criatura.

– Gareth já sabe que você está aqui. – disse a criatura emitindo uma voz rouca e serena. – pode sair de trás da grande árvore…você e seu felino. – complementou o elfo.

Sem jeito, Giulia e Habib foram saindo de trás do tronco grosso da árvore e, quando ela olhou para o elfo, mais outros dois apareciam através da ponte. Mesmas características, mesmo jeito esquisito, apenas o que os diferenciava eram as vestes. Enquanto Gareth usava uma túnica azul, um usava amarelo e o outro usava vermelho.

– Não tenha medo. Eu sou Gareth, das Terras Rubras, e estes são Fereth e Pireth, meus irmãos. Somos os guardiões da Ponte de Korvatunturi. E estamos aqui para lhe fazer um convite especial.

E então um grande clarão tomou conta daquela ponte e os três guardiões elfos deram passagem para a pequena Giulia, que exitou em um primeiro momento, mas aos poucos sua coragem e sua curiosidade falaram mais alto e ela, passo a passo, adentrou naquele clarão sempre seguida de perto pelo seu gatinho Habib, que ia miando passando por debaixo de suas pernas de um lado para o outro.

Na medida que a pequena garota ganhava cada vez mais a ponte, a mesma ia desaparecendo às suas costas, onde os três elfos ficavam a lhe observar da mata. Quando chegou ao final Giulia agarrou seu gatinho, pois o mesmo ficou amedrontado com um grande urro que vinha do outro lado. E tudo escureceu por alguns longos segundos. Quando a claridade voltou a reinar, Giulia ficou espantada com o que viu. Encolheu-se de frio, pois estava em meio a uma floresta coberta de neve. Avistou lá longe uma carruagem se aproximando e não sabia se esperava ou se fugia. Mas o frio estava quase a congelando, então ali ela ficou.

Montanhas de Korvatunturi – Lapônia, Finlândia

Quando deu um passo à frente, seus pés descalços e gelados enterraram-se na neve congelante. Habib se encolhia todo em seus braços. Então, ouviu-se uma linda canção cantada por aquele que se aproximava na carruagem…

“Já notou quão cintilante a cidade está
Eu vejo verde e vermelho não importa a direção.
É tanto som, tantas canções que sei contar de cor
Histórias que ouvi pequeno e me acompanham desde então…”

A carruagem puxada por duas renas enfeitadas de verde e vermelho chegou perto da pequena garota. Giulia observou um elfo de feições parecidas com àqueles que lhe conduziram através da ponte saltar da condução. Ele vestia uma linda túnica verde e vermelho e também usava um cachecol brilhante enrolado ao pescoço.

– Libereth, ao seu dispor, minha soberana! – disse o elfo fazendo uma reverência para Giulia.
Imediatamente ele se recompôs e, vendo o quanto àquela garota tremia de frio, sacou de sua pequena bolsa um agasalho de lã verde escuro e a cobriu ajudando-a subir na carruagem. Debaixo do agasalho, Habib observava tudo com os olhos arregalados.

– Que lugar é este? – perguntou Giulia espantada e ao mesmo tempo encantada com tudo ao seu redor.

Saltando novamente para a carruagem, o elfo baixinho e sorridente, tratou de respondê-la.

– Bem vinda à Korvatunturi, minha soberana. Você acaba de chegar às Terras Rubras do Noel.

Giulia lembrou-se que Gareth, o elfo da ponte, tinha dito que era desta terra também.

– E como eu vim parar aqui? – perguntou Giulia enquanto a carruagem dava meia volta e retornava.

– Você é a Escolhida para ajudar Noel neste Natal, minha soberana. As crianças do mundo inteiro não podem ficar sem presentes. Temos pouco menos de vinte e quatro horas para o Natal e a Vila dos Brinquedos está numa correria gigante. Noel necessita de uma ajudante.

Giulia ouviu tudo com atenção. Não fazia a menor ideia do que estava por vir, mas estava gostando. Não sabia como ela poderia ser útil e fazer a diferença, mas sabia que podia confiar naquele pequeno ser que a levava não sei pra onde.

– Agora vamos acelerar, minha soberana. – disse Libereth falando algumas palavras mágicas e fazendo as renas acelerarem o passo.

Giulia segurou-se firme e Habib se escondeu dentro do agasalho. Libereth voltou a cantar e as renas correram como nunca. Lá longe já se via os muros enfeitados que rodeavam um grande palácio.

“Há pressa pois uma ceia não se apronta só.
A casa pra arrumar com tudo ao seu melhor.
E cada abraço espalha esta sensação
de algo que não pode ser maior…”

Palácio do Noel

Uma mão calejada pousou sobre a aldraba dourada e empurrou a grande porta do salão dourado revelando o grande motivo do seu nome. Um mago de agasalho cinza de capuz e longa barba acinzentada adentrou o local iluminado por candelabros de ambos os lados do corredor e caminhou apoiado em seu cajado. Rodeado de anões e elfos, Papai Noel levantou de sua cadeira estofada descendo o lance de cinco degraus sorrindo.

– Atrasado, Merthiel! – disse Noel.

O mago chegou à sua frente, olhou dentro dos seus olhos e abriu um sorriso amarelado entregando o cajado para um dos elfos serviçais.

– Um mago nunca se atrasa…e nem se adianta, meu caro amigo. Um mago chega sempre no horário que pretende chegar. – respondeu o mago Merthiel abrindo os braços e abraçando Noel.

O mago Merthiel era morador do norte de Korvatunturi, de uma ilha isolada. Nos dias que antecediam o Natal era ele e seus outros quatro irmãos magos que rodeavam o mundo em busca de crianças aptas a ajudarem Noel com os presentes. Foi ele que descobriu Giulia em Saint Dumas.

– Seus irmãos já estão aqui. As crianças escolhidas também já se encontram na Vila dos Brinquedos. Só estava faltando você e a menina que você escolheu. – disse Noel conduzindo Merthiel para um outro salão privado nos fundos.

– Libereth já deve estar chegando com ela na Vila. – respondeu o mago atravessando o grande portal para o salão dos fundos.

No grande salão havia um grande banquete sendo preparado por elfos serviçais em uma grande mesa enfeitada. Já sentados estavam os magos Barthiel, Calathiel, Jasthiel e Rasthiel. Levantaram contentes ao avistarem o irmão chegar com o Noel. Ficaram a jogar conversa fora enquanto comeram e beberam à véspera do Natal. Uma cerimônia que se repetia todos os anos e servia de confraternização entre os magos da Lapônia e Noel em comemoração a mais um ano de conquistas e alegrias.

Enquanto isso em outra parte de Korvatunturi, centenas de duendes e elfos e mais quatro crianças selecionadas ao redor do mundo estavam nos preparativos dos presentes do Natal que a carruagem do Noel levaria percorrendo os quatro cantos.

Da entrada da vila se aproximava a carruagem conduzida por Libereth que chegava com Giulia e seu gatinho Habib. A garota se encantou ao ver a grande placa brilhante na entrada com os escritos: “Vila dos Brinquedos”. Seus olhos brilharam.

– Estamos chegando, minha soberana. – disse Libereth.

O grande portão onde haviam dois gigantes ursos de pelúcia, um de cada lado, se abriu para a carruagem entrar. Do lado de dentro aquilo tudo mais parecia um enorme parque de diversões, com brinquedos para todos os lados. Elfos e duendes corriam apressadamente em seus afazeres. A carruagem parou em frente à um pavilhão comprido. O elfo Libereth desceu e ajudou Giulia a descer. Um duende de nariz comprido e olhos grandes apareceu rapidamente com uma bolsa na mão.

– Se apresse, soberana. Troque-se. Está atrasada e há muitos brinquedos para se preparar. – disse ele.

Giulia pegou a sacola e seguiu o duende até uma barraca ao lado. Entrou e se trocou saindo de dentro vestida com um belo vestido comprido de lã verde escuro, gorro da mesma cor e cachecol brilhante. Habib, que a esperava sentado do lado de fora, miou ao ver a garota.

– Habib vai comigo. – disse ela para o duende.

– Sim, os gatinhos são bem-vindos aqui na vila. Lá dentro há um espaço destinado a eles.

E então o duende abriu o portal que levava para o interior do pavilhão. Giulia espantou-se positivamente ao ver todo o colorido daquela produção. Mesas compridas à se perderem de vistas estavam dispostas uma ao lado da outra, totalizando cinco. Ao redor delas os duendes e elfos preparavam os brinquedos. Havia toda uma linha de produção: um duende ou elfo abria a carta, lia o pedido e outro duende ou elfo já preparava e embrulhava o presente. Após isso os presentes eram colocados em um grande carrinho de duas rodas e, quando este estava lotado, uma das crianças selecionadas buscava e o empurrava até uma porta nos fundos.

O duende apontou com o seu dedo indicador comprido para a mesa do canto direito. Giulia olhou e viu três grandes carrinhos lotados de presentes até a borda.

– Eu disse que está atrasada. Aquela mesa é sua, soberana. – disse o duende.

Giulia se dirigiu para seu lugar já tendo muito trabalho a fazer. Mas tudo era algo muito gratificante, pois de relance, ela conseguia ouvir algumas leituras das cartas das crianças para o papai Noel, lidas pelos duendes e elfos em seu árduo trabalho.

Os segundos passaram rápido. Os minutos corriam depressa. Giulia logo se adaptou às atividades e as cartas pareciam já estarem acabando. Foi quando um elfo alto e magro de longo nariz arrebitado apareceu em cima de um palco no fundo do pavilhão. Pediu silêncio e prontamente foi atendido.

– Agora, para a honra de todos nós, vamos receber com uma salva de palmas, o nosso querido Noel! – disse o duende apontando para a porta dos fundos.

Da porta surgiu aquele velhinho corcundo e de longas barbas brancas. Sorria feliz vendo toda a ajuda recebida. Duendes, elfos e as crianças aplaudiram sua entrada. Ele se posicionou ao lado do duende alto e magro e ergueu a mão pedindo para que as palmas cessassem.

– Este ano está sendo muito especial pra mim. O meu último ano em frente a este trabalho. Quero dizer que sou grato a todos que contribuíram para que o trabalho do Noel fosse levado a sério sempre enchendo de alegria o coração de milhares de crianças ao redor do mundo. – dizia o Papai Noel.

Era visível a sua emoção.

– Agora quero que venham aqui comigo as cinco crianças selecionadas este ano: Chong Yang, da China. Martina, da Itália, Potrescu, da Romênia, Ferdinand, dos EUA e Giulia, Brasil. – complementou o bom velhinho.

As cinco crianças se juntaram à Noel no pequeno palco.

– Após concluir os trabalhos vocês poderão levar de volta para sua terra e seus lares, os brinquedos que quiserem. – falou Noel arrancando sorrisos e olhares felizes dos cinco escolhidos.

Palácio do Noel

No pátio grande do palácio os cinco irmãos magos se despediam entre si. Cada um com a sua magia voltava para seu lar. Suas funções neste Natal já haviam sido concluídas. Quando o último mago ganhou os céus e sumiu em um rastro de fumaça, o silêncio perpetuou no local e nenhuma outra alma viva se fazia presente, exceto as nove renas responsáveis pela carruagem do Noel. Foi aí que ouviu-se ruídos vindo de trás de alguns arbustos embranquiçados pela neve do lado de fora do pátio. Quatro figuras estranhas, de coloração verde e peludas e expressões carrancudas, se cutucavam e se empurravam para ver quem seria o primeiro a pular o grande muro que rodeava o palácio.

Os “Grinch’s da Lapônia”, assim chamados e conhecidos na região, eram uma comunidade de seres mágicos que viviam em uma região isolada no sul e que detestavam o Natal. Todo ano quando chegava esta época eles se alvoroçavam planejando alguma artimanha na busca por estragar o Natal. A arte da vez seria capturar as únicas renas consideradas aptas a realizarem o serviço de levar Noel aos quatro cantos distribuindo seus presentes.

O ser mais velho e carrancudo deu um empurrão em um grinch magricelo que o fez cair bem em frente ao portão de entrada do palácio. Assustado, ele se levantou encarando o enorme portão enfeitado e passou as mãos sentindo as saliências da madeira percorrendo toda a entrada até chegar no grande muro. Olhou para os outros três que o encaravam curiosos e abriu um sorriso de orelha a orelha. “Sim, aqui dá pra escalar facilmente”, disse ele.

Do lado de dentro as renas estavam tranquilas à espera do momento da partida. Aquelas nove renas, assim como o Noel, provavelmente fariam sua última viagem. Outras renas já estavam sendo preparadas para o serviço do próximo ano. Quando o grinch magricelo apareceu no topo do muro as renas levantaram suas cabeças assustadas, pressentindo o perigo que estava por vir. Elas se alvorotaram mais ainda quando os outros três grinchs surgiram com seus sorrisos maquiavélicos. Eles saltaram para o interior do pátio do palácio e cada um tratou de laçar uma rena com grossas cordas trançadas. Cinco delas tentaram escapar, mas o grande portão estava fechado. As quatro renas laçadas não conseguiram se mover e, desesperadas, foram ao chão, assim dando tempo para que suas companheiras também fossem vítimas dos Grinch.

Os Grinch’s da Lapônia eram providos de uma força fora do normal. Abriram o grande portão, amarraram as renas e as puxaram para fora. Só então, foi que do alto da torre, um guarda – elfo magro e de roupa verde escura, acordou de sua soneca e viu, já ao longe, as renas sendo levadas pelas destemidas criaturas. Apavorado, tocou o grande sino diversas vezes seguidas até que outros guarda – elfos surgiram. Porém, nada puderam fazer naquele momento.

O elfo serviçal, eufórico, chegou à Vila dos Brinquedos acompanhado de dois duendes. Noel encontrava-se no pavilhão conferindo a linha de produção dos pedidos das crianças do mundo todo. Foi chamado de canto por Libereth, que estava na companhia daquele elfo.

Noel não podia crer no que acabara de ouvir. Suas renas foram raptadas pelos Grinch’s justamente na véspera da partida. Ficou sem reação. Sua expressão era de total tristeza. Giulia o observava da sua mesa de produção. Preocupada, chamou as demais crianças e se aproximaram do bom velhinho e seus acompanhantes. Escutaram o final da conversa e, então, a pequena garota puxou a manga do casaco vermelho de Noel. Ele olhou para baixo, para aquela menina de olhos lacrimejantes, e lá no fundo sentiu que havia bondade naquele olhar.

– Diga, soberana. – disse Noel.

Giulia, um pouco envergonhada, abriu um leve sorriso.

– Nós vamos te ajudar a salvar as renas, papai Noel. – respondeu a menina com sua doce voz.

Alguns minutos mais tarde

Chegando na estrada estreita que os levaria de volta às suas terras, os Grinch’s acharam que desta vez seus planos dariam certo. Arrastaram as renas e as colocaram em cima de uma carruagem conduzida por uma estranha criatura de chifres, que os esperava escondida debaixo da forte neve sob uma enorme árvore milenar.

Aqueles flocos de neve rodopiavam e caíam em quantidades enormes tornando o trajeto cada vez mais difícil. Uma carruagem puxada por três cervos gigantes surgiu na estreita estrada, a mesma que os Grinch’s a pouco tempo cruzaram. Na carruagem estavam Libereth e mais dois guardas – elfos e as cinco crianças escolhidas, dentre elas, Giulia e seu gatinho Habib.

O desejo de Giulia, que ia na parte da frente ao lado do elfo Libereth olhando atenta em tudo, era de salvar o Natal. Um filme passou em sua cabecinha e ela lembrou-se dos Natais em família, da ceia farta na casa dos avós e do momento de abrir os presentes. Sorriu e abraçou seu gatinho quando ele se aconchegou perto dela sentindo os gélidos flocos de neve caírem sobre seu pelo preto. Lembrou de quando ele saltou sobre a grande árvore de Natal que seus pais Marcus e Angel haviam montado na sala e a derrubou espalhando todos os enfeites. Lembrou dos pais: “Nossa! Eles devem estar preocupados com meu sumiço”.

Mas a pequena garota e seu felino não tiveram muito tempo para suas lembranças natalinas. Libereth apontou com o dedo mostrando a carruagem puxada por aquela estranha criatura de chifres.

– Olhem! É a carruagem dos Grinch’s! – disse ele.

As crianças e os dois guardas – elfos se levantaram dos seus assentos atentas e se preparando. Precisavam agir. Libereth falou algumas palavras mágicas e os três cervos gigantes aceleraram o passo sobre a neve que só aumentava.

Sentindo a aproximação os Grinch’s também fizeram com que a criatura de chifres aumentasse o ritmo. Foi uma perseguição bastante agitada através das montanhas geladas da Lapônia.

Em uma descida bastante intensa a criatura de chifres se perdeu e a carruagem capotou algumas vezes. Os Grinch’s saltaram longe rolando pela neve densa e as renas caíram sem que pudessem se soltar das amarras. O acidente fez com que a carruagem dos elfos e crianças se aproximassem ainda mais. Vendo uma possibilidade de cumprir os seus objetivos, Libereth e os elfos se armaram com suas lanças e imobilizaram os Grinch’s. As crianças, por sua vez, correram até as renas para soltá-las. Habib se ouriçou todo com a criatura de chifres que se contorcia tentando se desvencilhar da neve alta que o prendia.

Se não fosse o descuido dos guardas – elfos este poderia ser o desfecho da perseguição. Porém, um deles deu brecha e o Grinch roubou sua lança tornando-o seu refém. Os elfos possuíam uma característica de nunca deixar para trás um dos seus, e isso foi o que prejudicaria os seus objetivos, não fosse pela audácia da pequena Giulia Emanuelle. A garota tomou a frente do grupo ficando junto às renas já desamarradas.

– Nós todos vamos embora daqui com as renas e vocês podem seguir seus caminhos! – disse ela em tom alto e firme.

As outras crianças, impressionadas com a coragem de Giulia, se juntaram a ela. Os Grinch’s se olharam. Àquele que estava com o guarda – elfo como seu refém foi o largando devagar. Quando sentiu-se livre, o elfo correu para junto dos companheiros.

– A lança! – disse Libereth apontando a sua na direção dos Grinch’s.

Então o Grinch jogou a lança que tinha roubado ao chão na frente do pequeno grupo. Os quatro ajudaram a criatura de chifres a se desvencilhar da neve e ficar de pé. Contaram ainda com o bom coração de Giulia e das demais crianças que ergueram a carruagem para eles.

– Agora podem partir! – falou Libereth apontando sua lança em direção à estrada que seguia em frente.

E assim eles fizeram. Os Grinch’s baixaram suas cabeças e seguiram tristes pelo fato de não conseguirem atingir seus objetivos. Já a carruagem de Libereth e as crianças recebeu a ajuda das nove renas para retornar para o Palácio do Noel.

A mão enluvada de Libereth empurrou a aldraba da porta de entrada do grande palácio. Noel, rodeado de elfos e duendes, estava de costas e virou-se quando ouviu o barulho da porta se abrindo. Seus olhos brilharam ao ver os companheiros chegarem em segurança. Desceu o lance de cinco degraus na medida em que os elfos e duendes abriam caminho para ele.

– E então, Libereth? – perguntou Noel se aproximando do elfo.

Giulia entrou correndo e foi de encontro ao Noel agarrando suas pernas. Ele sorriu e acariciou seus cabelos loiros ondulados. Ela levantou a cabecinha encarando o senhor de barba branca.

– O Natal está salvo. – disse a pequena com um brilho no olhar.

– Ela está certa. – disse Libereth. – as renas estão à salvo lhe esperando para a grande viagem, Noel.

As outras crianças também entraram e rodearam o bom velhinho. Noel foi muito grato a todos. Era seu último Natal nesta função, logo se aposentava e um outro assumiria o cargo. Ele queria que este ano fosse especial. E seria.

Noel levou as crianças de volta até a Vila dos Brinquedos onde tudo já estava organizado para a grande noite. Sentou-se em uma cadeira estofada e pediu para que elas sentassem nas almofadas felpudas ao seu redor. Chamou um dos seus duendes e falou algo em seu ouvido e ele logo se retirou voltando minutos depois acompanhado de mais quatro, cada um carregando uma grande sacola e largando-as em frente ao bom velhinho.

– Chong Yung! – chamou Noel.

O chinesinho de olhinhos puxados se levantou e parou em frente à Noel. Este acariciou sua cabeça e entregou uma sacola para ele. Quando abriu aquela grande bolsa os olhos puxados de Chong Yung se encheram de lágrimas e ele abraçou o velhinho à sua frente.

E assim seguiu-se até chegar a vez da última criança: a pequena Giulia Emanuelle.

– Giulia Emanuelle. – disse Noel já pegando a grande sacola.

A garota parou na sua frente segurando seu gatinho Habib no colo.

– Pela sua disposição e coragem, minha pequena, eu lhe entrego estes pequenos mimos da nossa Vila dos Brinquedos. Uma pequena lembrança para que você nunca se esqueça deste Natal. – disse Noel.

Giulia pegou a sacola imediatamente, abrindo-a. Encantou-se ao ver todos aqueles brinquedos construídos na Vila. Largou a sacola e abraçou as pernas de Noel, que gentilmente cedeu ao carinho sentando e colocando a menina sentada em sua perna.

– Seja sempre esta menina gentil e corajosa, soberana Giulia. O que você fez aqui em Korvatunturi ficará para sempre em nossas lembranças. Você salvou o Natal de milhares de crianças.

Os olhinhos heterocromáticos da pequena Giulia se encheram de lágrimas, que foram prontamente limpas pela luva branca de Noel.

– Obrigada, Papai Noel. – respondeu Giulia.

Habib roçava nas pernas do bom velhinho miando de um lado para o outro.

Montanhas de Korvatunturi

Libereth apareceu acompanhado da pequena Giulia e seu gatinho. Despediu-se da menina lhe dando um forte abraço e prendeu uma pequena estrela dourada em sua roupa. Apontou para um ponto específico em meio a algumas árvores e um clarão surgiu.

– Agora vá, minha soberana. Volte para casa. – disse o elfo.

Giulia, agarrada na sua sacola de brinquedos, ainda pegou Habib no colo e seguiu em direção àquela luz. Passo a passo foi atravessando o portal e…

…do outro lado saiu com a ponte aparecendo pouco a pouco na sua frente. Gareth, Fereth e Pireth estavam na mata do outro lado com seus cajados apontados. Era através deles que a ponte aparecia. Gareth sorriu e fez sinal com a mão chamando pela menina.

Os pássaros cantavam felizes sobre o topo das árvores da floresta. Giulia ouviu as vozes do pai e da mãe fora da mata e acelerou o passo. Habib saltou do seu colo e correu na frente.

– Habib, que faz aqui? – disse Marcus surpreso ao ver o gatinho saindo da mata.

Angel se agachou acariciando o bichano. Marcus largou as ferramentas com que trabalhava e fez o mesmo. Foi quando ouviram passos se aproximando e viraram na direção da floresta. Era a pequena Giulia que surgia carregando aquela grande sacola. A menina largou a sacola e correu abraçar os pais.

– Papai! Mamãe! Que saudades! – dizia ela.

Estranhando aquela atitude da menina os pais fizeram menção de questionar, mas aquele abraço era tão gostoso e apertado que seria impossível perder a ternura do momento.

– Recém acordamos, minha filha. Passamos no seu quarto e você não estava…vamos tomar nosso café da manhã, venha! – disse Angel acariciando os cabelos da menina.

Da hora que Giulia acordou até agora tinham se passado pouco mais de uma hora, mas para a garota e seu gatinho parecia ter sido um dia todo de aventura.

– O Natal está salvo, papai e mamãe. Todas as crianças vão poder receber os seus presentes. – dizia Giulia enquanto caminhava de mãos dadas com os pais em direção à casa.

A garota se virou para trás e voltou correndo.

– Meus presentes… – disse ela voltando buscar sua sacola sob olhares curiosos dos pais.

É uma crueldade dizer para uma criança que o Papai Noel não existe, que o Natal é uma farsa…Papai Noel e o Natal existem até para os adultos que neles acreditam. Deixe florescer sua ânsia de amar, de perdoar e se pôr no lugar do próximo. Deixe fluir sua imaginação como a de uma criança…e sejas feliz!

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NAVEGAR

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