
ATO I – ELE VEIO COMO UM PECADO
Eu me lembro da última vez em que eu tive um dia realmente bom. Eu acordei às 11 da manhã em meu apartamento, estava seminua, os lençóis brancos esparramados entre a cama e o chão do meu humilde quarto.
Na minha janela, entrava o reflexo do sol matutino atravessando minhas cortinas. Na minha mesa havia várias cédulas em dinheiro vivo, cédulas no qual eu consegui na noite anterior quando uns clientes me abrilhantaram com mais de 4 mil dólares.
Imagine uma mulher como eu com quase 30 anos de idade e receber 4 mil dólares em uma única noite? Fazendo apenas aquilo que, digamos, veio dentro das minhas configurações de fábrica: O sexo.
Talvez o meu próprio nome ,“Selena Vesper” ,carregue algo que deixe os homens hipnotizados com minha considerável beleza física. Meu corpo delineado, meus cabelos cacheados e castanhos escuros e, claro, aqueles meus lábios carnudos que exalam malícia.
Aquela foi a última vez em que eu me senti completa e me senti feliz. A minha felicidade, obviamente, era movida pelo dinheiro, pelo prazer.
Porém eu nunca fui mulher de me apaixonar.
Aprendi cedo que o amor é um luxo que as mulheres como eu não podem pagar. Eu vendia o que os outros chamam de prazer, mas para mim era apenas rotina — uma dança ensaiada, uma sequência de gestos e gemidos que se repetiam até o silêncio.
Mas naquela noite, naquela maldita noite, tudo mudou.
Lembro-me da chuva, dos néons cor-de-rosa e azul refletindo nas poças de água como olhos atentos. Era mais um dia de trabalho, afinal de contas, 4 mil dólares não poderia sustentar os meus luxos por tanto tempo.
Foi aí que entrei na casa noturna Electric Eden sentindo o perfume da decadência que pairava no ar. Como sempre, minha presença causava um conglomerado de sensações conflitantes em quem estivesse ali. Não me importava com as opiniões fraudulentas das mulheres, pois no fundo elas invejavam tudo o que eu sou.
Mas sempre me sentia satisfeita quando via os olhares masculinos hipnotizados com a minha presença magnética. Não se engane, tudo o que eu faço é pensando unicamente no meu lucro, quanto mais olhares e sorrisos maliciosos eu atrair, mais dinheiro vai passear por entre o meu sutiã ou por dentro da minha calcinha.
Enquanto eu me aproximava para conferir qual seria o próximo idiota que eu fingiria prazer para obter uma grana extra, a minha colega, Mila, chegou até a mim com sua fantasia de coelhinha e um gin nas mãos, dizendo:
— Que bom que chegou, Selena. Tem um homem que está a sua espera faz horas.
— E qual homem não estaria à minha espera, Mila? – perguntei sendo bem debochada e irônica.
— Não é qualquer um, disse que se chamava Elias Crowe. Outras das meninas se ofereceram para atendê-lo, mas ele deixou bem claro que só queria ser atendido por você.
— Ora, ora, ora… Pois então mostre-me este cavalheiro.
Mila apontou para a direção da mesa de bilhar e lá estava ele.
Elias Crowe.
Tinha o olhar de quem já me conhecia antes de eu nascer. Um sorriso discreto, terno e cruel ao mesmo tempo. Vestia-se como um homem fora do tempo — demasiado elegante para aquele buraco de gente perdida. Seus cabelos loiros e barba fechada da mesma cor, um físico que deixaria qualquer mulher enlouquecida, aqueles olhos verdes que me desestabilizaram no momento que os encarei.
Reparei em sua boca, lábios rosados e que antes dele movê-los, sentia uma energia como um ímã me puxando pra ele. As veias de seus braços musculosos saltando como as batidas do meu coração aceleravam. Não, não era paixão, não era amor, eu sentia um desejo que não conseguia me controlar.
Tudo que eu pensava era em que momento eu iria desabotoar a sua calça, tirar o seu cinto e sentir tudo o que ele tem por detrás dessa roupa de bom moço. Após esses 30 segundos de êxtase visual, aproximei-me para cumprimentá-lo cordialmente.
Ele não me perguntou quanto eu cobrava. Apenas me olhou e disse o meu nome, como se fosse uma palavra sagrada.
“Selena Vesper.”
A forma como pronunciou aquilo… Parecia uma invocação. Ele beijou a minha mão e eu sentia como se um veneno corresse pelas minhas veias- que matavam por dentro enquanto ele me olhava de um jeito sagaz e dominador.
Não sei o que me levou até ele. Talvez o magnetismo do perigo, talvez o vazio que me corroía há anos.
— Então você é o cavalheiro que estava à minha espera? Posso saber o que têm de tão especial a minha presença que não quis nenhuma de nossas belas moças?
— Na realidade, um passarinho me contou que eu encontraria um anjo nesse bar, e esse anjo é você, querida Selena.
— Fala o meu nome como se me conhecera.
— Talvez é isso que me atraiu em você, minha dama. Sou Elias Crowe, ao seu dispor.
Eu mordi os lábios não discretamente após a sua apresentação, segurei em suas grandes e fortes mãos, e disse:
— Vamos?
Ele deixou o copo do whisky ou seja lá qual era a droga da bebida que ele estava tomando, e me acompanhou. Só sei que, naquela noite, quando o levei ao quarto vermelho, percebi que algo nele era diferente.
Não havia vulgaridade.
Havia fome.
E o pior de tudo: Eu quis ser devorada.
Na cama redonda, eu o empurrei e comecei a despi-lo gradativamente, me rendi ao seu corpo musculoso, seus peitos onde eu poderia fazer morada neles, o abdômen que parecia a entrada para o verdadeiro paraíso. Não perdi tempo, imediatamente fiz o que tanto queria, puxei o zíper de sua calça, a arranquei de suas pernas grossas e torneadas como uma fera faminta, disposta a servir-se com sua melhor refeição.
Mas nesse banquete, eu era o prato principal, eu apenas precisava criar esse vínculo, esse gatilho, pra que ele pudesse me devorar- e assim o fez.
Com ele, eu não senti que estava apenas fazendo sexo, eu senti tudo! Eu me rendi a todo o tipo de desejo primitivo e profano que se pudesse permitir ou proibir no mundo. Se o céu era para os santos, naquele momento, eu era a pior espécie de demônio, pois eu não tive nenhum pensamento bondoso de amor ou altruísmo, eu só quis o prazer, eu só quis a luxúria, eu só quis que a minha carne ficasse entrelaçada com o membro dele e juntos nos fundíssemos como dois animais selvagens buscando abrigo no inverno.
E a primeira noite com ele, foi algo que eu jamais conseguirei explicar. Ele me pagou após o ato, mas honestamente, não me fez falta se ele tivesse dado o dinheiro ou não, eu estava satisfeita com tudo o que vivenciei naquela noite.
Voltei ao meu apartamento e percebi que tinha algo errado: Eu queria mais! Muito mais! Se ele era o meu provedor, então eu seria a fome e eu tinha fome, fome dele, fome daquele ser malvado que corrompeu os meus sentidos.
Precisava de mais, mais, muito mais! Eu chegava ao bar, e lá estava ele, com aquele mesmo olhar obsceno que eu amo.
E foi assim durante uma semana inteira, Elias veio todas as noites. Sete noites me entregando ao prazer absoluto com aquele homem. O corpo dele era o meu vício. O toque, o cheiro, a forma como me possuía como se quisesse arrancar algo de dentro de mim. Eu, que nunca me deixava levar, tremia por dentro como se o prazer fosse uma corrente elétrica prestes a me queimar viva.
Estava viciada, estava adicta, ele era o meu antídoto, mas também o meu veneno e eu queria beber desse veneno todas as vezes que fosse possível.
Tudo ia bem, foram os sete dias mais intensos de minha vida. Até que, por fim, eu cheguei no bar e… Ele não estava lá. Olhei para o balcão, para a mesa de bilhar e de repente… Ele desapareceu.
Perguntei à Mila se o viu. Nada.
Perguntei às outras colegas se o viu. Nada.
Mas o pior de tudo é que nunca sequer trocamos contatos, nenhum número de telefone, nenhum e-mail, nenhuma rede social. Eu tinha ele inteiro pra mim e do nada… Eu não tinha mais ele. Simplesmente sumiu.
Nenhum aviso. Nenhuma palavra.
Apenas o vazio.
Me perguntei se eu fiz alguma coisa errada, será que não fui selvagem o suficiente pra ele? Ou será que passei do ponto demais? Várias teorias da conspiração surgiram na minha mente, ninguém simplesmente some sem deixar rastros.
Nos dias seguintes, voltei ao bar todas as noites.
Esperava encontrá-lo sentado no mesmo canto, bebendo whisky com aquele olhar que rasgava a minha alma. Mas nada.
Os outros homens vinham e iam, oferecendo notas e promessas, e eu recusava. Não queria mais nenhum toque que não fosse o dele.
Comecei a sentir falta… Como se o meu corpo estivesse se secando por dentro.
Eu precisava dele, eu queria ele, eu desejava ele, eu idolatrava ele, a minha vida dependia dele. E não queria mais nada a não ser… Ele.
ATO II – A SEGUNDA MORTE
Os dias foram passando e a minha abstinência por aquele ser reluzente com veias pulsantes e braços fortes, aumentava a cada mísera fração de segundos que meus olhos piscavam. Ia todas as noites ao bar e não o via, os homens se aproximavam e eu não os queria.
Em que ponto eu me permiti chegar a isso? Eu, uma mulher empoderada, independente, que nunca precisou de um homem para definir minha vida, estava ali se arrastando como uma viúva que perdera um filho arrancado de seu ventre.
Eu voltava todos os dias ao meu apartamento completamente devastada. Eu voltei a fumar. Tinha parado há dois anos. As cinzas do meu cigarro tomavam conta do meu quarto para combinar com os tons azulados da minha melancolia. Passei a andar desarrumada, com a maquiagem borrada, mal penteava o cabelo.
A verdade é que aquele homem me adoeceu, e eu queria viver presa nesta doença. Mas eu achava que minha vida já estava ruim o suficiente, até eu começar a sentir coisas estranhas ao meu redor. Não sei explicar com clareza o que eu via, ou achava que via, o que eu escutava ou achava que escutava, mas com o tempo eu fui notando que eu parecia não estar mais sozinha em meu apartamento.
Primeiro vieram nos sonhos. Sussurros. Palavras que não compreendia, ditas num idioma antigo, como rezas invertidas. Eu tentava me desviar dessas vozes, havia noites que elas sussurravam tão alto que eu pegava meus travesseiros e pressionava contra os meus ouvidos.
— PAREM, DESGRAÇADOS!- Eu clamava nas noites, porque não conseguia dormir.
Com o tempo, seres mascarados apareciam na penumbra dos meus corredores, eu sempre gritava achando que eram ladrões, mas toda vez que acendia as luzes, eles não estavam mais lá. Meu lar se transformou no meu calvário, e como muitos que deixam de ir ganhar o seu pão de cada dia, eu passei a perecer.
A comida começou a faltar na minha despensa e meus trocados mal davam pra comprar um salgado na mercearia. Com o tempo, a minha fome começou a ganhar vida e as coisas que viam no meu corredor, passaram a aparecer nos reflexos.
No espelho do quarto, jurei ver algo mover-se atrás de mim — uma sombra, um vulto com a minha forma.
Às vezes, o vidro parecia respirar. Outras, mostrava-me deitada sem vida, os olhos abertos, o corpo frio.
E as criaturas… Mascaradas, imóveis, surgiam nos cantos do quarto sempre que a luz piscava. Observavam-me, esperando.
Certo dia, havia acabado de tomar banho, estava com a toalha envolta ao meu corpo e ouvi ruídos estranhos, vozes que se confundiam com gemidos. Minha espinha congelava, eu me recusava a olhar para trás, mas quando decidi me virar, de sobressalto, me afastei para trás tapando a minha boca, tropecei e caí no canto da minha parede, minha toalha se desenrolou de meu corpo e estava eu nua naquele banheiro diante do pavor que me cercava.
Eu via quatro, não, eram seis, ou melhor, dez, mais de dez homens nus vieram rastejando como vermes para cima do meu corpo. Eles salivavam como porcos e eu era a lavagem que eles não deixariam por nada, a chance me devorarem. Gritei. Gritei muito, clamava por ajuda e quando meu grito perdeu as forças junto com o eco daquele banheiro, aqueles homens, diga-se, coisas, desapareceram.
Senti um alívio imediato. Alívio esse que duraria 24 horas ou menos. Até que minhas noites foram se tornando cada vez mais sombrias.
Numa dessas noites, quando já não sabia o que era real, o espelho estremeceu.
E então ela apareceu.
Era eu.
Mas não era.
A mesma face, o mesmo corpo, o mesmo olhar — apenas vestida como uma mulher de outro século.
Pele pálida, lábios cor de vinho, olhos que carregavam séculos de dor.
“Selena”, disse ela, com a voz que era a minha, só que mais grave. “Resista, Selena! Ou morrerás uma segunda vez.”
A minha garganta secou.
— Quem é você?
Ela sorriu com melancolia.
— Sou aquilo que restou de ti, de outra era. Fui seduzida, como tu foste. E ele… Ele não é um homem. É um demônio que viaja pelo tempo à procura de quem possa consumir. Tu foste escolhida. Ele quer a tua alma, não o teu corpo.
Eu fiquei sem forças, talvez por achar absurdo demais as palavras daquela outra eu, ou pelo seu sotaque com palavras sofisticadas e finas demais para o meu fajuto vocabulário.
— Alma? Depois de tudo… Eu nem sei mais se ainda tenho alma, eu estou… Destruída, humilhada, arrasada, parece que meu coração apodreceu e o restante do meu corpo foi consumido por teias de aranha. Eu te pergunto: O que ainda restou de mim? Hein?
Ela, meu outro eu, aproximou-se, a mão fria tocando o vidro.
— Você ainda tem uma chance, Selena. E é por isso que ele te quer. Ele alimenta-se do desejo, da tua entrega. Cada vez que o deixaste entrar em ti, ele sugou-te um pouco mais. Quando ele te esvaziar por completo… morrerás. Por favor, Selena… Eu não quero morrer pela segunda vez.
Olhei o reflexo, tremendo. Estendi as minhas mãos para como se fossem tocar as mãos dela. Ao tocar, senti que meu corpo foi puxado para dentro daquele espelho. Quando menos esperava, estava eu em uma dimensão fora da minha realidade, um lugar escuro onde podia sentir o reflexo dos espelhos piscando e se movendo pelas sombras.
Meu outro eu olhava para mim com expressão surpresa, séria, triste e feliz ao mesmo tempo.
— Selena, eu…
Antes que ela pudesse concluir a frase, senti um calafrio arrepiar pela minha espinha.
Por trás de mim, algo começou a emergir da sombra.
Dois olhos cinzentos. Um sorriso familiar.
Elias.
— Bem vinda, Selena.
Senti o chão desaparecer. Estava eu caindo em um abismo, meu outro eu gritava e eu me distanciava cada vez mais da superfície, estava submergindo na escuridão daquela dimensão espelhada.
Caí em algum lugar frio com uma fumaça que intoxicava a minha respiração, mas ainda podia ouvir os vidros se tocando. Estava eu no lado onde os espelhos não refletem, apenas prendem. Me levantei cambaleando e pude ver de longe, a penumbra de algo familiar, algo que eu tanto desejei e naquele momento, o temia mais que a morte.
Lá estava ele.
Belo. Terrível. E eterno.
— Bem-vinda de volta, minha doce amada- Disse o maldito, estendendo-me a mão.
E percebi que, naquele ciclo de prazer e morte, eu já tinha estado ali antes.
E morreria outra vez.
— Quem é você? Por que estou aqui?- Perguntei implorando por respostas tradicionais, mas sem esperanças de recebê-las.
— Por gerações eu te procurei, Selena. Procurei a versão perfeita de você. Todas as outras eram quebradas, eram puras demais, eram intrínsecas, mas você… –Levantou a ponta dos dedos mirando na minha direção- Você é profunda, é carnal, é tudo que eu preciso para ter em meu reino.
— Elias, eu… Eu te desejei como nunca— Pela primeira vez, eu me vi chorando diante de um homem— Me vi dentro de você, queria morar dentro de você, sentir o seu corpo nu colado ao meu, mas tudo que eu tive depois que você foi embora… Foi dor.
— Oh, minha doce donzela! Eu precisei me afastar para mostrar-te o quão dependente você é de mim. Mas ainda dá tempo de decidires… Venha comigo para o meu mundo, deixe-me dominá-la e será a rainha do meu sub-mundo.
Me senti tentada e não vou negar que, naquele momento, tudo que eu queria era estar ao lado dele. Queria poder ser possuída e violada todos os dias por aquele homem que por várias vezes me levou ao êxtase de prazer na cama. Ele aproximou-se de mim e me beijou com tanto desejo, com tanta fome.
Eu correspondi a essa fome, correspondi a esse desejo, afinal de contas, eu estava faminta, e a boca dele era o meu manjar proibido. Mas naquele mundo espelhado, passei a ver fragmentos de mim mesma nos reflexos, todas elas tentando me mandar alguma mensagem, tentando me dizer algo.
Nenhum som saía de suas bocas, mas claramente elas imploravam para que eu parasse de beijar aquele ser sedutor e fosse protegê-las. Parei de beijá-lo, e quando menos percebi, meus pés não tocavam mais o chão.
Estava flutuando juntamente com ele, o olhei mais uma vez.
— Porque eu? — perguntei.
— Porque és perfeita. — Ele sorriu. — Tu não desejas o amor, desejas o abismo. E o abismo… Sou eu.
Aquelas palavras foram uma corrente à volta do meu corpo. Senti-o beijar-me novamente, e o beijo era uma lembrança e uma sentença.
Cada toque devolvia-me uma lembrança antiga — vidas que eu não sabia que tinha vivido.
Século XVIII. Século XIX. Um quarto em Paris. Um leito em Veneza. Sempre eu. Sempre ele.
E em todas as vezes, a mesma morte.
O prazer tornou-se dor, e a dor tornou-se luz.
O corpo começou a dissolver-se — e com ele, a minha alma.
Eu estava sendo sugada para dentro dele. Irônico pensar que eu desejei me fundir carnalmente com este homem, e estava agora literalmente sendo absorvida por ele.
Mas então ouvi a voz dela.
A outra Eu.
Ecoando entre as fissuras do espelho.
— Lute, Selena! Ele só vence se acreditares que não és real.
Fechei os olhos.
O toque dele tornou-se fogo, depois frio, depois nada.
E dentro do nada, encontrei algo: um lampejo de mim.
Uma raiva antiga. Um grito que vinha de todas as mortes que já tive.
— Não vai me levar de novo — sussurrei.
Ele riu.
— Levar-te? Minha doce Selena, tu pertences a mim.
E foi então que percebi. O espelho — a superfície onde tudo começou — ainda me ligava ao outro lado.
E se era ali que ele me possuía… Seria ali que eu o destruiria.
Empurrei-o com toda a força que restava. Caí. A outra eu se aproximou e golpeou as costas dele. Aquele homem belo e torneado ganhou asas e, de repente, sua aparência se transformou em um monstro espectral que parecia ter pacto com a morte. Não. Era ele a própria morte.
Naquele momento meu outro eu olhou-me fazendo gestos para os reflexos. Foi aí que eu entendi que aquela criatura diante de meus olhos, tinha uma fraqueza: Ela não suportava a visão de sua própria feiúra.
Como uma fera ferida, sobressaltei para o escuro para apanhar um dos fragmentos daquela dimensão. Ele me seguiu. Vi que mais a frente estava a passagem para sair daquela dimensão. Meu outro eu gritava para que avançar e não olhar para trás. Assim o fiz.
Quando me aproximei daquela luz em formato retangular, peguei o fragmento que estava em minhas mãos e apontei para trás.
A criatura vira seu reflexo naquele fragmento espelhado e como um fogo que consumia a sarça quente, ele começou a sucumbir-se de dor e agonia. Fiquei paralisada sem saber o que fazer de fato.
Foi quando meu outro eu chegou de repente e abraçou aquela criatura a puxando de volta para a escuridão.
— Você não vai morrer de novo, Selena… Agora saia!
Ela segurou a criatura com uma força que talvez nem ela sabia que tivera. Senti que a porta retangular estava começando a se fechar, então saltei para aquela luz.
Quando meu corpo ultrapassou aquela passagem, estava eu de volta em meu quarto.
Quando abri os olhos, estava eu sozinha.
O espelho, em mil pedaços no chão.
Olhei o meu reflexo fragmentado.
Mil Selenas, cada uma com um olhar diferente.
Algumas ainda presas no vidro. Outras, finalmente livres.
E no meio do silêncio, percebi: o desejo é uma prisão tão bela que quase esquecemos as grades.
Abracei o vazio e sorri. Talvez tivesse vencido.
Ou talvez estivesse apenas à espera da próxima vida, do próximo espelho, do próximo Elias.
Porque nesta cidade,
ninguém morre só uma vez.
FIM












Comentar