
Era madrugada. Nu, sentado à beira da cama, próximo à porta do quarto do apartamento, César conferia pela última vez as horas no visor do celular e verificava se havia alguma ligação de Roberto, seu amante. Nenhuma. Constatou isso num misto de frustração e alívio.
Havia dias tentava resistir à vontade quase obsessiva de procurá-lo, um esforço que começava a cobrar seu preço. Tinham discutido no último encontro, duas semanas antes. Não podia continuar se afogando naquele oceano de incertezas e inquietações. E Roberto, desta vez, parecia ter entendido o recado. Ainda assim, acabou cedendo. Abriu o Instagram em busca de algum vestígio recente do amante, desistiu menos de um minuto depois e lançou o telefone para o lado.
Sob a luz difusa da lâmpada de sal repousando sobre a escrivaninha, que espalhava uma claridade suave pelas paredes e pelos poucos objetos do quarto, Cesar permaneceu por alguns minutos escutando o silêncio da madrugada. Inquieto, deixou-se absorver pela sucessão de sentimentos contraditórios que o acompanhavam desde que aquilo que deveria ter sido apenas uma aventura sexual escapara do controle.
Vira-se, como há quatro anos, diante da possibilidade de se envolver afetivamente com um homem indisponível, situação que sempre conseguira evitar, afastando-se antes que os danos se tornassem maiores quando percebia que a estrada da diversão começava a se bifurcar.
Mas com Roberto, fracassara.
Não conseguia identificar o feitiço que o mantinha preso a Roberto, nem compreender a necessidade quase absurda, que, até poucas semanas antes, ainda sentia de obter a validação de alguém que jamais deveria ter ocupado tanto espaço em sua vida. Também não entendia por que permanecia naquele lugar, apesar das idas e vindas daquela história, e, sobretudo, da angústia de saber que Roberto continuava se encontrando, ainda que brevemente, com outros homens. Ao menos, ele, César, sempre fora discreto em seus casos passageiros.
Inspirou fundo e arqueou uma sobrancelha, numa reação quase involuntária. Não queria mais continuar medindo a altura do tombo, tampouco passar agosto esperando setembro. Havia tempos deixara de se enxergar como um adulto. Sentia-se, isso sim, como um adolescente perdido num labirinto de hesitações.
Mas que merda.
Meneou a cabeça num gesto de reprovação dirigido a si mesmo, decidido a empurrar para bem longe aquela espiral que parecia lhe sugar, dia após dia, qualquer resquício de racionalidade.
Inspirou novamente, sentindo o peso do ar invadir os pulmões. Então, como quem procura um abrigo para a mente, voltou-se para Pedro, seu aluno, adormecido ao seu lado, nu em pelo e pele. O corpo parecia ter sido interrompido no instante exato em que a juventude começava a ceder espaço à maturidade; naquele instante, o rapaz lhe pareceu um quadro vivo.
Não. Não. Não. Precisava parar de romantizar aquilo.
Ajeitou os ombros e olhou adiante, para a porta entreaberta do quarto e então se recordou do instante exato, horas antes, quando Pedro surgiu à porta do apartamento exibindo um sorriso hesitante, mas também algo provocador, e um olhar que aparentava implorar por refúgio.
“Como conseguiu meu endereço?”
Pedro titubeou por um instante antes de desviar o olhar.
“Eu procurei.”
A resposta soou estranha, mas não estranha o bastante para exigir maiores explicações.
Pedro estava alterado.
Pedro pedira para entrar.
O que acontecera naquela noite não fora fruto de um encantamento repentino, de uma armadilha cuidadosamente arquitetada ou de qualquer fatalidade digna de romance. Fora apenas uma sucessão de escolhas ruins. Simples assim.
Pedro estava alterado.
Pedro pedira para entrar.
E ele, César, abrira a porta.
Onde estava com a cabeça? Por que não dispensara Pedro pelo interfone? O porteiro que lidasse com a situação. Ao menos agora não estaria com este elefante branco instalado no meio da sua sala. Ou melhor, deitado em sua cama.
Pedro aparecera à porta do apartamento.
Pedro estava alterado.
Pedro pedira para entrar.
E ele, César, abrira a porta.
Era isso. Os fatos. Apenas os fatos.
Voltou a ver Pedro parado diante da porta do apartamento. O sorriso vacilante, suspenso entre a vulnerabilidade e o desafio. O olhar parecia buscar abrigo enquanto testava limites.
César esvaziou os pulmões num suspiro longo. O ar pareceu mais pesado dessa vez e, tão logo tentou organizar os acontecimentos de forma fria e objetiva, a memória começou a escapar de suas mãos e daí, buscando por um novo refúgio para os próprios pensamentos, voltou-se novamente para a cama.
Pedro continuava dormindo e a imagem o atingiu com uma força inesperada.
Ali estava o mesmo rapaz que, poucas horas antes, insistira em atravessar todas as barreiras que ele julgava intransponíveis. O mesmo rapaz que o confrontara quando deveria ter recuado. O rapaz com a mesma obstinação que ele, desde o início, fingira não perceber. Então a lembrança voltou com nitidez. Não a do que aconteceu depois. Mas a do instante em que ainda era possível impedir que qualquer coisa acontecesse.
“Você sempre soube.”
A frase. Foi essa frase. Talvez tivesse sido ali que tudo começara a ruir. Porque Pedro não falava como alguém confuso. Não falava como um garoto improvisando coragem. Falava como alguém que passara semanas, talvez meses, reconstruindo silenciosamente cada gesto, cada olhar e cada silêncio compartilhado. E César se lembrava. Sim, lembrava-se dos livros deixados sobre a carteira. Das perguntas que se prolongavam além do necessário. Dos olhares rápidos que se tornavam longos demais.
Lembrava-se de tudo.
E essa era justamente a pior parte, porque, apesar de todas as tentativas de convencer a si mesmo do contrário, havia uma verdade da qual não conseguia escapar: Pedro não o surpreendera naquela noite. O que o aterrorizava era perceber que, em algum lugar de si, ele estivera esperando por aquilo.
“Gosta do que vê, pro-fes-sor?”.
César meneou a cabeça.
“Gosta do que vê, pro-fes-sor?”.
Horas depois, a frase continuava ali. Talvez porque não tivesse sido apenas uma provocação. Talvez porque tivesse funcionado como uma chave, abrindo compartimentos da memória que ele preferia manter fechados.
A consciência se contorceu sob uma sucessão de lembranças que se recusavam a obedecer a qualquer ordem lógica.
Os livros, sempre os livros. Durante semanas, Pedro os deixara sobre a carteira como quem espalha pistas. Romances, ensaios e autores que surgiam, não por acaso, nos assuntos discutidos em sala. César lembrava-se de ter notado aquilo. Lembrava-se de procurar os títulos com os olhos ao entrar na classe. Lembrava-se, sobretudo, de ter fingido para si mesmo que não significava nada.
Depois vieram as perguntas. Longas demais. Numerosas demais. Perguntas que começavam na matéria e terminavam em assuntos que pouco tinha a ver com a disciplina. E os olhares, sempre os olhares. Não constantes o suficiente para parecerem óbvios. Não discretos o suficiente para passarem despercebidos.
Por mais que tentasse, César já não conseguia dizer onde terminavam as intenções de Pedro e começavam as suas próprias projeções. Mas havia algo pior. Algo que tornava tudo ainda mais difícil de encarar. Porque se fosse apenas uma questão envolvendo professor e aluno, talvez conseguisse organizar a culpa dentro de alguma lógica.
Mas não era.
Existiam outros motivos para que aquela aproximação jamais tivesse acontecido. Motivos anteriores aos livros. Anteriores aos olhares. Anteriores até mesmo à primeira aula naquela universidade. Pensar neles era abrir uma porta que não se sentia preparado para atravessar. Ainda que somente ele conhecesse aquele segredo. Talvez um dia escrevesse sobre tudo aquilo, pois uma narrativa, até mesmo a mais dramática delas, normaliza o ato, como disse Annie Ernaux.
“Por favor… por favor.”
A lembrança voltou a avançar sem pedir licença.
Pedro, com os olhos firmes e inquiridores, percorria seu rosto como se procurasse uma resposta que já conhecia.
“Dois meses. Dois meses para eu tomar coragem de fazer isso, professor. E você sabe por quê. Vamos jogar limpo. Você sempre soube do meu interesse. Eu pensei nisso. Refleti. Refiz cada conversa, cada olhar que aconteceu naquela sala”…
César recordou o impulso de se levantar. Recordou também o fracasso da tentativa.
“Não. Você vai me escutar.”
“Você está bêbado, rapaz.”
“E o seu hálito, por mais que tenha tentado disfarçar, não é nem de longe o de alguém que passou a noite tomando leite.”
“Eu sei o que você está tentando fazer, Pedro”…
“Então sabe que estou falando sério.”
A lembrança prosseguiu, cruel. Pedro falava com a segurança de quem passara semanas reorganizando os mesmos acontecimentos. Os livros. As perguntas. As conversas depois da aula. O maldito churrasco de encerramento do ano letivo. Tudo retornava agora, peça por peça.
“Você reparou em mim desde o começo.” Insistira ele. “Desde que comecei a me destacar nas suas aulas. Desde que percebi que você também passou a me observar.”
César lembrava-se da irritação que sentira. Mas lembrava-se também de algo pior. Da dificuldade em rebater aquelas acusações com a convicção que desejava. Porque, enquanto Pedro falava, uma parte dele continuava procurando argumentos. E outra, muito mais incômoda, procurava desculpas.
“Vá embora.” Recordou-se de dizer. “Pela minha sorte… pela sua sorte. Iremos nos arrepender. Eu irei me arrepender.”
“Arrepender do quê? Ainda poderemos ser amigos.”
“Não podemos.”
“Claro que podemos.”
“Pedro, por Deus, você tem vinte e dois anos. Tem uma vida inteira pela frente. Não temos nada em comum além da universidade onde você estuda e eu leciono. Peço mais uma vez: vá embora.”
César tentara encerrar a conversa. Tinha certeza disso. Tentara. Mas era justamente essa palavra que agora o perseguia e já não conseguia afirmar, com a mesma convicção, que fizera tudo o que estava ao seu alcance para impedir que aquela noite chegasse aonde chegou.
“Eu não quero ir embora. Não agora.”
Pedro lançava o seu desafio enquanto a calça e a cueca caiam até seus pés, deixando à mostra seu pau duro.
“Gosta do que vê, pro-fes-sor?”
César sentiu lágrimas se acumularem no canto dos olhos enquanto observava Pedro adormecido, seu corpo firme descansando sobre o lençol emaranhado; a pele marmórea cobrindo a cama como um manto etéreo. Talvez pudesse ficar ali, eternamente, admirando aquela criatura primorosa, contemplando aqueles ombros estreitos, os braços longos e delgados, os pelos espessos sobre a barriga exata, a enérgica virilidade, ainda que agora adormecida.
Nada em Pedro correspondia exatamente ao tipo de homem que passara a vida desejando. Acostumara-se a perseguir corpos esculpidos à exaustão, marcados por uma sexualidade ostensiva e, muitas vezes, por uma arrogância igualmente evidente.
Pedro era diferente.
Embevecido, César agora podia afirmar que nenhum daqueles Apolos que cruzaram seu caminho, com seus paus, bundas e línguas, atraídos pela força do desejo ou do vil metal, chegara sequer perto do que Pedro lhe despertara. Nem mesmo Roberto, o amante, talvez o amor da sua vida, com sua maturidade, experiência e bagagem emocional de toda uma existência, lhe desencadeara tanta intensidade nesses quatro anos de encontros clandestinos — nesses quatro anos em que os amores que duram acabam por tornar os amantes exaustos.
César abafou o choro. Até quando continuaria focando nos sintomas antes de encarar a causa?
Fechou os olhos e se deixou cair sobre a cama, sem alarde. A cabeça pesou. O corpo pareceu afundar numa flutuação anestésica enquanto um gosto metálico formou-se em sua boca. Há corpos que nos salvam da moral, porém nos condenam à memória.
— Fique tranquilo, professor.
César descerrou os olhos.
Pedro o observava com um olhar curioso, tímido, mas também perscrutador, como se, de alguma forma conhecesse o caos que o consumia.
— Guarde, por agora, toda essa sua beleza e seu sofrimento, César. Esta noite é só nossa. Apenas nossa. E meu pai jamais vai saber o que houve.
Por um instante, o mundo perdeu o som e César permaneceu imóvel. Não foi o medo que o atingiu primeiro. Nem a culpa. Foi o espanto. Um espanto absoluto, desses que suspendem o pensamento e transformam o corpo numa coisa estranha, pesada, incapaz de reagir.
Sentiu o sangue abandonar-lhe o rosto enquanto as palavras de Pedro continuavam ali, reverberando.
Meu pai.
Meu pai.
Meu pai.
Como uma porta arrombada por dentro.
— O quê? Como?
A voz saiu fraca, quase irreconhecível.
Pedro sustentou seu olhar. E César compreendeu, num único golpe, que não estava diante de uma descoberta recente, de uma suspeita ou de um acaso infeliz. Pedro sabia. Sim. Pedro sabia. Talvez há semanas. Talvez há meses. Talvez desde muito antes do que ele ousava imaginar.
Não conseguiu mais continuar. E, sem compreender exatamente por que, começou a chorar.
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Poético demais, avassalador. Eu entendo o César, se um homem lindo como o Pedro tivesse deitado na minha cama, eu jamais deixaria ele sair kkkkk.
Brincadeiras a parte, parabéns por esse belíssimo conto, amigo.












Poético demais, avassalador. Eu entendo o César, se um homem lindo como o Pedro tivesse deitado na minha cama, eu jamais deixaria ele sair kkkkk.
Brincadeiras a parte, parabéns por esse belíssimo conto, amigo.