Buena Vida
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Buena Vida

Escrito por: Marcos Vinicius "Velaryon"20/06/2026 - 19:00

A tarde rompia em luz mansa sobre o pampa, dessas que não chegam de repente, mas se deitam devagar sobre o campo, dourando o capim e amaciando o vento. O horizonte parecia suspirar em tons de cobre, e as sombras dos eucaliptos se alongavam como se fossem braços cansados.

Dentro do rancho de madeira escura, o silêncio tinha o cheiro de erva-mate recém-cevada. Antônio segurava a cuia com as duas mãos calejadas. O mate estava amargo, mais do que de costume. Não pelo pó da erva, mas sim pela partida.

Vida buena… – ele murmurou, soprando a fumaça fina que subia da água quente.

Do outro lado do campo, a estrada de chão ainda guardava a marca fresca das rodas do ônibus que levara Helena naquela mesma manhã. Cidade grande. Promessa de um trabalho fixo. “Mês que vem eu volto”, ela dissera. “Mês que vem”.

Mas quem mora no campo sabe que o tempo não anda em uma linha reta. Ele se espalha. Se deita. Às vezes, parece que encosta.

Helena tinha o olhar da cor do rio ao amanhecer. Um verde acinzentado que mudava conforme o humor do céu. Quando ria, o mundo ficava mais claro. Quando se entristecia, até os galos demoravam a cantar.

O rancho deles era pequeno, mas inteiro de significados. Tábua por tábua foi levantada por Antônio com ajuda do seu pai já falecido. A mesa de madeira bruta no centro da cozinha. A chaleira sempre no fogão a lenha. O cheiro de fumaça impregnado nas paredes. Ali, entre um mate e outro, nasceram algumas promessas.

Se vivo dia a dia é só por ti. – ele dissera certa vez, num desses amanheceres em que o frio faz a gente falar mais baixo.

Ela riu, puxando o pala sobre os ombros.

Então trate de viver bastante, vivente.

O abraço dela tinha a paz que não se aprende em nenhum livro. Era abrigo contra o vento minuano e contra qualquer incerteza do mundo. E agora, sozinho, Antônio caminhava até a beira do rio que cortava a propriedade. A água corria lenta, como se também sentisse saudade.

Sentou-se na pedra onde os dois costumavam ficar ao entardecer. Saudade é rio que corre das retinas, ele pensou. Não era homem de chorar fácil. Mas o olhar se nublou como um céu antes da garoa. O silêncio do campo pesava diferente sem a voz dela chamando da porta:

Vem prosear, homem!

O mate daquela tarde tinha um gosto de ausência. Os dias seguintes vieram sem medida. Longos demais. O gado precisava de trato. A cerca precisava de conserto. A vida não espera por um coração remendado. 

À noite, ele se deitava na cama larga demais. O lado dela permanecia intacto, como se Helena fosse voltar a qualquer instante, sacudir a poeira da estrada do vestido e se aninhar no seu peito. E ele sonhou com ela beirando o rio. O vestido ainda dançando no vento. O olhar brilhando na luz morna do pôr do sol.

Acordou com frio. O quarto estava escuro e calmo demais. E viu o lugar dela…vazio. Amar, às vezes, é aprender a conversar com o silêncio e aquele mês parecia não acabar nunca.

Na venda da vila, diziam que a cidade muda as pessoas. Que quem parte raramente volta igual. Antônio fingia não ouvir. Pagava o querosene, ajeitava o chapéu e saía sem responder. Helena não era dessas que se perdem. Era raiz funda. Mas mesmo assim, o medo mordia por dentro.

Numa madrugada especialmente fria, ele se levantou antes do sol. Preparou o mate com esmero, como se ela estivesse ali para reclamar daquela água quente demais. Sentou-se na soleira da porta, envolto em seu poncho. O céu começava a clarear. E então, ele ouviu o barulho distante de um motor na estrada de chão. Não quis se iludir. Muitas caminhonetes passam por ali. Mas o coração, esse traidor, já batia descompassado.

O veículo parou diante da porteira. Antônio ficou de pé. A porta se abriu. E lá estava Helena, o cabelo preso às pressas e o olhar cansado, mas inteiro.

Buenas… – disse ela, com aquele sorriso que desarma qualquer tempestade.

Ele sorriu.

Trouxe a paz que tu pediu? – ela pediu.

Ele não respondeu.

Caminhou até ela como quem atravessa um ano inteiro em poucos passos. O abraço veio forte. Quente. Verdadeiro. A luz do amanhecer bateu no rosto dos dois como uma bênção antiga.

A cidade não é meu lugar. Meu mundo é aqui. No teu rancho. No nosso mate madrugueiro. – ela confessou contra o peito dele.

Ele riu, com os olhos finalmente claros.

Buena vida, então.

Buena vida — ela repetiu.

O rio seguia correndo ao fundo, mas agora não era de saudade. Era de continuidade. Dentro do rancho, a chaleira voltou a cantar. O mate passou de mão em mão, como uma promessa renovada. E naquela manhã fria do sul, sob o céu vasto do pampa, entenderam que a vida, quando partilhada, pode até ser desmedida.

Mas é buena.

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