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O Santo e a Virgem

O SANTO E A VIRGEM

“Cada um, porém, é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido. Então esse desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado, e o pecado, após ser consumado, gera a morte.”

(Tiago 1:14-15)

I: OS CORPOS E A COMUNHÃO:

Chuva corrente e o sexo em gozo. O Padre Josiel de Sá Mendes, mais uma vez, derretia-se aos desejos da carne em instintos animalescos e músculos ejaculados e prazer. Era de tardinha, quase chuva e pôr do sol, quando a dona Robertinha, a desconsolada viuvinha de Santa Cruz Paulista e assídua beata de vestes pretas e fofocas em dia, foi à igreja para confessar as vergonhas e novidades do povão santacruzense, eu e você. O papo deu-se da seguinte forma: um Sinal da Cruz, um pedido de bênção, explanação de nossas vergonhas e fofocas, beijos, línguas, dedos, orifícios, olhos revirados, muitos gemidos de “oh, meu Deus”, onomatopeias e ejaculação muscular em exaltação superlativa! Sexus benedictio est. Todo mundo melado. Um banho gelado. O vinho e a hóstia, os corpos e os sangues, um tira-gosto. Contou, a viuvinha da língua esperta, que lá em Matagal Sulista, um pouco mais pra lá do horizonte, havia uma mocinha de seus vinte e poucos anos que estava a realizar milagres. Mocinha? Mocinha! Vinte aninhos? Exatamente. Uma virgenzinha: o instinto adivinhatório de bicho homem do Padre Josiel atiçou-lhe os fluidos. Para ele, homem de corpo e de sangue antes de qualquer coisa, a santa castidade pregada pelos parágrafos bíblicos e convento não passava de mero formalismo religioso, contrato social que não era signatário. Sendo assim, neste cenário, Jesus estava a ser suplantado pelo sangue e a carne, pelo vinho e a hóstia, que saciavam as fomes e alimentavam os prazeres. Em outras palavras, o Josiel não era Padre enquanto praticava a arte do coito, o hábito do sexo e a serenidade transcendental do orgasmo sem culpas. Não? Não! O Josiel era homem, era bicho, era corpo, era o suor, era o pênis, era a vagina, era o doce e o salgado, e eram, ele e seus desejos, os gemidos compenetrados da criação, Amém! Na hora do sexo, Josiel era homem. Apenas bicho homem.

Interessante notar, caro leitor, que mesmo diante dos desafios carnais em tesão e gozo, Josiel de Sá Mendes desempenhava o papel de Padre por convicção e profissão de fé. Encontrava verdadeiro prazer em celebrar missas e em cumprir rigorosamente, ou quase, as sagradas responsabilidades da Igreja Católica. Além do corpo, era visto como um homem santo, abençoado, puro, uma bênção, uma luz necessária; um servo de Deus cujos desejos alimentavam-se de viúvas desconsoladas, de velhas banguelas, de universitárias da pele viçosa, e até de mendigas não tão entregues às moscas do descaso, caridade Vicentina. Claramente, nessa situação, sua condição de sacerdote exalava poder e influência, deixando-o levar ao confessionário quem seus impulsos carnais estavam a sentir fome e vontade. Em resumo, um ser humano feito de linhas retas e tortas. Que tal mais um pouco de vinho? Enquanto a língua perspicaz de Robertinha descrevia a jovem de Matagal Sulista, uma donzela pura nos moldes de Jesus, Maria, José e milagres, uma coceira sacana estava a provocar Padre Josiel em suas ceroulas manchadas. Rapidamente, ele quis encontrar a milagreira para ter certeza de suas virtudes divinas e virginais. Piada! A viuvinha riu-se nas calças pois conhecia as reais intenções do clérigo: o coito e sua prática. Vinho? Vinho! Valendo o rico dinheirinho dos fiéis, o Padre de semblante santo e a viuvinha cronicamente melancólica selaram um pacto sacana: apostaram que Josiel seria hábil o suficiente para levar a milagreira ao confessionário de joelhos e boca aberta. Aperto de mão dos patifes sob o sangue de Cristo e a chuva mansa.

II: MATAGAL SULISTA:

Estiagem ou quase. Três dias depois do acordo malicioso numa aposta safada, Josiel foi a cavalo até a milagreira. Alvorada em tempo nublado, cafezinho preto, urgência digestiva, toalete, viagem leve e aliviada. Presidente Prudente, Pirapozinho, Nova Damasco, hospedaria. Noite fria. Café da manhã, inibição intestinal, viagem dura e enfezado, o bicho homem. Porto Capim, Ponta Porã, Warta, Londrina e, por fim, Matagal Sulista, almoço e sesta. Neste ínterim, foi a Irmã Sidônia de Xavier, administradora da igreja local e responsável por ela, a milagreira, a jovem Maria Bianca dos Anjos, quem recebeu o sacerdote de sua longa e dura viagem. Duríssima viagem. Quartinho humilde no porão da igrejinha, do ladinho de uns túmulos, coisas velhas, crucifixo de ferro pesado, muito pó e rinite. Ocaso de garoa calminha e nada de banheiro pro Padre ou de tensões sexuais pro homem: Josiel permanecia inibido e sem contato com a milagreira, que estava a descansar de uma longa viagem que fizera há pouco. Portanto, consultas e milagres somente no dia seguinte, provocando nele, em Josiel, maiores irritações intestinais com significativas dores de cabeça e nos corpos cavernosos. Nem a mão, senhores, o bastava. Queria ele, o Josiel entumecido, tomar da milagreira sua virgindade em língua e dedos, os desejos do homem bicho em sonhos úmidos. Noite. Madrugada. Bom dia! Mais uma alvorada em tempo nublado, ventos frios, Josiel melado e Padre constipado. Banho gelado e dentes escovados, ou quase. Nervosismo ansioso que quase desandou o desjejum sacro. Atente-se ao quadro: foi, o Josiel enquanto Padre mas bem recheadinho de vontades humanas, ter uma conversa com a Irmã Sidônia pois queria saber quando veria Maria Bianca, a milagreira virginal. Ansioso, ele. O papo, senhores, não foi preciso pois Maria Bianca surgiu em cena de forma sorridente e suave num vestido esvoaçante dos cabelos soltos e riso fácil.

Por um átimo de segundo, a luz do sol brilhou de forma intensa enquanto Morning Mood de Edvard Grieg ecoava pelos ares em gracejos de passarinhos. Momento plácido de gozo divino de rolinhas afinadas e boca calada de Josiel. Um mísero átimo de segundo, apenas, a duração da felicidade do homem num sopro de prazer cerebral de um orgasmo intenso e ceroulas molhadas no paraíso, o Éden, um ventre. Depois daquele brevíssimo prazer em milímetros de tempo, êxtase miserável, porém, os olhos do Padre Josiel sofreram em horror ao testemunharem a percepção da realidade. Realidade? Sim: Maria Bianca em gravidez aparente, peitos inchados, dedo no anel e aliança com um outro varão! Ela não era mais uma donzela de Jesus, Maria ou José. Não? Não! Ela era uma mulher feita, experimentada e vivida pois já tinha dono! O inferno no paraíso. Na descrença dos tesões do homem bicho, as rolinhas afinadas tornaram-se gralhas em tons de Mozart e Lacrimosa. Ódio a Maria Bianca. E o varão? No ritmo do réquiem da situação, surge Gabrielle Bossetto Cusin, ex-Padre italiano que veio ao Brasil como imigrante lá na década de 1880 ou algo assim. Em respeito extremo à Bíblia e ao divino mistério profundo que é Deus, ao menor sinal de fraqueza carnal, suas paixões e seus pecados, ele abandonou a batina, o sacerdócio, e foi viver o corpo, a carne e suas paixões. Ou um, ou outro. A simbiose, amigo leitor, é impossível e o agridoce intragável! E o Josiel? Trancado em seu quarto de hospedaria ainda mais enfezado e sentindo-se traído. Superlativamente traído! Como que a Maria Bianca ofereceu-se àquele traidor de Deus, usurpador do viço das novas carnes e ladrão de inocência, o Gabrielle, um carcamano qualquer? Aliás, Gabrielle não é nome de mulher? Os ventos frios e suas chuvas calminhas estavam a dar lugar a ventanias extremas e chuvas elétricas, tempo perigoso, condição climática de março que fecha o verão. E o Padre Josiel?

III: O SANTO E O VIRGEM:

Chuva forte, raios e trovões. Onomatopeias. Num casebre entre a igrejinha de Mato Sulista e um terréu esquecido, Maria Bianca e Gabrielle estavam a conversar sobre o comportamento estranhíssimo de Padre Josiel. Nem a Irmã Sidônia, bizarra de corpo e alma, entendeu com clareza os porquês do sacerdote santacruzense e seu olhar de cigano oblíquo. O que ele veio fazer aqui em Mato Sulista? Participar de uma celebração? Missa? A páscoa e suas festividades só ocorreriam em abril. Ou ele veio em busca de algum milagre de Maria Bianca? Se veio, por que foi embora sem consultar-se e sem maiores explicações? A única coisa que o casalzinho sabia sobre a situação toda era que o Padre Josiel exalava uma estranheza fétida em seu jeito de ser, de estar e de olhar, como se personificasse uma descarga mal dada, um incômodo estuprador, olhos indiscretos. O papo veio e o papo foi, quando um barulho escandaloso estapeou a paz ali instalada no casebre. Toc-toc… Quem poderia ser naquela tempestade elétrica? Toc-toc. Uma sombra catinguenta estava a rondar o casebre em passos mancos de cavalo. Toc-toc! Meu Deus. Porta atendida. Era Padre Josiel, que adentrou o lugar de forma estrambótica sem cumprimentar o casalzinho ou maiores explicações. Um crucifixo de ferro, material pesado, ele carregava. Tensão no ar. Gabrielle tentou conversar com o sacerdote e seu nervosismo que, num rompante de um comportamento perturbadoramente calmo para uma violência aterradora, golpeou Maria Bianca na cabeça. Desmaio. Tudo isso, meus amigos, ocorreu num átimo de segundo. Frio na medula espinhal. Da percepção à ação de Gabrielle frente tal situação, Josiel acertou-lhe um soco em potência máxima. Desmaio. Tela preta. Corria a chuva e o sexo em gozo. O Padre Josiel de Sá Mendes, mais uma vez, derretia-se aos desejos da carne em instintos animalescos e músculos ejaculados e prazer. De mãos e pés amarrados, Maria Bianca, ainda desmaiada, estava jogada lá no terréu esquecido, misturada ao matagal, bichos e lama em poça.

No casebre, o sexo recalcado: vingando-se de Gabrielle por abandonar Deus e por tirar a inocência de Maria Bianca, Josiel penetrava-lhe os seus ódios. Ele, o penetrado, chorava quieto e manso, lamentando seu terrível fado. Do sexo oral à penetrante humilhação dos brios e instintos de autopreservação que estavam a ocorrer, não era sexo. Não. Não era o tesão quase que fisiológico dos homens, cultura de massa. Nem era vingança, propriamente dita. Era o quê, então? Poder. Padre Josiel estava usando daquela humilhação à Marquês de Sade para desmoralizar Gabrielle e impor-se, naquela relação, de alguma forma acima, melhor e mais virtuoso. Um ato de vingança agridoce. Ódio pois Gabrielle abandonou a batina. Ou seria ódio de si mesmo de nunca ter tido coragem de sair do sacerdócio? E ódio por não ter sido o primeiro a tocar em Maria Bianca. Enfim, o sexo, o poder, a humilhação, o homem. Apenas homem. Chuva forte! O Josiel até pensou em enforcar Gabrielle, mas isso seria um desperdício. Deixou-o vivo, então, num cantinho melancólico lá do casebre. Veja bem: a humilhação do ex-Padre deveria ser exposta em praça pública, não? Sim! Humilhação, tristeza e luto pelo resto da vida. Ma vergognati, ragazzo! E a milagreira? Na chuva, no terréu, Josiel foi ver Maria Bianca. Que coisa triste. Ela, milagreira famosa, não conseguiu fazer o impossível acontecer para si: lentamente afogou-se numa poça de água e lama. Corpo a temperatura ambiente, ela e o bebê. Sentou-se, o homem, e passou a observar a cena como se fosse um quadro. Natureza morta. Não tiveram coragem, o Padre, o homem, o bicho e o Josiel de tocar no cadáver. Mas sobrou tesão o suficiente para se bastarem sozinhos com a mão. O intestino libertou-se neste átimo de segundo e gozo.

IV: O RESTO É SILÊNCIO:

Gabrielle, claramente inocente, foi tido como o culpado da morte de Maria Bianca, a milagreira de Matagal Sulista. Ninguém contém o ódio de uma turba irracional. Apesar da aurora do Século XX, foi açoitado em praça pública, costume medievo e não civilizado. Sangrou até morrer. E o Padre Josiel? Ele, bicho homem, ganhou a aposta safada. Além de ignorar para si os votos de castidade, também não seguia os Dez Mandamentos. No caso, o nono e o décimo mandamento. Mentiu, gozou e lucrou ele, o Padre Josiel e Amém! E o resto? Silêncios onomatopeicos nos confessionários. Mulheres, donas de casa, mães de família e senhoras de posses e sobrenomes ajoelhadas e de bocas abertas. Abertíssimas! E a chuva? Em gozo e o sexo corrente.

FIM.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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