A segunda viagem: o encontro com a Grande Mãe

Apesar da recomendação médica, Nathan negava-se a tomar o remédio. Simplesmente fingia engolir o comprimido, mas escondia-o debaixo da língua. Quando Inês virava as costas, cuspia para bem longe. Sabia que não estava louco.

Finalmente chegou o dia tão esperado. Nathan tinha se preparado para o reencontro com o Orientador e Luzinete. Naquela noite, recolheu-se mais cedo. Deixou a janela aberta e cobriu-se com o cobertor. Para relaxar, concentrou-se nas luzes dos faróis dos carros refletidos nas paredes do quarto e o som que faziam ao transitar pelas ruas. Pela janela, dava para ver a neblina se formando.

Depois de uma hora, Nathan finalmente relaxou. Sua mente, porém, continuava alerta, ao contrário do corpo, que gradativamente adormecia. Entorpecido por aquelas luzes dos faróis que desfilavam e dançavam pelo teto do quarto, Nathan percebeu que algo acontecia. O zunido forte começou. O corpo ficou pesado. Depois a sensação de flutuação, muito prazerosa. Uma luz intensa surgiu na parede e o quarto expandiu. Então, ouviu a voz:

Vamos, meu rapaz. Vamos logo. Temos muito que fazer — disse o Orientador, dessa vez volitando acima da escrivaninha. Nathan sentiu alegria ao vê-lo:

Que bom que veio! Onde está Luzinete?

Bem ali.

Luzinete se apresentou bem diante de Nathan e aproveitou para se mostrar dando voadinhas rápidas em círculos. Depois do breve show, colocou-se a postos sobre o ombro esquerdo do menino, pronta para mais uma aventura.

O que faremos hoje? —Perguntou o menino cheio de curiosidade.

Bem, irei apresentá-lo a uma pessoa importante. Ela está interessada em conhecê-lo.

Quem é ela?

Um ser de muita sabedoria e dotada de profunda generosidade.

Então, ela é uma deusa.

Bem, não, mas nos ensina muitas coisas.

Quero conhecê-la.

Está pronto?

Vamos lá. — Nathan esfregava as mãos uma na outra de tanta ansiedade. Mal conseguia esperar o momento desse encontro tão importante.

Em seguida, o garoto percebeu que a parede do quarto ficou iluminada por uma luz verde esmeralda. Bem no meio, exatamente onde existia o quadro de um menino pescando em um lago, um ponto escuro começou a se formar. Cresceu até surgir um grande buraco. O garoto olhou para o Observador sem saber o que fazer. Luzinete parecia calma.

Vamos, mergulhe.

Quê? Mergulhar? Ali? Mas é es-escuro!

O Orientador, sem receio algum, mergulhou no túnel que o engoliu vorazmente. Nathan aproximou-se, mas receoso, esticou o braço, introduziu-o na passagem. A sensação foi de frio, como se tocasse num balde de gelatina gelada. Havia uma ventania que rodopiava lá dentro. De repente, Nathan sentiu algo agarrar forte sua mão. Luzinete, sem saber o que era, ficou desesperada e logo as cores amarela e vermelha começaram a piscar. Forçando o corpo para trás, Nathan tentou agarrar-se a alguma coisa, mas a sua outra mão não encontrou nada para se segurar. Imediatamente o menino foi dragado para dentro do túnel. Instantaneamente viu-se em um lugar belíssimo.

Onde estou? Quem me trouxe aqui? O que foi aquilo que me agarrou?

Ora, garoto, eu o trouxe aqui. Fui eu quem segurou seu braço. Precisava transportá-lo de alguma forma. – Respondeu o Orientador.

Você me assustou. Era só me chamar.

Desculpe. Gostaria de apresentá-lo à Grande Mãe. É ela também que nos orienta nos momentos difíceis.

Nathan olhou ao redor e não viu ninguém, a não ser a beleza do lugar. Naquele outro mundo, o céu era de um azul mais escuro que o normal. O sol brilhava e seus raios aqueciam delicadamente. Um tapete de flores coloridas cobria o chão, até se perder no horizonte. Pássaros coloridos voavam e brincavam nas enormes copas das árvores.

O lugar era claro, calmo, leve, além das palavras, mas fácil de sentir. A sensação de alegria fluía de dentro para fora, sem esforço. Subitamente, bem à frente de Nathan, em pleno ar, aparece uma mulher belíssima, alta, de olhos cintilantes, que combinavam com o céu, cabelos dourados como se tivessem sido emprestados do próprio Sol. Caíam em cachos sobre seus ombros. Pele delicada semelhante a mais fina porcelana. O vestido era feito de seda verde-clara, de fios brilhantes que dançavam ao ritmo do vento. Um suave perfume tomou o ambiente assim que ela sorriu, levando Nathan a uma espécie de encantamento. À medida que se deslocava, seu brilho tornava-a presente em toda parte. Às vezes, tão transparente que o menino franzia os olhos para tentar focá-la. De seus lábios, como música, saíram as primeiras palavras de saudação:

Bem-vindo, Nathan.

A voz melodiosa deixou-o zonzo. Uma sensação rarefeita de ternura e paz.

O-olá — Foi tudo o que conseguiu gaguejar.

Aqui é o lugar onde moro — disse ela, com olhar bondoso e penetrante. — Você será sempre muito bem-vindo aqui. – Nathan sentiu um beijo no rosto como se fosse uma leve brisa. Ela deslocou-se mais rapidamente do que o olhar do menino, que logo a viu a alguns metros adiante.

Obrigado. Este lugar é lindo mesmo. Mas não vejo casas, prédios… − observou ele.

Vivemos em comunhão com a natureza. É ela que nos supre. Uma árvore pode nos abrigar muito bem. Venha, quero lhe mostrar. Vocês também estão convidados.

O Orientador e Luzinete se apressaram para acompanhá-los. Luzi estava tão eufórica que modificava suas cores sem parar, abrangendo todo o espectro do arco-íris.

Puxa, que árvore enorme! — Disse o menino admirado, quase caindo para trás ao tentar olhá-la da base ao topo. O tronco era gigantesco. Seria preciso mais de cem homens de braços abertos para circundá-lo.

Por favor, entrem. — Neste instante, um galho em formato de mão posicionou-se diante deles. — Vamos, subam. — O galho, então, conduziu-os para o alto, onde havia uma entrada esculpida no tronco. Eles desceram e avançaram por uma escadaria de madeira. Dentro do tronco havia flores luminosas, que serviam de lâmpadas para clarear o interior. Caminharam um pouco mais até chegar a um salão.

Estamos mesmo dentro da árvore? — Perguntou Nathan impressionado.

Sim. Uma árvore pode se transformar em um palácio. E daqui você pode ir a qualquer outra árvore. Basta pedir que elas ficarão felizes em transportá-lo para onde quiser.

O salão era enorme, com aberturas naturais que permitiam a iluminação e a ventilação. O chão era obviamente de madeira, porém tão polida e clara que dava a impressão de ser feito de mármore. As folhas e fibras das cascas haviam se transformado em cadeiras, poltronas e namoradeiras. Tudo tinha vida.

Gostou? — Perguntou a Grande Mãe.

Adorei! É mesmo lindo — Respondeu Nathan, cruzando os dedos das mãos e explodindo de alegria por dentro.

O Orientador e Luzinete já haviam estado lá antes. A Grande Mãe caminhou até eles:

Caros amigos, posso sentir que ainda não conversaram com Nathan.

Não, ainda não. O menino está em treinamento — Respondeu o Orientador, agora com ar preocupado.

Enquanto conversavam, Nathan notou que o tecido da manga do vestido da Grande Mãe cobria suas mãos. Ela se aproximou delicadamente do garoto e com olhar carinhoso disse:

— Meu querido menino, apesar de tão novo, cabe a você uma tarefa árdua. — Nathan olhou-a seriamente, sem entender a natureza daquela conversa. — A revelação será de extrema importância. Preciso que preste bastante atenção. — Nathan engoliu em seco sem saber o que esperar.

E a Grande Mãe continuou:

A natureza existe, pois, uma força poderosa a rege. Tudo está em perfeito equilíbrio. Equilíbrio esse preciso. O cair de uma folha, o sopro de uma brisa, uma gota de chuva, tudo é programado para acontecer. Uma mecânica universal perfeita. No entanto, uma força obscura induziu um erro, uma descompensação. Algo terrível, além daquilo que podemos imaginar.

Nathan continuava com ar de interrogação. Ela prosseguiu:

Você percebe que a cada dia, em seu mundo, a violência, guerras e desastres naturais aumentam?

Sim, vejo isso todos os dias na televisão. Até na minha escola, às vezes, eu apanho.

É exatamente a isso que me refiro. Uma força maligna tenta assumir o controle. No plano original, isso não era para acontecer. Iríamos evoluir pacificamente. Mas isso não foi possível. A força obscura do mal quer o domínio pleno. Ela quer prevalecer em todos os mundos incluindo o nosso.

Nem consigo imaginar como posso ajudar a lutar contra essa força. Até dos meninos da escola eu apan…

Você é portador de uma força — interrompeu a Grande Mãe com muito carinho — que auxiliará no combate contra o obscuro. Ninguém mais, só você será capaz de realizar tal tarefa.

Aqui em seu mundo, não há violência. Parece que está tudo bem — comentou Nathan, olhando em torno com os braços abertos.

Corremos o risco de desaparecer. — Nesse instante, a Grande Mãe ergueu o tecido da manga direita de seu vestido. — Veja, Nathan. É isso o que acontece.

Suas mãos desfolhavam em minúsculos flocos, que se desprendiam e flutuavam, desintegrando-se no ar. A carne que envolvia seu dedo mínimo havia desaparecido deixando à mostra apenas ossos. Depois de cobrir a mão novamente, ela continuou:

Tudo o que vemos agora, as árvores, flores e animais desaparecerão. Seu mundo, por sua vez, se tornará ainda mais violento. A extinção da sua espécie é iminente.

E o que eu devo fazer? — Perguntou o menino horrorizado.

Em breve saberá — Respondeu a Grande Mãe, com um singelo sorriso.

O menino baixou a cabeça, ainda meio confuso. Não havia se dado conta da importância da conversa. Ao perceber a angústia de Nathan, a Grande Mãe afastou-se lentamente, dizendo:

Você tem todo o direito de recusar esse fardo tão pesado.

Nathan viu-se numa situação difícil. Não sabia o que decidir, mas seu impulso de ajudar era mais forte do que seu instinto de sobrevivência.

Não posso deixar nossos mundos serem destruídos — murmurou.

Muito bem, meu querido. Terá meu total apoio naquilo que for preciso. Designo Luzinete para acompanhá-lo. Ela será sua guia e protetora. Ela também irá acompanhá-lo no seu mundo, mas só você poderá vê-la. Já o Orientador — ao ouvir seu nome, ajoelhou-se imediatamente em reverência, com a cabeça curvada — irá prepará-lo para essa grande missão. Que você seja o elo entre os nossos mundos, os quais, caso aceite o desafio, sofrerão grandes transformações para melhor.

Nathan sentiu-se pleno naquele momento.

Vá, meu querido, o presente dos céus, vá e prepare-se para a grande mudança.

Subitamente o cenário dissipou-se em neblina, dando lugar ao quarto de Nathan.

O que faço agora? — Perguntou-se ao mesmo tempo que tentava localizar o Orientador, que agora, invisível, transmitiu uma curta instrução: — Em dois dias daremos início à nova etapa do seu treinamento. Novas instruções serão dadas. E garoto…

Sim?

Obrigado pela ajuda.

Nathan, encabulado, procurou por Luzinete. Ela estava no bolso de sua blusa:

Ah, posso vê-la. Aqui está você, amiguinha. Estamos juntos agora. Você pode dormir dentro da minha mochila. — Ela vibrou de alegria.

Vou chamá-la de Luzi. — Mais uma vez ela, girou, vibrou rapidamente e brilhou a cor verde, que significava sim.

Legal! Boa noite. Amanhã iremos para a escola. Vou lhe mostrar meu mundo. Luzi bateu as asinhas e voou até a mochila. Mergulhou lá para dentro e rapidinho caiu no sono.

Depois de ter deixado Luzinete e Nathan no quarto, o Orientador retornou à presença da Grande Mãe. Ela o aguardava. Em reverência e muito preocupado, ele implorou para que o menino fosse poupado daquele terrível fardo. A Grande Mãe o escutou atentamente e disse:

Caro amigo, entendo sua angústia. Mas esquece que falamos dos destinos de dois mundos: ou ambos evoluirão juntos, ou serão aniquilados. Precisamos da força que aquele garoto possui.

Sua observação presciente alivia meu conflito, mas minhas emoções não permitem que eu veja com tanta clareza, Grande Mãe. Como uma simples criança assumirá tamanha responsabilidade? — Indagou o Orientador, com voz abafada pela apreensão.

Não falamos de uma criança comum. Sabe que ele é dotado de uma mente poderosa. Acredito que seu contato com o garoto fez despertar a forte ligação entre você. Lembre-se de que o envolvimento emocional nos coloca em dúvida em situações difíceis.

O Orientador baixou a cabeça e ficou pensativo. Apesar do capuz não permitir que seu rosto fosse visto, a Grande Mãe podia sentir sua preocupação. Com a mão leve e clara como névoa, tocou o capuz do Orientador e puxou-o para trás, revelando a face de um simpático senhor de cabelos prateados, olhos arredondados, feição envelhecida e sábia. No entanto, seu rosto, também se desmanchava em pequeninos flocos, que se desintegravam como cinzas ao vento.

Veja, meu amigo, como eu, morre aos poucos.

O Orientador recolocou o capuz e disse:

Grande Mãe, permita-me fazer um apelo.

Qual seria?

Que o menino possa escolher. Ele tem esse direito.

Acredito que nossa conversa tenha sido esclarecedora o bastante — Respondeu a Grande Mãe.

Permita-me explicar ao menino todos os detalhes. Deixe-me levá-lo aos portais. Isso lhe dará a chance de escolha.

Revelaria sua identidade a ele?

Sim.

Isso colocaria a missão em risco. A emoção costuma eclipsar a mente — Explicou em tom condescendente a Grande Mãe.

Tenho consciência do perigo, mas também, com todo respeito, Grande Mãe, acredito que o conhecimento dos fatos servirá de estímulo para permanecermos fortes nesta nossa jornada. Por favor, permita-me proceder assim.

Que assim seja. Mantenha-se sempre firme em seu propósito e ajude o menino. Ele precisará de todo apoio.

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