Seis anos depois
O desaparecimento de José causou mudanças profundas na família Galeano. Lúcia e as crianças sofreram com a falta de José, em todos os sentidos. Um ano após o ocorrido, foram morar com dona Carmem, pois Lúcia ficou doente. Não conseguia mais cumprir com seus compromissos profissionais. Amigos e conhecidos se afastaram. Parecia até que a família Galeano sofria de algum tipo de maldição. Naquele mesmo ano, como se não bastasse, dona Carmem faleceu, vítima de um problema do coração.
Inês e Kátia começaram a trabalhar. Aos vinte e dois anos, Inês conseguiu um emprego como secretária num pequeno escritório. Mas o salário mal dava para pagar as contas. Kátia, com dezessete anos, fazia bijuterias para vender na escola. E Nathan, aos dez, tentava manter viva a lembrança do pai, uma lembrança que mais parecia um sonho que aos poucos desbotava. Contudo, seus olhos castanho-escuros irradiavam a pureza de uma criança que mantinha a esperança de que um dia ele retornaria.
Inês, de vez em quando, cortava, ela própria os cabelinhos loiros do irmão. Não levava jeito para a coisa, de modo que a franjinha de Nathan ficava sempre mais comprida de um lado.
Diante do ocorrido, Nathan foi acolhido pela diretora da escola. Lá recebeu todo apoio necessário para superar as dificuldades que passava. Conquistou a atenção e o carinho dos professores, bem como dos colegas. Exceto dois meninos que não íam com a sua cara. Sabe como são essas coisas, nem todo mundo é compreensivo com que tem problemas. Quem está em desvantagem costuma ser alvo de todo tipo de mesquinharia.
Certa vez, durante o recreio, Nathan foi à quadra assistir a um jogo de futebol de salão. Na arquibancada havia um pacote amassado com um resto de salgadinho que alguém havia deixado. Ele olhou para um lado e para outro: ninguém à vista. Abriu a boca e jogou tudo para dentro. Cinco minutos depois, enquanto se divertia assistindo ao jogo, sentiu um peteleco ardido na orelha. Nathan se encolheu e olhou para cima sem entender o que se passava.
Dois meninos o encaravam. O maior, cujo apelido era Bolão, se dizia o dono do saco de salgadinho e não admitia que nenhum maluco roubasse suas coisas. Nathan tentou explicar o mal-entendido, mas mesmo assim levou a maior surra.
Apesar de todas essas desventuras, Nathan chegava à casa sorrindo e corria ao quarto da mãe para vê-la. Beijava-a na testa e dizia que a amava. Deitada, Lúcia só tinha forças para olhar seu rostinho. Apesar dos medicamentos, aquela doença da tristeza a dominava completamente.
Nathan passava a maior parte do tempo sozinho. O trauma da perda do pai não só reforçava a sensação de solidão como também provocava um afastamento entre os membros da família, vítimas de um vazio inexplicável. Deveria ser diferente, pois, situações trágicas como essa costumam unir as pessoas. No entanto, o comportamento diferente do menino, colaborou para criar uma barreira entre ele e as irmãs. Suas premonições eram interpretadas como um mal e, mesmo que não dissessem, as irmãs, lá no íntimo, pareciam culpá-lo pelo desaparecimento do pai. Nathan também percebia que certas conversas eram evitadas exatamente para não despertar a lembrança de José e, consequentemente, acordar o gigante da dor.
Nathan, agora um rapazinho, via-se envolto na nuvem que encobria boa parte de suas memórias. Mas o sonho de rever o pai permanecia como uma pequenina chama de esperança.
Brincava a maior parte do tempo sozinho, sempre dentro de casa, para ficar perto da mãe. Certa manhã, contudo, Nathan acordou em sobressalto, com a nítida impressão de ter ouvido o pai chegar. Correu pela casa com o coraçãozinho batendo a milhão e entrou no quarto de Lúcia. Ao pular na cama, fez estremecer seu corpo inerte, o que a deixou muito assustada. Ansioso, Nathan perguntou:
— Mamãe, papai está aqui?
Lúcia deu-lhe uma bronca e expulsou-o do quarto. O menino calou-se pelo resto do dia. Quieto, sentado no corredor de casa escurecido pela tristeza, viu sua mãe tentar sufocar a doença com um comprimido engolido às pressas seguido de um rápido gole d’água.
Mas como nada nessa vida é para sempre, a situação iria mudar. Algo diferente aconteceria na vida daquele menino. A verdade dos fatos surgiria de forma inusitada, mais estranha do que qualquer história já contada.





