O fenômeno
Noite estranha aquela. A escuridão do céu era cortada por raios de luz vindos da Lua cheia. Ventos fortes sopravam sem parar. Era tarde, por volta das vinte e três horas. Todos dormiam, com exceção de Nathan. Depois de rolar de um lado para outro na cama, encontrou uma posição menos incômoda: de barriga para cima. Finalmente relaxou. Nathan deixou a mente livre, sem qualquer pensamento ruim. Isso levou tempo, pois, muitas coisas lhe ocorriam. Lembranças do que tinha feito durante o dia voejavam na sua cabeça como moscas a tirar-lhe o sossego. De repente, percebeu algo estranho. Teve a impressão de que o quarto havia crescido, ampliado. Seu corpo ficou pesado, a ponto de afundar no colchão. Fechou os olhos de tanto medo.
O vento forte chacoalhava os galhos das árvores na rua e uivava misteriosamente. Nathan tentou erguer as mãos em direção aos ouvidos, mas deu-se conta de que não conseguia. Estava pesado demais para se mexer. O zunido misterioso do vento chegou ao seu ponto mais perturbador, até que interrompido por um forte estampido. O pânico tomou conta do garoto. Abriu os olhos e percebeu algo ainda mais estranho. Numa das paredes do quarto, surgiu uma claridade. Antes pálida, mas depois ficou cada vez mais forte. Após várias tentativas frustradas de saltar da cama, Nathan se perguntou: “Como pode?” A luz bem no meio da parede pulsava num ritmo suave, e de repente, ali formou-se um túnel.
Nathan continuava imóvel. Porém, passado algum tempo, pouco tempo, o medo foi substituído por uma deliciosa sensação de flutuar. Parecia até um sonho. Num instante, Nathan viu-se de pé, em meio ao quarto: “Será que adormeci e caminhei até aqui como um sonâmbulo?”, pensou, diante da insólita situação.
— MAMÃE, INÊS, KÁTIA! — Chamou-as, sem obter resposta. Flutuou em direção à porta do quarto. Trancada. Pensou haver algo de errado com a porta, então, pôs a mão na maçaneta para puxar com toda força. Foi aí que percebeu que sua mão brilhava. Era uma espécie de luz esbranquiçada. Pulsava no mesmo ritmo da luz do túnel. Nathan insistiu sair. Tomou distância no intuito de arrombar a porta. Contou até três e, sem dar-se conta, flutuou a toda velocidade. Mas ao chocar-se, a porta parecia feita de gelatina. A colisão lançou-o de volta ao mesmo lugar. Confuso e sem saber o que fazer, Nathan retornou à cama.
“E agora? O que farei?”. – Pensou
— Calma, menino — respondeu uma voz forte e grave.
— Quem disse isso? — Perguntou Nathan, assustado, a procura do intruso.
— Eu.
— Eu quem?
— Seu orientador.
— Meu quem?
— Seu orientador. Ora, por que não olha para a janela em vez de olhar para a parede?
Nathan voltou-se lentamente, morrendo de medo. Lá estava ele: um ser imenso quase que totalmente mergulhado na sombra da noite – menos a barriga −, a flutuar próximo à janela. Vestia uma túnica e tinha uma corda presa ao redor da ampla cintura. O capuz cobria-lhe a cabeça e, no lugar do rosto, só se via escuridão. O mais estranho era que suas mãos brilhavam, e seus pés, bem, não era possível vê-los, já que estavam cobertos pela túnica. Ele saiu do escuro e flutuou para perto do garoto.
— Agora consigo te ver, menos o rosto — disse Nathan, receoso.
— É melhor assim. Bem, como seu orientador, tenho muito que fazer. Pare com essa choradeira e vamos aproveitar a situação para eu possa ensiná-lo.
Enquanto falava, o Orientador apoiava as mãos brilhantes sobre a barriga, que balançava enquanto se movimentava:
— É uma alucinação?
— Não. Você foi escolhido.
— Escolhido? Por quem? Para fazer o quê?
O Orientador gargalhou tão alto, que fez sua barriga sacudir:
— Ora, ora. Acho que terei que perder algum “tempo” – e fez o sinal de aspas com os dois dedos brilhantes de cada mão – para explicar o que está havendo aqui.
— Acho bom. Estou curioso para saber. Por que não atravessei a porta? Que túnel é aquele ali na parede? E por que…
— Minha nossa, garoto! Chega, chega. Explicarei tudo a seu “tempo” — e mais uma vez fez o sinal de aspas com os dedos das mãos. – Aquele túnel ali é um portal. Por ali é possível acessarmos outros mundos.
O volumoso ser flutuou até o meio do quarto e pediu ao menino que se sentasse. Nathan aproximou-se da cadeira e, ao se sentar, o bumbum atravessou o assento. Nathan ficou numa posição bem desconfortável. O Orientador deixou escapar uma explosiva gargalhada e disse:
— Uma bela pegadinha. Todo mundo cai nessa… quando o portal se abre é assim mesmo… — e ria sem parar.
“Que sem graça”, pensou o garoto, com dificuldade de sair dali.
— Bem, poderia continuar? — Pediu o menino, a se arrumar na cadeira.
— Vamos lá, garoto. Preste bem atenção. Você foi temporariamente liberto do seu estado de ser vivente comum.
— Liberto? Ser vivente comum? O que é isso?
— Liberto significa: com a devida autorização, você ganhou o direito de acessar outros mundos.
— E quem autorizou?
— Não posso falar sobre isso agora. Tudo virá a seu tempo.
— Mas você não pode falar nem um pouquinho?
— De forma alguma. Esse é meu trabalho e eu o realizo com muito carinho e dedicação. Em caso de desobediência, eu seria afastado de imediato.
— E quanto a ser um vivente comum? O que significa isso?
— Todos nós somos seres viventes. Caso contrário, não estaríamos conversando aqui e agora. A diferença é que seres viventes comuns não têm muita imaginação. A mente é mais pesada que uma âncora de navio. Portanto, não têm consciência de outras formas de vida, como eu e a Luzinete, por exemplo.
— Luzinete? Quem é ela?
— Ah! ela está bem aqui… bem eu não… Luzinete, cadê você? — De repente, a túnica do Orientador, que tinha um enorme bolso na frente, igual a bolsa de um canguru, iluminou-se e começou a mexer de um lado para o outro.
— Vamos, Luzinete, deixe de ser envergonhada. Saia logo daí.
O bolso do Orientador sacudia tanto que até a barriga dele acompanhava o frenético movimento: — Isso faz cócegas; pare, Luzinete. — Depois de muito rir, ele acabou enfiando a mão no bolso e tirou a tal Luzinete de lá.
— Ora, não precisa ficar envergonhada. Saia e cumprimente nosso amiguinho.
O Orientador retirou a mão do bolso bem devagar e aproximou-a de Nathan para que ele pudesse vê-la melhor. Bem devagar, abriu-a. Na palma da mão estava a coisa mais esquisitinha do universo. Parecia um ovo branquinho que mudava de cor. De branco ficou rosa avermelhado.
— Veja só! Ela é tímida — disse o Orientador com todo o cuidado para não a magoar.
Luzinete brilhava como uma lâmpada. Tinha um pequenino tufo de cabelo que se dividia ao meio, uma parte para cada lado, dois enormes olhos, muito expressivos e, para surpresa de Nathan, um pequenino par de asas.
Ela bateu as asinhas e flutou bem à sua frente. Encantado com aquele pequenino ser, Nathan esticou sua mão e Luzinete, bem devagarinho, pousou sobre ela.
— Gostou de você — disse o Orientador, satisfeito com o resultado da apresentação. — Luzinete será sua companheira de viagens e uma ótima conselheira.
— Mas ela não fala! — Nathan notou a ausência de boca em Luzinete.
— Falar? Para que falar? Ela usa as cores para se comunicar. Quando está com raiva, fica vermelha. Envergonhada fica rosa… — Luzinete acompanhava a explicação enquanto mudava as cores para mostrar como era. — Agora, como você fica quando está… feliz? — Ela começou a variar suas cores, azul, verde, amarelo, violeta. — Viu como é?
Maravilhado Nathan fez que sim com a cabeça. Luzinete bateu novamente as asinhas e pousou no ombro esquerdo de Nathan. Ainda curioso e sem tirar os olhos dela, o menino perguntou:
— Que faz um liberto?
— Libertos, como você, fazem a diferença no mundo onde vivem. Ser liberto é poder viajar para outros lugares para reciclar o conhecimento, aprender coisas novas para depois ensinar as pessoas. Todas as grandes mudanças, evoluções e transformações, só são possíveis graças às estas viagens que os libertos fazem. Se bem que eles nem sempre são compreendidos. Alguns foram até chamados de loucos, mas se não fosse pela coragem, o mundo não teria evoluído tanto. A libertação acontece desde que o ser humano surgiu no planeta.
— Mas por que eu?
— Você é possuidor de uma enorme capacidade de transformação. Mas antes de conhecer esse poder que lhe foi dado, você precisa iniciar um treinamento. Aprender a viajar será seu primeiro passo.
— Para onde vamos? Não posso deixar minha mãe sozinha? E se eu não quiser?
— Você não perderia essa oportunidade. Confie em mim, garoto. Não estamos aqui para lhe fazer mal. Como vê, o portal foi aberto. Entraremos agora numa dimensão intermediária. Nessa condição, o mundo deixa de ter fronteiras. Podemos ir para onde quisermos na “velocidade do pensamento”. — E mais uma vez, ele fez o sinal de aspas com as mãos. — Você também tem a chance de desistir. Nesse caso, suas lembranças serão apagadas. Mas leve em conta que nossos mundos precisam de você.
Luzinete ficou branca, e a intensidade de seu brilho diminuiu até ficar totalmente opaco. Seus olhinhos também murcharam. Sinal de decepção.
— Garoto, responda: Continua ou desisti? Pense bem, é uma experiência única.
Nathan ficou quieto e baixou a cabeça. Luzinete começou a vibrar intensamente de tanta ansiedade. O Orientador curvou-se para olhar o garoto mais de perto. Havia expectativa no ar. O menino ergueu os olhos vagarosamente e respondeu:
— Quero continuar. − O Orientador e Luzinete explodiram de alegria. − Posso perguntar mais uma coisa?
— Claro, garoto! Vá em frente. É para isso que estou aqui.
— Por que toda vez que você fala em tempo, você faz assim com as mãos? — E Nathan repetiu o gesto de aspas com as duas mãos. O Observador se surpreendeu com a observação. — Você é esperto. Ainda bem que perguntou. Faço isso, pois, simplesmente o tempo não existe. Quando me refiro a ele é sempre no sentido figurado, só para servir de referência até você se acostumar com a nova ideia. Veja: se quisermos ir para algum lugar, basta pensar nele e estaremos lá.
— E como faço isso? —Nathan, curioso como ele só, começava a entrar em ebulição.
— A melhor forma de viajar é sentindo. – Uma resposta esquisita como essa o fez abafar todo o entusiasmo.
— Como assim?
— Por exemplo, quando imaginamos um limão, a boca se enche de saliva imediatamente. Isso quer dizer que o pensamento se transformou em ação. Da mesma forma, o pensamento pode nos transportar a qualquer lugar. Mas isso somente é possível na presença do portal.
— Parece difícil! — Respondeu Nathan —, mas eu gostaria de tentar.
— Faremos isso — disse o Orientador, a assumir uma postura de professor. Ele colocou as mãos luminosas sobre a barriga e disse: — Fique diante do portal. Agora pense que você está lá fora, na rua. — Nathan se concentrou, apertou os olhos, fez um esforço enorme. Parou de fazer força e abriu só um pouquinho os olhos:
— Ué! Não aconteceu nada. Ainda estou aqui.
— Claro que está — completou o Orientador, enquanto flutuava de cá para lá com as mãos cruzadas atrás das costas. — Você fez força, mas o transporte por pensamento não é uma questão de força, mas de sensação.
— Não entendi. Sentir o quê? Não seria mais fácil entrar no portal?
— Sem o pensamento dirigido o portal de nada serve. Sinta como se você já estivesse lá fora. Sinta seus pés tocando a calçada. Sinta o vento no rosto. Sinta o cheiro da rua. Vamos lá, tente outra vez.
Nathan fechou novamente os olhos e se concentrou. Luzinete começou a vibrar outra vez de ansiedade. Seus olhinhos arregalaram. “A rua, estou na rua, estou na rua…”, pensou Nathan repetidamente. Então, aos poucos, abriu os olhos, mas ainda flutuava bem no meio do quarto.
— Ainda estou aqui. Viu? Acho que não sirvo pra isso.
Mal acabava de falar, o Orientador materializou um limão descascado e enfiou-o inteiro na boca de Nathan. O menino arrepiou-se da cabeça aos pés:
— Eca! Que azedo! Por que você fez isso? — Perguntou depois de cuspir o limão.
— Isso é para lembrar-se do ingrediente que está faltando.
— Um limão?
— Não. Sentir. Querer viajar por aí sem sentir não dá certo.
— Mas você disse para eu imaginar a rua, o vento, o cheiro. Foi o que fiz — retrucou Nathan.
— Você não sentiu, só pensou. Imaginar é diferente. É como um mapa que indica para onde queremos ir. Não é o mesmo que sentir. A sensação é o ingrediente que você precisa para fazer tudo acontecer. Tente outra vez.
Nathan mais uma vez se preparou. Tomou posição, fechou os olhos, concentrou e iniciou o exercício de imaginar a rua. O Orientador acompanhava de perto:
— Vamos garoto, sinta-se lá. Sinta a brisa, o cheiro, ouça o movimento dos carros, das pessoas. — Nathan imediatamente começou a emanar uma luz dourada. Eram finos raios que saíam para todas as direções. Luzinete espantou-se, arregalou os olhos ao ver que a luz ficava mais forte. Algo diferente aconteceu.





