Um mergulho em direção ao assoalho do mundo

Diante de Nathan, formou-se uma neblina, levemente transparente. Pulsava de um jeito muito rápido. O Orientador, sorridente e orgulhoso, exclamou:

Isso mesmo! Agora flutue, flutue para frente, em direção ao portal. — Nathan obedeceu até que, ainda com os olhos fechados, recebeu um suave toque na bochecha direita. Viu que era Luzinete ao seu lado, acesa, como uma forte lâmpada. Para surpresa do menino, ele estava na rua. Finalmente havia conseguido se transportar.

O que é isso? Que da hora! Não foi tão difícil assim.

Satisfeito com o resultado de seu ensinamento, o orientador comentou:

Eu lhe disse, meu rapaz. Ser liberto torna as coisas mais fáceis. Algumas, é claro. — E pigarreou. Nathan, sensível como ele só, suspeitou de alguma coisa, mas em vez de perder tempo para saber o que poderia ser, preferiu explorar mais um pouco sua nova habilidade:

Para onde vamos agora? — Perguntou o menino cheio de euforia.

Para onde você quiser. Teste sua curiosidade. O que gostaria de conhecer?

Bem… eu… uma vez ouvi minha professora falar que, quando as baleias fazem mergulhos profundos, ninguém sabe para onde elas vão. Eu gostaria de descobrir o lugar onde ficam quando mergulham assim tão fundo.

Fácil — respondeu o Orientador, a se preparar para mais uma viagem. — Vamos lá, garoto. Sinta-se no oceano. Imagine e sinta-se no sobe e desce do mar, boiando para cima e para baixo.

Nathan, ansioso, fechou os olhos. Sua luz aumentou de intensidade.

Depois da primeira, as outras viagens ficam mais fáceis — observou o Orientador, orgulhoso do aproveitamento de seu aluno. Luzinete fechou os olhinhos e bateu as asas rapidamente. A cortina de neblina formou-se diante do garoto. Uma flutuada para dentro do portal e todos já estavam no oceano a flutuarem bem acima das ondas.

Uau! — Exclamou Nathan, espantado com seu feito. — Chegamos.

Vamos lá, meu garoto. Mergulhe.

Nathan posicionou-se de cabeça para baixo e mergulhou na água escura. Luzinete fechou as asas e caiu como uma pedrinha. Era plena madrugada, de acordo com o tempo do mundo comum. O oceano era uma escuridão só. Nathan, Luzinete e as mãos do Orientador eram os únicos focos de luz. Era difícil enxergar embaixo d’água. E como se não bastasse, pequenos peixes eram atraídos pela luminosidade dos intrusos.

Olha! Os peixinhos se aproximam! — Exclamou Nathan curioso e ao mesmo tempo surpreso.

Luzinete se divertia com os pequeninos animais. Nadava e nadava, toda feliz. Às vezes ficava irritada com eles, pois, insistiam em mordiscar seus cabelos. Para espantá-los, girava rapidamente, estapeando-os com as asinhas.

Enquanto observava Luzinete, Nathan foi tomado de certo desconforto. Aquele incômodo tornou-se agonia a ponto de agarrar a própria garganta como se sentisse uma necessidade desesperada de respirar. O Orientador, sem entender o que era aquilo, aproximou-se do garoto e perguntou:

Sente-se mal, meu rapaz?

Nathan com os olhos esbugalhados apontou para o próprio nariz e fez sinal de “não”.

Acho que não entendi… — disse o Orientador em dúvida

O menino repetiu o gesto e mesmo assim a cara de dúvida do Orientador permanecia:

O que será? — Perguntou-se calmamente, coçando a barriga e a declinar a cabeça em busca de inspiração. Finalmente Luzinete colocou-se diante do rosto do Orientador, a mudar várias vezes de cor para comunicar algo.

Ah, sim, é verdade! Ele está se afogando. − Concluiu.

Tranquilamente o Orientador flutuou para trás do menino e deu-lhe um tapão nas costas. Depois soltou uma grande gargalhada e disse:

Vamos lá, menino. Deixe disso. Aqui na dimensão intermediária não precisamos respirar. O que você sente é apenas uma simulação do que sentiria se estivesse nas suas condições normais. Um ser vivente comum não sobreviveria imerso em água e sem oxigênio. Mas você não está na condição de vivente comum. Vamos, relaxe e acalme-se. Passará em um, dois, três segundos. — Quando prestes a fazer o sinal de aspas com as mãos, Nathan interrompeu:

Já sei, não precisa fazer assim com as mãos. Já estou bem.

A mente nos prega peças. Dificuldades parecem reais quando não temos certeza das coisas.

No oceano escuro, animais brilhantes, como lulas e águas-vivas, davam um espetáculo à parte. As lulas aglomeravam-se em torno de Nathan. Quando perceberam que não eram pescadores, formaram um turbilhão de luz como espetáculo de boas-vindas. O menino ficou maravilhado. Já para Luzinete, eram só motivo de irritação. Algumas lulas cismavam com ela e tentavam encostar seus tentáculos curiosos em suas asinhas. Vermelha de raiva, brilhava, girava e fugia dos animais. Por fim, resolveu refugiar-se atrás de Nathan.

Está bem, Luzinete. Vou protegê-la. Fique pertinho de mim.

Nathan olhou ao redor, à procura do Orientador, que havia simplesmente desaparecido, bem como as lulas, sem deixarem rastros. “Estranho” − pensou o garoto. O silêncio profundo voltara. Luzinete aninhou-se em Nathan que, a essa altura, começava a ficar preocupado.

Luzinete flutuou à frente do rosto do garoto e brilhou as cores amarela e vermelha. Esta brilhava mais no topo da cabeça. Aquele pequenino ser em formato de ovo girou rapidamente e as luzes se alternavam, algo parecido com uma ambulância. Nathan entendeu que algo perigoso poderia acontecer. Flutuando bem no meio do oceano, em total escuridão, Nathan não sabia mais o que fazer, nem para onde ir.

De repente, um som semelhante ao de um avião a jato ecoou. Em seguida uma forte vibração. Depois, um som agudo e longo soou como um grito. Nathan, sem enxergar absolutamente nada, virou-se de um lado para outro, tentando descobrir o que era. Apesar de pequena e frágil, Luzinete colocou-se à sua frente para protegê-lo. Lá adiante, ambos perceberam dois minúsculos pontos brilhantes que balançavam de um lado para o outro. Pareciam distantes.

O que será aquilo?”, pensou Nathan, apavorado. O som e o tremor aumentaram. Mais um grito prolongado, agora mais intenso. Luzinete continuava a brilhar as cores de alerta e tremia, outro sinal de grande perigo.

As duas pequeninas luzes se aproximavam. De repente, algo como um enorme trem passou bem perto de Nathan e se afastou. Era algo imenso. Nova aproximação, com a diferença de que desta vez, seja lá o que fosse, vinha direto para cima dos dois. Nathan apavorado gritou: — É UM MONSTRO! VAMOS SAIR DAQUI!

Luzinete enfiou-se debaixo da blusa de Nathan e continuou a vibrar.

ELE ESTÁ VOLTANDO… — Em meio aos berros e luzes de alerta tentaram fugir sem saber para onde.

Subitamente, a coisa gigante parou. Ouviu-se então uma voz familiar:

Ei, garoto. Vai subir aqui ou vai continuar com essa gritaria?

Nathan ergueu a cabeça e lá estava ele, o Orientador, que brilhava como uma lanterna, sentado na nadadeira esquerda de uma enorme baleia.

Venha! Não queria saber para onde vão as baleias durante os longos mergulhos? Subamos em seu dorso, então. É mais confortável.

Nathan segurou na mão luminosa do Orientador que o puxou para as costas do animal. Ajeitou-se, e a baleia saudou com um delicado canto.

Pode sair. Está tudo bem agora. – Disse Nathan. Luzinete saiu debaixo da camisa do menino, tingida de rosa avermelhada, ao mesmo tempo em que tentava disfarçar a vergonha que sentia.

Tive de ir buscar nossa amiga aqui. Tivemos sorte, pois a encontrei justamente quando suas companheiras planejavam ir a um lugar especial. Está pronto?

Nathan fez que sim com a cabeça e deu um largo sorriso.

Bem, então, podemos ir, Judite. — Esse era o nome da baleia, que o Orientador conhecia há muitos anos.

Judite se deslocou suavemente rumo à imensidão escura. Mergulharam e mergulharam cada vez mais fundo. Nathan e Luzinete permaneceram calados e atentos, porém, seguros, já que podiam contar com a proteção do Orientador. Judite movimentava seus grandes músculos com toda a força. A escuridão era tanta, que não dava para enxergar um palmo diante do nariz, ao contrário do Orientador, que via tudo.

À medida que submergiam, a temperatura diminuía.

Está frio. Quem poderia viver aqui? — Indagou Nathan.

O oceano é cheio de vida, mesmo nas zonas mais profundas.

Se você quisesse enxergar, estaria apreciando a viagem — o Orientador finalizou a frase com uma leve cotovelada no braço do menino, na tentativa de lembrá-lo do ensinamento.

Enxergar? Claro que gostaria de enxergar. Mas, aqui embaixo é escuro. Não dá para ver nada — disse Nathan, um tanto incomodado.

Nossa palavra-chave é sentir. Lembra? Sinta e conseguirá ver.

Nathan fechou os olhos e prestou atenção na temperatura da água, no movimento de Judite, nas oscilações das correntes submarinas. De repente, notou uma claridade. A primeira coisa que viu foram as próprias mãos, depois o cinza-azulado com manchas claras do dorso imenso de Judite. Eufórico, Nathan olhou para o seu lado direito e viu uma paisagem vista por pouquíssimos seres humanos.

Já não era sem tempo. Esta é a sua nova habilidade: visão em total escuridão — comentou o Orientador tranquilamente.

Nathan viu peixes de diferentes espécies, algas, rochas, tudo contornado por uma luz tênue, que variava do azul ao amarelo ouro, algo que se tornava ainda mais fabuloso à medida que a visão clareava. Um ambiente maravilhoso descortinava-se à sua frente: a zona abissal. Um momento mágico e em meio a tanta emoção, detalhes daquele ambiente que se revelavam numa explosão de cores luminosas.

Estou mesmo aqui?”, perguntou-se o menino, que não encontrava as palavras certas para se expressar.

À medida que Judite nadava em direção ao objetivo que só ela e o Orientador conheciam, o ambiente tornava-se ainda mais interessante. Finalmente, atingiram o assoalho do mundo. Apenas uma esponja marinha quebrava a paz e a quietude com sua dança solitária conforme a corrente marítima a tocava.

Bem à frente, uma constante chuva de flocos brancos como neve caía vinda da superfície. Eram pequenos restos de carcaças de animais mortos, que se transformariam em fonte de alimento para os habitantes das profundezas.

Sobre a areia do fundo, repousavam esqueletos de animais gigantescos, alguns ainda desconhecidos, que se erguiam como verdadeiras catedrais brancas. Judite prosseguia ao longo da plataforma, quando, logo abaixo, surgiu uma enorme fossa oceânica. Um lugar mais profundo, onde as placas continentais se encontram. Uma cúpula transparente e iluminada se destacava em meio a profundeza abissal. Nathan ficou maravilhado. Era como estar em outro planeta. Judite se aproximava cada vez mais da cúpula. Lá adiante, outras baleias-azuis se alinharam em torno dela. Uma parede transparente separava o oceano de seu interior, que estranhamente parecia seco. Uma bolha gigante de ar, bem no meio da imensidão escura e gelada. Judite ficou agitada:

Acho que ela precisa respirar — disse Nathan: — Se ela não subir depressa, vai sufocar.

Claro que não, meu garoto — rebateu o Orientador. — Preste atenção no que ela fará agora.

Judite se aproximou da bolha e, cuidadosamente, forçou a cabeça contra a parede transparente, atravessando-a. Boa parte do seu enorme corpo entrou na cúpula. Como estavam de carona na parte da frente do dorso dela, eles também acabaram entrando.

Vamos lá, pessoal. Desceremos aqui para um pequeno passeio — Disse o Orientador, animado e orgulhoso por proporcionar aquele conhecimento ao menino.

Olhem! — Exclamou Nathan. — Então é assim que elas respiram.

Baleias, em mergulho profundo, permanecem mais tempo embaixo d´água graças a essa cúpula que se forma naturalmente. São bolhas produzidas por gases desprendidos do interior do planeta. A pressão da água se opõe à pressão vinda das entranhas da Terra e não deixa a parede da bolha se romper. Dentro dela, gases venenosos são convertidos em oxigênio respirável graças à ação de certos tipos de plâncton, algas e bactérias — explicou o Orientador.

Nathan caminhou um pouco mais e logo adiante deparou com algo inesperado.

UM LAGO! BEM AQUI EMBAIXO DO OCEANO! — gritou ele, eufórico.

Você ainda não viu nada — Respondeu o Orientador deitado sobre um tapete de musgos.

Através da parede transparente, era possível ver baleias-azuis gigantescas surgindo da escuridão das profundezas, vindas de toda parte.

Parece que estamos num grande aquário — disse Nathan, boquiaberto.

Enquanto isso, Luzinete brincava, voava e fazia cócegas no menino. Ambos foram para o lago e lá mergulharam. O ambiente era bem iluminado, em tom amarelado, semelhante ao do pôr do sol. A luz era produzida pela incandescência do magma, que fluía como um rio de uma extremidade a outra da cúpula. O lago, curiosamente denso, de tom azul-escuro, não se deixava penetrar por nenhum feixe de luz. Nathan se divertia atravessando-o de ponta a ponta e arreliando Luzinete.

Depois de muita brincadeira, o Orientador chamou:

Bem, pessoal, precisamos partir. Judite deve retornar e o senhor Nathan, também.

Ah, que chatice! Justo agora que estava tão divertido! — Reclamou. Luzinete aliou-se ao garoto fazendo olhinhos caídos e batendo as asinhas murchas bem devagar.

Com sua enorme cabeça, Judite penetrou novamente na cúpula, mantendo como de costume o resto de seu corpo gigantesco do lado de fora. Deu uma longa inspirada, e o ar fresco supriu seus enormes pulmões para a jornada de volta.

A viagem de volta à superfície foi agradável, mas Nathan, ainda contrariado, não fazia questão de retornar ao seu mundo. Luzinete sentiu angústia no coração do menino e delicadamente aconchegou-se a ele para consolá-lo.

Ora, garoto, não fique assim. Esta é a primeira das várias viagens que faremos. − Ressaltou o Orientador que, nem terminara frase, foi logo abraçado pelo menino. Cheio de ternura, o grande ser disse:

Vamos nos ver dentro de três dias, está bem?

Promete?

Prometo. Como já disse, você é especial, e nossos mundos precisam da sua ajuda.

Orientador, quem me escolheu?

Não posso revelar agora. Saberá quando o treinamento for concluído.

E quando será?

Em breve, se tudo der certo. Adianto duas coisas. Primeiro, ser escolhido por ela é a coisa mais importante. Segundo ela também deseja que o seu treinamento dê certo.

Alguma vez não deu? — Perguntou Nathan, meio receoso.

Poucos são os escolhidos. É muita responsabilidade, e nem todo mundo quer se comprometer com uma missão dessa natureza. Sabe, garoto: existem forças no universo que as pessoas desconhecem. Meninos como você são abençoados, mas sofrem demais sem o devido preparo. Você é o elo que falta para que tudo se transforme.

Apesar de prestar muita atenção na explicação, Nathan não entendeu muito bem, no entanto, estava disposto a continuar.

Lembre-se, menino: seja forte. Não deixe a escuridão da tristeza apagar sua luz.

Subitamente, num piscar de olhos, Nathan estava no seu quarto. Já amanhecia. Sentiu-se tão animado como nunca. Pulou da cama e vestiu-se rapidamente para ir à escola. Antes de sair, passou pelo quarto da mãe e resolveu entrar. Como sempre, pulou na cama e beijou-lhe a testa:

Mamãe, te amo. Quero que você fique boa logo.

Lúcia, com o olhar distante, apenas murmurou palavras incompreensíveis.

Suas irmãs já haviam saído. Nathan pegou um pedaço de pão na mesa, colocou-o na mochila e correu para não se atrasar.

Acho que vou contar o que aconteceu para a Inês e a Kátia” — Pensou. Aquele dia foi especial. Com as lembranças ainda vivas, Nathan não conseguia esquecer aquela fantástica experiência e mal via a hora de reencontrar o Orientador e Luzinete.

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