Eneida se perde na mata
A velha desapareceu. Certo tempo se passou quando os primeiros raios da manhã ressurgiram. Eneida, ainda entorpecida, se viu caída no meio de um terreno circular, próximo a uma estrutura abobadada feita de pedra. O chão estava coberto por limo. Eneida esforçou-se para levantar. Sentia-se estranha. Tentou caminhar, mas teve de se apoiar para não cair. Assim que conseguiu reaver o equilíbrio, ouviu o canto da ave misteriosa. Desta vez, fora tão estridente que a fez estremecer. De repente, a velha ressurgiu e disse:
– Vá agora. Tome conta de sua menina senão eu mesma o farei. E falo sério.
Eneida, sem forças para redarguir, baixou a cabeça e partiu.
– Ah, mais uma coisa – Eneida parou para ouvir. – Seu convite para o chá foi aceito. Um dia desses lhe farei uma visita. − Eneida prosseguiu sem dizer nada, circunspecta, de cenho fechado.
Aquela parte do dia fora diferente no cerrado. Como se não bastasse ter passado por tudo aquilo, enquanto caminhava, de maneira oscilante, começou a garoar. O cheiro de terra molhada logo evolou. Em seguida veio a chuva fraca. Os pingos batiam nas folhas produzindo um som lamurioso, monótono. A cabeça de Eneida doía, sem falar na vertigem acompanhada de uma febrícula. O cansaço era demasiado. Estranhou não reconhecer aquele ponto da trilha. Não sabia mais o caminho de volta. Andava, andava e seus pés iam se afundando nas poças de lama. Tropeçava por entre os galhos caídos e raízes expostas. Seus pés estavam feridos. O sofrimento foi tanto, que ajoelhou e rompeu em choro sentido. Uma única coisa veio-lhe à mente: Dominica. Eneida teve um momento de consciência. Pela primeira vez questionou-se como mãe. E também sobre coisas que havia deixado de fazer com a filha por causa da depressão. Isso a fez pensar no tempo que perdera. Sentiu-se impotente, sem rumo.
A tristeza converteu-se em espanto, quando, bem ao seu lado surgiu um lobo guará. Pelos avermelhados e luvas negras típicas, andava vagarosamente de um lado para outro, sem tirar os olhos de Eneida. Não era ameaçador. Aproximou-se mais um pouco, contudo, sempre guardando uma discreta distância.
Ele fez um sinal com a cabeça de um lado para outro como se pedisse a Eneida para segui-lo. Bastante desconfiada, Eneida deu dois passos na direção do lobo. Ele caminhou exatamente na direção que havia indicado, tal qual um cão bem treinado. Eneida decidiu segui-lo. Caminharam juntos por alguns minutos até alcançarem a trilha conhecida. De onde estava e para seu alívio, já era possível avistar a casa. Ao virar-se para agradecer, o animal já havia desaparecido.
Desconcertada, Eneida prosseguiu. Ao chegar, percebeu que a casa estava bastante movimentada. Funcionários da construção, Dedé, Dominica e seu João estavam preocupados com a ausência de Eneida. Todos imaginavam o pior. Não saberiam o que dizer ao doutor Maximiliano caso chegasse naquela hora. Foi Dominica a primeira a avistar a mãe.
– Olhem, ela voltou! É ela! – Gritou a menina que correu em disparada para abraçá-la.
– Ah, graças a Deus! Ela voltou. – Disse Dedé em tom de alívio e preocupação.
– Que sorte! Ela não parece bem não. – Observou seu João. – Oh, Francisco – ordenou João – vai buscar a enfermeira. Dona Eneida precisa de ajuda. Vai logo que o patrão já vai chegar. Ele não pode ver a esposa assim.
O rapaz subiu no cavalo e partiu em disparada em busca de ajuda. Enquanto isso, Eneida caminhou com dificuldade até Dedé que, com um olhar penoso, abraçou-a. Cuidadosamente conduziu-a ao quarto. Dedé pediu à menina que fosse para sala. Eneida deitou-se na cama e Dedé não conseguiu conter a pergunta:
– Foi a escura yamí novamente, não foi?
Eneida baixou os olhos, preferiu calar-se e virou-se de lado. Então, Dedé disse:
– Tudo bem. Quem sabe quando estiver mais descansada. – Antes de deixar o quarto, Dedé lembrou-se de dar um recado: – Ah, sim, o doutor Maximiliano chegará dentro de duas horas. Espero que até lá a senhora já tenha se recuperado.
Eneida apenas fechou os olhos, deu um longo e profundo suspiro e adormeceu. Não demorou muito para que sua mente fosse preenchida por sonhos. Imagens de pessoas estranhas, a igreja, o padre e a velha, surgiam intermitentemente. Aquele incômodo onírico transmutou-se em pesadelo de perseguição. Eneida se viu perseguida por alguém que tentava lhe tirar a vida. Corria, corria e não importava a trilha que seguisse, um homem sem rosto a caçava como um animal. Por mais que tentasse era impossível escapar. Eneida despertou encharcada de suor e ofegante. Lembrou-se de imediato da escolha que fizera: Permanecer junto ao marido. Nada mais importava. Esta seria sua missão na vida.
Por sorte o avião acabou se atrasando. Isso deu tempo suficiente para Eneida se arrumar. Enfim, com cerca de duas horas de atraso, a aeronave aterrissou. Ao chegar em casa, Maximiliano se deteve diante do quadro que estava alguns milímetros fora do lugar. Arrumou para, em seguida, questionar Dedé quanto à ausência de Eneida na pista de pouso. Seria sua obrigação esperá-lo no local. Mesmo antes da desculpa ser dada pela governanta, Maximiliano voltou a atenção para alguns funcionários e mais dois engenheiros.
– Eles me aguardam. Tenho de ir agora ao canteiro de obras.
– Mas a senhora Eneida… o senhor não vai…
– Não tenho tempo para ela agora. Diga que a verei mais tarde.
Os engenheiros o cercaram para relatar sobre como as coisas estavam tensas na obra. E lá se foram. Durante o percurso, o atualizaram sobre os misteriosos acidentes, e que os investigadores estavam empenhados a fazer o levantamento das evidências. Por isso, a obra não poderia prosseguir. A irritação de Maximiliano transbordava pelos olhos.
Na administração, uma equipe técnica aguardava Maximiliano em sua própria sala. Sem nenhum tipo de saudação ou qualquer protocolo de boas maneiras, foi logo dizendo:
– Vocês sabem quanto custa um dia de projeto parado? – Lançou a pergunta, louco para metralhar a resposta sobre aquele que ousasse retrucar. Todos foram precavidos e mantiveram-se calados. Ninguém ousaria questionar. Ele mesmo respondeu – Pois é: milhões. E só por causa de peões mortos por animais. Ora, por favor, isso é ridículo! Só aconteceu por mero descuido.
– Doutor, – interrompeu um dos gerentes de obra – é que as mortes ocorreram em circunstâncias estranhas. Pelo que os investigadores apuraram, animais não fariam aquilo. Realmente os corpos apresentavam marcas de violência. Os olhos foram sugados para fora das órbitas. Total ausência de sangue.
– Isso é besteira! – Disse Maximiliano – Até parece estória de chupa-cabra. Não me venha com essa. Liguem para o governador. Quero essa obra em plena atividade. – Voltou-se para a secretária e pediu que entrasse em contato com Antunes. As ordens foram claras: entrar em contato com o governador e pedir sua intervenção no processo investigativo. – E isso é urgente. – Reafirmou cheio de autoridade.
Deixou a sala. Todos os participantes da reunião (cerca de doze) entraram em polvorosa. Tinham de encontrar uma solução urgente para aquela situação. Maximiliano deixou a equipe queimando o cérebro e chamou João. Pediu, então, que o levasse de volta para casa.
Já a caminho, mudou de assunto e perguntou:
– Você retirou aquela caixa do avião?
– Sim, senhor, eu mesmo fiz isso. Está no bagageiro. O senhor quer que eu descarregue no porão?
– O mais rápido possível. Junte às outras.
De volta à casa, Maximiliano caminhou pela sala de um lado para o outro, com a mente imersa em problemas a serem urgentemente resolvidos. Serviu-se de suco que Dedé costumava deixar pronto sobre a mesa, e sentou-se no sofá. De onde estava podia contemplar o cerrado através de uma ampla janela. Foi quando Eneida apareceu. Ele olhou de um jeito duro.
– Enfim, você chegou. Fiquei preocupada.
– Gostou da casa?
– Só podia ser. O projeto é meu. Ficou perfeita.
– Com tanta perfeição, por que construiu um dos quartos sem janela?
– Erro de projeto.
– Você admitindo que errou? Que mudança! Dedé teve de se instalar nele. Seus aposentos não ficaram prontos ainda.
– (…)
– Parece preocupado.
– Como sempre. Preocupações a parte, existe algo de diferente em você. – Reparou Maximiliano.
– Depois de alguns dias sem nos ver, é natural que ache isso. Pensei que iria dizer que estava com saudades.
– Seus olhos… estão diferentes.
– São os mesmos desde que me mandou para esse fim de mundo.
– Achei que seríamos felizes aqui.
– Não precisaríamos mudar para cá.
– Eu sei, mas é importante que eu esteja aqui. Viu o que aconteceu? A obra simplesmente parou. Espero dar um jeito nisso.
– Espero que seja só isso.
– O que quer dizer com “só isso”? O problema é gigantesco. É quase impossível pensar em qualquer outra coisa.
– Você poderia pensar em me dar uma demonstração de carinho.
– O que deu em você, afinal? Nunca falou assim comigo.
– Nunca? Isso não é verdade.
– Não que me lembre.
– É bom sim lembrar-se de que eu sou sua mulher e sinto sua falta.
Eneida caminhou até a jarra de suco e também se serviu. Maximiliano seguiu-a com os olhos. Ela, então, voltou-se para ele com o copo na mão, aproximou-se para sentar ao seu lado, e quando estava prestes a lhe dizer algo, o clima foi quebrado com a entrada de Dedé e Dominica. A menina não se mostrou nem um pouco empolgada ao ver o pai. Ao contrário, baixou a cabeça e assim ficou.
– Filha, venha dar um beijo no papai. – Disse Eneida.
A menina, com evidente relutância, aproximou-se. Inclinou para que ele a beijasse, mas ele apenas deslizou a mão sobre os cabelos dela. Dominica parecia uma estátua, rígida, sem se entregar. Assim que o pai terminou de acariciá-la, ela recuou. Dedé estranhou tal atitude e segurou a menina pelo braço.
– Desculpe, doutor, vou levá-la para o quarto. Já é hora de dormir. Ela está cansada. Vou aproveitar para ler uma estória.
Maximiliano meneou e bebericou o suco sem se importar.
– Sabia que existe um vilarejo a dois quilômetros daqui? – Indagou Eneida.
– Vilarejo? Pelo que sabemos não existe nada num raio de vários quilômetros. Um vilarejo? Era só o que faltava!
– Estive lá algumas vezes. Conversei com o padre da paróquia local. Ele realiza missas quase todas as noites. A igreja fica lotada.
– Não pode ser. Ou você está louca ou estou cercado de incompetentes. Impossível!
– Posso te levar lá se quiser.
– Ninguém me disse absolutamente nada sobre isso. Vai ser outro problema.
– Problema? Por quê?
– Você sabe como é esse tipo de gente. Eles vão reivindicar a posse da terra, vão falar que estamos destruindo a natureza e aquele monte de blá, blá, blá.
– Não parecem muito preocupados. − Disse Eneida aconchegando-se a Maximiliano.
– Vai ver que ainda não se deram conta de como vamos transformar esse lugar. Ao invés de se vestirem como bicho vão ter que usar gravata. Acho bom que não se preocupem mesmo. − Concluiu Maximiliano ao fitar profundamente os olhos de Eneida. – Existe mesmo algo de estranho em seu olhar. Tenho a impressão de que está dentro da minha mente. – Eneida corou ao tomar aquelas palavras como uma forma de galanteio. Ele aproximou seu rosto do dela, ficou tão próximo que podia perceber sua respiração. Seus lábios tocaram suavemente os dela, mas rapidamente ele se afastou:
– Bem, preciso fazer algumas coisas importantes. Vou ligar para Antunes e ver como vai o processo.
Sem dizer mais nada, Maximiliano levantou-se, largou o copo de suco sobre a mesa e retirou -se para o escritório. Eneida ficou ali parada, vazia, sem entender o que havia acontecido. O súbito desprezo do marido a deixou confusa. Dedé desceu as escadas e ao passar pela sala estranhou Eneida ali parada, olhando para o nada.
– Dona Eneida, precisa de alguma coisa?
– Gostaria de uma coisa sim. Gostaria que ele me amasse mais. Não sei por que sou repelida dessa forma. Há muito tempo não sei o que é ser desejada. Como poderia reconquistá-lo?
– A senhora nunca se expressou assim, dona Eneida. Talvez se…
– Estou atrapalhada demais para pensar agora. A única coisa que desejo é tê-lo de volta. Você já teve um amor na vida, Dedé?
– Já.
– Nunca me disse nada a respeito. Vocês terminaram?
– Ele morreu.
– Que pena! Veja o lado bom; você é livre.
– Livre? Sempre imaginei ter um relacionamento duradouro.
Tais palavras levaram Eneida a cair em profunda reflexão. Dedé segurou a mão de Eneida na tentativa de confortá-la, o que, todavia, pareceu-lhe em vão. Eneida puxou a mão de volta:
– Parece que a vontade própria a abandonou. – Disse Dedé. – Esse é o efeito de algum feitiço. Não sei o que fazer. – Então colocou a mão no bolso, retirou um crucifixo e começou a murmurar uma oração.
– Não, Dedé, por favor, não. – Disse Eneida interrompendo-a imediatamente.
– A senhora está…
– Estou bem. Não se preocupe. Dê atenção a Dominica. Acho que ela precisa de suas orações mais do que eu.
Eneida dirigiu-se ao ateliê. Sentou-se no banquinho em frente a uma tela virgem, aplicou as tintas na paleta e começou a pintar. A princípio eram pinceladas difusas, porém, como que tomada por forte inspiração, suas mãos tornaram-se autonomamente impulsivas. Passaram a se movimentar de maneira rápida. Um fluxo forte de ideias inundou-a a ponto de seus músculos terem dificuldades de acompanhar. Então, largou os pincéis e, ao invés deles, usou as próprias mãos.
Eneida perdeu a consciência do que estava fazendo. Pouco a pouco, o impulso foi se dissipando. Surgiu sobre a tela a representação do vilarejo, da igreja e de várias pessoas, todas posicionadas tal qual uma fotografia. Eneida ficou abismada. Tudo aquilo havia sido composto sem que tivesse consciência de seus movimentos. No cenário, bem centrado entre as pessoas, estava o padre, com o rosto coberto pelo capuz da túnica. Contudo, algo chamou a atenção: uma das pessoas parecia se destacar da paisagem. Uma mulher, vestida de vermelho, bem à esquerda de quem observa a tela. Eneida olhou de perto e sentiu um arrepio mortal. Neste mesmo instante Maximiliano adentrou o ateliê apressado.
– Preciso sair.
Eneida assustou-se e questionou:
– Agora?
– Vou ao canteiro de obras. Seu João me espera.
– Que horas você volta?
– Não sei. Viu onde estão as minhas chaves?
– Não. Volte logo.
– (…)
– Não é bom duvidar da escura yamí. É perigoso.
– Relaxe. Bem, preciso ir. A propósito; bonito quadro. – Maximiliano virou-se e murmurou: – Escura yamí… Era só o que faltava. E eu lá sei que diabo é isso.
Depois de vê-lo partir, Eneida achou melhor descansar. Porém, algo mais forte do que a própria vontade, a induzia sentar-se diante da janela para contemplar as luzes do vilarejo que começavam a surgir.
Já era quase noite. Maximiliano estava sentado na sala. Dedé, ao vê-lo, começou a recolher nervosamente os brinquedos espalhados de Dominica. Ele olhava para a paisagem na janela, completamente mergulhado em pensamentos. Todavia, Dedé notou algo mais no patrão: um ar desconcertado. Ele, então, caminhou até um dos quadros na parede, alinhou-o, deslizou o dedo sobre a mesa para certificar-se de que estava realmente limpa e voltou sentar-se no sofá. Dedé, num ato de gentileza, perguntou:
– O senhor deseja comer algo?
– Sem apetite. Os problemas são tantos que meu estômago dói.
– Gostaria que chamasse dona Eneida?
– Não.
Naquele exato momento Eneida chegou acompanhada da filha. Assim que viu Dedé, num gesto rápido, soltou -se da mãe e correu para ela.
– Dominica! – Exclamou Eneida.
Maximiliano olhou-a sem nenhuma emoção. A menina deixou escapar um oi retesado e logo saiu da sala seguida pela governanta.
– Essa menina deve estar com problemas. Acho que você deveria levá-la ao médico. Quem sabe um psicólogo. − Observou Maximiliano.
– É típico da idade. Você é que parece bastante pensativo. Como está a execução do projeto? – Indagou Eneida ao sentar-se na poltrona ao lado do marido.
– Nada bem. Parece que aquele lugar não nos quer. Enfim, depois de falar com o governador, essa presepada acabará. Agora, estou pensativo sobre uma coisa curiosa que vi.
– O quê?
– Você sabe que, se eu não tivesse visto com meus próprios olhos, não acreditaria.
– Estou curiosa.
– Foi assim: Eu e João estávamos na estrada. Lá adiante, avistamos um velho maltrapilho. Ele acenava com os braços como que pedindo carona. João me perguntou se pararíamos. A princípio disse que não, mas a curiosidade aguçou. Que diabos esse homem está fazendo aqui no meio da estrada? Fiz um sinal para que João parasse. Ele, então, abriu a janela e o cumprimentou. Em vez de retribuir, foi logo dizendo: – Não sigam. Voltem. O espírito está na estrada! – João ficou pálido. Eu dei risada. Que povo besta! Desprezei aquilo, mas notei que, seja lá o que aquele velho tivesse visto, para ele parecia real. E ele ficou lá, insistindo que voltássemos. João olhou para mim, mas mandei seguir em frente. Assustado e um tanto contrariado, João prosseguiu. Deixamos o velho lá na estrada, gritando feito um louco. Nem dei importância. O mato cobre os dois lados da estrada. Estávamos a uns sessenta quilômetros por hora. De repente, do lado esquerdo da pista, surgiu um animal. Era enorme, parecia um cão enlouquecido, mas bem maior. Ele correu e assumiu a frente do carro. O brilho do sol refletia em seus pelos acinzentados. João tomou um susto e pisou no freio. Insisti que acelerasse. Queria atropelar aquela coisa feia. Como o pessoal diz aqui: Queria engraxar as rodas com o sangue do bicho. João fez o sinal da cruz e começamos a persegui-lo. Era impossível diminuir a distância. Quanto mais o carro acelerava, mais rápido ele corria. O que mais me surpreendeu foi que, vez ou outra, aquela coisa, de orelhas pontudas como as de morcego, olhava para trás e ria da nossa cara. Tinha uma feição diabólica. Mostrava os dentes – enormes por sinal – e seus olhos brilhavam como fogo, vermelho vivo. João panicou e suplicou que retornássemos. Aí, o animal pulou pra dentro da mata e soltou um grito pavoroso. Pedi a João que parasse. Ele disse: – Valei-me, meu pai! É hoje que chego aí em ciminha. – Apesar do pavor, ele parou. Saltei do carro e me meti no meio do mato para tentar vê-lo pela última vez. Nada. Sumiu. Nem barulho na mata escutei. Voltei para o carro. João estava pálido feito cera. Não soltava o volante e nem olhava para os lados. Parecia em choque. Depois que acalmou, conseguiu dar a partida e seguimos para a obra. Foi realmente impressionante.
– E o que acha que poderia ser?
– Sei lá. Qualquer bicho. Cachorro eu sei que não era. Feio demais. Uma coisa eu tenho certeza: nunca vi nada igual. E pelo jeito do velho e de João, os dois sabiam bem o que era.
– Espero que não seja o guardião. Aliás, esta será sua primeira noite aqui. – Disse Eneida. − E gostaria que você visitasse o vilarejo comigo.
– Vilarejo! Você insiste nisso. Não tem nada aqui por perto
– Tem sim. Vou lhe mostrar. Ali, olhe aquelas luzes lá longe.
– É. Sem dúvida tem alguém lá. Tudo bem, irei com você. Remover esse povo será complicado. Como não me disseram nada a respeito!
– Está combinado. Quem sabe se falarmos com o padre! Talvez ele convença as pessoas…
– Padre? Piorou. Essa gente adora assentar esses sem-terra. Agora sim é que vai ser um inferno.
A escuridão começava a tomar conta da sala. Um pequeno feixe de claridade de final de tarde ainda lutava para se manter vivo. Eneida, sentada à meio metro de distância de Maximiliano, estranhou o jeito que ele a encarou:
– Por que me olha assim? – Indagou Eneida.
Maximiliano ficou parado, sem palavras. Os olhos negros o atraíam. A sensação era de que ele tinha de lutar para não ser dominado. O suor de seu rosto denunciava o esforço para se conter. Em seguida tentou dissipá-lo com o sentimento de repulsa. Afastou-se dela, ergueu-se e foi para a varanda. Eneida foi atrás, pousou as mãos sobre seus ombros na expectativa de receber o carinho que tanto queria. Todavia, ele não a quis.





