A documentação

Não acho conveniente revelar agora como obtive detalhes do que aconteceu naquela mesma manhã, quando Maximiliano chegou cedo à Construtora Megapro. Mas a fonte é fidedigna. Foi o seguinte:

Maximiliano aguardava impacientemente a chegada do Dr. Antunes. Queria resolver a pendência da documentação o quanto antes. Mexeu e remexeu os documentos. Não se conformava com a paralisação do projeto em razão da falta de uma única assinatura.

“Já iniciei a derrubada da mata, contando que tudo já estivesse certo” pensou Maximiliano, deixando escapar uma praga. Sua impaciência aumentou. Agarrou o telefone e ligou para Antunes.

— Oi, Antunes, sou eu. Precisamos resolver rapidamente a pendência. Essa porcaria de assinatura tem que sair hoje.

— Ah; bom dia, chefe! Sim, vou agora mesmo me encontrar com o biólogo, como é mesmo o nome dele? Nélson… Nélson Castro.

— Traga-o aqui. Quero uma reunião. Nosso pessoal, equipamentos, tudo está parado por causa desse caçador de borboletas.

— Tudo bem. Verei se o levo aí agora mesmo para trocarmos umas ideias.

— Conto com isso. Conto mesmo com isso, hein. Até mais.

Três horas depois, Antunes chegou ao escritório trazendo o biólogo, que ficou impressionadíssimo com o luxo do complexo administrativo da Megapro.

— Dona Míriam, bom dia, por favor, avise o doutor Maximiliano que já estamos aqui.

— Este senhor é…

— Ah, sim, meu nome é Nélson Castro.

— Pois não. Aguarde um instante. — A secretária interfonou Maximiliano e recebeu

ordem para encaminhá-los imediatamente.

— Senhores, por favor, é por aqui. — Míriam era tão bonita que mais parecia uma modelo. O biólogo, encantado, não conseguia tirar os olhos dela. Antunes soltou uma piadinha:

— Belo espécime não, doutor? — Boquiaberto, este só conseguiu murmurar um “sim” desenxabido.

Ao chegarem, Míriam bateu à porta e abriu-a cautelosamente.

– Estão aqui, Dr. Maximiliano. – Disse a secretária.

E de lá de dentro pode-se ouvir um sonoro “Bem-vindo”.

– Doutor Nélson, nossa reunião será rápida. – Disse Maximiliano assim que se sentaram. – Espero não o ter incomodado. – Completou.

– Incômodo algum, Dr. Maximiliano. Aliás, achei muito bom ter a oportunidade de lhe explicar por que não autorizei o projeto. — A fisionomia de Maximiliano mudou. E num tom mais baixo e duro, disse:

– Estou curioso sim. Interessa-me saber sobre esta questão. Por que será que o IBAMA não assinou o documento, sendo que os governos, federal e estadual, foram a favor e acharam prioritária a construção do maior complexo hoteleiro que este país terá?

– Entendo a importância do projeto e esta é a razão da minha preocupação. O cerrado precisa ser preservado. Pelas análises que fizemos, a intervenção humana no local seria devastadora para as espécies locais. Razão pela qual decidi não autorizar.

– O senhor poderia explicar melhor, Dr. Nélson? — Questionou Antunes, que estava sentado bem próximo à mesa de Maximiliano.

– Meus argumentos no relatório são claros. Suponho que tenham lido. Acho que não preciso esmiuçar mais.

– Precisa sim esmiuçar mais. — Disse Maximiliano em tom de ordem, apertando os lábios, cruzando os braços e reclinando a poltrona de couro preto.

Depois de um suspiro tenso, o biólogo continuou:

— Como sabem, ou pelo menos já ouviram falar, o cerrado é a segunda maior formação vegetal do país. Apesar de ser constituída de plantas de aparência seca, abriga uma enorme biodiversidade. Estima-se que haja, até agora, dez mil espécies de vegetais, oitocentos e trinta e sete tipos de aves e cento e sessenta tipos de mamíferos…

— Deixe-me interrompê-lo por um segundo. O senhor tem ideia de quanto esse país já foi devastado? — Perguntou Maximiliano em tom de desafio.

— Sei, sim. Por isso mesmo…

— E sabe para quê? Para boi comer e dormir, doutor. E vocês autorizaram uma merda dessa não foi?

— Mas isso foi num passado em que não havia preocupação alguma com o meio ambiente. Hoje é diferente.

— Diferente uma ova. Olha aqui, doutor biólogo, trarei desenvolvimento para o país e gerarei milhares de empregos, inclusive para gente como o senhor. Não devo perder mais tempo com essa conversa. Quero que o doutor assine já esse documento. Antunes, fale sobre a expectativa do negócio que graças a ele não poderemos realizar.

— Realmente, Dr. Nélson, é um negócio de altíssima monta e…

– Olha, entendo perfeitamente, senhores, mas não posso ser conivente com essa destruição. Um pequeno aldeamento que seja será o suficiente para gerar um desequilíbrio irreparável.

— Tudo bem, tudo bem. Entendi. Falemos então em números, doutor. Qual é seu preço? — Perguntou Maximiliano, colocando as mãos sobre a mesa e inclinando o corpo ainda mais para frente. O biólogo deu um sorriso amarelo e respondeu:

— Não estou à venda. Meu interesse é proteger as gerações futuras.

— Tudo bem, só entre a gente aqui. Confie, somos amigos. — Completou Antunes, fixando o olhar no biólogo.

— Por favor, não insistam. Desculpem, preciso ir.

— Não antes de assinar isso. — Maximiliano deslizou o papel sobre a mesa em direção ao biólogo, que se levantou balançando negativamente a cabeça. O sangue de Maximiliano ferveu. – Antunes, ele não assinará. Disse convertendo sua expressão de ódio num estranho sorriso.

— É a sua última palavra, Dr. Nélson? — Alertou Antunes.

— É a minha última palavra. Com licença. – O biólogo levantou-se e deixou a sala.

Contrariado e sentindo-se desafiado, Maximiliano fez menção de esbravejar, mas foi contido por Antunes, que sugeriu:

— Deixe para lá. Ligarei para o governador e nomearemos outro biólogo. Existem outros que podem nos ajudar.

— Antunes, você sabe o que fazer, não sabe?

— Será necessário?

— Uma questão de segurança. Se este desgraçado vai para a mídia…

— Como quiser. — Antunes se retirou.

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