Garras
O bater na porta interrompeu abruptamente o breve cochilar de Eneida, fazendo-a acordar palpitante. Rapidamente levantou-se e cutucou Dedé que resistiu abrir os olhos.
– Tem alguém batendo. Dedé, por favor, acorde. – Insistiu Eneida.
– Quem poderia ser? – Indagou a governanta com os raios do sol a lhe arranhar os olhos. Deslizou as mãos pelos cabelos, rebateu para cima e os prendeu com grampos. Ainda vestida com as roupas do dia anterior preparou-se para descer.
– Vamos juntas. – Sugeriu Eneida. – E acho melhor acordar Dominica.
– Não, senhora, deixe-a um pouco mais. Fomos dormir muito tarde ontem.
– Está bem. Então, vamos.
E mais uma vez ouviu-se o bater forte e impaciente na porta. Ambas se aproximaram devagar. Dedé perguntou:
– Quem é?
– Sou eu. João.
Eneida suspirou aliviada. A governanta abriu, deixando transparecer na cara a indignação de ter sido acordada por aquele homem:
– Esperávamos pelo senhor ontem à noite.
– Pois é, dona Dedé. Tive que ir ao canteiro de obras. Saí de lá tarde. Aconteceu um acidente grave. Além disso, a senhora sabe que essas noites…
– O que aconteceu? Interrompeu Eneida.
– Dois de nossos trabalhadores morreram. Foi terrível. Coisa séria.
– Morreram como?
– Ainda não se sabe a causa. Não dava nem para reconhecer a cara deles. Operavam as máquinas de terraplanagem, e de repente aconteceu.
– Aconteceu o quê? Perguntou Dedé já bastante ansiosa.
– Os dois apareceram desfigurados e com as tripas para fora. O médico disse que faltava o coração deles.
– Quem teria feito isso? – Perguntou Eneida.
– Acham que foi um bicho.
– Bicho? Que animal se aproximaria de uma máquina tão grande? Além disso, o operador fica trancado na cabine. Seria impossível! – Exclamou Eneida.
– Bom, não sei. Os investigadores estão analisando o caso. Foi feio. Ah, falando nisso, e essas marcas aqui na porta?
– Que marcas? Onde? – Surpreendeu-se Eneida.
– Essas aqui. Bicho grande, hein! Não parece onça não.
Todos ficaram quietos sem saber o que dizer. João quebrou a latência da conversa:
– Sei lá o que foi, mas tá na cara que tentou entrar. É melhor manter tudo fechado. Essa coisa deve estar rondando por aqui. Bom, preciso ir. Os lampiões estão aí. Trouxe mais dois. Acho que vocês não vão mais precisar deles. O gerador estará pronto no final da tarde. Se precisar de alguma coisa é só me avisar.
– Obrigado. – Disse Dedé, e ao virar, de canto de boca, sussurrou para Eneida: – Acho que ele mesmo fez essas marcas só para nos assustar.
– Imagina! A troco de quê? Você é que cismou com ele.
– Sei não. Precisamos ficar espertas.
João achou melhor se apressar e despediu-se. Eneida ficou pensativa e retirou-se para o ateliê. Preocupada com a notícia das mortes, mal conseguiu rabiscar o esboço de um novo quadro. Apesar de tudo, inspiração não lhe faltava. À medida que o tempo passava, a ansiedade aumentava. Por mais que tentasse dispersar, a ideia de que mais uma noite chegaria a incomodava. Receava vivenciar aquele terror novamente. Recordou do que Dedé disse uma vez: “A escura yamí pode deixar cicatrizes profundas, marcas que nunca mais serão esquecidas.”
O dia foi passando naquele ritmo de estranheza. Com o intuito de não alimentar o medo, a comunicação entre elas era comedida, muito cuidadosa. Dedé, extremamente delicada ofereceu um suco gelado. Eneida, envolvida com o esboço do novo quadro, não conseguiu conter-se e comentou:
– Mais uma noite daquelas e terei um colapso nervoso. O que faremos?
– Orar.
– Não sei por quê, mas acabei de me lembrar do padre.
– Padre? Ah, sim, o padre…. Que padre?
– Aquele que encontrei no vilarejo. Foi tão gentil! Quem sabe se ele benzesse a casa.
Dedé emudeceu.
– Gostaria de revê-lo. Ele passa segurança. Apesar de não me lembrar muito bem do seu rosto, quem sabe se ele pudesse nos ajudar. E vice-versa. Tenho certeza de que ele gostaria de reformar a igreja. As pessoas parecem gostar de lá. Adorei as crianças. São indiozinhos assim como você. − Dedé permaneceu calada.
– Acho que vou voltar lá.
– Dona Eneida, por favor, me escute: Precisamos orar e manter a calma. A senhora certamente não esqueceu de suas visões. Elas trazem alguma mensagem. Uma revelação.
– É… aquela velha disse algo parecido: “A grande revelação”. Não sei o que quis dizer com isso.
– Coisa boa é que não é. Tenho certeza. – Retrucou a governanta.
– Realmente, Dedé. Não deve ser coisa boa.
– É por isso que precisamos orar. Devemos afastar essas coisas da senhora. Precisamos ficar atentas. A escura yamí nos pega pela fraqueza, pelas carências e pelo que mais tememos na vida.
Eneida caiu em reflexão, segurou o pincel e voltou-se para a tela. Dominica adentrou o ateliê correndo.
– Mamãe, o Perri foi destruído aquela vez e agora fizeram trança na Mimi… – E estendeu a mão para mostrar um gatinho de pelúcia, cujos pelos foram totalmente retorcidos. – Ao ver aquilo, Dedé arregalou os olhos e talhou a conversa:
– Se você não fez isso, quem foi, então?
– Sei lá. Não sei fazer tranças. Apareceu em cima da minha cama assim, desse jeito.
Dedé empalideceu. Algo passou pela sua cabeça. Por um instante a fé oscilou. E deixou escapar em voz baixa:
– Não foi ninguém daqui. Nem deste mundo. Foi ele. Sim, foi ele mesmo. Ele veio nos avisar.
– Quem, mulher? Diga logo. – Perguntou Eneida deixando transparecer a ansiedade.
– O espírito da mata.
– Ele veio até aqui aterrorizar uma criança fazendo trancinhas num bichinho de pelúcia? Ora, Dedé, faça-me o favor. Pare de alucinar. Pensei que só eu aqui fosse… Você mesma ontem veio com aquela conversa de que estamos nos adaptando, blá, blá, blá, agora admite que ele realmente esteve aqui.
– Senhora, tente entender, o guardião da mata é quem comanda a natureza. Ele é uma espécie de guardião. Nas noites escuras, sai à captura de caçadores maldosos para lhes devorar as almas. A pessoa escolhida, aquela para quem ele quer dizer algo, recebe um aviso. Geralmente o objeto favorito é adulterado, pode ser um objeto ou até um animal de estimação.
– Neste caso ele veio avisar a minha filha…
– … de quem ele está se aproximando. – Interrompeu Dedé tirando Eneida de seu raciocínio.
– Dedé, tem consciência da doidice que você acabou de falar? Simplesmente me recuso a acreditar nisso. E você vai traumatizar Dominica.
– Não, não, longe disso, mas acho que devemos nos precaver.
– É apenas uma criança!
– Quem sabe o aviso seja através dela, mas o alvo é outra pessoa.
– Olha, pare por aqui. A menina está assustada. Além disso, se depender de mim, esse tal espírito vai se ferrar. Ele não encostará um dedo na minha filha. Dominica, dá esse bichinho aqui e escolha outra coisa para fazer. Não escute essa baboseira.
A menina, cabisbaixa, voltou para o quarto. Eneida colocou as mãos na cabeça e num impulso incontrolável despejou o que lhe veio à mente:
– Olhe, Dedé, combinemos uma coisa: Deixe essas superstições de lado, esqueça tudo isso. Estamos num lugar ermo, isoladas no meio do nada. Maximiliano nos esqueceu aqui nesse fim de mundo. E como se não bastasse, o invisível resolveu nos assombrar.
– Vi muito disso quando criança. Uma vez, o espírito da mata tentou me levar, mas meu pai conseguiu evitar. Achei que seria importante saber disso para proteger Dominica e…
– Não, Dedé, você não entendeu. Esqueça isso. Prefiro não saber. Preciso descansar um pouco. Já ouvi demais por hoje. Ora essa: espírito da mata. Era só o que faltava. Você conta essas estórias como se fossem verdadeiras…
Dedé voltou aos afazeres cabisbaixa. Eneida retirou-se para o quarto. Estava exausta e lá permaneceu.
A tarde passou silenciosa depois daquela breve discussão. Contudo, mais uma yamí se aproximava. Recostada na cadeira de balanço, Eneida começou a ter pensamentos inquietantes. “Que conversa sem nexo. Totalmente sem sentido. Primeiro um espírito que vem do nada avisar que levará minha filha…. Isso já é uma idiotice! É fato que não posso negar aquilo que presenciei na mata. Será que vi o que vi? Se um ser sobrenatural quer levar alguém, a troco de que avisaria? Um ser tão poderoso…. Simplesmente agarraria a pessoa e sumiria com ela. Simples assim. Será que ele precisa brincar com as emoções da vítima, deixá-la louca, enfraquecida para depois arrebatá-la? Levar para onde? E aquela velha? O que ela quis dizer? Será que queria me alertar de algo?”





