Segunda noite
Início da segunda noite escura. O aroma do delicioso bolo de chocolate prometia ser o centro das atenções ao invés do misticismo de Dedé. Ela esforçava-se para manter a naturalidade. Procurava falar apenas trivialidades e evitava qualquer outro comentário que remetesse a tudo o que não fosse deste plano. Contudo, deixou escapar a preocupação, camuflada pelo tom de bom humor, enquanto dispunha a mesa:
– Os técnicos fizeram um bom trabalho no gerador.
– Espero que continue funcionando bem. Sabe como são essas coisas. Costumam dar problemas. – Disse Eneida meio pessimista.
O jantar foi servido. Apesar do apetite, o momento mais aguardado por Dominica era o bolo de chocolate. A governanta encontrou um jeito divertido de desviar a atenção da menina em relação a sobremesa. No entanto, Eneida apenas petiscou e logo sentiu-se incomodada à mesa:
– Bem, estava tudo ótimo, mas acho que já estou satisfeita. Vou me refrescar na varanda. − Dedé a olhou desconfiada, mas nada comentou.
Como de costume, Eneida sentou-se para aguardar o surgimento das luzes. Aos poucos, pôde vê-las cintilando ao longe, alinhadas como numa procissão. Desta vez eram muitas, em cadência tão organizada que despertou a curiosidade. Eneida chamou Dominica e Dedé para verem, mas já haviam se retirado para o quarto.
“Não sei explicar o porquê, que impulso forte é esse que sinto. Tenho vontade de dar um pulinho até lá. Outra missa, provavelmente. Nunca fui muito chegada a missas, mas seria uma oportunidade para me distrair um pouco. Quem sabe conhecer mais pessoas; sinto-me entediada aqui. Quem diria: Eu, Eneida, falando uma coisa dessas. Por outro lado, sair agora à noite… não sei, não; seria perigoso. E se eu levasse a lanterna comigo? Desta vez poderia seguir facilmente a trilha. Em pouco tempo estaria lá, mataria minha curiosidade e voltaria.”
Num ato de ingênua impetuosidade, como que conduzida por alguma força estranha, Eneida saiu de casa para seguir em direção ao vilarejo. Sequer teve a preocupação de avisar Dedé, pois, sabia que seria desencorajada. A força da curiosidade a puxava e obscurecia qualquer aviso intuitivo de alerta.
O cerrado, que de dia lhe parecia tão amistoso, à noite se tornava ameaçador, com árvores tortuosas, semelhantes a seres deformados com espinhas contorcidas e garras de ódio. O silêncio chegava a pesar aos ouvidos. Eneida negligenciou sua intuição e prosseguiu como que hipnotizada.
A mata conseguia ficar mais negra embora fosse iluminada pela lanterna. O escuro do céu fundia-se com o pretume da terra. A agonia de caminhar por uma trilha assim era amortecida pela curiosidade de Eneida. O silêncio da caminhada solitária e arriscada, era quebrado pela respiração e o bater excitado do coração. O eventual colidir com a mata rasteira e árvores que se expandiam como espinhos, deixavam Eneida assustada e nervosa. Porém, seguia firme. A trilha se alargava em alguns pontos. O vilarejo podia ser visto ao longe. Contudo, em dado instante, o caminho parecia ter se alongado. O destino já não estava tão próximo. Pela distância das luzes, ainda faltava muito.
Um vento súbito bateu nos cabelos de Eneida. O foco da lanterna iluminou uma coluna de poeira que se ergueu bem à sua frente. Sentiu calor, uma espécie de hálito próximo à nuca. Aterrorizada, disparou a correr. Aos tropeços, mal conseguia manter-se em linha reta. O vento continuou a soprar intermitentemente e, de súbito, transformou-se num redemoinho de poeira e folhas secas. Deslizou freneticamente em seu encalço e um assobio estridente rasgou o silêncio. Eneida caiu. O vento era forte. Arrebatava tudo ao seu redor. O deslocamento daquela massa de folhas e poeira, produzia um som que se assemelhava a um sussurro:
– Clame por mim, olhos negros. Diga meu nome, olhos negros.
Paralisada pelo pavor, Eneida tentou em vão levantar-se. Pensamentos velozes, desconexos, passaram-lhe à mente. Enfraquecida, sentiu-se perdendo os sentidos. Ergueu meio corpo, mas caiu novamente. E antes que desfalecesse, notou a presença de alguém que lhe ergueu a cabeça e pronunciou palavras, as quais soaram como um canto indígena. A perda de consciência foi inevitável.
Não se sabe quanto tempo passou. E do que aconteceu depois, não guardou recordações muito nítidas. Eneida, então, voltou à consciência. Por certo tempo, prolongou-se nela o desequilíbrio entre o mundo exterior e os seus olhos, que não se acostumavam com o que via. Estava cercada de pessoas do vilarejo, inclusive o padre. Desnorteada e cheia de medo, tentou retomar a postura, mas uma senhora a conteve:
– Seja bem-vinda, maluca. Você respondeu ao seu chamado?
Eneida, ainda muito perturbada, mal conseguia falar.
– Vamos, diga logo. Você respondeu ao seu chamado?
– Re-respondeu; quem?
– Disse alguma coisa ao espírito caído da mata? Ele falou com você, não falou?
– Não sei. Não lembro.
– Espero que não tenha falado. Senão ele não vai sossegar.
– Como cheguei aqui?
– Tivemos que arrastá-la pra cá. Foi pela mão de Deus que conseguimos salvá-la. − Respondeu o padre com o rosto coberto pelo capuz do hábito.
– Muito obrigada. Aquilo foi horrível…
– Da próxima vez tenha mais juízo antes de sair na noite escura. – Interrompeu a velha finalizando a conversa com uma cusparada para o lado. − Levante.
– Vamos levá-la para minha casa. − Recomendou o padre.
Ao erguer-se com dificuldade, Eneida percebeu que as pessoas que a cercavam estavam quietas, excepcionalmente caladas. Todas a observavam atentamente e ao mesmo tempo pareciam distantes. O que mais estranhou, foi ter visto crianças com as mãos enroladas em folhas de bananeira. A senhora, que a princípio havia mostrado uma preocupação austera, agora amparava-a conforme caminhavam até a casa do padre. Ele também a seguia bem de perto. Ao chegarem, as duas entraram, mas o padre desviou seus passos em direção à igreja.
– Sinto-me tão envergonhada de ter causado problemas a vocês. Não foi minha intenção…
– Nunca é. Esse seu jeitinho inocente é e sempre será a causa de todos os seus males.
– Acho que não entendi.
– Você é o resultado inevitável de seus erros. Passa pela vida como se estivesse brincando de casinha.
– Ainda não entendi.
– Às vezes, minha filha, é melhor não entender nada.
– A senhora nem me conhece! Como pode saber o que penso ou como conduzo minha vida.
– O futuro é feito pelas nossas atitudes no presente. É fácil ver que você não pensa muito nisso.
– De qualquer forma, gostaria de entender melhor como vim parar aqui. Por que essas coisas estão acontecendo comigo?
– Sente-se só. É isso. Fique sabendo que a solidão só existe no isolamento da sua mente.
– Desculpe, mas a senhora fala coisas que não consigo entender.
– Não entende porque não quer. E sabe por que não quer?
(…)
– Porque não quer assumir que sua existência é inócua, sem propósito. Se você não se apossar da vida que Deus lhe deu, coisas do mal tentarão tomar conta dela.
– Eu sou dona da minha vida sim. Sou boa mãe, boa esposa – ótima esposa, na verdade. Interfiro o mínimo possível na vida do meu marido. Não vejo motivo de ser perseguida por aquele bicho horroroso, se é que ele existe mesmo.
– O espírito da mata não a encontrou. Foi você quem o chamou.
– Só era o que faltava. Quem, em sã consciência, chamaria essa coisa?
– Sua passividade doentia; esse é o chamariz. Sua falta de questionamentos… Meu Deus! Isso nem se fala; sempre se esquivando das situações. Você não percebe que está solta aos ventos? A vida passa bem debaixo do seu nariz e você nem trisca o olho nela. Está sempre a concordar com tudo. Claro, menos trabalho. Diz que ama o marido, huh. Você tem é medo dele, isso sim.
– Medo? Quero poupá-lo do meu jeito inapropriado.
– Poupá-lo! Você quer poupar a si própria. Prefere se esgueirar pelos cantos a encarar aquele…
– Opa; não precisa ofender.
– E a sua filha?
– O que tem minha filha? Como sabe que eu tenho filha?
– Quantas vezes você conversou de verdade com ela?
– Todos os dias conversamos.
– Mentirosa. Você só fala: filhinha, faça isso; filhinha vá brincar, filhinha isso e aquilo. Isso não é conversar. Você sequer pergunta como ela se sente depois que veio morar aqui.
– Pare com isso! Minha filha não tem nada a ver com essa conversa.
– Ela também não tem nada a ver com a sua vida.
– Olha, acho que já chega. Preciso ir.
– Tudo bem, fuja! Preciso alertá-la de uma coisa: Com esse seu jeito, só o que fez foi criar uma cobra muito perigosa. Construiu um esconderijo para um monstro.
– Do que a senhora está falando?
– Do seu marido. Ele é um monstro.
– Quem é a senhora para falar do meu marido?
– Sou velha e por isso já vi muita coisa, inclusive gente como ele.
– A senhora nem o conhece. Nunca falou com ele. Como pode saber?
– Sinto-o através de você. E é pelas realizações que se sabe quem é quem. Ele feriu a mata sem se importar. Se ele é capaz de fazer isso, é capaz de fazer muitas outras coisas. Ele também passará o trator em cima de vocês todas e das pessoas que o cercam.
– O quê? A senhora fala isso só porque ele cortou algumas árvores? Que mal há nisso? Ele não foi o único. Outros também depredaram…
– Não seja idiota. Acorda. Descubra você mesma, basta olhar e ver. Só espero que acorde logo, pelo seu próprio bem e de sua filha.
A velha deu as costas e partiu. Eneida ficou ali, só, cheia de dúvidas e conflitos. Começou a chorar e aos soluços decidiu voltar para casa. Sentindo-se à beira de um colapso, mudou de ideia e decidiu retornar à igreja. Caminhou até o largo central que dava de frente para a escadaria da entrada. A multidão de fiéis se avolumava, índios, brancos, mestiços, todos a segurar um toco de vela aceso. Mesmo angustiada, Eneida não deixou de notar que a quantidade de pessoas a adentrar aquela igreja minúscula, parecia muito maior do que o espaço que poderia comportar. No entanto, a multidão não parava de crescer. A fila andava bem lentamente. Eneida era uma das últimas. Foi ao subir dois lances de escada que pôde ver o padre posicionado bem ao centro do altar. Sempre com o rosto coberto, proferia suas orações às almas perdidas.
Eneida conseguiu encontrar um espaço livre no canto de uma parede. Teve que ficar de pé com os braços encolhidos. Observou os fiéis ali presentes e notou algo intrigante. Todos pareciam entorpecidos, vagos, distantes. Algumas mulheres choravam sem parar e a maioria das crianças indígenas tinha as mãos enroladas em folhas de bananeira. Apesar de ser um lugar simples, havia um encanto ali, muito próprio. Aos poucos Eneida foi se reencontrando com a realidade e começou a prestar atenção ao culto. Os fiéis presentes, todos congregados em nome da fé, permaneceram atentos às santas palavras – foi um longo tempo diga-se de passagem. Ninguém ousou deixar o local até que o padre desse a benção final. Só depois, todos ao mesmo tempo, se levantaram. Houve congestionamento na saída e mais uma vez Eneida foi a última. Cheia de curiosidade, parou na porta, olhou para trás com a intenção de se despedir do padre, mas ele já havia deixado o altar. Ao voltar o olhar para frente ficou espantada ao ver que toda aquela multidão também já havia ido.
“- Nossa! Tão rápido?!” – A preocupação com Dominica sobreveio. Contudo, antes de partir, desejou passar rapidamente pela casa do padre para agradecer. Caminhou até lá estranhando o silêncio. Uma vaga melancolia pairou sobre o lugarejo. Havia algumas poucas casas espalhadas, cujas portas e janelas estavam fechadas. Caminhou até um dos casebres e arriscou bater. Sem resposta. Decidiu, então, prosseguir em direção à casa do padre. Ao chegar, bateu à porta e também ninguém atendeu. Mesmo assim entrou. Estava vazia.
“Talvez devesse procurar a mulher e dizer-lhe que…” – Nem bem completara o pensamento, virou-se e lá estava ela, a senhora, com os olhos vidrados e cabelos brancos cintilantes presos em forma de coque:
– Cuidado! Preste atenção, moça: Alguém lhe oferecerá duas opções. Terá de escolher uma. Jamais aceite a segunda, por pior que seja a situação, a menos que queira mudar sua vida por completo. Outra coisa, escute bem o que te digo, não responda às vozes.
Eneida sentiu um frio mortal. Aquele tom profético a encheu de medo. A mente eclipsou e ao tentar se recompor, a velha simplesmente dissipou-se no ar bem diante de seus olhos. Depois disso, tudo ficou deserto. Ruídos da noite escura, agora mais escura que silenciosa, aos poucos podiam ser ouvidos: o vento a soprar por entre os galhos das árvores retorcidas, estalos, e o vai e vem dos arbustos.
Apressou-se em deixar o vilarejo. O dia já surgia com luz ainda pálida. Eneida acelerou os passos em direção à trilha. Cada centímetro alcançado, uma tentativa de se afastar da possível ameaça invisível. Porém, o sol ia aos poucos aquecendo o ambiente, fazendo o frio do medo deixar o corpo de Eneida. A confiança assumia o controle, e tudo aquilo que vivenciara, tornava-se mera lembrança. O retorno pareceu ser mais rápido do que a ida. Finalmente chegou à casa. Dedé, com um olhar bastante preocupado, aguardava com ansiedade. Quando a viu entrar foi logo falando:
– Não sei se devo perguntar…
– Agora não, Dedé. Estou cansada. Preciso dormir.
– Antes preciso falar sobre Dominica. – Insistiu.
– Dedé, por favor, agora não. – E subiu para o quarto, despiu-se e deixou o corpo exausto despencar sobre a cama. Não custou mergulhar no mais profundo sono. No entanto, depois de algum tempo, sonhos povoaram sua mente. Um deles em particular, apesar de ser pouco nítido, era de sombras que saíam do porão e a cercavam. Murmuravam algo incompreensível. Um dos espectros a abraçou e, embora Eneida desesperadamente resistisse, puxou-a para mostrar algo. Queria que aceitasse um presente. Eneida recusava veementemente, e de seus olhos, dois filetes de sangue escorreram como lágrimas. Ao levar a mão ao rosto, sentiu-a úmida e quente. Deparou -se com sangue que lhe escorria por entre os dedos. Gritou. Isso a fez despertar num solavanco. Em vez do som do grito, restou apenas o eco de um gemido distante. Levantou agitada, incomodamente suada. Sentou-se na cama, com os pés apoiados no chão, tentando se lembrar de algo impreciso.
Era tarde. Mesmo com o passar do tempo a sensação de ressaca custava aliviar. Tudo parecia girar. Vestiu-se e procurou por Dominica. Desceu as escadas vagarosamente. A casa estava silenciosa. Um silêncio que engolia até seus pensamentos. Isso a deixou preocupada, pois esperava encontrar a filha brincando e correndo pelas dependências. A princípio, o que era uma simples preocupação, tornou-se ansiedade. Lembrou-se do diálogo que tivera com aquela senhora no vilarejo, por isso sentiu que precisava proteger a menina. Em seguida, ouviu um alvoroço vindo do quarto de Dominica. Eram sons entrecortados por um gemido curto e frequente, como alguém que chora de dor. Com o coração sobressaltado, Eneida subiu novamente as escadas e ao atingir o último lance, viu a menina, bem lá no final do corredor a rastejar pelo chão em círculos como só as cobras fazem:
– Dominica! – Gritou Eneida paralisada, sem saber o que fazer. A menina parou de serpentear, ergueu-se, porém, a parte de cima do tronco pendeu para seu lado esquerdo, como se sua coluna estivesse quebrada. Dominica fixou o olhar em Eneida. Os olhos estavam vidrados, vermelhos, duros. Eneida teve o ímpeto de correr, fugir, mas o instinto de mãe a manteve ali. Dominica botou uma língua bifurcada para fora, vibrou-a, sibilou, jogou-se ao chão e rastejou para o quarto de Dedé.
Eneida tentou correr, mas suas pernas não obedeciam. Ficaram sem sustentação e escorou-se à beira da escada na tentativa de se controlar. Levou as mãos ao rosto e começou a chorar. Esforçou-se novamente para levantar ao mesmo tempo que tentava se convencer de que aquilo era uma alucinação. Quem sabe fosse causada pela abstinência dos medicamentos. Trêmula e assustada, mais uma vez tentou se erguer e, finalmente, aos tropeços, conseguiu correr em direção ao quarto da governanta.
Escancarou a porta num só repelão e presenciou uma cena horrível: Dominica, possuída, dilacerava às dentadas as próprias mãos. Dedé, cuja aparência havia mudado – uma transfiguração monstruosa -, estava comprimida num dos cantos do quarto às gargalhadas histéricas. Aquilo fez Eneida arremessar-se para frente para salvar a menina.
– Saia, deixe o corpo da minha filha. – E imediatamente, de olhos fechados, começou a articular uma oração. Como num frenesi, a menina debatia-se, a governanta arrancava, aos montes os próprios cabelos e, ao mesmo tempo, golpeava a cabeça contra a parede.
As orações e súplicas pareciam inúteis. Foi quando, ao abrir os olhos, Eneida deparou-se com Dedé e Dominica, bem à sua frente, ambas a observá-la calmamente, como se nada tivesse acontecido.
– Mamãe, a senhora está bem?
– Dona Eneida, deixe-me ajudá-la. A senhora não parece bem mesmo. Venha, sente-se aqui.
“Preciso voltar a tomar os remédios.” – Eneida pensou. “- Isso já é demais.” Com o rosto molhado de lágrimas e suor, abraçou a filha ao mesmo tempo em que segurou as mãos de Dedé.
– Graças a Deus. Foi só uma alucinação.
– Do que a senhora está falando, mamãe?
– Ah, meu Deus, como é bom ouvir sua voz! Pensei… deixe pra lá. Acho que não estou bem hoje.
– Que tal se tomarmos um chá ou um suco com biscoitos? Eu mesma fiz. – Disse Dedé.
Eneida não quis tocar mais no assunto. Passados alguns minutos, a sensação ruim já havia dissipado. Pelo menos em parte. Na cozinha, buscou iniciar uma conversa:
– Já perceberam como o tempo se comporta estranhamente aqui? – Indagou Eneida ao segurar o copo de suco.
– É por causa da noite escura. – Disse Dedé.
– Aqui, nem bem acordamos e já é noite. Sempre pensei que no interior o tempo demorasse mais a passar.
– Minha mãe dizia que nesta época a escura yamí quer prevalecer. Então, ela empurra o dia para que ele seja breve.
– Olha, não me leve a mal, mas daria pra você não tocar mais nesse assunto?
– Desculpe. Não falarei mais nada sobre isso. Prometo.
– Alguma notícia de Maximiliano?
– Recebi uma mensagem de sua secretária, um pequeno bilhete que chegou pelo malote da empresa. Ela disse que ele chegará amanhã ou depois.
– Só isso? Ele nem perguntou como estamos?
– Não, senhora. Foi só isso.
– Ele nunca foi afetuoso, nem mesmo com a filha. Sabe de uma coisa? Chego a pensar que ele quis se livrar da gente. Por isso nos mandou para cá. Dedé, não me sinto bem aqui nesse lugar.
Dedé permaneceu silenciosa. Teve o ímpeto de dizer algo, como alguém que sabe de muitas coisas, mas procura se controlar ao máximo. E Eneida continuou:
– Estive no vilarejo…. Ah, esqueça. Pedi para que não tocasse mais no assunto e eu mesma voltei a falar nisso. Dominica, venha cá. Quero te dar um abraço.
– Dona Eneida, a senhora sabe que não é seguro passar as noites fora de casa. Ficamos muito preocupadas.
– É um ímpeto difícil de controlar. Sou atraída. Parece que existe um imã lá fora que me puxa. De qualquer forma, seguirei seu conselho. Quero me distrair um pouco com o meu novo quadro. Faz tempo que estou afastada das tintas. – E Eneida caiu em profunda reflexão ao observar Dominica a brincar: “- Essas alucinações… noite e dia. Parece que estão piorando. Acho que a melhor coisa a fazer é relaxar e tentar esquecer tudo isso.” – Mas uma dúvida a assolou: – Dedé, vi crianças com as mãos enroladas em folhas de bananeiras. O que isso significa?
Dedé concentrou seu olhar e explicou:
– Os anciãos de nossa tribo diziam que antigamente os colonizadores torturavam as crianças para coagir os integrantes das tribos a fazerem trabalho escravo. Houve muita resistência. Eles, os colonizadores, então, queimavam as mãos das crianças com óleo quente. Depois, eram soltas para que voltassem à tribo, aos berros, algumas entravam em choque. Todos ficavam apavorados com tamanha barbaridade. O pajé fazia um curativo à base de ervas e pele de peixe. Depois enrolava folhas de bananeiras para proteger.
– Então, quer dizer que ainda fazem isso. Eu vi várias crianças assim.
– Não sei, dona Eneida. Isso era o que faziam entre o século dezessete e dezoito.
– Que coisa horrível! Vou mandar prender o desgraçado que faz uma coisa dessas. – Eneida retirou-se, indignada, para o ateliê.
Mais uma vez, a tarde era repelida pela noite. Sua marca era um esfregaço avermelhado no céu. Um entardecer melancólico, silencioso quebrado somente pelo som distante do gerador que trazia a ilusão de uma segurança luminosa para a casa. Eneida, sentada no sofá, observava Dedé acendendo as luzes da sala. Ao terminar, a governanta teve a iniciativa de quebrar o silêncio:
– Sabe, dona Eneida, toda vez que acendo uma lâmpada penso no seu João.
– É, realmente, se não fosse ele, não teríamos energia. Falando nisso onde ele está?
– Não faço ideia. Ele costuma passar por aqui à tarde para ver se precisamos de alguma coisa. Mas até agora…
– Deve estar ocupado na obra. Espero que o gerador se mantenha firme. Não gostaria de passar a noite às escuras.
– Também não. E olhe quem vem descendo as escadas, dona Eneida.
– É a minha princesinha. Venha cá com a mamãe. Você fica linda de cabelos molhados depois do banho.
Eneida fez questão de se aproximar da filha de um jeito mais afetuoso. Talvez a conversa com aquela senhora tenha resultado num sentimento de resgate, uma tentativa de dedicar-se mais como mãe. Depois que o crepúsculo foi totalmente sucumbido pela noite escura, Eneida pediu a Dedé que servisse o jantar. Enquanto aguardavam, alguém bateu à porta.
“Quem pode ser?” – Pensou Eneida ao levantar-se para atender.
– Seu João! Que coincidência! Falamos do senhor há pouco. – Disse Eneida.
– Pois é, senhora. As coisas lá não estão muito boas não.
– O que aconteceu? Outro acidente?
– Mais um. E esse foi bem feio.
– Poupe-nos dos detalhes. – Disse Eneida ao levar as mãos à boca.
– Não, não. Não vou falar das coisas que aconteceram. Na verdade, sei que o gerador já foi concertado, mas só vim aqui para trazer mais um lampião que estava sobrando. Nunca se sabe. Vou dar uma dica: Ponha mais alguns acesos aqui fora. Vai ajudar a manter os bichos longe da casa.
– Tudo bem. Obrigada.
– Não por isso, senhora. Se precisar de algo é só chamar.





