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“Crianças”

 

Durante muitas noites, como em um filme que impressiona – aquele momento em que Licurgo estendeu a mão para o senhor Afonso na assembleia de agricultores, não saia da mente dele.

Aquele instante em que o jovem magricela só queria estender o bendito telefone vermelho, e simplesmente o senhor Afonso deu um tapa na mão do menino.

Agora, cercado por monstros. Após ver a camionete D20 capotar e lhe sacolejar para todos os lados. Licurgo parecia viver novamente aquele momento.

As bestas, com os dentes à mostra, cercavam Jade e Licurgo. Pelos rosnados e pela gosma que escorria de suas bocas, o desejo dos animais era comer a carne dos dois. Cada pedaço do corpo branco de Jade seria arrancado como uma fruta madura da árvore. Os braços brancos seriam como petiscos molhados por um molho vermelho que lembrava catchup. A cabeça cheia de massa encefálica seria sugada por completo. Somente a lembrança de que um dia Jade e Licurgo existiram ficaria. Nada mais, pois tudo seria moído e digerido.

Licurgo ainda se recompondo, levantou e encarou a fera que parecia liderar. Antes de se aproximar ele foi até a cabine do carro, e pegou o telefone vermelho. Esperto, Licurgo escondeu o saquinho com o pó do diálobu, embaixo do aparelho em sua mão.

O monstro poderia comer somente sua mão. Como poderia comer logo todo seu corpo. Ele arriscou que a besta arrancaria sua mão, só pela insolência de estendê-la para ele.

E assim foi feito. Licurgo mal pode perceber quando a fera arreganhou sua boca deixando à mostra fileiras e mais fileiras de dentes afiados. Cada dente tinha pontas cortantes e cheias de carne podre.

Um ardor quente percorreu o resto do braço de Licurgo. Não havia dor inicialmente, somente a sensação de que faltava algo. No caso, uma mão.

Ele caiu sem acreditar que aquilo tinha acontecido. No lugar de sua mão, havia um buraco que não parava de espirrar sangue em todas as direções.

O monstro acabara de mastigar e engolir o telefone, e por consequência ele também tinha engolido o pó do diálobu. Pena que Licurgo estava chocado demais pra ver a reação da besta.

 

Como um bêbado sem coordenação e com as pernas pesadas. O monstro cambaleou para trás e num ato de desespero, arranhava sua garganta como se pudesse retirar o dialobu do seu corpo. Engasgado e arfando, a fera tentava cuspir o pó que já invadia todo o seu corpo. Ele uivou em desespero e seu corpo tomava uma coloração escura, ao mesmo tempo em que seu pelo caia por completo.

Rapidamente as outras feras se afastaram de Licurgo, e, puxando a besta envenenada, entraram na floresta, sendo engolidos pelo verde musgo das plantas.

Jade não conseguiu respirar aliviada. Licurgo estava morrendo de tanto sangrar.

Ela se aproximou dele tentando estancar o sangramento. A pele de Licurgo estava azul, ele tinha pouco tempo antes de se esvair em sangue.

MEMÓRIAS DE JADE

Após a morte violente de Jonas, o que Marieta mais queria agora, era livrar a pele de seu filho de uma prisão.

Lucas havia matado Jonas a tesouradas. Perfurações violentas que não deram nenhuma chance ao investigador. Mas, a motivação foi a raiva que ele sentiu ao ver o homem estuprando sua noiva.

Marieta percebeu que deveria contar com Jade para defender seu filho. Afinal, ela era a única testemunha do crime. Veja como as coisas são. Ontem Marieta acusava Jade e pedia que ela se entregasse à policia. Mas, hoje, a mesma Marieta pedia que Jade fosse até a delegacia testemunhasse a favor do seu filho. Que ironia que a vida é. Não?

Jade ainda tinha o vídeo em que Lucas matava o investigador. Tudo parecia conspirar para que ela escapasse ilesa. Mas, uma pergunta pairava em sua mente. Será que era certo matar um homem e não prestar contas à justiça? Ela não havia dormido uma noite sequer sem pensar nisso. Todos os dias a imagem de Roberval com a camisa do flamengo e cara de inocente, vinha à sua lembrança. Sua consciência pesava com a imagem daquele homem.

Agora, Lucas estava longe da acusação de homicídio. O Ministério Público foi convencido de que tudo não passou de legitima defesa. E deixou que o filho da poderosa Marieta ficasse livre. Era a melhor escolha considerando quem era Dona Marieta na sociedade pernambucana.

Jade ainda não havia usado o vídeo para chantagear a megera, mas se preparou caso esse dia chegasse.

Algumas semanas depois do ocorrido com o investigador, Lucas e Jade foram a um parque a céu aberto em Recife. Naquele dia o sol brilhava intenso e uma brisa gostosa soprava sobre o lugar. Crianças corriam e brincavam felizes. Uns empinavam pipas, outros corriam com os cachorros e alguns mais corajosos subiam em árvores para pegar frutas.

Jade estendeu uma toalha na grama e sentou-se no meio das pernas de Lucas. Ele a abraçou e cheirou seu pescoço molhado. Um cheiro doce misturado com suor invadiu o coração de Lucas. Como ele gostava de fazer aquilo.

– Você ainda quer casar comigo? – perguntou Lucas.

– Claro que sim seu besta! – ela sorriu pra ele.

– Eu quero muito ser feliz contigo. Formar uma família e ser pai também. Quero ter três filhos! E você? – perguntou Lucas observando as crianças brincarem.

Jade afastou-se e o encarou. – Não quero falar sobre isso!

– Mas, por quê? Você não quer ter filhos? – perguntou Lucas.

– Claro que sim. Eu sempre quis ter filhos.

– Parece que falar sobre isso te incomoda. O que aconteceu? – ele perguntou.

Jade estava visivelmente desconfortável.

– Você nem sabe o que tá dizendo. Sempre foi um sonho meu ser mãe. Mas, eu não posso! – disse Jade com os olhos marejados e a voz embargada.

– Por quê? Algum problema com você?

– Sim! Eu sempre quis ser mãe. E quando percebi que eu não conseguiria, eu me envolvi com a creche. Cuidar das crianças me consolou, já que eu não poderia ter as minhas próprias.

– Nós podemos adotar uma criança! – disse ele compreensivo.

– Nunca mais vamos falar sobre isso – disse Jade levantando e saindo do parque.

Lucas correu atrás dela e gritou – Eu te amo mesmo assim Jade! E vou te fazer feliz de qualquer forma!

Ela parou no meio do caminho e girou a aliança entre os dedos. Era errado tudo que ela estava fazendo com ele. Jade não merecia ser tão amada pelo Lucas. Ela iria dar um fim naquela história. Não haveria mais casamento, assim ela decidiu.

Agora ela estava ali no meio de uma estrada deserta, com um homem morrendo e sem saber para onde ir. Fugir do casamento, naquele monomotor, lhe levara até ali. Era como se fosse uma lição dolorosa que ela tinha que aprender.

Jade rasgou um pedaço de tecido do banco da camionete e amarrou o braço de Licurgo, na esperança de estancar a sangria.

Os olhos do homem reviravam em colapso.

De repente saiu do meio da floresta o guarda florestal com chapéu de safari. Ele mancava, pois Gomes havia lhe dado uma flechada na perna.

 – Venham comigo! – disse o guarda.

– Meu amigo está morrendo! Não posso deixa-lo! – clamou Jade.

O guarda foi até a camionete D20 e arrancou a lona que cobria a carroceria.

– Deite-o na lona e vamos arrastá-lo! – ordenou o guarda que também estava ferido.

Olhando para Jade e Licurgo que estavam apenas com roupas íntimas e cobertos de sangue, não havia motivos para temê-los. Assim pensou o guarda.

– Ele não vai aguentar muito tempo – disse Jade se esforçando para puxar Licurgo que gemia de dor.

– Há um homem que pode ajuda-lo. Ele tem uma cabana aqui próximo, e ele é tipo um curandeiro, conhecido como doutor Pardal – afirmou o guarda.

– Eu me chamo Jade, e esse é meu amigo Licurgo. Como você se chama?

– Sávio!

– Obrigado por nos ajudar Sávio! – agradeceu Jade.

O corpo de Licurgo estava perdendo sangue e temperatura. Ele sentia muito frio.

Sávio retirou seu casaco e cobriu Licurgo.

– O que aconteceu com vocês? – ele perguntou.

– Nós íamos para a vila quando um homem ateou fogo na casa dele – ela disse olhando para Licurgo – entramos na floresta, pois tinha uns monstros nos perseguindo. Acabamos dentro de uma cova em busca do pó do dialobu para nos defendermos dos monstros, mas não deu tão certo o plano.

– Para que serve este pó? – perguntou Sávio.

– É tóxico para os monstros!

Eles deixaram a estrada de terra e entraram na floresta. O sol agora iluminava todo o ambiente.

No meio de uma clareira, uma cabana simples e aconchegante surgiu brilhando com os raios matutinos. Uma varanda segura onde se conta histórias para crianças dava as boas-vindas aos visitantes.

– Clóvis! Clóvis! Nós precisamos de ajuda! – gritava Sávio se aproximando da porta.

Um homem alto e magro abriu a porta ressabiado. Seus olhos eram cinzas e sua cabeça careca. A pele branca era cadavérica e ele tinha bolsões escuros ao redor dos olhos.

– Quem são essas pessoas guarda? – inquiriu o misterioso doutor Pardal.

– Eu os encontrei na floresta! Assim como eu, eles precisam de ajuda! Vamos, não temos tempo! – adiantou-se Sávio.

– Eles cheiram a morte. Não há o que fazer por eles – retrucou o doutor Pardal.

– Não importa. Você só precisa ajuda-los, mesmo que eles morram.

Doutor Pardal ainda reticente ajudou Sávio a carregar Licurgo para dentro da cabana.

O interior era limpo e aconchegante. Uma sala cheirosa e bem alinhada dava acesso a uma cozinha pequena e singela.

O doutor Pardal levou Licurgo para o quarto dos fundos e o deitou sobre a cama. Aonde era a mão de Licurgo, o sangue ainda pingava com insistência. O homem rapidamente aqueceu uma chapa de aço para cauterizar o punho de Licurgo.

– O que você vai fazer? – Jade perguntou enquanto acompanhava o Pardal entrar no quarto com a chapa quente.

– Precisamos cessar o sangramento! – respondeu o doutor.

O homem aproximou-se sem piedade de Licurgo. Ele apenas disse: – Aguente firme! Isso vai doer!

 A chapa que estava vermelha do calor se aproximou do punho que estava vermelho de sangue. O choque do aço com a carne ferida fez Licurgo morder a língua e desmaiar com a dor. O grito agudo antes do desmaio foi ouvido há quilômetros de distância.

MEMÓRIAS DE JADE

Jade estava super empolgada em ver os astros do Flamengo jogando na Arena de Pernambuco. Ela se preparou durante quatro semanas, organizando um camarote para o jogo beneficente que os craques do futebol fariam para as crianças do estado.

Dentro do estádio havia uma sala exclusiva para receber os convidados. Jade estava sozinha quando um homem alto, moreno usando a camisa do flamengo entrou e trancou a porta atrás de si.

– Quem é você? É melhor sair daqui. Essa é uma área exclusiva! – ela alertou com medo na voz.

O homem tinha um olhar sombrio de desejo. Suas mãos semiabertas pareciam querer apalpar algo.

– Eu sei! Eu só quero um tempo pra nós! – falou o homem.

Jade segurou um vaso que estava sobre um criado mudo e arremessou em direção ao flamenguista. Ele desviou e atacando Jade empurrou-a sobre a penteadeira. Mais um empurrão brusco e Jade bateu a cabeça na parede.

– Para! – gritava Jade em desespero.

– Você vai ser minha! – rugia o homem possesso.

Ele montou em cima dela e arrancou sua roupa. A voz dela foi silenciada com um murro que desprendeu dois dentes. Um outro murro e o olho de Jade inchou com uma bolha.

O homem abriu as pernas dela violentamente, enquanto isso uma carteirinha caia do bolso da camisa do flamengo. Jade viu quando o documento escorregou e parou próximo da mão dela.

De forma violenta o homem a possuiu. Jade tentava lutar mais ele sufocava seu pescoço e lhe batia cada vez mais. A dor, a vergonha e a incapacidade de reagir àquela violência marcaram o coração dela de ódio e vingança. Aquilo não iria ficar daquele jeito.

Sozinha, Jade levantou-se cambaleante e exaurida. Sentou-se em uma cadeira e chorando retirou o documento que o estuprador deixara cair.

Era uma carteirinha de sócio do clube do flamengo. No documento havia uma foto de um homem moreno cujo nome era ROBERVAL DE SOUZA E LIMA. O homem que Jade jurou matá-lo. Mas, não somente pelo estupro. Coisas piores ainda estavam por vir.

 

Naquela mesma noite, o estuprador saiu do estádio brincando com os amigos. No portão principal, uma multidão se aglomerava gritando e festejando.

O estuprador avistou seu irmão que estava acompanhado de sua filha Marcela. Ele correu em direção aos dois. – Meu irmão, você chegou cedo! – disse o estuprador.

– Tenho que dormir cedo! Vê se me passa logo a minha carteirinha! – pediu Roberval inocente.

O estuprador pôs a mão no bolso da camisa e não conseguiu encontrar o documento. Ele procurava nos bolsos da calça, em todos os lugares, mas não a encontrou.

– Eu acho que eu perdi sua carteirinha, Roberval! – disse o estuprador.

– Você é mesmo um irresponsável! Nunca mais te empresto nada! – respondeu Roberval chateado.

E assim, Roberval voltou para a sua família sem saber que estava correndo perigo. Seis meses depois, quando Jade descobriu onde ele morava, foi até a sua casa e meteu-lhe uma bala no peito. Achando que matara o seu estuprador. E, assim morreu Roberval. Inocente e por engano.

Agora ela estava na cabana, olhando a floresta através da janela. O medo, a culpa e uma tristeza inexplicável tomavam conta de seu peito. A sensação de que tudo se desmanchava e não havia mais jeito de se consertar.

Jade observou pregados nas paredes, os diplomas do doutor Pardal. Sua casa tinha uma aura de acolhimento e cura. Era um hospital rústico em meio à floresta.

– Será que podemos confiar nesse homem? – perguntou Jade para Sávio, o guarda florestal.

– Sim. O doutor Pardal é um velho conhecido do meu pai. Vive isolado há muitos anos depois que abandonou a carreira na medicina. Mas, como ele mesmo diz: ele abandonou a medicina, mas a medicina ainda o persegue – disse Sávio se aproximando da janela em que Jade estava encostada.

Um vento otimista soprou entre as arvores, como que lembrando que depois da tempestade vem a bonança.

– O que ele é seu? – perguntou Sávio sobre Licurgo.

– Um conhecido que me ajudou muito! – disse Jade.

– Ele tem sorte por você estar com ele. Não é todo mundo que quer ajudar alguém assim não!

– Eu só não queria que ele ficasse sozinho! Não podia mais errar assim com quem me ajudou – ela desabafou.

– Você é uma boa amiga então. É pra isso que servem os amigos, não é mesmo?

– Sim. É pra isso que servem os amigos – ela respondeu.

O doutor Pardal entra na sala com um jaleco branco manchado de sangue. Ele parece preocupado.

– Como ele está? – perguntou Jade esfregando as mãos.

– A situação dele não é nada boa. Mas, eu irei tentar salvá-lo – disse o doutor Pardal com um pesar na voz.

– Existe algo que podemos fazer para ajudar? – perguntou Sávio.

– Bem… Isso depende! – disse o Dr. Pardal fazendo mistério.

– O que podemos fazer senhor? – perguntou Jade ansiosa.

– Primeiro me respondam. Qual o tipo sanguíneo de vocês? – perguntou o Dr. Pardal limpando um bisturi no jaleco.

– O meu é A positivo! – respondeu de cara o guarda florestal.

Jade ficou pensativa.

– Você sabe o seu? – perguntou o Dr. Pardal.

– Sei sim – ela disse olhando para baixo.

– Qual seu tipo sanguíneo, querida? – insistiu o doutor.

– Eu sou doadora universal. Tipo O negativo – respondeu Jade voltando a fitar a floresta.

– Perfeito! O seu amigo está morrendo, pois perdeu muito sangue. Ele tem pouco tempo de vida. Então é preciso fazer uma transfusão completa de sangue. E, tivemos a sorte de ter você que é doadora universal. Vamos rápido, não podemos demorar. Quanto mais tempo passa, mais o seu amigo perde as chances de sobreviver – disse o doutor.

 

Jade continuava olhando a floresta sem expressar nenhum sentimento. Um vazio profundo tomou conta do seu ser. As coisas não podiam ser daquela forma.

– Eu não posso ajuda-lo – ela disse derramando uma lágrima de pesar – eu sou portadora do vírus HIV. Há um ano eu fui estuprada e contrai esse vírus. Eu não posso fazer nada – revelou Jade limpando as lágrimas que escorriam. Sua voz era grave e cheia de dor.

– Seu amigo irá morrer em poucas horas. Ele perdeu muito sangue! Não há meios de conseguir uma bolsa a tempo. Só queria deixar isso claro – disse o doutor enfiando as mãos nos bolsos.

Jade lembrava-se do dia em que marcou a data do seu casamento. Lucas queria muito casar no dia em que eles começaram a namorar. Ela concordou, pois a ideia parecia boa. Dia 12 de maio. Um dia ensolarado, no meio de uma praça e Lucas fazendo papel de palhaço com uma instituição que auxiliava crianças. “Dia 12 de maio, uma data perfeita, vai cair em um domingo, que coincidentemente é o dia das mães. Vocês vão casar no dia das mães. Que legal”, disse a cerimonialista empolgada.

Que ironia. Jade iria casar no dia das mães. Mesmo sabendo que nunca poderia ser mãe. “Você me empresta uma caneta?” pediu a cerimonialista enquanto eles liam o contrato do buffet. “Claro!” respondeu Jade, que enfiou a mão na bolsa e retirou uma carterinha. Um documento de um torcedor do flamengo. A carteirinha de Roberval.

“Obrigada” respondeu a cerimonialista pegando a caneta, enquanto Jade olhava detidamente a foto de Roberval. “Desgraçado. Destruiu minha vida, eu também irei destruir a sua”, ela pensava.

– Você está bem? – perguntou o doutor Pardal trazendo-a para o presente.

– E o que acontece se eu doar mesmo assim? – ela perguntou.

– Ele naturalmente ira contrair o vírus. Porém a transfusão poderá salvá-lo de imediato.

Um conflito nascia no coração de Jade. Ela não queria ter imaginado essa possibilidade. Todavia, se existia esperança de salvar o Licurgo ela assim faria. Ou pelo menos iria tentar fazer.

– Ele está acordado? – perguntou Jade ao médico.

– Ele está acordado, mas às vezes delira!

– Preciso falar com ele!

Jade entrou no quarto e apertou a mão de Licurgo.

– Você vai ficar bem amigo! – ela disse com os olhos marejados e o coração partido.

– Esmeralda! Preciso que você me faça um favor! Você pode fazer isso? – perguntou Licurgo arquejando.

Ela concordou e prestou atenção ao pedido dele.

– Eu preciso falar com ele! Ele pode me salvar! Ele irá me curar! – disse Licurgo.

– Mas, não sei como posso ajuda-lo. Nós perdemos o telefone! – avisou Jade.

– Não é o telefone! Eu tenho o número direto pra falar com ele. Eu só preciso de um telefone fixo. Você pode conseguir um para mim.

 

Alguns minutos depois, Jade entrou com o telefone fixo e deixou no colo de Licurgo. Ele estava fraco, mas conseguiu discar alguns números e aguardar a chamada.

– Está chamando! Ele nunca recusa uma ligação minha! – disse Licurgo tropeçando na voz e segurando o fone próximo ao ouvido.

– Vou deixa-lo sozinho! Se precisar é só chamar! – ela disse se afastando.

– Não esqueça Jade! Com ele eu nunca estou sozinho – Licurgo disse apontando para o telefone.

Ela saiu, mas não antes de escutá-lo dizer: – Que saudade, amigo! Que bom que atendeu. Preciso de ajuda!

Jade voltou para sala e não deixou de perceber os olhos que lhe interrogavam. O doutor Pardal e o guarda não entenderam o que acabara de acontecer. O que Licurgo estava fazendo com aquele telefone?

– É uma história longa. Mas, ele precisa falar ao telefone! – ela disse para os dois.

– Mas, o aparelho está quebrado e não há energia naquele quarto! Como ele pode fazer ligação? – perguntou Sávio.

– Ele não faz nenhuma ligação. Na verdade ele acha que fala com alguém. Sei lá, talvez um amigo imaginário. Alguém que cura e que lhe responde – ela disse naturalmente.

– Como você soube disso? – perguntou o doutor.

– Eu captei uma ligação dele através de rádio transmissão. Ele fala sozinho o tempo todo. Depois eu percebi que o telefone dele tinha uma linha fixa que somente fazia ligação. Ele não recebia nenhuma chamada. Mas, todo fim de tarde ele escutava o aparelho tocar. E conversava sozinho por horas a fio – ela revelou.

– Nossa! Que loucura! – Sávio disse assombrado.

– O tempo todo e ele achava que falava com alguém. Mas na verdade, não havia ninguém do outro lado da linha.

Licurgo clamou por Jade novamente. Na verdade, ele chamou por Esmeralda. Jade ainda não havia falado seu nome verdadeiro.

– Ele disse que vai me curar! Ele garantiu que vou sair daqui vivo! – disse Licurgo confiante.

– Sério? – disse Jade incrédula.

– É! Ele vai me tirar dessa! – garantiu Licurgo.

– Eu acho muito difícil isso acontecer amigo! Mas, eu posso te ajudar! – retrucou Jade.

– Ele não mente. É só aguardar e um milagre vai acontecer!

– Não existe milagre e não há ninguém pra te ajudar Licurgo – disse Jade puxando o telefone e mostrando o aparelho para ele – Esse telefone não funciona há anos. E não tem energia nesse quarto. Na verdade nem tomada tem aqui próximo. Veja por si mesmo!

Licurgo observou o telefone que não estava conectado a nenhuma tomada.

– A fé, é ver o invisível, JADE! – disse Licurgo fechando os olhos e entrando em colapso.

– Corram! Ele está morrendo! – ela gritou.

Jade afastou-se enquanto via Licurgo debater-se em convulsão.

Era o fim de Licurgo. E ela estava ali. Tão perto de salvá-lo. E ao mesmo tempo tão longe.

 

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