O Senhor das Trevas

 

Agitados e ao mesmo tempo exaustos, todos se sentiram mais seguros ao retornarem ao acampamento.

— Cuidaremos de Luzinete. O ferimento não é fatal… — disse Marte.

— Senhor, trago notícias sobre a barreira — disse aflito um dos guerreiros do acampamento assim que entrou na tenda.

— Prossiga, guerreiro — disse Marte, temendo o pior.

— Mais um titã caiu. O campo que separa nossos universos enfraqueceu ainda mais. Rastreadores transitam agora entre os dois mundos sem a menor resistência.

O Orientador, quieto e atento à informação, olhou para as mãos e notou que estavam desaparecendo. Escondeu-as discretamente para que o menino não ficasse ainda mais abalado. Marte ficou preocupado.

— A situação é crítica. Precisamos fazer algo. O menino, sim, somente ele é capaz encontrar o Senhor Supremo. Sua força deterá o inimigo.

Nathan, bastante assustado e preocupado com Luzinete, disse.

— Esperem, por favor. Olha, eu não sou a pessoa certa. Nem sei o que faço aqui. Olhem só isso: Luzi foi ferida por minha causa, guerra, os morbs, rastreadores, todos estão atrás de nós. Agora vocês dizem que salvarei os dois mundos! Isso é demais para minha cabeça! Quero ter uma vida normal, voltar para o meu mundo. Vivo sem pai, com uma mãe que acabou de sair de uma doença, com irmãs que não dão a mínima para mim… e ainda apanho dos garotos da escola. Essa é a vida que eu conheço. Aliás, nem esperança eu tenho! − Todos ouviam calados o desabafo do menino, que continuou. — Sei que sou chato, mas é o que sou. De repente, me tornar um salvador, que deve encontrar um tal de Senhor Supremo e assim tudo ficará bem; ora, não é justo! Quero voltar para a minha casa. Chega de monstros, Hemolúpus, e seja lá o que mais existir. Não tenho nada a ver com os problemas que vocês arrumaram.

O Orientador aproximou-se do garoto, sentou-se ao seu lado, com carinho disse:

— Filho, sei bem o que sente. Às vezes nos perguntamos por que vivemos da forma como vivemos. Tudo tem um propósito. Certas coisas acontecem para nos fortalecer. E você ficou forte, talvez bem antes do que deveria. Os libertos são especiais, portadores sim de uma energia sem igual.

— Mas por que eu?

— Você foi quem demonstrou mais coragem. E nunca desistiu de ter esperança na vida. Muitos se acovardam diante dela. Preferem um caminho mais fácil que só leva à destruição. Mas você… você superou todas as nossas expectativas. Somente um liberto corajoso, puro de coração, poderia ser o elo entre nós e a força criadora.

Marte interrompeu a conversa:

– Alerto a todos sobre a necessidade de localizarem o Senhor Supremo agora. – O Orientador prosseguiu apesar do alerta:

— Podemos contar com você?

— Tudo bem. — Disse Nathan, ainda meio relutante. — O que eu tenho que fazer?

— Pegue a base da esfera — ordenou Marte ao seu auxiliar.

Ao colocar a esfera sobre a base, todos ficaram atentos. Mas nada aconteceu.

— E agora? — Indagou o menino decepcionado, enquanto todos se entreolhavam. O garoto tocou levemente a esfera. “Por que não acontece nada?”, pensou.

Subitamente, para espanto de todos, a esfera tornou-se opaca. Do seu interior emergiu uma luz esverdeada que começou a pulsar. Nathan fixou o olhar naquela pulsação hipnotizante. Quanto mais olhava, mais calmo ficava, até que, surgiu em sua mente a imagem de um lugar. Parecia calmo e simples. “Estou me sentindo bem”, pensou ele, admirando a paisagem. Um campo verdejante longínquo, sob um calmo amanhecer, totalmente coberto de flores brancas. Ao longe havia um lago azul. A luz sobre as ondulações produzia reflexos dourados e prateados. O ambiente estava imerso em paz. Pássaros coloridos voavam e cantavam livremente. O suave perfume das flores impregnava a atmosfera. O terror e o vazio não mais faziam sentido.

A sensação de ser acolhido foi tão intensa que Nathan chegou a pensar em nunca mais sair dali. O lago despertou sua atenção. À sua beira, um garoto brincava de atirar pedras para vê-las quicar na superfície. Ficou em dúvida se deveria ou não se aproximar. De repente, o garoto parou a brincadeira e olhou para trás. Tinha um sorriso de boas-vindas.

— Venha. Preciso falar com você…

Nathan perdeu as forças e a imagem se dissipou. Tirou as mãos da esfera e, enfraquecido, caiu nos braços do Orientador, que não conteve a ansiedade:

— O que viu? Diga o que viu.

— Vi… vi um menino. Ele queria falar comigo — respondeu Nathan, ofegante

e com o olhar perdido.

— Deve ser magia. Precisamos ter cuidado — alertou Marte.

— Acho pouco provável — opinou o Orientador. — Quem sabe o menino não é …

— O Senhor Supremo! — Completou Nathan.

Todos ficaram perplexos. “Um garoto? Como assim?”.

— Ele disse que quer falar comigo — repetiu.

— Onde ele está? — Indagou Marte.

— Não sei. Ele não disse. O lugar é maravilhoso. Sinto como se eu ainda estivesse lá.

Por um momento, todos ficaram pensativos. Tentavam encontrar uma direção, até que finalmente o Orientador teve uma ideia.

— Filho, lembra-se das lições de deslocamento, não?

— Deslocamento?… Sim, como aquela vez em que eu tinha que me sentir como se estivesse no local para onde eu queria me transportar?

— Isso mesmo. A sensação poderá direcioná-lo para lá, e assim…

—… Falar com o Senhor Supremo — interrompeu o garoto.

— Quem garante que é o Senhor Supremo? — Perguntou Marte, sempre cauteloso.

— A sensação verdadeira não nos deixa enganar. É como uma certeza. Estou aprendendo a ouvi-la.

— Podemos nos enganar. De qualquer forma temos que arriscar. O garoto é o único que pode encontrá-lo — afirmou Marte. — Mas ir sozinho pode ser perigoso — completou.

— Acredito que o verdadeiro perigo esteja próximo agora. Os rastreadores já devem ter sentido esse contato. A energia do menino está diferente. Posso sentir isso — constatou o Orientador.

Nathan pôs-se de pé e declarou:

— Estou pronto para encontrar o Senhor Supremo…

Nem bem terminara a frase, algo estranho aconteceu. Nathan sentiu uma forte dor na nuca e uma ardência por toda a espinha. Juntamente com a dor, aflorou uma enorme tristeza. Seu olhar ficou paralisado. Luzinete notou que algo estava errado. Agoniada, tentou voar para acudir o menino, mas sua asa ferida não permitiu. Marte ficou em alerta. O Orientador correu para abraçá-lo e perguntou:

— O que sente? —Mas o menino não conseguia responder.

— Sinto cheiro de morte. Os rastreadores! — Exclamou Marte. — Eles estão aqui.

— Não consigo vê-los — rebateu o Orientador. — Não, não pode ser eles.

Nathan sentia-se estranho. Uma profunda tristeza obscureceu sua mente. Algo sugava suas forças. Junto com a falta de vitalidade, cenas de sua vida desfilavam diante de seus olhos. A cada lembrança, sua tristeza aumentava. A descrença e a dúvida tomaram conta dele. A falta de sentido de estar lá, aqueles seres, aquela situação, tudo lhe parecia loucura. O ambiente à sua volta escureceu. Todos ali presentes desapareceram. Nathan agora estava só, mergulhado em profunda escuridão.

— Que sonho é esse? Quero voltar.

Seu rosto estava endurecido, o olhar irradiava ódio.

— Que interessante! — Exclamou uma voz saída da densa escuridão.

— Quem disse isso? — Perguntou o garoto, olhando em torno.

— Ficou arisco de repente. Sabia que eu ia vir, não é? Você me sentiu! — Continuou a voz em tom provocativo.

— Quero sair daqui. Quem é você?

— Boa pergunta. O quanto quer saber de mim? — Retrucou a voz. — Acredita que está livre? Claro que não. Seus sentimentos o aprisionam a mim. Sei mais sobre você do que imagina. Sei, por exemplo, que é curioso. Se quiser me conhecer, basta falarmos sobre você. Muito do que sente, eu também sinto. Somos parecidos. Sei que está triste. Isso também me entristece. Mas podemos reverter isso.

— Como?

— Basta conversarmos um pouco sobre as coisas que limitam a vidinha medíocre que você leva — respondeu a voz.

— Quero sair daqui! — Gritou Nathan.

— Ótimo! É desse jeito que eu gosto. A doce revolta da alma me alimenta. Sim, devo me apresentar. Sou aquele que gosta de reformas, de coisas novas e de uma vida dinâmica. Injustamente vocês me chamam de inimigo.

Do meio da escuridão emergiu um homem, vestido de terno, camisa e gravata pretos. Tinha um ar bem arrogante.

— Pensei…

— Já sei — interrompeu. — Pensou que ia ver um ser de chifre, tridente e rabo. Essa imagem é história para boi dormir.

— Você não me assusta — disse Nathan com os dentes travados.

— Claro que não. E sabe por quê? Porque faço parte do seu dia a dia. Dessa sua estúpida vida de ser humano. Estou tão perto de você que já se acostumou.

— Perto? Nunca estive perto de você. Jamais ficaria.

— Os seres humanos são carentes e são seres invejosos, em permanente angústia. Adoecem mentalmente e enfraquecem. É aí que eu entro em cena. Meu reino está na mente de cada ser vivente comum. É fácil tolher a liberdade humana; basta obscurecer qualquer possibilidade de uma vida plena. Diante da menor dificuldade, entram em pânico e perdem a esperança.

— Impossível. Você não tem o poder de dominar as pessoas.

— Como é tolo e arrogante! Não sou eu que as domino. São as pessoas que se oferecem. Veja você, com esses olhos vermelhos, falando com os dentes travados de ódio. É exatamente isso que preciso para dominá-lo. Quem odeia não pensa.

Nathan tentava escapar, mas algo o impedia, como grilhões invisíveis que o deixavam pesado e sem ação. O Senhor das Trevas continuou seu discurso:

— Lembra-se de sua mãe doentinha?

— Que tem ela?

— Se não fosse aquele serzinho imundo a libertá-la, teria sido um exemplo típico de trabalho em equipe. Depois que seu pai desapareceu, meus auxiliares tentaram enfraquecer você.

— O que tenho a ver com tudo isso? O que quer de mim? Não pedi para estar aqui. Deixe-me sair daqui — choramingou Nathan.

— Quero sua energia. Ela é valiosa. Se absorvê-la agora, meu poder aumentará. Ninguém se compara a mim nem aquele idiota do Senhor-que-se-acha-Supremo. Serei absoluto.

— Se é isso que você quer… — Nathan fez uma pausa, deixando o Senhor das Trevas ansioso — isso você não terá — completou o menino, despertando a ira do ser obscuro.

— Não brinque comigo, garoto. Você não tem escolha. Neste exato momento, existe um Hemolúpus rondando sua casa. Sua mãe está vulnerável. Em breve, a um simples comando meu, ele atacará. E você está fraquinho demais para reagir. Mas posso deixar as coisas mais leves. Basta confiar em mim.

Nathan ficou calado, sem saber o que fazer. Seu destino estava agora nas mãos daquele maligno.

— Agora vou convencê-lo a me servir. — Ao dizer aquilo, o ambiente ficou denso. Uma atmosfera fedorenta impedia o garoto de raciocinar. Uma neblina formou-se diante de seus olhos e dentro dela surgiu uma imagem. Horrorizado, Nathan viu mais um Drúmon caído. E sobre seu gigantesco corpo, os Morbs, centenas deles, saltavam em direção à barreira.

— Viu, garoto? Você ainda acha que pode fazer algo contra mim? Os morbs já não encontram resistência. Em breve seu mundo estará sob meu total domínio.

Num ato desesperado, Nathan disse:

— Está bem. Eu lhe darei minha energia.

— Nathan, Nathan, essa foi uma bela escolha! O mártir salvador. Vocês, humanos, se acham bonzinhos, cheios de amor ao próximo. Que idiotice! Jamais conhecerão o significado do amor ao próximo porque isso não existe. Por outro lado, devo confessar que sua decisão foi inteligente — disse o inimigo, com ansiedade no olhar. E continuou:

— Antes de arrancar sua energia, deve saber que o seu sacrifício é para o bem da humanidade cínica e hipócrita. Ora, veja: enquanto alguns crescem em berço de ouro, outros são comidos por ratos e insetos. Enquanto alguns ganham presentinhos, outros recebem balas de fuzis na cabeça. Como vê, garoto, o mal faz parte da vida. ESSE É O MEU MUNDO.

— NÃO É VERDADE — gritou Nathan.

— Ah, não? Veja você, garoto. Tão bonzinho e só apanhava na escola. Seus amigos (que amigos!) o maltratavam porque você é pobre e veste roupas que mais parecem trapos. Suas irmãs o veem como um móvel, um mero objeto dentro de casa. E sua mãe, então, aquela sombra de vida; refugiou-se no quarto depois que seu pai…

— CALE A BOCA, SEU DEMÔNIO — gritou Nathan, engasgado pelas lágrimas. — ACABE LOGO COMIGO. O QUE VOCÊ ESTÁ ESPERANDO?

— Ora, veja. O bobinho chora. — O ser maligno segurou Nathan pelo rosto com sua mão em forma de garra e ergueu-o para fitar-lhe diretamente nos olhos. — Esta é a sua medíocre vida. Você acha que o bem sempre vence? — O menino, com muito esforço, fez que sim com a cabeça. — Então explique por que o Senhor Supremo teve que pedir ajuda a um garotinho. Não acha isso interessante?

Nathan deixou de se debater e, ainda sem poder se mexer, sentiu a esperança se esvair. O inimigo deu as costas e disse:

— Há certas coisas que não podem ser mudadas. Aquilo que chama de “mal” é na verdade a força que faz tudo funcionar. Seu mundo gira ao redor do que eu faço. Crianças brincam com armas, pessoas aparentemente decentes consomem e comercializam drogas, outros que se acham influentes contratam matadores para “remover os empecilhos” de suas vidas e por aí vai. Esse é um mecanismo que nunca mudará. O mal está em tudo, até nos menores atos. Tem até gente que bate nos outros por causa de um resto de salgadinho!

O inimigo parou por um instante para pensar e ampliar seus argumentos. Queria enfraquecer ainda mais o menino, que tentava desesperadamente escapar. Nathan lembrou-se, então, do que o Orientador lhe ensinara: a capacidade de se transportar. Mesmo fraco, reuniu forças para ativar o resto de energia que ainda possuía. Bastava somente visualizar o lugar-alvo e sentir-se lá. Era só isso o que tinha que fazer. Mas estava tão cansado que o simples ato de pensar lhe parecia um fardo enorme. Mesmo assim decidiu tentar. Esforçou-se mais uma vez, mas pouco pôde sentir. Até que, recordou de uma visão que tivera enquanto olhava para a esfera poucos momentos antes de cair nas garras do inimigo. Era exatamente o que precisava para sair dali. A lembrança da esfera foi suficiente para renovar a esperança e evocar a imagem do paraíso, local onde o Senhor Supremo o aguardava. Assim, a imagem, antes fraca como uma leve neblina, foi se compondo de forma nítida, forte, clara, a ponto de produzir uma força reanimadora e potente.

“Nada vai me manter aqui”, pensou Nathan, com um discreto sorriso de vitória e de desprezo por aquele lugar deprimente.

Fechou os olhos e iniciou a transferência. O mal sentiu que algo estava errado. Parou de falar e desesperado gritou:

— NÃO, NÃO, ISSO NÃO!

Nathan ficou transparente e sentiu-se sobrevoando o paraíso. Por fim, transferiu-se para onde sua mente estava. O inimigo vociferou e praguejou ao ver que o garoto havia desaparecido. Mas seus gritos aos poucos se distanciaram. As últimas palavras foram:

— VOCÊ É MEU, GAROTO…

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