A terra dos Morbs

 

Todos chegaram bem, com exceção de Luzinete, que tremeluzia de um lado para o outro, ansiosa e atrapalhada.

— Calma, Luzi. Sei que aqui é perigoso. Também sinto o mesmo. Fique calma. — Disse Nathan. Contudo, Luzinete parecia pressentir algo.

Cerca de cinquenta guerreiros estavam em alerta e Marte assumiu a linha de frente. O Orientador manteve Nathan sob sua proteção. Aquele local certamente era hostil. O ambiente causava uma sensação desagradável no estômago. O silêncio era o prenúncio de que a batalha estava por vir. Todo guerreiro reconhece muito bem o aviso.

A atmosfera era densa, nojenta. De onde estavam, era possível avistar um vale, um abismo de sombras no meio das montanhas desbastadas. Do outro lado, as encostas escuras se erguiam como muralhas. Tudo era negro, do céu à terra. Bem ao longe, a única coisa a vista era a morada dos Morbs, iluminada pelas fornalhas que queimavam como o próprio inferno. Marte ordenou a formação de um grupo avançado para explorar o local mais de perto, pois, ouvira, certa vez, que a base da esfera estava escondida na construção central, mas ninguém sabia ao certo onde.

— Como saberemos se estamos no caminho correto? — Quis saber o garoto.

— Verdade e honestidade jamais nos deixam à deriva. Nosso propósito justo nos mostrará para onde seguir — respondeu Marte.

Foi dada a ordem para que um grupo de sete guerreiros se organizasse. O Orientador, Nathan e Luzinete também foram escalados para auxiliar.

— Certifique-se de que a esfera esteja sempre com você, garoto. Não a perca — alertou Marte, preparando-se para a perigosa missão. Nathan imediatamente pôs a mão sob a camisa para certificar-se de que a esfera estava segura.

Rumaram, então, para o vale. Andavam com dificuldade no caminho palidamente iluminado por duas luas mirradas. Era uma trilha pedregosa, com cheiro de podridão. A certa altura, dois guerreiros que caminhavam à frente fizeram um sinal para o grupo se esconder. Alguém se aproximava. Nathan ocultou-se nas sombras, atrás de umas rochas. O Orientador e Luzi fizeram o mesmo. Os demais se espalharam, camuflando-se em meio à escuridão.

A visão estava comprometida, pois o caminho era cheio de curvas. Ninguém enxergaria nada a menos que se expusesse perigosamente. Ao aquietarem-se, Nathan foi o primeiro a ouvir o arrastar e tropeços, como se várias pessoas caminhassem com muita dificuldade. Ouvia-se guinchos e rosnares de animais ferozes. Havia perigo no ar. O som aumentou de intensidade. Foi quando o menino avistou um grupo de pessoas. Pareciam viventes comuns. Caminhavam em fila única, com as mãos amarradas e os pescoços acorrentados uns aos outros. Hemolúpus, vários deles, ligavam-se à garganta de cada um. Nathan ergueu-se um pouco mais para ter certeza do que vira. Uma daquelas pessoas, quase sem forças, olhou para ele. O menino ficou aterrorizado ao perceber seus olhos fundos, a feição cadavérica e o corpo deformado. Submetidos a torturas absurdamente cruéis, eles exalavam um cheiro nauseante. Os sentidos de Nathan vacilaram e a mente escureceu. Cambaleou para trás e recostou numa pedra. Um Hemolúpus o farejou, mas, por estar conectado, não pôde abandonar sua vítima. Rosnou e prosseguiu.

O Orientador, ao ver que o menino balançava a cabeça de um lado para o outro e, com as mãos estendidas tateava o ar, tomou-o nos braços no exato momento em que desfalecia.

Enfim, a procissão de condenados desapareceu em meio à escuridão. Foi quando Marte surgiu. Veio assegurar-se de que estavam todos bem. Nathan ainda se recuperava.

— Nunca vi tantas pessoas capturadas! Isso é um péssimo sinal. Temos que agir rápido — disse Marte.

Com a urgência a pressioná-los, certificaram-se de que o caminho estava livre. Decidiram, então, prosseguir. De onde estavam, já era possível avistar o local onde os Morbs se agrupavam. Estavam agitados. Seres grotescos, rústicos, que se agrediam constantemente com extrema violência e sem nenhum motivo. Seus rostos acinzentados, deformados e gosmentos representavam a pura face do horror.

O grupo aproximou-se do local. Marte definiu uma estratégia para não serem vistos. Luzinete, Nathan e o Orientador deveriam permanecer escondidos. O plano era enviar uma equipe para vasculhar as principais construções em busca da base da esfera de cristal, uma missão quase suicida no caso de uma falha, mesmo que pequena.

— Fiquem escondidos neste poço. Assim que acharmos a base, retornaremos e partiremos sem demora para o local que a esfera indicar — determinou Marte.

Ao ouvir a ordem, Luzinete tremeu. Mais do que depressa, o Orientador segurou Nathan pelo braço e puxou-o para o poço. Luzinete diminuiu sua luz para não ser percebida. Nathan cochichou:

— Será que conseguirão?

— Tenho fé que sim — respondeu o Orientador — mas não será fácil. Os Morbs já sabem que estamos aqui.

Enfim, saltaram para dentro do poço. O grupo avançado se distanciou.

— Vô, não acho boa ideia ficarmos aqui. É perigoso demais. Temos mais chances de encontrar a base se formos com eles — cochichou o inquieto garoto.

— Se os Morbs nos acharem, duvido que tenhamos chance de escapar. Acabaríamos virando zumbis feito aqueles que vimos lá trás — retrucou o avô.

Luzinete tremia sem parar.

— Luzi percebe alguma coisa. Silêncio — disse o Orientador. Nathan cuidadosamente botou a cabeça para fora do poço. De um lado, nada viu. Ao virar-se para o outro lado, contudo, avistou duas sombras escuras e sombrias. Vigiavam um pouco mais à frente do esconderijo, provavelmente a procura de seres viventes comuns desgarrados. A luz das fornalhas lá adiante permitiu que Nathan enxergasse seus contornos.

— O que são eles?

— Deixe-me ver – disse o Orientador com dificuldade de erguer a cabeça. Assim que os avistou, arregalou os olhos, a boca abriu. Quase soltou um berro, mas se conteve. Então se agachou. Gaguejando e desesperado respondeu:

— Ra-Rastreadores!

E fez sinal para que o menino permanecesse em silêncio. Luzinete, no entanto, tremia mais ainda e num impulso de desespero, saltou para fora do poço:

— Luzi, volte aqui. Aonde você vai? — Chiou o menino.

No intuito de despistá-los, Luzinete decidiu atrair a atenção para longe do poço.

— NÃO LUZI, VOLTE AQUI! — Disse o menino, mas o senso de proteção de Luzinete não a deixou prestar atenção no alerta. Um dos rastreadores, ao vê-la, esticou o braço e conseguiu capturá-la. O outro precipitou-se até o poço e, com mãos fortes, arrancou o Orientador e Nathan de lá.

— Não façam nada com ela! — Implorou o garoto, que se debatia dependurado.

Aqueles espectros negros e mudos decidiram entregar os três aos Morbs. Era possível ouvir a cantoria grotesca, o ressoar de gongos, chibatadas e gritos hediondos conforme se aproximavam do acampamento morb. Foram arremessados em meio a uma espécie de clareira, que logo foi invadida por dezenas de seres famintos. Luzinete depois de quase ter sido devorada pelo rastreador, conseguiu escapar e se escondeu debaixo da camisa de Nathan. O tecido fino, porém, deixava transparecer um brilho azulado que emanava de seu corpinho.

— Luzi, pare de brilhar. Vai chamar a atenção deles. — Nathan ergueu parcialmente a camisa e constatou que ela estava apagada. “Mas o que é, então, que brilha?” – Pensou. Ele ergueu um pouco mais a camisa e viu que era a esfera. Talvez um aviso de que a base estava próxima.

— Esconda logo isso — recomendou o Orientador em voz baixa.

Impossível seria sair dali, já que, eram o centro das atenções. E nenhum sinal de Marte e do grupo avançado. O burburinho sinistro daquelas vozes monstruosas só aumentava, e já se transformava em gritos pavorosos e grunhidos.

Lá adiante, Nathan viu que a aglomeração abria passagem para alguém passar. Numa enorme biga puxada por dois seres gigantes, parecidos com lagartos. Tinham um cheiro horrível de carne podre. Quem os controlava era um Morb. Provavelmente o líder.

Com um grunhido ininteligível, o líder deu o comando para que separassem os prisioneiros. Nathan, o Orientador e Luzi foram colocados a cinco metros de distância um do outro. Um morb agarrou a pequenina Luzinete, que desesperada tentava escapar batendo as asinhas. Ele tentava a todo custo beijá-la e lambê-la, mas foi contido com um safanão por outro morb. O prazer de devorá-la seria reservado somente ao líder. Nathan gritou furioso:

— TIRE SUAS GARRAS IMUNDAS DE CIMA DELA.

O morb rosnou e, num ato de provocação, esticou a língua para fora e lambeu-a. Aquela saliva pútrida quase fez Luzinete desmaiar.

— SEU PORCO IMUNDO! — Gritou Nathan, enraivecido.

Luzinete fechou os olhinhos e bateu as asinhas, jogando o corpinho para trás para evitar que o monstro a lambesse novamente.

O líder morb com um assobio chamou três Hemolúpus. Posicionaram-se cada um à frente de um prisioneiro. Eram enormes, escuros, com olhos e bocas sanguinolentos, um horror difícil de encarar. O que estava diante de Nathan aproximou-se lentamente. Arreganhando os dentes e rosnando, esticou um tentáculo de seu pescoço em direção do garoto. Desesperado, Nathan olhou à sua volta na tentativa de conseguir alguma ajuda.

Quando faltavam poucos centímetros para a conexão ocorrer, viu-se um clarão no céu, forte o bastante para deixar os Morbs e os Hemolúpus completamente ofuscados. Essa foi a chance de Nathan correr e resgatar Luzinete. Sob uma chuva de flechas, correram. O Orientador seguiu-os. Não muito longe dali, encontraram um labirinto de rochas que dava numa gruta. Ótimo lugar para retardar os perseguidores. Marte e a equipe avançada estavam por trás daquela façanha. Ainda ofuscados, os morbs corriam para todos os lados e, aos encontrões, tentavam escapar da luz.

De onde estava, Nathan notou, pendurado na biga do líder morb, um objeto que brilhava na mesma cor azul da esfera.

Ao virar-se para avisar o Orientador, deparou-se com Luzinete jogada ao chão e com uma das asinhas rasgada por uma flecha que a atingiu de raspão.

— LUZI, ESTÁ FERIDA! — Gritou ele.

Estava caidinha com os olhos fechados. Cuidadosamente, Nathan aninhou-a com extrema delicadeza em seus braços e levou-a para perto do Orientador. Com os olhos cheios de lágrima, perguntou:

— Ela ficará boa?

— Espero que sim. Faremos o possível para ajudá-la.

— Foi minha culpa. Ela me salvou — disse o garoto, em prantos. Neste instante, Marte e o grupo avançado chegaram.

— Vamos sair daqui. – Ordenou Marte.

— A base! Ela está com o líder morb. – Disse o garoto. Marte abriu as duas mãos e colocou-as bem diante dos olhos. As mãos ficaram transparentes e serviram como lentes de aumento tal qual um binóculo.

— Isso mesmo! Por sorte, você achou a base da esfera. Vamos aproveitar a chance. Os morbs estão sob a influência da luz. Temos de trazê-la imediatamente.

— E como faremos isso? – Indagou o Orientador.

— O pássaro azul. Ele abrirá a passagem. A ideia é a seguinte: Irei desaparecer e surgir bem ao lado do lagarto. Pego a base e retorno. Em seguida, fugiremos para o nosso acampamento. Estejam prontos assim que eu retornar.

Marte desapareceu em meio a um clarão. A espera seria mais que torturante. Nathan teve dificuldades de se conter. Foi à abertura da gruta de onde podia ver o líder morb. Ele parecia agitado e ordenava que fizessem buscas para encontrar os fugitivos. Subitamente, Marte apareceu, por pouco não foi pisoteado pelo lagarto gigante. Nathan avisou:

— Marte está bem ao lado do líder morb.

Com dificuldade, Marte pegou a base da esfera presa à cela. Mas o líder morb o viu. Seus olhos transbordaram ódio. Ergueu a lança. E quando ia golpear Marte, este desapareceu ressurgindo de volta à gruta:

— Vamos! Pássaro azul, abra a passagem.

A ave bateu suas asas e o turbilhão se formou.

Ao ver que a lança passou no vazio, o líder morb esbravejou e vociferou coisas impronunciáveis.

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