De jantares e gentileza
Contos

De jantares e gentileza

Escrito por: Francisco Siqueira27/06/2026 - 21:00

O verdadeiro mistério do mundo é o visível, não o invisível.        Oscar Wilde

 

Imagem do post De jantares e gentileza em Conto - WidcyberAo menos duas vezes na semana, Tomas passou a jantar naquele restaurante inaugurado há pouco mais de dois meses, próximo ao apartamento em que morava. Com o tempo, sem precisar exatamente quando, começou a perceber que o garçom que sempre o atendia lhe dispensava atenção, olhares e sorrisos que, do seu ponto de vista, extrapolavam a simpatia necessária. Considerou, a princípio, estar equivocado; contudo, aqueles olhares, carregados de um impulso de ver e de se fazer notar, somados aos sorrisos incertos e às atenções sobremaneira, continuaram e, tão logo, foram seguidos também por algumas piscadelas, sempre antes do garçom se afastar, após anotar o pedido num tablet. Mas, além disso, nenhum avanço, nenhum movimento que fugisse à dinâmica derivada do próprio menu.

Com efeito, Tomas voltou a se questionar se estava vendo coisas onde não existiam — sinais e silêncios, uma zona instável pra se aventurar. Mas pelo amor de Oscar Wilde, claro que não. Não depois de todo o malabarismo a que aquele jovem havia se proposto nas últimas cinco semanas. Estava na cara que o lindinho queria servir algo além do que havia naquele cardápio. Talvez a timidez o impedisse de ir adiante. Ele mesmo, Tomas, a muitas, muitas luas atrás, perdera infinitas oportunidades por causa do acanhamento — uma pena. Ou, vai saber o boy só estava agindo daquela maneira por estar no ambiente de trabalho. Quem nunca?

Que seja. Diante da indecisão do outro, decido eu”, determinou Tomas a si mesmo, veemente, começando a sondar o rapaz que, para sua surpresa, se mostrou arredio em todas as tentativas de interação, mesmo com Tomas tratando de manter a sutileza em cada uma delas. Fazer o quê? Vida que segue, Tomas sentenciou, já em vias de desistência, quando, súbito, o bonito lhe contou que se chamava Gabriel, tinha 26 anos e aquele restaurante era o seu segundo emprego na vida.

Aleluia! Só que não.

Logo a roda voltou a travar, emperrada em meio aos sorrisos, olhares incertos e piscadelas. Mas, ora, ora, com um bônus inesperado: furtivas espiadas na direção da virilha de Tomas, o que ele precisou fingir ignorar, pois, das duas vezes em que acompanhou o olhar de Gabriel e tentou devolver o agrado, percebeu o príncipe à beira de uma síncope.

Espero que esse moçoilo ao menos valha o motel”, arrematou Tomas, resiliente, refletindo sobre como dar um xeque-mate naquele confuso jogo de sedução. Decidiu, por fim, enviar um discreto arranjo de cravos vermelhos para Gabriel, acompanhado de um cartão com apenas o número do seu celular — vai que alguém no restaurante fosse um sem-noção. Uma péssima ideia, não demorou a descobrir.

— De quem é esse número?

— Olá, Gabriel. Tudo bem? — cumprimentou Tomas, enfático, a amabilidade acompanhada de uma sutil reprimenda. — Sou o Tomas, aquele que sempre pede uma água com gás sem gelo e dois limões.

Um minuto de silêncio.

— Cara, qual o seu problema?

— Como assim?

— Por que me mandou essas flores?

— Quis ser gentil e também demonstrar recepti…

— Cara — irrompeu Gabriel sem pestanejar —, você não devia ter feito isso. Por que não falou comigo? As coisas entre a gente estavam andando…

— Jura? Andando para onde?

— Agora tá todo mundo me zoando aqui no trabalho…

— Mas por quê?

— Por quê? Por que você me mandou flores.

— E o que há demais em receber flores?

— Só quem manda flores são homens.

— Mas quem disse ou determinou isso?

— Todo mundo.

— Todo mundo é muita gente…

— Cara, você não tem ideia do quanto estou sendo zoado por aqui…

— Não. Não tenho.

— Não vai pedir desculpas? — cobrou Gabriel, a voz marcada pela obstinação, como se exigisse a confissão de um criminoso.

— Pelo quê?

— Estão achando que sou veado.

— Mas é claro.

Tomas desligou sem mais delongas. Que diálogo era aquele que tinha acabado de travar? E que mundo tacanho era aquele em que estava vivendo, onde, em pleno século 21, enviar ou receber flores ainda era uma questão de gênero e, como se não bastasse, também de orientação sexual? Uma ofensa, até?

No intuito de evitar uma situação ainda mais desconfortável, Tomas ficou por algumas semanas sem retornar ao restaurante. No início, se viu puto consigo mesmo, até concluir que não havia motivo para tanto, afinal, como bem disse Caetano, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, e ele, Tomas, já tinha deixado para trás, há muito, fantasmas e vergonhas relacionados à sua homossexualidade. Quando decidiu, enfim, botar os pés novamente por lá, não encontrou Gabriel — nem naquela noite, nem nas demais. Deu de ombros e então pediu seu jantar. Enquanto aguardava, não pôde evitar que fragmentos daquela situação, no mínimo disparatada, voltassem a passear diante de si, ao tempo que também não pôde deixar de torcer para que Gabriel e tantos outros moçoilos compreendessem, em algum momento de suas vidas, que, tal como as rosas, cravos vermelhos também não falam e nem têm a pretensão de acusar ninguém, seja lá do que for.

Jantar servido.

Um brinde à gentileza.

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