A Candidata memórias

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A Candidata: Memórias

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A CANDIDATA: MEMÓRIAS

EPISÓDIO ESPECIAL

 

*

2001

– Não!

O grito de Laurinda cortou o silêncio de Timbaúba. Os pássaros, assustados, fugiram da copa das árvores, cantando.

– Não, meu Deus, não!

A conversa corria a cidade mais rápido do que o som dos gritos. De porta em porta, de mesa de bar em mesa de bar, a notícia já chegara, como o canto de uma acauã, rasga mortalha anunciando a morte. O céu chorou e gritou junto a Laurinda. Os homens abraçaram o chapéu de couro junto ao peito, as mulheres entoaram Ave-Marias e Ladainhas.

– Por favor, me diz que isso é mentira!

Em cada esquina, em cada rua, lá estava ela. A notícia. Um muro alto, de pedras acinzentadas, circundando a cidade. Poucos ousavam repeti-la. Era como agouro, talvez se ninguém falasse, o tempo se esquecesse e tudo não passasse de má lembrança, memória do que nunca aconteceu, lenda das matas fechadas.

– Como isso pode ter acontecido, meu Deus?

A porta do casarão se encheu de gentes. Rezadeiras, com assombrosos véus negros cobrindo-lhes o rosto e velas acesas, cujo sebo quente lhes castigava as mãos, encomendavam a alma do morto a São Pedro. Que Ele desse a chave dos céus ao pobre homem. Um canto triste, há quem prefira ouvir o canto de acauã.

– Laurinda, por favor, se acalme!

O céu gritou e se contorceu em mais lágrimas, que molhavam o couro do gibão dos vaqueiros, fazendo subir um cheiro azedo pela cidade. As rezadeiras protegiam com o véu a chama das velas. Clarões rasgavam o triste céu e as criancinhas se escondiam debaixo das asas dos pais.

– Como, Juca? Como? O Edmar não vai mais entrar por aquela porta nunca mais, Juca! Como eu vou ter calma? Me diz! Como?

Os cânticos entoados pelas rezadeiras ganhavam o coro dos vaqueiros, dos feirantes e de quem mais estivesse por ali. Mais e mais gente se ajuntava em frente ao casarão. Alguns só espreitavam, esperavam que alguém saísse pela porta da casa para dar uma notícia. Outros, com o coração quebrantado, choravam tanto quanto o céu. O homem bom, que homem bom, Deus quer os bons perto dele.

Salete se encolheu no canto da sala. Os gritos lhe deixavam zonza, o mundo parecia girar mais rápido, a ponto de derrubá-la. Tampou os ouvidos com as mãos. Edmar não vai mais voltar, Edmar não vai mais voltar, Edmar não vai mais…

Antônia se sentou ao lado dela, segurou a cabeça com as mãos. Quis deitar-se no ombro da mãe, dizer que ela não se assustasse, tio Edmar estava num lugar bom. Qualquer lugar era melhor que ali.

Edmar não vai mais voltar.

Salete se encolheu ainda mais diante da presença da filha. Não queria tocá-la. Antônia é amaldiçoada, ela sentia. Sentia não, tinha certeza. Queria estar só, ficar só. Antônia a fazia se sentir como se estivesse sendo arremessada do monte mais alto, uma queda eterna em direção ao chão duro.

– Não há necessidade dessa cena toda, Laurinda – o Coronel Juca bateu a bengala de madeira no chão, como se encerrasse a conversa.

Laurinda não se resignou. Não conseguiria. Seu peito doía, a dor de metade de si ter sido arrancada. Queria correr até o lugar e gritar o nome dele. Talvez tudo fosse um grande engano. Edmar estaria lá, escondido na mata, esperando-a. Eles sairiam para jantar.

– É um momento delicado, Coronel – Miguel Sampaio interveio, com voz embargada e ombros curvados.

Bastou um olhar de Juca Pinheiro para que ele entendesse o valor do silêncio.

Salete levantou-se e saiu da sala, sob o olhar inquisidor do Coronel. Antônia quis acompanha-la. Deteve-se. De que adiantaria ir atrás?

– Você é um monstro, Juca! Um monstro! – Laurinda limpou o rosto com as costas das mãos. – Seu filho está morto, morto, morto! E você pensando no que as pessoas vão dizer!

O Coronel Juca Pinheiro sentou-se no sofá. Encarou Laurinda como cobra pronta para o bote. Se conteve com soltar o ar dos pulmões.

Miguel Sampaio desejou desaparecer.

Laurinda desabou na poltrona, cruz pesada demais para se carregar em pé. Deixou o corpo relaxar. Que mais poderia fazer? Fechou os olhos. Lembranças de Edmar sorrindo, beijando-a, amando-a. Pareciam, naquele momento, mais com sonhos. Falsas memórias oníricas. Quis chorar mais, quis expulsar as vozes que entoavam Ave-Marias e orações. Nada daquilo, nada, a faria se sentir melhor, senão Edmar alisando seus cabelos e dizendo que tudo foi um desencontro. O sino da Igreja anunciou as sete horas da noite. Cada badalada ecoava nas paredes da casa.

Laurinda exasperou-se. Onde estaria Jurema? pensou. Não sabia se alguém já havia dado a notícia a filha e nem como ela tinha reagido ao saber que o pai… ao saber que Edmar já não voltaria mais para casa. Olhou para os lados, Miguel adiantou-se para perto dela, ao que Laurinda o afastou com um gesto. O Coronel Juca Pinheiro não estava mais no sofá, em sua frente.

“Antes fosse tu!”, Laurinda não iria permitir que Jurema soubesse por outra pessoa que não fosse ela. Sentiu um rubor lhe pintar a face. “Antes fosse tu, velho maldito”, o destino é injusto. Levara Edmar e deixara o Coronel Juca Pinheiro, logo ele, logo o Coronel. Por quê? Não há resposta. O céu apenas chora, até os anjos se puseram em comoção com o acontecido. São Pedro lhe abrira as portas, com certeza, não deixaria um filho Seu ao relento. “Antes fosse tu, erva daninha, praga que destrói a plantação e rouba o alimento da boca de quem o anseia”, um dia o Coronel seria arrancado, expurgado. Ah! Que diz feliz! O céu não derrubaria nenhuma lágrima, não, pelo contrário! Sorriria feliz, lançando raios de sol para iluminar a terra e prepara-la para a aragem que precede o plantio. “Antes fosse tu, Coronel, maldição que caminha pelos homens, destruindo tudo quanto seja possível”. Antes fosse tu!

Jurema desceu as escadas, pé ante pé, como se pisasse em cacos de vidro afiados, cabeça baixa, corpo trêmulo. Laurinda correu até a filha para abraça-la, o fruto de seu ventre, única coisa que a prendia entre o céu e o inferno. Jurema não se moveu, sussurrou algo inaudível. “Que tu disseste, filha minha?”, em resposta o não-dizer que se acomodara, sorrateiro, entre as duas. Mãe e filha, irmãs em dor e sofrimento. Jurema olhou para trás, acompanhou a descida firme do Coronel pelas escadas. No sopé, ele ordenou que Miguel Sampaio abrisse a porta, era chegada a hora de se pronunciar para o seu povo.

– Meu querido povo de Timbaúba, todos vocês sabem o que aconteceu e não me agrada repetir a sucessão de fatos. Meu coração se enche de alegria ao vê-los aqui, nos apoiando neste momento, como verdadeiros irmãos e irmãs, sofrendo conosco, partilhando juntos a dor que é perder alguém tão querido, amado e respeitado.

Antes fosse tu, velho maldito!

– O tempo é o único remédio capaz de curar a dor que me rasga o peito, me queima a alma. Timbaúba não perde apenas o seu prefeito: perde um filho, um filho que, assim como todos os outros, cuidou, respeitou e zelou pela sua mãe.

Praga que destrói a terra, peste que acama o homem e tira-lhe a sede de viver!

– Uma mãe nunca substitui o filho e, por isso, o nosso Edmar nunca será esquecido! Ele viverá para sempre em cada um de nós e em todos aqueles que se dedicarem a fazer o bem para Timbaúba!

Mas tu um dia há de morrer, velho maldito! A terra se encherá de jubilo quando se livrar de ti!

– Todos vocês estão convidados a nos acompanharem na despedida de nosso filho querido e amado irmão.

O Coronel Juca Pinheiro abaixou a cabeça. As rezadeiras retomaram seus cânticos e, aos poucos, o povo foi se dissipando, rumando para suas casas, sonhando com o café e o pirão de água, entristecidos pela perda.

– Não ouse utilizar a morte de Edmar como palanque eleitoral, Juca! – vociferou Laurinda ao vê-lo entrar pela porta da frente.

O Coronel se limitou a medi-la dos pés a cabeça, taciturno.

– Tenha o mínimo de decência, se é que há algo de bom nesse seu coração sujo.

Jurema disparou escada acima, cansada demais para encarar qualquer discussão. O Coronel olhou para Laurinda culpando-a.

Miguel Sampaio pôs-se entre os dois.

– Qualquer coisa, Coronel, estou à disposição.

Coronel Juca o agradeceu e recolheu-se em seu quarto. Laurinda sentiu-se só, abandonada. Quem haveria de ouvi-la?

Salete surgiu da cozinha assustando-a. Sua mudez estava ainda mais silenciosa, posto que ela se movia como um fantasma de quem deveria ser. Laurinda a enxergou ainda menor, fragmentos de gente. Quis chama-la para uma conversa, as não-respostas de Salete a agradariam. Desistiu. Nunca foram família uma para a outra.

Salete encarou Laurinda como se lhe fosse dizer algo. Mas logo deu as costas e subiu as escadas, com passos são silenciosos quanto a sua boca.

“Deveria ter sido eu e não o Edmar…”

O sentimento de luto de Laurinda se confundiu com uma tristeza egoísta.

*

 

– À parte as nossas divergências, Juca, eu lamento profundamente a morte de Edmar.

O Coronel ajeitou o chapéu que lhe cobria a cabeça e apertou o olhar para Olavo Gusmão.

– É um gesto nobre da sua parte, Olavo.

– Não consigo imaginar a dor que é perder um filho.

– Creio que não consiga mesmo – retorquiu o Coronel.

Os nervos de Vera Gusmão sentiram a névoa se formando entre o Coronel e Olavo Gusmão.

– Olavo, querido, deixemos o Coronel ter o seu momento de tristeza em paz, certo? – disse enquanto segurava o braço do marido, puxando-o para longe da energia maligna que Juca dissipava em torno de si.

O corpo de Edmar se estendia pelo Salão Nobre da Prefeitura dentro de uma caixa funerária de madeira de lei. Cerimônia reservada, alguns poucos amigos, parentes e figurões políticos tiveram o acesso liberado; ao povo, restava apenas acompanhar o cotejo fúnebre até o cemitério. Ao lado do corpo, Laurinda se desmanchava em salobras tristezas, como se fosse ela própria a ser velada. Jurema, de longe, observava a cena, distante, como se não pertencesse àquele espaço-tempo. Ao seu lado, Antônia se sentia angustiada: não gostara do velório da Velha Geralda e, desde então, jurou a si que nunca mais retornaria a outro. Queria correr dali, se esconder debaixo dos lençóis e torcer para não sonhar com o fantasma de Edmar lhe assombrando.

– Prima, você pode me levar para casa? – perguntou a Jurema.

No entanto, não obteve resposta. O olhar rijo de Jurema se mantinha na cena a sua frente, uma expressão soturna, como se todos os segredos do mundo se escondessem sob a sua pele.

– Prima?

O grito de Laurinda fez a alma de Jurema voltar para dentro de si. Um grito de dor, de animal abatido, de agouro. O Coronel Juca Pinheiro ordenara que o caixão fosse fechado: era chegado o momento do cotejo fúnebre.

– Por favor, eu preciso de mais um momento com ele! – implorou, quase de joelhos, Laurinda.

– O povo também, Laurinda – bradou o Coronel. – Recomponha-se!

Vera Gusmão quis ir até a pobre viúva e abraça-la. A energia da dor pesava o ambiente, dificultava-lhe a respiração. Era como a tempestade que se anuncia, mas não vem.

– Eu nunca mais irei vê-lo, Juca! Nós nunca mais iremos! Como você pode ser tão frio?

“O Edmar era, apenas, uma peça no xadrez político do Coronel”, pensou Olavo Gusmão.

– A morte faz parte da vida, Laurinda – Juca lançou um olhar de caçador para a nora. – Pensei que você já houvesse entendido isso.

A mão de Laurinda atingiu em cheio o lado esquerdo do rosto do Coronel. De susto, Vera Gusmão gritou.

A tempestade se aproximava.

– Como ousa?

– Você está usando a morte do seu próprio filho para conquistar votos, Juca! – protestou, em voz alta, Laurinda.

– Fechem! – ordenou o Coronel a dois seguranças de sua guarda pessoal.

Laurinda tentou impedi-los, mas, fraca, foi vencida. Caiu no chão, em convulsivas lágrimas, sem que ninguém lhe estendesse a mão.

O vazio de seu peito lhe engolira, como um buraco-negro.

Observou, no chão, o caixão afastar-se, a porta ser aberta, o povo atirar flores brancas e gritos de despedidas, o Coronel lhe encarar como quem ainda tinha contas a acertar, a porta ser fechada.

O peso do luto era capaz de afundá-la.

Seu amor. Seu único amor. Seu único grande amor. Sua família. Sua única família. Debaixo da terra, sete palmos, vermes, memórias de um passado que talvez nunca tenha acontecido.

Desejou nunca ter vindo para a Terra.

Deitou-se no chão. A dor de ser Laurinda era forte demais. Quis correr para alcançar o cotejo, mas, de que adiantaria? A sua última lembrança de Edmar teria de ser dele vivo, não sendo atacado por pás e pás de terra preta.

O céu se fechou em luto.

Laurinda e o céu se ligaram, como que por um cordão umbilical, em tristeza.

Antes fosse eu!

*

FIM

Em breve, a segunda parte de A Candidata. Você não vai querer perder!

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NAVEGAR

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