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A Maldição de Villeneuve

Temporada 01

Capítulo III – Por Vocês

Damien

Eu estava do lado de fora da casa cortando lenha quando vi uma movimentação no horizonte. Limpei a testa com o pulso e estreitei os olhos para enxergar melhor. Era impossível não reconhecer Philippe em sua carroça e meu pai como condutor. Eu sorri aliviado por vê-lo aparentemente bem, já que me sentia aflito desde que ele saíra de casa.

— Papai chegou! — Gritei para minhas irmãs e corri para recebê-lo.

Quando ele se aproximou, notei que sua face estava estranha, como se estivesse nervoso. Ele também tossia e aquilo me alarmou, lembrava que havia chovido bastante nas noites anteriores, provavelmente ele havia se molhado com a chuva. Estava ficando velho, sua saúde já não era assim tão boa.

— Você está bem, pai? — Perguntei preocupado.

— Estou. — Ele tossiu. Não, não estava. — Ajude-me a descarregar isso aqui.

Eu o obedeci e o ajudei a tirar da carroça e levar para casa os dois grandes e desconhecidos baús pesados, mais o baú que pertencia a ele. Não fazia ideia do que tinha dentro, mas tinha certeza de que os baús desconhecidos eram mais ornamentados do que podíamos pagar.

Minhas irmãs se aproximaram curiosas e ficaram nos rondando, sem mover um dedo para ajudar.

— O que tem aí, papai? — Fleur perguntou.

— Trouxe os meus vestidos? — Foi a vez de Angelique.

Eu olhei bravo para elas. Será que não viam que nosso pai não estava bem? O quanto ele tossia e estava sem ar? Eu o ajudei a se sentar em uma cadeira e peguei água para ele. Enquanto isso, as duas enxeridas abriram o fecho do primeiro baú e levantaram a tampa.

Suas exclamações surpresas chamaram minha atenção e eu olhei. Arfei ao ver o conteúdo do baú: estava repleto de ouro, as mais finas jóias e pedras preciosas. O que meu pai levara para o comércio não teria conseguido comprar o menor brinco contido ali.

— É tão lindo!

— Olha isso tudo!

Enquanto as duas estavam eufóricas, eu me virei assombrado para nosso pai.

— Pai… De onde veio isso tudo?

Meu pai olhou para mim com pesar e eu me arrepiei ao reconhecer o sentimento em seu olhar. Eu sabia que aquele mal pressentimento predizia a calamidade.

— Precisamos conversar… Nós quatro. — Falou e olhou as meninas.

Minhas irmãs largaram as jóias e viraram-se para olhá-lo. Papai gesticulou para que se aproximassem e elas sentaram no sofá. Quando ele viu que tinha a atenção de todos os filhos, continuou e nos contou sua desventura.

Ficamos apavorados. Aquele tesouro nos salvaria da pobreza por muitos anos, mas aquilo não valia a liberdade e a vida de nosso pai. Ele estava ficando doente… Morreria rapidamente se não tivesse os cuidados necessários, uma cela de prisão seria seu túmulo.

Minhas irmãs também não queriam que nosso pai fosse, mas também não queriam se oferecer para irem. Eu não as culparia. Mesmo com aquela condição eu não podia aceitar aquela condição absurda, jamais entregaria alguma das duas para um monstro.

— Papai, o que vamos fazer? — Perguntei enquanto as duas discutiam entre si.

— Eu não sei… Não posso entregar suas irmãs… — Ele suspirou. — Eu deixarei o tesouro com vocês e retornarei…

— Não pode, pai! Se você for, vai morrer! — Exclamei e supliquei. — Por favor, papai, não…

— Esse foi o acordo, Damien… Alguém deve ficar como prisioneiro… Eu devo voltar e cumpri-lo, pelo bem de suas irmãs…

Eu ponderei aquelas palavras, pensando o mais rápido que minha mente atordoada pelas notícias poderia pensar.

— Alguém… Um prisioneiro por outro… Foi isso o que ele disse?

— Sim. — Meu pai concordou com a cabeça e tentou se levantar. — É melhor eu arrumar as minhas coisas…

— Não, espere. — Eu o fiz sentar de novo. — Descanse um pouco, eu vou pegar lenha e fazer um chá para o senhor.

— Isso seria bom. — Ele sorriu e concordou após um momento.

Eu fiz o que falei enquanto minhas irmãs ficaram abraçadas a ele, lamentando. O entreguei a caneca e ele apontou para seu velho baú.

— Traga-o até aqui… São os presentes que comprei para vocês, eu quero dá-los antes de ir.

Concordei e empurrei o baú até ele. Papai o abriu e entregou o vestido singelo para Angelique, depois a jóia que Fleur pedira. Por fim, tirou um último objeto e estendeu a mim. Era um pequeno livro.

— Tome, meu filho. Meu último presente para você. — Ele sorriu triste.

Eu estendi as mãos e segurei o objeto. Olhei para ele e meus olhos encheram-se de lágrimas enquanto eu abraçava aquele livro. O último presente de meu pai para mim.

— Obrigado, papai. — Agradeci com a voz embargada e o abracei.

Ele me envolveu com seus braços e minhas irmãs se juntaram ao carinho. Não sei quanto tempo ficamos daquela forma, mas não foi o suficiente antes do derradeiro adeus. Eu me afastei primeiro e enxuguei o rosto.

— Vou guardar o livro. — Falei, uma desculpa para sair.

— Está bem. — Ele concordou, entendendo que eu precisava me afastar um pouco. Só não imaginava o motivo correto.

Fui até o quarto que compartilhava com papai e procurei algo em meus pertences até encontrar a capa de inverno. Olhei para a sala e os três ainda choramingavam juntos no sofá. Meu coração de apertou por não poder me despedir melhor deles.

Sorrateiramente segui para a porta, escondendo a capa atrás de mim, e saí de casa. Fui até Philippe, o desatrelei da carroça e montei sobre o cavalo. Ele relinchou e bufou, nervoso, mas eu o acalmei com um carinho no pescoço.

— Leve-me ao castelo. — Ordenei e estalei suas rédeas.

O cavalo relinchou novamente e disparou para longe de casa. Olhei para trás e pude ver papai e minhas irmãs saindo e gritando meu nome, desesperados. Eu não podia voltar. Não podia entregar nenhum dos três para o monstro… Por eles, eu daria tudo, minha liberdade, minha vida. Se a fera queria um prisioneiro, então seria a mim.

Com uma mão, eu conduzia Philippe. Com a outra, eu apertava o livro contra meu peito. O último presente. A única lembrança que eu teria de minha família.

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