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O Circo de Pennywise – Capítulo 6 – Senhoras e Senhores!!

O Circo de Pennywise

Capítulo 6

Senhoras e Senhores!!

Quando desci para o café da manhã, vi Tia Maitê com o bilhete do Tio Heitor nas mãos. A testa dela tava franzida, como se não estivesse em condições de entender o que tava escrito.

_ Ele não me falou nada sobre isso _ ela balançava o bilhete de forma afetada. Dei de ombros para o assunto, e acho que ela também. Fui para fora ver como tava o clima: tão frio como o da noite.

Segui para casa de Isa, para ver o que estavam fazendo. Os vi na sala assistindo televisão. Bati na porta para receber o olhar contrariado de Patrícia.

_ O que foi dessa vez, Rafa – ela ainda tava grilada comigo por causa da sorveteria.

_ Vim conversar com seus filhos. São os únicos amigos que tenho.

Ela desfez a cara feia e me deixou entrar.

_ Oi, gente! – Beto foi o único que acenou para mim. Isa me olhou com aquela cara retorcida. Nem liguei. Já tava acostumado com o jeito estranho dela.

_ O dia tá frio, o que vão fazer hoje? – Perguntei, me sentando no sofá.

_ Nada – Isa mastigava um chiclete grande para o tamanho da sua boca. _ Vamos ficar o dia inteiro dentro da “batcaverna”.

Patrícia olhou torto para ela da cozinha.

_ Vamos lá pra casa. Tenho um monte de Lego para montar e jogos de tabuleiro.

_ Não dê ideias, Rafa _ disse Patrícia da cozinha. _ Sua Tia não me falou nada sobre isso.

_ Minha tia é de boas. É comunista como eu.

Isa sorriu irônica, enquanto Beto franzia a testa. Patrícia colocou as mãos na cintura, como que me contrariando. Olhei para ela é disse:

_ Por favor, não quero ficar sozinho naquela casa.

O suspiro da “secretária” da minha tia foi profundo. Ela olhou pela janela, para se certificar que não estava nevando.

_ Tudo bem, mas não quero vê-los andando no quintal. Fiquem dentro de casa, se possível, longe de encrencas.

Beto abriu um sorrisão. Isa se esforçou para não demonstrar nenhum sentimento, só que vi sua alegria interna (se é que isso existe).

_ Pode deixar, mãe _ Beto meteu um boné vermelho com um B grandão na cabeça.

Quando voltei para casa, Tia Maitê havia saído para o trabalho. Tio Heitor não tinha voltado ainda. Não fiquei preocupado. Ele sempre chegava no final da noite.

Montamos um mundo de coisas estranhas com as peças do Lego: desde monstros do espaço a carros envenenados. Depois brincamos de Monopoly, Game of Thrones e Xbox One. Almocei e lanchei na casa de Patrícia. Só voltei para casa quando vi o carro de Tia Maitê entrando na garagem. Ela tinha o ar preocupado, uma linha fina na testa.

_ Seu tio chegou? _ Perguntou antes mesmo de me dar um beijo.

_ Não – respondi sem jeito.

_ Eu não consigo falar com ele no celular _ ela mordia os lábios com aflição. _ Não estou gostando disso, não mesmo.

Ela entrou balançando a cabeça. Peguei suas coisas no carro. Ela havia se esquecido da bolsa.

A noite passou sem o Tio Heitor. A manhã do outro dia também. Tia Maitê e Patrícia procuraram pela polícia de Le Dio. Beto e Isa ficaram comigo em casa. Estávamos apreensivos, loucos para que elas chegassem logo. Quando isso aconteceu segurei o choro. Tia Maitê parecia tão perdida quanto minha mãe no dia do divórcio (o rosto retorcido pela ausência). Uma dor diferente dentro do peito e aquela certeza da perda do amor.

 

***

Tio Heitor não voltou. Passaram-se três dias desde que encontramos seu bilhete na porta da geladeira. Patrícia passava a maior parte do dia lá em casa, grudada no telefone e nos paparicando com comida. A polícia vasculhou Le Dio de cabo à rabo e nada. Logo começaram as fofocas sobre o sumiço dele. Todas maldosas e sem cabimento.

_ Heitor não faria isso comigo _ disse para Patrícia.

_ Claro que não. Ele te ama.

O boato da hora era que ele havia largado Tia Maitê por causa de outra mulher. Isso a machucou mais que uma facada.

_ Alguma coisa aconteceu. Eu sinto, eu sinto.

Olhei desconfiado para Isa. Ele retribuiu com a mesma intensidade o meu olhar. Acho que também desconfiou do Circo. O que havia de diferente naquela cidade em relação aos outros dias? O Circo. Por que coisas esquisitas começaram a acontecer depois que ele se alojou naquele descampado? Tinha algo de sinistro naquele lugar. Tio Heitor sabia disso, por isso sumiu.

_ Você precisa descansar um pouco _ Patrícia levou Tia Maitê para o quarto. _ Vou deixar a comida do Rafa na geladeira. Amanhã voltamos bem cedinho caso Heitor não apareça.

_ Ele não vai aparecer _ Tia Maitê disse num sussurro.

_ Não diga bobagens _ Patrícia cobriu-a com um cobertor. _ Tenta dormir um pouco. Amanhã será um outro dia e você precisa ficar bem.

Levei-os até à porta. Beto bateu nos meu ombros, enquanto Isa olhava para o mundo de forma sisuda. Patrícia veio logo atrás pedindo para que os meninos fossem na frente.

_ Fique de olho na sua tia. Qualquer coisa é só me chamar.

_ Pode deixar.

Entrei e tranquei a porta. Me deitei ao lado de Tia Maitê. Abracei-a para que não sentisse frio. Ventava forte e ameaçava chover. O telefone tocou quando comecei a pegar no sono. Corri sobressaltado, pulando os degraus para chegar logo ao telefone.

_ Alô!

_ Rafa? É você, filho?

Era minha mãe. Grande merda.

_ Mãe?

_ Oi, querido! Cadê sua Tia?

_ Ela tá dormindo, não acho legal acordá-la.

Ouvi o suspiro dela do outro lado da linha.

_ Tem notícias do Heitor?

Como que ela ficou sabendo? Com certeza a linguinha de Patrícia trabalhou em 220 volts nos últimos dias.

_ Não.

Fez um silêncio estranho do lado da linha.

_ Meu Deus, o que aconteceu com esse homem?

_ A polícia tá procurando por ele. A titia fez um boletim de ocorrência no estilo americano.

_ Já descobriram alguma coisa?

_ Nadica de nada.

_ E você, filho?

_ Tudo bem comigo. E a senhora?

_ Do mesmo jeito.

_ E o pai?

_ Do mesmo jeito também.

Sorri ao telefone. Pelo menos ela tava de bom humor.

_ Eu e sua avó estamos indo praí no final de semana. Avise sua tia.

Meu queixo caiu com a revelação. Mamãe e Vovó não são dadas a companheirismos. Costumam ser alheias ao sofrimento dos outros.

_ Pode deixar, eu aviso.

_ Beijo, querido. Cuide de sua Tia até a gente chegar.

_ Pode deixar, eu cuido.

Desliguei o telefone antes dela. Tive medo que prolongasse à prosa. Tava cansado e queria dormir. Depois pensaria num jeito de contar para Tia Maitê sobre a visita das duas. Não bastava o sumiço do tio, agora isso. Quando olhei para a porta, vi um pedaço de papel enfiado no tapete da sala. Peguei-o com um sonoro bochecho. Estava do lado contrário. Quando o virei, vi o anúncio do Circo Lahetô. A estreia dele em Le Dio era amanhã. Minhas pernas congelaram, assim como minhas orelhas de abano. Minha boca ficou seca e o frio mais intenso. Soltei um suspiro profundo. Que se dane o medo! Amanhã vou entrar naquele maldito circo e procurar pelo Tio Heitor. Amassei o anúncio e joguei-o no cesto de lixo. Subi para o quarto da Tia. Ela dormia um sono profundo. Me enfiei nas cobertas ao lado dela. O amanhã prometia ser intenso, bem diferente dos outros dias da minha vida.

 

***

O dia amanheceu sem Tio Heitor. Então contei para Tia Maitê sobre a visita de mamãe e vovó. Ela balançou a cabeça. Não precisávamos conversar sobre isso. Não por enquanto. A polícia continuava sem informações sobre o desaparecimento e Patrícia começou a acreditar nos boatos sobre outra mulher. Eu não. Nem Isa. Heitor era diferente do meu pai. Havia amor entre os dois, coisa que acabara há muito tempo no casamento da minha mãe. O Circo tava envolvido no desaparecimento dele; eu sabia disso e Isa também. Então fui para o meu quarto trocar de roupa. A estreia se aproximava, não sem me mandar para o banheiro umas três vezes. Não sou de contar lorotas e tava mesmo com medo. Muito medo. Tia Maitê mandou Patrícia comprar roupas novas para mim. Ela caprichou nas de frio. Não fiquei feliz com seu gosto, apenas satisfeito. Vesti um casaco grosso com galochas. Quando desci as duas estavam sentadas na cozinha tomando café. Elas me olharam sem surpresa. Sabiam que eu não havia gostara das roupas.

_ Tem certeza que quer ir nesse Circo, Rafa? Você nunca gostou de palhaços.

_ Tenho. Parece que é legal _ meu suspiro foi bem intenso.

_ Tudo bem. Vá se divertir um pouco. Tá levando dinheiro?

_ Sim senhora _ fiz aquele gesto idiota do exército que vovô odiava. Ela sorriu sem graça. Tava começando a se acostumar com a ausência do marido.

Isa e Beto entraram pela porta dos fundos. Ele vestindo uma roupa estranha de Basebol e casaco jeans. Ela toda de preto com botas de couro cano longo.

_ Vamos? – Perguntaram para mim.

Assenti com a cabeça. Isa fez um afirmativo com a sua. Percebi que carregava uma mochila.

_ Cuidado _ Patrícia nos acompanhou até a porta. _ Fiquem de olho no seu pai. Se o virem por perto, voltem para casa.

_ O papai não está na cidade, mãe _ Isa parecia cansado quanto ao assunto.

_ Isso é o que diz a polícia de Le Dio. Eu não acredito nisso.

_ Tudo bem, tudo bem – Ela desistiu de discutir com a mãe. _ Deixamos sua comida no forno.

_ Obrigado _ a mulher beijou os filhos no rosto. Não beijei minha Tia. Ela parecia não querer afagos.

Quando na rua, perguntei para Isa.

_ Por que sua mãe tem medo do seu pai?

_ Ela não tem medo dele. Tem medo que ele nos leve _ desta vez foi Beto que respondeu.

_ Mamãe ficou paranoica depois do divórcio _ Isa acelerou os passos. _ Meu pai não tá nem aí pra gente. Mas ela não entende.

_ Seu pai é igual ao meu. Tô nem aí pra ele também – sacudi os ombros.

Bem no fundinho, lá no fundinho dos fundinhos, gostaríamos que eles se importassem.

Percebi que muita gente caminhava ao nosso lado. Eram famílias inteiras, com criancinhas de colo. Engoli a saliva densa quando percebi seus olhos vagos, como os de Beto. Havia uma hipnose aqui? Creio que sim. Por que não? Aquele circo sinistro assustava, assim como seduzia. “Uma grande merda, Rafa, uma grande merda!”

Chegamos ao descampado  com a fila contornando o estacionamento. Parecia que Le Dio inteira tava na estreia. Olhei para Isa. Ela piscou para mim. Soltei um muxoxo quando vi Beto sorrindo. De nós três, era o único com essa cara de bobo. Não quis olhá-lo de novo. Voltei minha atenção para o bilheteiro – um ser de pernas compridas e olhos de corvo. Não demorou nem cinco minutos para que chegássemos até ele. As pessoas apenas entregavam seus ‘bilhetes 0800’ e entravam. Não foi diferente com a gente. O bilheteiro estendeu seus dedos longos e puxou os bilhetes das nossas mãos. Os olhos de corvos brilharam quando os cheirou. Aquilo me deu náuseas. Acho que Isa também sentiu um certo desconforto, porque sua boca deu uma leve tremida. A criatura comprida mostrou seus dentes pontiagudos. Apertei as mãos dela, que retribuiu com a mesma intensidade. Entramos ainda perplexos pelo monstro da portaria. Ele sorriu pra gente. Dessa vez lambeu os lábios de predador. Tremi como um boneco de posto de gasolina. Meu espanto só foi colocado à prova quando voltei minha atenção para dentro de Circo Lahetô. Meu Deus! O que era aquilo. Como era possível?

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