Episódio 7: Meu mundo caiu

Não sei o que foi mais difícil, acreditar que meu pai nos enganou durante toda a vida ou enfrentar os problemas de saúde da minha mãe. Naquela manhã muitas coisas se esclareceram pra mim, consegui entender perfeitamente o desejo súbito que minha mãe sentiu de voltar pro sudeste, meses atrás.

– Então, quer dizer que meu pai é um canalha? Perguntei angustiada.

Ela respirou fundo e respondeu:

– Como esposo sim. Como pai, não! Um dos motivos de não ter lhe contado durante ou antes da nossa viagem pra cá, foi justamente esse. Não queria que você achasse que seu pai é um canalha. Ele pode até ser um marido canalha, mas não é um pai canalha. Nunca te faltou nada, principalmente amor. Seu pai te ama e isso não posso negar.

– É, me ama tanto quanto aos outros filhos que ele tem com outra esposa… Falei indignada.

– Sim, é verdade! Tenho certeza que ele deve amar a todos os filhos de forma igualitária.Isso não é uma coisa ruim, filha. Não odeie seu pai por isso, você tem muito mais motivos para amá-lo! Disse ela em tom baixo e forçado.

– Ele está melhor que nós agora, melhor que você! Por favor, descanse. Não vou suportar se você me deixar, Mãe!

– Estou exausta! Não aguento mais, filha. Não é justo que fique aqui cuidando de mim enquanto sua juventude passa sem esperar. Desabafou ela.

– O que? Não é justo que se entregue a doença dessa maneira, não é justo que classifique minha juventude como sendo mais importante que você. Pra mim, nada é mais importante que você, mãe! Nada nem ninguém. Respondi com lágrimas nos olhos.

– Se tivesse ideia do quanto você importa pra mim…  Insistiu ela.

Um sorriso foi inevitável naquele momento, meu coração estava apertado, ela sentia-se sonolenta, a luz do sol já invadia seu rosto, decidi me afastar para fechar mais um pouco as cortinas do quarto, esse meio tempo fora o bastante para que apenas um último suspiro lhe roubasse a vida. Ao virar-me, rapidamente constatei, a luz de seus olhos não estava mais ali. Paralisada, senti uma “fervente” lágrima percorrer meu rosto, alguns segundos depois já me via tentando reanimá-la, sem sucesso. Meu movimento no quarto atentou as enfermeiras que conversavam logo ali do lado de fora. A correria foi tanta que ao chegar o médico do plantão, me pediram pra sair do quarto, relutei, mais fui expulsa. Nunca havia me sentido tão impotente em toda a minha vida. Aquele momento, foi devastador.

Passados alguns minutos, o médico saíra do quarto com a confirmação: Morte súbita. A bactéria havia lhe roubado a vida.

– Estávamos conversando, Doutor! Como isso é possível?

– Muitos paciente com Tuberculose terminam suas vidas dessa maneira, infelizmente não temos como prever tal acontecimento, sua mãe estava em tratamento com antibióticos, mas a doença já estava em avançado estágio, eu sinto muito! Você inclusive estava aqui correndo risco de contaminar-se.

Não sabia mais o que perguntar, apenas entrei no quarto, me aproximei dela, eu sinceramente não tive medo da doença contagiosa que a tirou de mim e lamentei segurando forte uma de suas mãos.

– Meu mundo caiu, mãe! Não sei o que vai ser de mim de agora em diante, mas … tenho em mente que devo vencer, por você devo vencer. Vou alcançar meus objetivos. Já aprendi muita coisa com você e não irei desapontá-la.

Me fizeram uns procedimentos para higienização, e na saída do hospital, vi a dona Neusa se aproximar correndo, angustiada e emocionada.

– Querida! Acabei de falar com o médio, Oh meu amor, eu sinto muito. Dizia ela enquanto me abraçava forte e afagava meus cabelos.

– Estávamos conversando, virei por um segundo pra fechar as cortinas e na volta, ela já havia me deixado! Contei.

– Meu Deus, você precisa descansar, precisa acalmar-se, dormir um pouco… Consolou, ela.

– Preciso da minha mãe, dona Neusa! Nunca mais a terei de volta. Respondi

O dia seguinte amanheceu feio pra mim, além de não ter pregado os olhos a noite toda e ensopar meu travesseiro de lágrimas, uma imensa angústia substituía a alegria que sentia antes, ao acordar em todas as manhãs. Era o dia de me despedir do corpo dela, o corpo que me gerou e por nove meses me forneceu calor e alimento. Neste dia minha despedida se eternizou em lembranças de tudo o que vivemos juntas e tudo o que já enfrentamos.

Me aproximei da cozinha em silêncio, imaginei que ninguém estivesse lá, mas me deparei com Viviane e dona Neusa sentadas à mesa, comentando o ocorrido no dia anterior.

– Amiga! Que perda lamentável, nossa, eu sinto muito mesmo amiga. Dizia Viviane, enquanto se aproximava e me consolava com um ternuroso abraço.

– Eu sei, muito obrigada! Agradeci.

– Conseguiu dormir, querida? Questionou dona Neusa.

– Tentei, mas não consegui! Respondi.

– Ainda lembro do dia isso me aconteceu, não é fácil perder a mãe. Aliás, nunca é fácil perder quem a gente ama, mas a mãe, é a pior das perdas, sem dúvida! Contou Viviane.

– O mesmo posso lhes dizer sobre perder um filho. Vocês sentem essa dor enorme ao perder a mãe e nós mães, somos capazes de… nos matar após perder um filho.

– Obrigada pelo apoio de vocês. Nós éramos muito apegadas, amigas demais, sabe. Minha vida não será mais a mesma sem ela.

– Nós estaremos com você, não é Vivi?

– Claro que sim!

O velório estendeu-se até o final da tarde, quando sua sepultura aberta, esperava pelo corpo dela . Eu estava seca, a sensação era de que não teria mais lágrimas por muito tempo. Nada mais me faria ficar tão arrasada quanto o que acontecera com minha mãe. Consolada pelo meu anjo da guarda, dona Neusa e minha amiga irmã, Viviane, dei adeus a pessoa mais importante da minha vida, jogando em sua cova uma linda rosa vermelha.

Enquanto o buraco era fechado, meus olhos se ergueram ao céu do fundo do coração pedi a Deus a recebesse em sua morada e que tudo de melhor concedesse a sua alma. Aquela oração foi libertadora.

Alguns instantes depois, me via entrando no carro de dona Neusa. Uma voz me impedira de entrar, alguém gritava. Ao virar-me, pude ver duas pessoas, um homem e uma mulher, eram jovens ainda, estavam de preto. Rapidamente percebi que os vi no velório. Eles estavam presentes em silêncio.

– Oi! Precisamos falar com você. Dizia o homem.

-Quem são vocês? Questionei, confusa.

Eles se olharam desajeitados e a mulher revelou:

– Somos: Marinha e Jocélio. Seus tios. Somos irmãos da Lucélia!

Sofri mais um baque. Realmente, aquele dia fora mais feio que os demais.

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